PS- Com um agradecimento muito especial ao Coronel PilAviador Miguel Pessoa.
JERO
segunda-feira, 8 de julho de 2013
domingo, 23 de junho de 2013
M - 450 MEMÓRIAS DAS FESTAS DA REGIÃO DE ALCOBAÇA DOS ANOS 40-50-60
AS FESTAS FAMILIARES E OS CONVÍVIOS D'OUTROS TEMPOS
Recorrendo
e memórias pessoais recordo 3 tempos distintos.
1-A
memória mais distante tem a ver com deslocações aos Capuchos, com obrigatório
“passeio pedonal” dado que as distâncias a percorrer eram curtas: cerca de 2
Kms. para cada lado. Deveria ter os meus 8 ou 9 anos e o que tenho mais
presente na minha cabeça era “o frete” de ter que ir …Ninguém me perguntava se
gostava ou não. A família ia e eu tinha que alinhar. (ponto final). Recorda-me
de uma das vezes, na viagem de retorno, me ter adiantado ao “pelotão” e ter feito
o percurso à frente de toda a gente aí uns bons 30 metros ! Foi a maneira de
demonstrar o meu desagrado, sem abusar muito da paciência dos meus pais… Birras
de miúdo. Em relação à festa e aos Capuchos o que me lembra ? Muito pouco.
Socorrendo-me de alguma documentação do tempo realço o seguinte:-
«… Por trás do Parque de Merendas, fica o antigo Convento que deu nome ao lugar e
que foi fundado pelo cardeal D.
Henrique em 1566. Perto do convento havia instalações agrícolas que
provavelmente datam do séc. XIII e estavam ligadas a uma quinta que o Mosteiro
explorou nessa época.
Capela da Senhora dos Aflitos -Das construções religiosas, só resta
esta Capela, que
tem sobre a porta um brasão bipartido com estrelas em aspa e um leão
rompante. Por timbre tem um leão virado á esquerda. Conservava restos de
azulejos da fábrica do juncal, que infelizmente com o passar dos tempos
desapareceram. Actualmente só resta na capela, o átrio forrado de azulejos.»
2- Da
memória do meio tenho bem presente os piqueniques em Chiqueda, em dia de Espiga.
Já andava no Colégio do Dr.Cabrita e recordo com nitidez – reforçada por
algumas fotografias do tempo – os belos fins de tarde que davam direito a
excelentes merendas na pedrosa encosta perto dos “Olhos de Água” do rio Alcoa.
Havia muitas famílias de Alcobaça e uma figura “única”: o “Ti Gavião”,
fotógrafo “à la minuta”.
A apanha da espiga, era feita a
caminho de Chiqueda e
fazia-se um ramo de papoilas, espigas de trigo, oliveira e um malmequer.
Juntavam-se vários grupos
que iam a pé levando um farnel para comerem quando chegassem. Chiqueda era assim o local do
grande encontro.
O ramo era guardado e uma
vez chegados a casa punha-se a secar atrás da porta, sendo renovado todos os
anos para que não faltasse pão (espigas de trigo), azeite (oliveira), alegria
(papoilas), e sorte (malmequer).
3- Senhora dos Enfermos
Aqui as minhas recordações passam
obrigatoriamente pelo mestre Arnesto (ERNESTO JOAQUIM COELHO ) , “maestro vitalício” da Banda da
Festa da Senhora dos Enfermos. Era um dia especial, de grande paródia, em que
toda a gente confraternizava e trocava iguarias de bem recheados farnéis, sem
prescindir do consumo de muito e bom vinho tinto. Nas últimas actuações do dia
a banda do mestre Arnesto trocava algumas notas mas a “Marcha do Vapor” chegava
sempre à margem…Nem que fosse a cambalear !!!
Socorrendo-me também de alguma documentação do
tempo, nomeadamente de Manuel Vieira Natividade relembro que «…a Romaria da Senhora dos Enfermos era uma
verdadeira festa das colheitas, uma celebração agrícola com origens
pré-cristãs.Era uma festa alegre, com direito a estrear novas roupas e que
servia para marcar o tempo.
Celebrada no Domingo de Pentecostes,
cinquenta dias depois da Páscoa, não era exactamente um festejo mariano. Antes,
pentecostal, com rituais que a aproximavam das festas do Espírito Santo. De
notável, por comparação com as festas das demais aldeias da região, tinha o
círio, abundância de fogaças e os favores da pequena burguesia alcobacence que
nesse dia ia ver de perto os serranos, fazer pic-nics nos arvoredos que
circundavam o arraial e, talvez, comprar no leilão alguma fogaça.
Este costume, manteve-se, aliás, por
muito tempo e, durante anos, a Banda do Mestre Ernesto era animador
imprescindível do arraial.
A grande quantidade de gente, alguns
divertimentos que, como o jogo do frango, hoje seriam, simplesmente, proibidos
pela sua barbaridade, o vinho que corria em abundância e os bailes, propiciavam
frequentes desacatos. Por isso, a festa de Nossa Senhora dos Enfermos era,
naquele tempo, a única com policiamento permanente.
Além de M. Vieira Natividade, também
José Diogo Ribeiro, in Turquel Folclórico (1928), dedicou atenção a esta
romaria, registando, designadamente, os seguintes versos que o círio dedicava à
santa:
Ó Senhora dos Enfermos
Aqui vimos, aqui estemos
Pro ano, se formos vivos,
Ainda cá tornaremos.
Ó Senhora dos enfermos
Cá vos vimos visitar.
Pro ano, se formos vivos,
Havemos de cá tornar.
Relativamente à festa de Nossa Senhora dos Enfermos grande parte do texto reproduzido é da autoria de José Quitério e foi publicado em 29 de Maio de 2012 no seu blog "Ataíja de Cima".
Relativamente à festa de Nossa Senhora dos Enfermos grande parte do texto reproduzido é da autoria de José Quitério e foi publicado em 29 de Maio de 2012 no seu blog "Ataíja de Cima".
Pela recolha JERO
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De vez em quando histórias de vida
sexta-feira, 7 de junho de 2013
M- 449 MEMÓRIA DE UM REGRESSO ...
3 de Maio de 1966
Esta memória que agora recupero tem 47 anos!
Tem a ver com a minha chegada
a Lisboa depois de cumprir 2 anos de serviço militar na Guiné.
O desembarque aconteceu em 3 de Maio de 1966.
O desembarque aconteceu em 3 de Maio de 1966.
Dos 5 dias da viagem de regresso quase nada recordo.
O que recordo como mais marcante foi o momento em que entrei dentro do «UÍGE» ainda no Cais de Bissau.
Nesses tempos entre o Cais e o navio havia umas boas dezenas de metros a percorrer, distância que era feita numa pequena lancha a motor.
Terei sido dos
últimos a embarcar às voltas com um caixote que trazia com coisas pessoais .
O
caixote era grande, difícil de transportar e, devido à ondulação, quase me caiu
à água quando finalmente consegui agarrar a escada do portaló, que nos permitia
subir a bordo do navio.
Lembro-me do grande alívio que senti quando
finalmente entrei no navio e «pisei» terreno seguro.
Depois… segue-se um vazio na minha cabeça que, não
é total, porque tenho fotografias desses tempos.
Quando tempos depois organizei o meu álbum de fotografias coloquei na mesma página uma foto à partida e uma foto do regresso. Foi impressionante constatar como dois anos tinham mudado tanto os traços fisionómicos da nossa gente. Miúdos à partida e homens feitos na viagem de regresso.
E não regressaram todos. Faltaram o Soldado Ap. Met. Augusto Gonçalves (morto em 29.Julho.1964), o Fur Mil .Atirador Álvaro Mesquita (morto em 28.Dezembro.1964) e o Soldado Atirador João Nunes do Nascimento (morto em 30.Julho.1965).
Quando tempos depois organizei o meu álbum de fotografias coloquei na mesma página uma foto à partida e uma foto do regresso. Foi impressionante constatar como dois anos tinham mudado tanto os traços fisionómicos da nossa gente. Miúdos à partida e homens feitos na viagem de regresso.
E não regressaram todos. Faltaram o Soldado Ap. Met. Augusto Gonçalves (morto em 29.Julho.1964), o Fur Mil .Atirador Álvaro Mesquita (morto em 28.Dezembro.1964) e o Soldado Atirador João Nunes do Nascimento (morto em 30.Julho.1965).
Devido a ferimentos graves também nos tinham precedido
na viagem de regresso 8 militares evacuados, em datas diferentes, para o
Hospital Militar Principal, de Lisboa:- o 1º.Cabo Craveiro e os soldados Bessa,
João Santos, António Filipe, João Alexandre, Carlos Coelho, Severino Dias e o
“Caldas” (Joaquim Lopes Henriques).
No dia 3 de Maio de 1966 Lisboa estava à vista e… a
ponte sobre o Tejo já estava quase concluída!
O «UÍGE» aproximava-se lentamente dos cais,
apinhado de multidão mantida a alguma distância por elementos da P.M.
Ali estava eu, com as mãos apoiadas na amurada do
navio, que finalmente acostava ao Cais de Alcântara.
Tinha esperado por aquele momento dois anos, dois
longos anos.
E… não sentia nada do que tinha esperado!
Vamos lá entender o Mundo, as pessoas… se eu
próprio me custava a entender!
Estava no final de uma longa «viagem à guerra», já tinha descortinado entre a multidão do Cais os que me tinham ido esperar e… nada. Ou melhor dizendo… muito pouco.
Estava no final de uma longa «viagem à guerra», já tinha descortinado entre a multidão do Cais os que me tinham ido esperar e… nada. Ou melhor dizendo… muito pouco.
Afinal o que se passava comigo!?
Ainda hoje, a quarenta e tal anos de distância,
tenho dificuldade de explicar o que se passou !
Sei que estava parado, quase apático, sem vontade
de correr para a saída!
Terei sido dos últimos da minha Companhia a
desembarcar.
Cheguei junto dos meus e
recordo especialmente o abraço da minha mãe.
Mãe é mãe e sabia que tinha sido Ela a pessoa que mais tinha sofrido com a minha ausência de dois anos.
Para melhor a abraçar pousei no chão um pequeno
saco de bagagem que trazia ao ombro.
Neste saco transportava a máquina
fotográfica e os últimos «souvenirs» de Bissau.
Quando acabou o abraço e me baixei para apanhar o
saco ele já não estava lá…
Um amigo do alheio tinha-se aproveitado da confusão
e tinha-o levado “por engano”…
Acalmei rapidamente as preocupações da minha mãe.
Afinal eu ainda lá estava. Vazio, confuso mas…fisicamente presente.
Quanto ao ladrão isso que queria apenas dizer que…
tinha regressado de novo à civilização!
Olhei mais uma vez para o mar.
Até sempre… Guiné!
domingo, 2 de junho de 2013
M -448 JOSÉ ARRUDA UM SER HUMANO ESPECIAL
REENCONTREI O ZÉ ARRUDA, PRESIDENTE DA A.D.F.A.
Há um bom par de anos corria habitualmente cerca de 40 minutos no areal
de uma praia do litoral Oeste. Do cais até à foz do rio de Salir eram cerca de
dois quilómetros.
Numa das minhas habituais sessões de jogging do mês de
Agosto avistei um casal que corria em sentido contrário. Aproximaram-se
rapidamente e pelo seu ritmo solto, com passada leve e bem ritmada, deu para
perceber que eram corredores de “alta manutenção”, numa forma bem melhor que a
minha.
O homem era alto, de cabelo grisalho e usava óculos escuros. Durante a
corrida amparava com o braço direito o coto do outro braço, pois era amputado
da mão esquerda. A senhora era um pouco mais nova e tinha no seu rosto bonito
traços achinesados.
Corriam a par, muito próximos um do outro, e pareciam tocar-se com
frequência ao nível de ombros e braços.
Fiz um esforço para acompanhar o seu ritmo e o par passou a trio.
Falámos da beleza do local onde corríamos e pouco depois percebi, com espanto,
que o meu companheiro de corrida era cego. Os óculos escuros escondiam dois
olhos que há muito tinham deixado de ver.
Compreendi então a razão dos toques de ombros e braços do casal que
serviam para orientar a corrida do homem de óculos escuros.
Com o devido cuidado tentei encaminhar a conversa para um tema que nos
aproximasse.
-“É rapaz para que idade ? Andou na guerra do ultramar?”
Respondeu sem qualquer tipo de problemas.
Tinha menos 10 anos do que eu, que na altura já tinha passado dos 65, e
tinha combatido em Moçambique, onde em 1974 tinha sido vítima de uma mina
anti-carro. O seu rebentamento tinha-lhe causado ferimentos graves na cara, com
a perda completa de visão dos dois olhos. A sua mão direita tinha ficado em tão
mau estado que obrigou à amputação.
Já tinham passado mais de vinte anos e a bonita senhora de traços
asiáticos era a sua companheira.
A partir desse momento a conversa não mais parou e quase se pode dizer
que nesse dia falámos mais do que corremos.
A aproximação entre ex-combatentes, dos que “andaram por lá” e falam a
mesma linguagem, rapidamente se torna fluida e arrebatada. Combinámos um
encontro para o dia seguinte e repetimos a corrida e a conversa, que nos
aproximou mais um pouco.
No final desse segundo dia parecia que já nos conhecíamos há anos.
Despedimo-nos com um amistoso e prolongado abraço.
O casal ia viajar no dia seguinte mas contava voltar dentro de 2 ou 3
semanas à praia do litoral Oeste, onde nos tínhamos conhecido.
Passaram 15 dias.
No final de uma manhã de praia, quando ia comprar o jornal, vi do outro
lado da rua, a cerca de uns dez metros, o casal: o homem alto de óculos escuros
e a senhora bonita de traços asiáticos.
Gritei-lhes com entusiasmo: - "Oh Zé Arruda, Zé Arruda, estás por
cá outra vez?”
O homem de óculos escuros virou-se rapidamente e respondeu ao meu grito
:- “JERO, és tu JERO, estás bom?!”.
Fiquei momentaneamente sem palavras . Tinham passado duas semanas e ele
“identificou-me” numa fracção de segundo!
Trocámos um abraço apertado. “Grande Zé Arruda!”.
Nos dias seguintes voltámos a correr e a conversar. A conversar e a
correr.
Acabou o verão e voltámos às nossas vidas.
O tempo passou e não mais encontrei o Zé e a sua bonita companheira, que
lhe dava vista na vida.
De vez em quando via-o na televisão e recordava com a minha mulher a
história do grito de São Martinho do Porto. Que me tinha ficado gravado na
alma.
Ontem vi de novo o Zé na SIC, a ser entrevistado pelo jornalista Mário
Crespo.
O José Arruda estava nos ecrãs da televisão na qualidade de
Presidente da ADFA - Associação de Deficientes das Forças Armadas e no final da
entrevista anunciava aos seus pares a boa nova.
«O Governo tinha decido manter sem cortes todos os subsídios dos
deficientes das Forças Armadas, levando em conta as “entregas” já feitas no
passado de olhos, braços, pernas, mãos e pés… em nome da Pátria.”
Gostei muito de ver o Zé. Está igual.
É claro que nunca mais vou esquecer o seu grito: ”JERO, és tu JERO.”
Sou, e esse grito é uma das “condecorações” da minha vida de
ex-combatente. Está no meu coração. Para sempre.
Zé Arruda, mando-te um grande abraço de Alcobaça.
Que Deus te
guarde.
JERO
-------------------------------------------------------------------------------
Reencontrei o Zé Arruda na inauguração na Praça da Associação de Deficientes das Forças
Armadas, em Alcobaça, junto à Rotunda da Fundação Maria e Oliveira (26 de Maio de 2013).
E recordei-lhe a história do nosso encontro em
São Martinho do Porto. «És tu Jero? Estás com quantos anos?
Falámos 2 minutos porque havia muita gente à
volta dele. Mas foi , para mim, um grande prazer. O Zé Arruda é um ser humano à
parte! Diferente…para melhor !
JERO
sábado, 1 de junho de 2013
M-447 SERVIÇO DE URGÊNCIAS
Os
homens e mulheres de ”bata branca” também choram…
A história de vida que se
segue nunca antes foi contada em jornais.
A enfermeira Lucília Assunção já não recorda nomes. Passaram muitos
anos. Mais de trinta.
Mas uma noite de gritos, de choros lancinantes, de lágrimas no Serviço
de Urgências do Hospital de Alcobaça ainda continua presente num recanto da sua
memória.
Vivia os seus primeiros tempos de enfermeira.
Estava de serviço, nas
“Urgências”, com o Dr. José Pedrosa.
Chegou uma ambulância. Três macas deram entrada no “Banco”. Um miúdo de uns
8 ou 9 anos e dois idosos, seus avós, eram já cadáveres. Confirmados os óbitos
os corpos seguiram para a morgue, que ficava perto.
Logo a seguir, num veículo ligeiro, chegou um casal jovem. Os pais do
miúdo. Confrontados com a situação ficaram estarrecidos. Desesperados,
inconsoláveis.
Perante tal perda que dizer e que fazer àqueles pais !?
A enfermeira Lucília recorda que eram pessoas do norte do País. De que
vila ou cidade já não se consegue lembrar. O avô seria Juiz de Direito.
O pai do miúdo tinha estado algum tempo fora de Portugal e a sua família
tinha vindo esperá-lo ao aeroporto de Lisboa.
Depois dos abraços e da alegria
do reencontro tinham encetado a viagem de regresso em dois carros.
Os avós e o neto num carro e o
jovem casal noutro.
Quando passavam na região de Alcobaça um dos carros despistou-se e bateu
violentamente contra uma árvore (!?).
Os bombeiros foram chamados e trouxeram as vítimas para o Hospital.
Seguiu-se o reencontro do jovem casal com os seus familiares. O médico e
a enfermeira fizeram o que sabiam - e
não sabiam – para os acalmar e confortar.
A certa altura enfermeira Lucília Assunção não aguentou mais e saiu
momentaneamente da sala. Foi chorar para trás de um biombo. O médico
apareceu-lhe pouco depois e disse-lhe:« Então senhora enfermeira? A chorar?
Preciso de si lá dentro . E sem lágrimas.»
A enfermeira voltou. E continuou a tratar dos vivos. Foi uma noite
longa.
Quando terminou o serviço e
voltou a sua casa não conseguiu dormir um minuto.
No dia seguinte conversando com a mulher do Dr. Pedrosa, que também
trabalhava no hospital, esta comentou. “Ontem foi mesmo um dia trágico. Nunca
vi chegar a casa o meu marido assim. Quando chegou disse-me logo. Nunca mais os
nossos filhos vão viajar noutro carro que não seja o nosso. Não pregou olho
toda a noite.”
O tempo passou. E muitas noites de “urgências” se seguiram. Mas tão
dramática como aquela em que o seu “chefe” a tinha chamado à atenção por estar
a chorar…não voltou a acontecer.
Mas de uma coisa tem a certeza
… que os
homens e mulheres de ”bata branca” também choram.
Mas tentam não o fazer à vista
dos que necessitam dos seus serviços.
Porque faz parte do seu trabalho
evitar as lágrimas dos outros.
As suas…ficarão sempre para outro
...
De preferência…sem ninguém por perto !
JERO
domingo, 14 de abril de 2013
M -446 CARREGAR A MORTE DURANTE 23 HORAS...
Memória de um dia com uma longa noite…
José Peça
Figueiredo nasceu há cerca de 71 anos em Bemposta-Alcobaça e, em termos
profissionais, divide a sua vida em 2 tempos: trabalhou 20 anos nas Termas na
Piedade e nos 21 anos seguintes na Acessor, firma ligada ao ramo automóvel.
Nos seus tempos de militar era
conhecido pelo “Alcobaça.
O dia 5 de Julho de 1963 foi o dia mais longo da sua vida. À distância do tempo recorda esse dia… ao minuto. Era Soldado Condutor do Batalhão 400 em Angola.
O dia 5 de Julho de 1963 foi o dia mais longo da sua vida. À distância do tempo recorda esse dia… ao minuto. Era Soldado Condutor do Batalhão 400 em Angola.
A cerca de 12 kms. de Bessa Monteiro uma viatura
da coluna militar do seu Batalhão rebentou uma mina anti-carro, registando-se
diversos mortos e feridos.
O “Alcobaça” passado algum tempo foi chamado
pelo seu Comandante , Ten. Coronel Freitas Costa.
-“Alcobaça” vai jantar e depois levas os mortos
a Ambrizete”.
Ambrizete ficava a 200 kms. mas tinha cemitério
e uma Igreja, onde se podiam fazer os funerais.
Algum tempo depois apresentou-se com a sua “GMC”
junto ao Comando e carregaram-lhe, em maca, os 3 mortos.
O Ten. Coronel entregou-lhe os galões do Capitão
Borges e disse-lhe em voz baixa que os voltasse a colocar no corpo do Oficial
quando tivesse chegado ao seu destino.
- E quem vai comigo, meu Comandante?
- Ninguém. Vais sozinho pois já chega os mortos
que tivemos. Se houver outra mina só teremos mais uma baixa e não duas.
Pôs o motor a trabalhar e arrancou, seguido por
duas viaturas com uns 12 militares comandadas por um Furriel. Eram umas seis da
tarde.
Ainda havia luz de dia mas pouco depois começou
a escurecer.
O “Alcobaça” não acendeu os faróis mas ligou os
“olhos de gato” da “GMC”. Em marcha lenta, pois nalguns troços da “picada” os
homens do Furriel Tavares seguiam apeados,
chegaram a Baca por volta das 4 da manhã.
Tinham sido precisas cerca de 10 horas para percorrer
22 quilómetros!
Foram carregados os mortos da outra Companhia “392”- que eram 3 - e a coluna “funerária”
seguiu a caminho de Ambrizete.
Só, na sua cabine, nem uma vez o Zé Peça olhou
para trás, para a sua ”carga”.
As
sombras da noite foram clareando e quando o amanhecer chegou o seu ânimo
melhorou um pouco…
Eram 5 da tarde quando chegaram a Ambrizete.
Tinham passado cerca de 23 horas desde que
tinham saído de Bessa Monteiro!
Os corpos começaram a ser descarregados e o
“Alcobaça” apressou-se a pôr os galões no cadáver que lhe pareceu ser o do
Capitão Borges. Os corpos estavam inchados, cobertos de pó, de moscas
e…irreconhecíveis. O Zé Peça teve dúvidas mas… não conseguia olhar mais tempo
os mortos.
No dia seguinte atestaram-lhe a sua GMC com
géneros. Carregou sacos de arroz, feijão, grão, batatas, conservas e barris de
vinho.
Não houve problemas no regresso a Bessa
Monteiro.
Quando chegou ao aquartelamento pensava que ia
encontrar a malta toda em lágrimas.
Foi recebido com gritos de satisfação. Olha o
“Alcobaça”!
Num grupo tocava-se acordeão e dançava-se…
Parecia que nada de anormal se tinha passado 2
dias antes.
O “Alcobaça” percebeu que a guerra é mesmo
assim.
Ai dos que partem!
Passar uma noite a conduzir… a morte… foi uma
amarga experiência. Quase a meio século de distância o dia 5 de Julho de 1963
foi o dia mais longo da sua vida.
JERO
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De vez em quando uma história da vida
sexta-feira, 12 de abril de 2013
M - 445 PARA A MISERICÓRDIA DE ALCOBAÇA
Senhoras, senhores
Quem
Nunca sentiu a alegria
e o bem que faz fazer bem;
quem não viveu algum dia
o goso espiritual
de se aproximar de Deus
- negação de todo o mal,
que se alberga sob os céus;
quem não cumpre entre os humanos
o seu dever bem cumprido,
pode até viver mil anos
que morre sem ter vivido!
Diz o Povo, onde os mais nobres
preceitos marcam lição,
que aquele que dá aos pobres,
empresta a Deus. Porque não?!
Deus existe em toda a parte;
Em todas almas cabe!
E, porque assim se reparte,
Tudo vê e tudo sabe.
Arrancar do coração
qualquer semente ruim.
que nos leve a dizer não
quando é justo dizer sim;
pagar o mal com o bem
sem reservas, que é mesquinho,
não custa nada a ninguém
e é ser Deus um bocadinho!
Ai dos que prevaricarem!...
O caminho de mais luz
É o da recta. Reparem
Nas linhas rectas da Cruz !
Nós somos aqui por bem.
Guiou-nos o coração,
Para acudirem a quem
Não tem saúde nem pão.
Deus é connosco, por certo,
Nesta hora que se esfuma.
Vindos de longe ou de perto,
Bem hajam todos, à uma!
E por quanto desgraçado,
Vai, por vós, ser socorrido,
Senhoras, - muito obrigado;
Senhores, a agradecido.
Silva Tavares.
22-11-951
(A minha humilde homenagem aos 450 anos da Misericórdia de Alcobaça)
JERO
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Subsídios para a história de Alcobaça
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