Património Cisterciense – As Frutas de Alcobaça
Os monges cistercienses acarinharam a fruticultura. O profundo amor com que tratavam os seus pomares de laranjeiras doces e pessegueiros explica que para os designarem utilizassem a singela expressão de “jardim”, numa clara alusão ao paraíso celestial. A exploração agrícola das Granjas monásticas reservava um espaço para as árvores de fruto. Mesmo nas granjas de solos mais inóspitos, privados de águas de nascente e cravejados de pedra, as fruteiras marcavam posição.
A diversidade de árvores frutíferas repartia-se entre os pomares de espinho, caroço e pevide. Na resposta à questão sobre qual a qualidade dos pomares e a diversidade das árvores de fruta, Frei Manuel de Figueiredo testemunha-nos a sua inusitada riqueza: “Os Pomares constão de frutas chamadas de caroços principiando pelas primeiras frutas de cereijas, ginjas, alvoricoques, damascos [os “ovos do sol” dos Persas], athe as maçans, e peros de Inverno [frutas de pevide] que são mais raras, ainda que crião arvores de bastante corpo [e nos de espinho] laranjeiras doces, e agras, limeiras, cidreiras, limoeiros que dão limoens grandes e gallegos”.
Outros autores pronunciam-se sobre as fruteiras de Alcobaça. D. António Macedo fala do renome que conquistaram as laranjas de Alcobaça e as melancias de Pataias. Também João Maria Baptista, narra que chega “a todo o reino a fama dos bellos peros e camoezas e que os seus delicados pecegos egualmente merecem”.
Segundo Beckford no seu diário de viagem “Alcobaça e Batalha”, as primeiras laranjeiras da China que tinham vindo para Portugal foram plantadas no claustro de D. Dinis. O cultivo dos citrinos floresceu nas terras de Alcobaça. No relatório da Sociedade Agrícola do distrito de Leiria (1856) menciona-se que os pomares de espinho apenas existem nos concelhos de Alcobaça, Caldas da Rainha e no lugar da Barreira (Leiria) e que as espécies cultivadas são as laranjas da China, o limão acre e doce, a cidra, a lima, a laranja lima e a tangerina. Fazendo fé nas declarações de produção dos concelhos que integram o distrito de Leiria, no ano de 1865 Alcobaça contribuiu com 99% dos citrinos. A colheita da laranja ultrapassou os 806 milheiros e a dos limões alcançou os 50 milheiros.
Quanto às pereiras, J. B. de Castro informa-nos sobre as castas e designações populares. Temos então as “de rei, de conde, bergamotas, bojardas, carvalhaes, conforto, flamengas, gervasias, codornos, engonxo, S. Bento, bom cristão, virgulozas, lambe-lhe os dedos (…) ”. Iria Gonçalves recupera diversas qualidades de peros, nomeadamente os de Santiago, brancos, marmelares, e as maçãs baionesas, que pela sua excelência os monges elegiam nos foros.
As fontes do século XVIII dão conta da maçã leirioa (nomeadamente nas terras da Vestiaria), das deliciosas e aromáticas camoesas. Já o Relatório da Sociedade Agrícola do distrito de Leiria, que atribui ao concelho de Alcobaça o domínio incontestado dos pomares de pevide, ao pronunciar-se sobre as qualidades das maçãs, refere que nas temporãs “cultiva-se a leiriôa, a cerigal e outras. Das serôdias temos a olandeza, páu preto, bemposta, raineta, parda e vermelha.

Eram populares os ramais de maçãs que se transaccionavam nas feiras e mercados da região e se exportavam para Santarém e Vila Franca. Estes frutos mirrados e doces eram ofertados às crianças pelo pão por Deus e serviam de mimo para os velhos e doentes.
António Valério Maduro
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