sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

M136-HISTÓRIA REGIONAL

Arte Equestre e Praça de Touros da Nazaré
Nos séculos XVIII e XIX a arte agrícola consumia quase integralmente o território da comarca de Alcobaça. A criação de gado equino e bovino (bois de canga e açougue, touros e cavalos) estava limitada a algumas pastagens nos campos do Valado e Alfeizerão (nomeadamente na Quinta do Campo e na Quinta de S. José de Alfeizerão).
O Mosteiro de Alcobaça possuía uma coudelaria na Quinta do Campo. A tradição da coudelaria da Quinta do Campo não perdeu todavia os pergaminhos com a extinção da Ordem em 1834. Na Exposição distrital de gado (1863), a imprensa enaltece o proprietário da Quinta do Campo, dado o seu empenho em “apurar as raças, de que deram exuberantes provas com a exposição de magníficos reprodutores”. Por seu turno, o Relatório Agrícola de 1856 lembra o valor do gado equino dos campos de Alfeizerão:
“A raça equina de Alfeizerão, sem ser propriamente fina, era uma raça boa e muito acreditada. O cavalo não era grande, mas atingia ordinariamente a marca para a remonta da cavalaria do exército. Era nervoso, sanguíneo e muito aturador, colo comprido, pouco farto de crina, um tanto delgado e graciosamente contornado, cabeça sobre o comprido, mas descarnada, orelha grande, boa venta, olhos vivos, peitos e mãos excelentes, quarto traseiro descaído e pernas curvas. Tais eram os caracteres distintivos da raça em que parece havia muito de Alter. Uma grande parte dos cavalos eram zainos, tinham fama de ásperos, mas de excelentes depois de adestrados”.
Era este gado que animava as artes circenses e tauromáquicas nas praças improvisadas do Sítio da Nazaré, Alcobaça e Alfeizerão.
Por meados do século XIX, estava sedeada na Nazaré uma Companhia Equestre dirigida por um cidadão de nacionalidade espanhola. João Arnoll, Director da Companhia Equestre, encomenda, em 1854, a construção de uma praça de madeira no Sítio da Nazaré. Esta praça possuía 170 palmos de diâmetro, cercada até 24 palmos, possuía vinte camarotes que podiam albergar individualmente seis pessoas e um camarote para a música.
No ano de 1866, os notariais registam a sublocação da praça de touros (propriedade da Real Casa da Nossa Senhora da Nazaré) por parte de João Pereira Penteado e João Pereira da Conceição, da Quinta do Pinheiro, a dois empresários da Golegã. O contrato envolvia o pagamento de 165.000 réis e a cedência em cada tarde de corrida de um bilhete de camarote e seis de bancada do lado da sombra. Em contrapartida, o gado envolvido nas lides tinha pasto na Quinta do Pinheiro.
Já em 1881 levantámos um contrato de arrendamento, celebrado entre Roberto da Silva Barbosa da Atalaia/Barquinha e Vitorino de Avelar Fróis de Alfeizerão. Neste contrato, Roberto Barbosa declara que construiu uma praça de touros num terreno que aforou à Santa Casa e que arrenda o imóvel por 12 anos, com a renda anual de 150.000 réis. O arrendatário reserva o direito de dar as três touradas nas Festas da Nazaré.
Vitorino Fróis volta a arrendar em 1891 a praça de touros à Real Casa pelo prazo de 12 anos. O rendeiro obrigava-se a dar as três touradas nas festas da Igreja da Real Casa, salvo ocorrência de epidemia ou transvio da ordem pública. O rendeiro ficava obrigado a conceder aos membros da administração da Santa Casa o camarote do centro, assim como 20 bilhetes de sombra em todas as touradas e divertimentos. Para além dos 201.000 réis de renda anual, tinha ainda de suportar os custos do seguro de incêndio e a contribuição industrial. Em caso de fogo a Santa Casa responsabilizava-se pela reconstrução da praça.
Voltamos a ter notícias do arrendamento da praça em 1910 pelo período de quatro anos. O rendeiro, César Coelho da Silva, da Nazaré, tem como fiador Vitorino Fróis. A renda anual de 600.100 réis é paga faseadamente, uma primeira tranche a 1 de Setembro e a segunda no último dia de festas de cada ano. Fica ainda obrigado a dar “no dia 8 de Setembro qualquer diversão tauromáquica, e na sexta-feira e sábado em que se realizarem as festas da Igreja da Real Casa”. Caso falhasse a este compromisso pagava de multa 400.000 réis. À semelhança da escritura anterior tinha de ceder o camarote do centro à Real Casa, assim como 15 bilhetes de sombra e 10 de sol em todos os espectáculos. Tinha ainda de assumir os danos causados por bois e cavalos nos curros e trincheiras e repor utensílios danificados pelo uso.
As praças de madeira provisórias, que os estragos do tempo e os incêndios destruíam de forma recorrente deram, finalmente, lugar a uma praça de alvenaria. Em Janeiro de 1892, os notariais registam a adjudicação da reconstrução da praça ao mestre pedreiro Joaquim Matias Silvério da Praia.
Comprometia-se o empreiteiro a dar por finda a obra em Julho do mesmo ano, sendo o atraso diário de entrega sancionado em 9.000 réis. Poderá não ser esta a versão definitiva da obra que podemos actualmente contemplar.
António Valério Maduro

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