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segunda-feira, 28 de março de 2011

M 346 - VESTIRAM-SE DE POETAS OS SOLDADOS

1º.Congresso dos Combatentes do Ultramar

O artigo I do “regulamento” dizia que o Congresso realizar-se-á na cidade do Porto nos dias 1, 2 e 3 de Junho 1973.
O artigo II tinha várias alíneas e diversos considerandos. Os que mais me sensibilizaram tinham a ver com «…reatar e manter os laços de camaradagem…celebrar os serviços prestados e…procurar resolver os problemas relativos à integração social do combatente.»
Dia 3 de Junho de 1973
Eu estive lá. No Palácio de Cristal-Porto.


38 anos depois…o que retive.


Saí de Alcobaça acompanhado de minha mulher num Citroen de 2 cavalos, que ainda cheirava a novo. Fomos de véspera para estarmos no domingo no Palácio de Cristal. Ficámos num Hotel na baixa do Porto.

Na manhã do dia 3 seguimos para o Palácio de Cristal. Encontrei-me com o Rainho (Angola), com o Freitas (da Guiné) e com o Alves.
Quanto entrei naquele enorme espaço já encontrei uma multidão de ex-combatentes e vi na mesa de honra uma cara conhecida.
   Fiz questão de ir cumprimentar o Capitão José Caçorino Dias, que “conhecia” por interposta pessoa. Um seu irmão, que era a sua cara chapada e com quem tinha trabalhado na Sede do B.P. & S.M., em Lisboa .
Caçorino Dias era no meio militar uma figura mítica. Tinha ficado cego devido a uma mina em Angola mas mantinha um porte impressionante.
 Ao meio dia assistimos ao hastear da bandeira nacional.
 Seguiu-se a missa.
 Por volta da uma da tarde cantou-se o hino nacional. Guardo desse momento a lembrança mais forte.
 Uma recordação inesquecível.
O Hino. Um coro de mais de 10.000 ex-combatentes. Estávamos de pé junto às mesas .
 Cantámos a plenos pulmões. «Contra os canhões marchar, marchar…». Quando acabei de cantar senti uma emoção tremenda.
Fiquei silencioso. Julgo que por alguns minutos.
O almoço começou a ser servido.
 Os criados de mesa saiam em fila indiana de uma cozinha distante e iam servindo a sopa. Julgo que caldo verde.
Lembra-me do meu parceiro da frente, que devia estar cheio de fome, ter comido a primeira colher de sopa com uma mão e ter limpo as lágrimas que lhe corriam cara abaixo com a outra mão.
 Nunca mais esqueci aquele gesto simultâneo de emoção e controle.
 Eu tive que esperar mais algum tempo até conseguir engolir a primeira colher de sopa. Tinha um nó na garganta que tive que engolir …antes da sopa.
Sempre que a pátria decreta, vem-nos de Deus o recado.
 Seguiu-se um convívio de que guardo uma memória confusa. A meio da tarde iniciei o regresso a casa. Que estava a mais de 200 kms.
- E Veste-se cada poeta, De soldado.*
No passagem por Coimbra um engano grave. Entrei em sentido contrário numa rua que pensei que desse acesso à ponte. Fui mandado parar por um agente da P.S.P.

«Como é que você faz uma coisas destas?».
Reconheci de imediato o meu erro e disse-lhe que conhecia mal Coimbra.
Vinha do Porto do Congresso dos Combatentes do Ultramar. Trazia na cabeça o meu “quico”do camuflado e conservava ainda na camisa o crachat identificativo do Congresso.
Ainda me lembro do sorriso cúmplice do polícia quando me mandou seguir em paz.
...Ele também tinha andado por lá.
Mas a cena das lágrimas é que nunca mais esqueci.
 Porquê? Não sei explicar.
Sob o signo do sangue todo o céu se descerra - Ó povo incessante, fardado, mal ferido!...
Uma mão para limpar as lágrimas silenciosa, que escorriam pela cara abaixo, e a outra para levar de imediato a boca, a colher de sopa .
Foi o Alves. Filho de um Sargento da GNR, que tinha cumprido serviço militar São Tomé e Príncipe. Durante 36 meses.
 É preciso adiar o enterro da terra, Ir ao centro do Sol de certezas vestido.
Eu estive lá. No Palácio de Cristal-Porto. Em 3 de Junho de 1973. Passaram quase 38 anos.
- A nossa geração... andou na guerra.
 Por isso perseguimos a paz .

JERO


*”Vestiram-se os poetas de soldados”, antologia seleccionada e prefaciada por Rodrigo Emílio, expressamente compilada para o 1º.Congresso Nacional dos Combatentes.





quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

M 339 - BONS VELHOS TEMPOS ou BONS VELHOS DENTES !?

IDA AO DENTISTA A FARIM

Salvo as devidas distâncias e com o devido respeito recordei-me desta minha história por ter lido num blog nacional de ex-combatentes(Luís Graça e Camaradas da Guiné) que também o General Spínola, a quando da sua passagem pela Guiné, tinha necessitado de cuidados de um estomatologista. Aconteceu no HM 241, em Bissau, e o seu monóculo foi confiado a um Médico durante o tempo da consulta dentária. Foi aliás graças e esse médico, Mário Bravo de seu nome, que essa ida do Governador da Guiné ao estomatologista não se perdeu na voragem do tempo…
« É evidente que quem o tratou foi o Chefe, mas havia necessidade que alguém tomasse conta do monóculo e logo me tocou a mim. É engraçado que senti aquele receio de ser o fiel depositário de tão solene objecto. Mas consegui não o deixar cair !!!» (Mário Bravo)
 (Post. 7697, de 30.Janeiro.2011)
Posto isto vamos à minha história, que se passa durante o cumprimento do serviço militar no Norte da Guiné, na Companhia de Caçadores 675.
Por volta de Novembro ou Dezembro de 1965, quando já contávamos cerca de 18 meses de comissão, chegaram ordens via rádio a Binta, vindas da sede do Batalhão em Farim, para uma ida ao dentista.


                                        Militares da“675” aguardam o início da Operação “TIRA-DENTE”


Num dia de manhã a coluna dos militares com dentes “estragados” arrancou para Farim. Sentados nos Unimogs, com a G-3 entre as pernas e com o lenço na boca. Era naqueles dias que quem seguia atrás da primeira viatura comia pó que se fartava.
Chegámos a Farim sem problemas de maior e como Furriel Enfermeiro recebi instruções para orientar a consulta .Ao ar livre, está claro. Duas cadeiras e duas filas, frente a um Alferes Médico e a um 1º.Cabo auxiliar de enfermagem.
Cada “cliente” abria a boca, dizia qual era o dente ou os dentes estragados, levava uma injecção (anestesia) e vinha para o fim da fila. Passado uns minutos avançava para a extracção. Abre a boca, respira fundo e…alicate. Já está.
Meia dúzia de minutos depois das primeiras extracções, e como é comum na vida militar, alguém segredou ao parceiro do lado que o Cabo é que era “bom”.
A fila que destinava ao médico ficou reduzida ao mínimo. Tentei perceber o que se passava e refazer a “fila” pró Alferes, mas não consegui grande coisa.
A fila do Cabo engrossava e deve ter “facturado” o triplo das extracções em relação ao seu superior.
Foram recomendados alguns cuidados de higiene aos” desdentado” e com a malta toda a cuspinhar sangue lá regressámos a Binta. O lenço verde deu um jeitão.

O pó avermelhado da “estrada” é que foi difícil de suportar…mas a meio da tarde estávamos em “casa”.Sem problemas de maior. Além das dores na boca, está bem de ver.

Termino o registo desta operação “tira-dente” com um testemunho pessoal.
Também então precisava de ter ido ao dentista…mas não fui.

Quando em Maio de 1966 regressei da Guiné andei cerca de 2 anos a tratar dos dentes. E tiveram que me extrair 13 (treze) dentes. Uma das extracções correu mal e tive uma alveolite. Como o próprio nome indica é uma infecção no alvéolo. Regressei ao dentista e ele mandou-me abrir a boca. Enquanto o diabo esfrega um olho fez-me uma raspagem. A frio, sem anestesia. Mais tarde explicou-me porquê. Mas naquele momento dei um berro que se deve ter ouvido dois andares acima do consultório. Dei um berro e um salto na cadeira.

Na “descida” …lembrei-me do Cabo. O de Farim. Porque é que não fui pra fila dele?

Não me tinha doído tanto e tinha sido à borla…

Acabei por contar a história do Cabo-dentista de Farim ao Médico-dentista de Alcobaça.
E consegui, mais tarde, um desconto na esquelética. Que é uma das minhas recordações da Guiné. Treze dentes postiços. Seis em baixo e sete em cima.
E mais cinco “chumbados”…
Bons velhos dentes, digo, tempos.
De Binta .Da Guiné.
E quanto partir…até posso cá deixar a esquelética.
Pró museu da minha Companhia.
 Da seis, sete, cinco.

Mas não tenho pressa nenhuma…

JERO