segunda-feira, 28 de maio de 2012

M - 416 DOIS TEMPOS


A MEMÓRIA

Entrei pela primeira vez no Mosteiro de Alcobaça na Primavera de 1945. Confesso que nessa altura não apreciei devidamente a beleza gótica da Igreja, até porque ia adormecido ao colo da minha mãe.

Creio que acordei na Sala dos Reis quando a água benta me correu pela cara e talvez tenha chorado perante o trio impassível de Afonso Henriques, Alexandre III e São Bernardo.
 Que não me ligaram nenhuma.
Depois os meus pais, os padrinhos e um, penso eu, pequeno grupo de amigos, não me lembro de nenhum, voltamos para o patim barroco da Igreja de onde me disseram havia uma agradável vista sobre um lindíssimo jardim cheio de relva, bucho, árvores e empedrados, azuis e brancos, tudo maravilhosamente colocado.
Carros havia muito poucos.
 Mas o “oldsmobile” cor de vinho (um” must”) do meu avô lá estava esperando por nós.
 Contaram-me mais tarde que o senhor Campeão, da Pharmácia, me veio beijar a testa antes de entrarmos para o carro.
Contaram-me também que houve um almoço lá em casa onde a grande iguaria, eu diria uma delas, foi uma canja de galinha com pequenos ovos da dita, e uma pata para dar mais gosto. Que regalou o meu avô Leonardo.
A guerra de 39-45 não terminara e havia ainda racionamento, mas, lá em casa, no quintal, ali onde o Baça entra no Alcoa, viviam coelhos, galinhas e patos para além de crescer farta horta.
 E haver um forno para coser pão.
A última vez que entrei no Mosteiro tinha 99 anos e ia dentro de uma urna de cinzas em ouro, coroada por uma esmeralda, levada pelo meu bisneto Martim, de 15 anos.
Como imaginam também, por evidentes razões, não pude apreciar o monumento, mas sei por onde andei, antes de serem lançadas da Torre Norte, a do relógio mecânico, que sempre me fascinara desde que havia sido Director do Mosteiro no início do sec. XXI.

Nesse tempo, foram apenas três anos, olhei várias vezes o edifício para o ver e insisti para que outros o vissem.
 Mas a verdade é que tudo é breve e efémero e que a única coisa a fazer é preservar a memória tão pura quanto formos capazes de  guardar para a transmitir, para que outros a interpretem a seu saber. 
Por nisso não estraguem, aprendam e trabalhem com cuidado.

Rui Rasquilho

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