quinta-feira, 17 de setembro de 2009

M33-COLÉGIO ALCOBACENSE-EXTERNATO ALCOBACENSE


SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DE ALCOBAÇA
1936-1970
Colégio Alcobacense – Externato Alcobacense

Professores a leccionar nos anos 50

No Guia Profissional do Concelho de Alcobaça dos anos 50 constam como estando a leccionar no “Colégio do Dr.Cabrita”os seguintes Professores:
Instrução Secundária-Externato:
Director: Domingos Cabrita da Silva;
Professoras: Elizabete Rodrigues, Fernanda Sousa Valente Marques da Silveira, Maria Joana Avelar, Júlia Neves Casco e Maria Teresa Ferreira Trindade;
Professores: Artur Maurício, António Caldeira Firmino e Domingos Cabrita da Silva.

Testemunho pessoal
Por feliz coincidência frequentei o Colégio neste edifício das “Portas de Fora”, tendo depois transitado para o “Palácio da Rua do Castelo”, onde completei o 2º. Ciclo dos Liceus.
Para comprovativo do que digo reproduzo “nota de avaliação” respeitante a 1 de Dezembro de 1951, estando o impresso titulado de “Colégio Alcobacense”.
Em relação aos tempos do Edifício da Rua Bernardino Lopes de Oliveira recordo-me do ambiente algo intimidativo do recreio onde “mandavam” colegas muito mais corpulentos do que eu.
Nessa altura a equipa portuguesa de hóquei em Patins tinha-se sagrado campeã mundial e imitávamos os nossos ídolos jogando no recreio (sem patins mas com bola) . Os estiques ,há falta de melhor, eram feitos com talos de couve! Ainda hoje sei de cor o nome do “cinco” nacional de então: Cipriano, Raio, Edgar Jesus Correia e Correia dos Santos.
Um dia fui empurrado e acabei ao fim do dia com um pé inchadíssimo no “endireita” das Corredouras. Não queria ir mas levaram-me. Fui para lá ao colo e regressei pelo meu pé. Mas não recomendo endireitas!
A estória da estalada do “Manel Lourenço”. Nunca mais me esqueceu!


Palácio cor de Rosa à Rua do Castelo
Transitei para o “Edifício” das Rua do Castelo com 13 anos de idade.

Era (e continua a ser) uma casa apalaçada com história que foi construída em 1912 para residência do Director da Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça. Actualmente funciona neste mesmo local o CEERIA.
Havia duas maneiras de chegar ao “Colégio do Dr.Cabrita””.

Ou subindo pela rua do Castelo ou indo pelas “Escadinhas da Aliceira”.

Fosse qual fosse o trajecto quando estávamos com o Colégio à vista não havia misturas.
Os rapazes seguiam pelo lado direito e as raparigas pelo lado esquerdo.
Na altura corria o boato entre os alunos que estas “leis” (pouco populares) tinham sido decretadas pela Esposa do Dr. Cabrita, Dª. Maria Manuela Natividade Sanches Coelho da Silva, que secretariava o marido em algumas das tarefas administrativos do Colégio.
Faziam-se alguns “disparates” próprios da idade mas o “respeitinho” era muito bonito e imperava. Quem se esquecia era rapidamente chamado ao bom caminho!

Professores
Lembro-me particularmente bem do Dr.Artur Maurício(Português e História), da Drª. Fernanda Marques(Inglês) , da Dª. Maria Xavier (Francês), da Drª. Margarida Fernandes (Ciências Naturais) e da Maria Vitória Pires (Canto Coral). E obviamente do Dr. Cabrita, que leccionava Matemática e Geografia.
.A personalidade mais marcante deste grupo de Professores era a Dª.Fernanda Marques, que quando estava mal disposta era muito complicada. Anos depois ,quando estava a cumprir serviço militar na Guiné, ainda sonhava por vezes com as suas reprimendas.
“Enquanto espero pela minha Professora devo estar calado”.
A Drª. Fernanda entrava normalmente mais tarde na primeira aula da manhã - ajudava o marido, o Dr.Quim Marques, nas análises do seu Laboratório – e quando não a víamos chegar …tínhamos algumas surpresas. Lembro-me de escrever(eu e os outros colegas da turma - a frase acima sublinhada, como trabalho de casa, 500 vezes! Ter um “12” com a Drª. Fernanda era uma festa e no liceu Nacional de Leiria um aluno de “8“ tirava normalmente notas acima de “13”. Mas que o “Inglês” nos marcava a todos era verdade pois quase que não havia tempo para estudar as outras disciplinas. E eram 5 aulas de Inglês por semana.
Os sábados eram uma manhã de boa disposição e às vezes de grandes chatisses. Cada aluno tinha que preparar uma anedota e contá-la em Inglês, para depois se conversar sobre o tema. “Deixa-me me rir que já me esqueceu” valeu ao Hélio Matias, de Valado dos Frades, uma expulsão.
Os rapazes sabiam as anedotas uns dos outros.
O problema era com as raparigas que levavam o “tema” muito a sério e “não abriam mão” das suas anedotas.
Quando a aula acabava era cá um alívio!
Mas que a Drª. Fernanda Marques foi um grande Professora ninguém duvida.

Alunos
Este capítulo daria ,obviamente , para um serão completo.
Alguns dos alunos do 5º Ano de 1955.Sexo masculino :Guerra Madalena, Eugénio Santos, António Lameiras, Manuel Canário, Fernando Rebelo, José Eduardo e António Fonseca
Sexo feminino :-Elsa Martins, IldaTeresa, Beatriz Barreto, Mª.Elisa Moura e Adosinda Oliveira.

Por falta de tempo, e por ter definido para mim próprio um critério para não me dispersar nestas memórias, vou focar essencialmente nestas “estórias de alunos” os colegas do 5º. Ano de 1955.
Obviamente que me recordo de colegas mais velhos(Lecas, Palmirinha,Mitá,Graça Hipólito, Artur Melo,Jorge Cordeiro etc. ) e mais novos( Pedro Catarino, Albino Serrano, Hernâni Santos, etc ) mas precisaria de ajuda de muitos desses ex-colegas e de muito mais tempo para evocar toda a gente que devia(e merecia) ser recordada. Ficam portanto aqui as minhas desculpas por muitas faltas que acontecem pelas razões atrás evocadas.

As excursões

Lembro-me de uma excursão a Évora em que durante largo tempo aborrecemos as raparigas que iam sentadas à nossa frente com caroladas. Fazíamos um nó nos lenços e batíamos na cabeça das colegas. Qual era a piada disto?! É difícil de explicar. Tínhamos 15 anos, éramos parvos e não sabíamos como abordar as raparigas. Elas gritavam e nós ríamos.
Garotices da adolescência!

A participação em Carnavais
Lembro-me particularmente de um Carnaval de 1955, cuja “batalha de flores”, meteu toda a qualidade de projécteis …menos flores.
O “nosso” carro, decorado com papel de cenário. pintado pelo José Teopisto(o melhor pintor de cerâmica dessa época) acabou completamente rasgado.
Lembro-me perfeitamente de algumas colegas que iam em cima do carro terem acabado o corso completamente lívidas e à beira das lágrimas. Aquilo é que foi gozar!

Jogos de futebol e convívios

Os jogos de futebol entre o Colégio e o Externato Afonso Henriques
São as grandes recordações desses tempos.


Só para registo aqui deixo a constituição de uma das grandes equipas do “Colégio do Dr. Cabrita”:
Guarda redes: Álvaro Laborinho; Defesas: Torcato, José Eduardo e António Alberto;
Médios: Manuel Canário e Manuel Pereira da Cunha; Avançados: Remígio(da Nazaré), Virgílio (também da Nazaré), Moura Lourenço(que veio a jogar na Académica e no Sporting), António Vazão Trindade e José Eduardo Couto Pinho.
Destes atletas da década de 50 já faleceram o Couto Pinho e o Manuel Canário.
Paz às suas almas.

Havia também jogos de hóquei em patins no ringue da Gafa com a assistência de belas alunas do Colégio do Dr.Cabrita,. Rapazes só à devida distância.


Alcunhas, “o vidro partido “, namoricos e… os ex-seminaristas!

Alcunhas-
Havia para todos os gostos. Tanto para raparigas como para rapazes. Com a ajuda de uma amiga e colega desses tempos, a quem prometi não dizer o nome, mas tinha a alcunha de”gasosa”, aqui vão algumas:
Beatriz Barreto- A estátua de carne;
Ilda Teresa- Um eléctrico chamado desejo
Graça Hipólito – A galinha dos ovos d’ouro
São Trindade- Pardalinho Saltitante
Eugénio Santos-O triste
Álvaro Laborinho – O “Manel dos Santos”
Augusto “da Vestiaria”- Bigodes de arame farpado
Manuel Canário-O “Fininho”

O Vidro partido da Antonieta.
Num dia de azar a Antonieta Lorvão Agostinho, que veio a casar com o Vergas Alexandre, partiu um vidro de uma janela durante um intervalo.
A próxima aula era com o Dr. Cabrita. Quando ele entrou com cara de poucos amigos até se ouviam as moscas a voar. Quem partiu o vidro que se levante, disse. Houve uma ligeira pausa e todos os alunos da turma se levantaram. Nada tinha sido combinado.
O Dr. Cabrita percebeu (e deve ter apreciado a solidariedade entre colegas) e… o problema morreu ali.

Os namoricos
Havia mais “ameaços” que outra coisa.
As meninas queriam rapazes mais velhos e as nossas “chances” eram mínimas.
Só me lembra de um namorico desses tempos que deu em casamento: o da Antonieta (a do vidro partido) com o António Vergas Alexandre.
No limiar do “bom gosto” poder-se-ia dizer que: “um azar nunca vem só”.
Mas obviamente que não vou fazer piadas com essa coincidência!
Um vidro partido e um casamento!
Outro namorico do tempo que deu em casamento foi o da Perlina com o Hélio(o tal do “deixa-me rir que já me esquecia).

Os ex-seminaristas:
Eram quase todos da Benedita e sabiam “Português” que se fartava.
Ate “chatiava” o comum dos mortais.
Lembra-me do Miguel Guerra, do João Guerra e do Guerra Madaleno..
Estes jovens deslocavam-se todos os dias da Benedita para Alcobaça de bicicleta. E no fim das aulas regressam a casa de bicicleta.! Trinta quilómetros por dia.
Havia também o António Vergas Alexandre, que era do Bárrio.



Alunos que “viraram figuras públicas”

O escultor José Manuel Aurélio;
O Guerra Madalena que, entre várias coisas na vida, foi candidato a Presidente de 6.000.000 portugueses. Referimo-nos obviamente ao SLB;
O Miguel Guerra, que foi Presidente da Câmara de Alcobaça;
O João Moura Lourenço, internacional de futebol e que numa tarde marcou 4 golos ao “meu” Benfica. E no Estádio da Luz!
Os últimos são os primeiros e deixo para o fim o nosso colega Álvaro Laborinho Lúcio que chegou a Ministro da Justiça da década de 90.

Figuras populares e a … Menina “Lídia”

Figuras populares

Relativamente a este capítulo não posso deixar de o referir com saudade e com estima o “Augusto da Vestiaria”.
À sua maneira e pela sua excentricidade também o Augusto da Vestiaria marcou uma época.
Quem é que não sabe uma estória a seu respeito!?
Além dos amores não correspondidos com a Mary recordo,anos mais tarde, a sua declaração num boletim de voto: “eu gosto é de gajas boas” correu de boca em boca.
Numa fase de descrédito em relação a muitos dos nossos políticos é um voto a ter (muito) em conta!
E era maluco!
Infelizmente também já não está entre nós. Paz à sua alma.

A “menina” Lídia
E quem não se lembra da “Menina” Lídia, a nossa continua , enérgica colaboradora da Direcção do “Colégio do Dr. Cabrita” na disciplina do Externato.
Felizmente ainda está por cá e de boa saúde. Daqui a saudamos com amizade e sem qualquer rancor por um dia ter comunicado uma ocorrência que nos valeu um dia de suspensão.
Uma estória de nêsperas que não interessa aprofundar


Exames no Liceu de Leiria

Os exames do 5º Ano dos Liceus eram em Leiria, no Liceu Rodrigues Lobo.
Aferia-se o trabalho do “Colégio do Dr. Cabrita” fora de casa.

Os professores eram-nos desconhecidos e a angústia acompanha-nos durante as provas escritas e orais.
È que além dos professores, que tanto tinham investido em nós, havia também de acertar “contas” com os nossos Pais que, na maioria dos casos, tantos sacrifícios tinham feito para andarmos a estudar .

Quando o castelo se via ao longe formava-se cá um nó no estômago!
Ainda hoje guardo num canto escondido da minha mente essa má recordação .
Era cá uma azia!!!

Algumas notas pessoais da vida de Domingos Cabrita da Silva

Nasceu em Lagoa (Faro) em 24 de Agosto de 1906 e fixou-se em Alcobaça por volta de 1934.
Com 30 anos de idade –em 1936 – fundou o Colégio Alcobacense.
Em 30 de Janeiro de 1941 casou em Aljubarrota, na Igreja de Nª.Senhora dos Prazeres, com Maria Manuela Natividade Sanches Coelho da Silva.
Foi vereador, durante 8 anos, da Câmara Municipal de Alcobaça, com a competência e honestidade que todos lhe reconheceram ao longo da vida.
Foi Pai de Maria Margarida Coelho Natividade Coelho Saudade e Silva, que casou com Luís Saudade e Silva.
Deste casamento teve ainda a alegria de conhecer dois netos: Ana Margarida e João Diogo Saudade e Silva.

A sua viúva, Dª. Maria Manuela Natividade Sanches Coelho da Silva, faleceu em 20 de Fevereiro de 1993, com 76 anos de idade (N. em 22.10.1916 F.em 20.02.1993).


Trespasse do Externato Alcobacense
Mereceu honras de Primeira Página em “O ALCOA” de 21 de Março de 1970 (nº. 1184) a notícia da aquisição pela Câmara Municipal do Externato Alcobacense.
Entre vários considerandos referia-se que” o actual Director (Dr.Domingos Cabrita da Silva) teria garantida a sua situação como Professor e a sua Esposa teria garantido um lugar num dos Departamentos Culturais da Câmara”, o que veio efectivamente a acontecer na Biblioteca Municipal, que como é do conhecimento geral veio a funcionar na Ala Sul do Mosteiro”.

Nos Arquivos da Câmara Municipal de Alcobaça localizámos a respectiva “Escritura da aquisição e cedência por trespasse”, com data de 25 de Julho de 1970, que valeu à Família Cabrita da Silva a importância de 250.000$00 (duzentos cinquenta mil escudos).
Assinaram o documento Tarcísio Vazão de Campos Trindade, Domingos Cabrita da Silva e Maria Manuela Natividade Sanches Coelho da Silva.


A parte final da vida de Domingos Cabrita da Silva.

Faleceu em Lisboa ,onde estava em tratamento, em 14 de Junho de 1984, com 78 anos de idade em Lisboa.
Na notícia do seu falecimento em “O Alcoa.”(nº. 1584, de 21 de Junho de 1984) salientava-se que apesar da idade, bem merecedora de um justo repouso, o Dr. Cabrita, continuava a dar aulas só as interrompendo devido à doença que acabou por o vitimar.
A insignificante reforma que lhe foi atribuída quando o atingiu os 70 anos a isso o obrigava.
Durante 50 anos de ensino (meio século) não teve ,que se saiba, faltas ao serviço .
Trabalhou até mais não poder

Os seus antigos alunos devem-lhe uma sentida homenagem.
Uma Rua com o seu nome?
Sem dúvida.
Apelamos a que se juntem a nós alguns dos presentes nesta noite de evocações e de memórias para conseguirmos um reconhecimento oficial a este Homem Digno e Bom.
Gerações de alcobacenses passaram-lhe pelas mãos . Sem a sua dedicação à causa do ensino muitos de nós dificilmente teríamos conseguido estudar.
Simbolicamente deixamos como final da nossa evocação a imagem de
uma das janelas do edifício onde estudámos, que nos permitiu olhar o mundo mais preparados e mais confiantes
Estamos todos ainda a dever um reconhecimento oficial e uma merecida homenagem ao Dr. Domingos Cabrita da Silva

Recordar esta parte das nossas vidas foi útil e marcante.

Porque nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Comigo, connosco caminham todos aqueles que a morte já levou, todos os amigos que a vida afastou.
Mas os dias felizes não se apagam jamais.

JERO




2 comentários:

  1. que raio de mania de pôr as pessoas a chorar ao ler as suas memórias

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  2. Hoje lembrei-me de pesquisar coisas de Alcobaça e PIMBA dei de caras com o teu blog. Aterrei no colégio do Dr Cabrita no 2º ano - 1965. E ainda era tudo como descreves: a ladeira, as escadinhas, os recreios, as azias... Eu morava em chaqueda e tinha de palmilhar o caminho a butes. Chegava, todos os dias, atrasada à aula da manhã que era CLARO do Dr Cabrita! (Ela já nem dizia nada... e eu , do mais enfiada )
    Acompanhei de perto o romance do Augusto da Vestiaria: a Mary Dolores foi minha colega de turma do 2º ao 5º ano e pertencíamos ao mesmo grupo de amigas; em determinada altura o Augusto ofereceu-lhe um bilhete de lotaria...foi uma excitação até andar à roda -não saiu nada!
    Também era colega de turma da Alexandrina, sobrinha da D. Lídia. O quarto dela na cave/rés do chão do colégio, dava para o recreio dos rapazes; juntinho à janela, com grades, havia um banco de jardim onde vocês, os rapazes, se sentavam a confidenciar...
    Desde 1974 que vivo em Beja e raramente vou a Alcobaça. Gostei muito deste encontro. Bem-hajas
    Margarida Canha

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