segunda-feira, 19 de outubro de 2009

M65-VAMOS LUTAR PELO "NOSSO" MUSEU DO VINHO


O Museu do Vinho que Futuro?

A ideia de um Museu para Alcobaça já remonta ao século XIX e são conhecidos os esforços de Manuel Vieira Natividade para a materialização da ideia. O que é certo é que chegamos a Abril de 74 e nada de Museu. No alvor do regime democrático a instalação de um museu em Alcobaça volta à ribalta. Em 1977 surge a ADEPA, Associação Cultural cuja finalidade primeira explicitada no art. 3º dos Estatutos consistia em “pugnar pela criação, instalação e funcionamento de um Museu de Alcobaça...”. As reflexões e propostas de projecto e modelo museológico conheceram vários intervenientes e evoluções com o passar dos anos, em que foram protagonistas Eduíno Borges Garcia, Rui Rasquilho e Maria Olímpia Lameiras de Figueiredo. Por mais de uma vez foi anunciado o parto museológico, mas em todas as ocasiões acabou por sobrevir um nado-morto.
Neste clima de indiferença institucional pela memória e identidade de Alcobaça e sua região resistia um espaço museológico denominado Museu Nacional do Vinho. Este Museu nasceu fruto do impulso do Engenheiro Técnico Agrário Paixão Correia que incansavelmente adquiriu mobília vinária, alfaias, aparelhos e máquinas para o acervo expositivo. Mas por ignorância da história de Alcobaça ou sonhos de grandeza este projecto nunca foi acalentado. Agora vemos o Museu encerrado e o exterior a revelar sinais evidentes de abandono.
O edifício que alberga o Museu tem uma história e um contexto. A 25 de Maio de 1896 principiavam as obras de construção das adegas, lagares e casa da caldeira do Olival Fechado projecto verdadeiramente modelar quanto à dimensão do espaço, funcionalidade e nível de equipamentos, que tinha como proprietário e autor o Dr. José Eduardo Raposo de Magalhães. São estas dependências adquiridas a 26 de Fevereiro de 1948 pela Junta Nacional do Vinho que hoje albergam o Museu do Vinho.
Esta instalação é coeva de uma revolução que abalou os alicerces do Portugal vinhateiro e falamos da filoxera, praga que atingiu o concelho de Alcobaça em 1887 e matou literalmente a vinha europeia. Raposo de Magalhães foi um dos lavradores vinhateiros alcobacenses que resistiu à tragédia e com energia e fé replantou e ampliou os seus vinhedos. A nova vinha enxertada nos bravos americanos assenta numa matriz de exploração inovadora, que inclui critérios de alinhamento e compasso, apoios químicos e mecânicos, o que vai permitir alcançar resultados de dez pipas por hectare, quando anteriormente a média se situava numa pipa e meia. Mercê desta revolução a vinha passa a ser o motor da economia alcobacense. Os vinhos de Alcobaça abastecem o Brasil e as colónias africanas e os vitivinicultores arrecadam prémios em certames nacionais e internacionais, nomeadamente em Paris (1900) e no Rio de Janeiro (1909).
A técnica e a ciência dão igualmente o seu contributo para melhorar a qualidade dos vinhos e permitir a sua conservação. Nas novas adegas (de que é exemplo maior a adega do Olival fechado) introduzem-se geradores a vapor para garantir a esterilização e estanquicidade das vasilhas vinárias, bombas de trasfega para pôr o vinho a limpo e estabelecer os lotes, esmagadores e desengaçadores que fazem da milenar pisa a pés uma arte obsoleta e ocasional, prensas de cinchos que arredam as ineficientes prensas de varas, assiste-se ainda a uma renovação do vasilhame de conservação e estágio dos vinhos e aguardentes, seleccionando madeiras de préstimo como o castanho, o carvalho e o vinhático.
Ao falarmos no Museu do vinho podemos então falar de um museu no museu dado o testemunho de arqueologia industrial que esta peça significa.
Sabemos que da parte da edilidade foram encetadas negociações para a tomada de posse e reabilitação deste conjunto patrimonial e museológico. Também sabemos que neste país a resolução de problemas de índole cultural é um autêntico quebra-cabeças. Mas a cidade de Alcobaça não pode voltar costas ao seu único museu.
É certo que o modelo expositivo é arcaico e que o edificado necessita não só de obras de consolidação, como de musealização do espaço, que as peças, aparelhos e máquinas precisam ser criteriosamente inventariadas, estudadas e nalguns casos restauradas, que as exposições em torno deste produto devem ser contextualizadas, conhecer suporte histórico e conceptualização. Mas este espólio faz inveja a muitos museus nacionais e internacionais dedicados à temática do vinho e não pode simplesmente engrossar a lista de mais um bem cultural a abater.
O Museu do Vinho é uma mais-valia e não um estorvo. Este museu pode contar a história do fabrico do vinho desde que os monges cistercienses mandaram chantar as primeiras vinhas e produzir vinhos que ficaram no imaginário e no palato dos viajantes que se acolheram na hospedaria monástica. O Museu pode e deve ter uma vertente pedagógica e didáctica, uma dimensão de pesquisa e investigação e até animar um projecto de produção de vinhos históricos, como o que ocorre em Ourém (em que gente mais afoita reclama a produção de vinhos cistercienses). De portas fechadas à população ou no marasmo antigo é que não é justo perpetuarmos a sua história de vida.

António Valério Maduro

1 comentário:

  1. ainda ontem referi essa necessidade na última reunião de câmara...
    vou postar no uniralcobaca.blogspot.com
    abRRaço os 2(JERO e Maduro)

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