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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

M- 454 «FECHEM A PORTA QUE ESTÁ FRIO»

O TIBÚRCIO
À distância no tempo recordo um “homem feito” que dormia na rua e que fazia a sua higiene matinal numa “fonte” situada aos pés da estátua de São Bernardo, na Praça da República.
Na então vila de Alcobaça o Tibúrcio era muito conhecido. Por variadas razões mas principalmente por estar sempre na rua...e por todo o lado!
Na aldeia onde nasceu poucos tinham o que precisavam e o caso dele não foi exceção. Pior do que isso, o Tibúrcio saltou para a vida sem as defesas suficientes e rapidamente se integrou nos desprotegidos da sorte. E deu tanto “nas vistas” que alguém, bem-intencionado, o meteu num asilo de mendicidade.
 “Ajuda” que não resultou.
Como “ave de campo não quer capoeira”, logo ao segundo dia, o Tibúrcio fugiu para bem longe, só regressando alguns meses mais tarde, depois de lhe terem garantido que não teria de voltar para o que considerava ser pior do que a cadeia.
Pelo tempo fora, foi vivendo incertamente, amigo dos gatos e dos  cães, com os quais partilhava escassos pães ou minguadas sopas que algumas almas generosas lhe  abonavam.
Trabalho ou ofício fixos nunca teve porque não aceitava cumprimento de horários. Mas não era preguiçoso. 
Chegou mesmo a montar caixa de engraxador  junto à Farmácia Campeão. Por vezes, acontecia que um ou outro cliente saía com peúgas e sapatos engraxados por igual… E, vá lá saber-se porquê, esse “bónus” não agradava à generalidade das pessoas. Encerrou esses “negócio” e optou por fazer recados. 
Porque o Tibúrcio não mendigava, limitava-se a oferecer a sua força de trabalho.
Quando a paga era boa, ala para o Beco do Grilo, onde numa tasca “à maneira” matava velhas sedes, até ficar um pouco zonzo.
Numa noite invernosa foi surpreendido pela chuva e como estava perto do Hospital refugiou-se na casa mortuária, onde terá entrado por a porta estar mal fechada… Aconchegou-se a um canto e adormeceu.
Altas horas da madrugada duas auxiliares de enfermagem - de apoio ao banco de urgências - tiveram a desagradável incumbência de transportar a vítima mortal de um acidente para a casa mortuária. Carregaram o cadáver numa maca até ao local. Abriram e porta e um grito inesperado vindo do fundo da sala quase as matou: «fechem a porta que está frio». Fugiram esbaforidas… e o Tibúrcio teve que se levantar mais cedo.
 À distância no tempo, já um pouco desvanecido na bruma da distância, não o esqueço.
 É só passar pela “fonte” situada aos pés da estátua de São Bernardo… e lá está ele!

JERO

domingo, 2 de junho de 2013

M -448 JOSÉ ARRUDA UM SER HUMANO ESPECIAL

REENCONTREI O ZÉ ARRUDA, PRESIDENTE DA A.D.F.A.

Há um bom par de anos corria habitualmente cerca de 40 minutos no areal de uma praia do litoral Oeste. Do cais até à foz do rio de Salir eram cerca de dois quilómetros.
Numa das minhas habituais sessões de jogging do mês de Agosto avistei um casal que corria em sentido contrário. Aproximaram-se rapidamente e pelo seu ritmo solto, com passada leve e bem ritmada, deu para perceber que eram corredores de “alta manutenção”, numa forma bem melhor que a minha.
O homem era alto, de cabelo grisalho e usava óculos escuros. Durante a corrida amparava com o braço direito o coto do outro braço, pois era amputado da mão esquerda. A senhora era um pouco mais nova e tinha no seu rosto bonito traços achinesados.


Corriam a par, muito próximos um do outro, e pareciam tocar-se com frequência ao nível de ombros e braços.
Fiz um esforço para acompanhar o seu ritmo e o par passou a trio. Falámos da beleza do local onde corríamos e pouco depois percebi, com espanto, que o meu companheiro de corrida era cego. Os óculos escuros escondiam dois olhos que há muito tinham deixado de ver.
Compreendi então a razão dos toques de ombros e braços do casal que serviam para orientar a corrida do homem de óculos escuros.
Com o devido cuidado tentei encaminhar a conversa para um tema que nos aproximasse.
-“É rapaz para que idade ? Andou na guerra do ultramar?”
Respondeu sem qualquer tipo de problemas.
Tinha menos 10 anos do que eu, que na altura já tinha passado dos 65, e tinha combatido em Moçambique, onde em 1974 tinha sido vítima de uma mina anti-carro. O seu rebentamento tinha-lhe causado ferimentos graves na cara, com a perda completa de visão dos dois olhos. A sua mão direita tinha ficado em tão mau estado que obrigou à amputação.
Já tinham passado mais de vinte anos e a bonita senhora de traços asiáticos era a sua companheira.
A partir desse momento a conversa não mais parou e quase se pode dizer que nesse dia falámos mais do que corremos.
A aproximação entre ex-combatentes, dos que “andaram por lá” e falam a mesma linguagem, rapidamente se torna fluida e arrebatada. Combinámos um encontro para o dia seguinte e repetimos a corrida e a conversa, que nos aproximou mais um pouco.
No final desse segundo dia parecia que já nos conhecíamos há anos.
Despedimo-nos com um amistoso e prolongado abraço.
O casal ia viajar no dia seguinte mas contava voltar dentro de 2 ou 3 semanas à praia do litoral Oeste, onde nos tínhamos conhecido.
Passaram 15 dias.
No final de uma manhã de praia, quando ia comprar o jornal, vi do outro lado da rua, a cerca de uns dez metros, o casal: o homem alto de óculos escuros e a senhora bonita de traços asiáticos.
Gritei-lhes com entusiasmo: - "Oh Zé Arruda, Zé Arruda, estás por cá outra vez?”
O homem de óculos escuros virou-se rapidamente e respondeu ao meu grito :- “JERO, és tu JERO, estás bom?!”.
Fiquei momentaneamente sem palavras . Tinham passado duas semanas e ele “identificou-me” numa fracção de segundo!
Trocámos um abraço apertado. “Grande Zé Arruda!”.
Nos dias seguintes voltámos a correr e a conversar. A conversar e a correr.
Acabou o verão e voltámos às nossas vidas.
O tempo passou e não mais encontrei o Zé e a sua bonita companheira, que lhe dava vista na vida.
De vez em quando via-o na televisão e recordava com a minha mulher a história do grito de São Martinho do Porto. Que me tinha ficado gravado na alma.
Ontem vi de novo o Zé na SIC, a ser entrevistado pelo jornalista Mário Crespo.
O José Arruda estava nos ecrãs da televisão na qualidade  de Presidente da ADFA - Associação de Deficientes das Forças Armadas e no final da entrevista anunciava aos seus pares a boa nova.

«O Governo tinha decido manter sem cortes todos os subsídios dos deficientes das Forças Armadas, levando em conta as “entregas” já feitas no passado de olhos, braços, pernas, mãos e pés… em nome da Pátria.”
Gostei muito de ver o Zé. Está igual.
É claro que nunca mais vou esquecer o seu grito: ”JERO, és tu JERO.”
Sou, e esse grito é uma das “condecorações” da minha vida de ex-combatente. Está no meu coração. Para sempre.
Zé Arruda, mando-te um grande abraço de Alcobaça.
Que Deus te guarde.
JERO
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Reencontrei o Zé Arruda na inauguração na Praça da Associação de Deficientes das Forças Armadas, em Alcobaça, junto à Rotunda da Fundação Maria e Oliveira (26 de Maio de 2013).
E recordei-lhe a história do nosso encontro em São Martinho do Porto. «És tu Jero? Estás com quantos anos?
Falámos 2 minutos porque havia muita gente à volta dele. Mas foi , para mim, um grande prazer. O Zé Arruda é um ser humano à parte! Diferente…para melhor !
JERO


domingo, 19 de agosto de 2012

M - 430 GENTE NOVA


TIPO TÁS A VER…
Uma viagem num autocarro da Rodoviária Nacional Lisboa – Alcobaça demora cerca de uma hora e cinquenta. 
Em passado recente fui passageiro num autocarro que saiu de Lisboa completamente lotado. 
Ocupei o nº. 32 e a meu lado, no lugar nº.31, viajou uma adolescente que ,à primeira vista, me pareceu poder ter uns 14 ou 15 anos de idade.
 Vestia o “uniforme” que a maioria das jovens utiliza nos tempos actuais: blusa de cor, calções curtos justos e a habitual parafernália de colares, brincos e anéis.
 O “conjunto” era complementado com um “piercing” na narina esquerda.
 Num pequena mala de mão levava um moderno telemóvel que consultou durante a viagem vezes sem conta. Em telefonemas e mensagens.
Era capaz de apostar que durante toda a viagem o telemóvel deverá ter estado em “sossego” aí uns dez minutos.
Por viajarmos em proximidade ouvi – inevitavelmente - os seus telefonemas. 
Confesso que a linguagem usada era tão estranha que nos primeiros telefonemas tive dúvidas se a jovem estaria a falar algum dialecto de alguma região do país que eu desconhecesse, tipo mirandês ou minderico.
A partir de certa altura cheguei à conclusão que era uma” espécie” de português.
“Bué” foi utilizado vezes sem conta.
 ”Tipo tás a ver” repetidas vezes .
 Cada novo telefonema começava com um “continuando”. 
Os quilómetros iam sendo percorridos e a jovem juntou a conversa alguns palavrões, que me dispenso de reproduzir, parecendo completamente esquecida que viajava junto de um adulto “tipo avô, tás a ver”!!!
As surpresas continuavam.
 Um amigo estava “bêbado” em tal dia e …ela também estava bêbada em outra ocasião. 
Isto era referido a uma amiga. 
O tal amigo, que era uma ano mais velho e tinha 15 anos, curtia uma nova namorada “bué” de feia, tipo estás a ver…
E os telefonemas não paravam.
 A excepção foi quando telefonou a uma pessoa de família (pai ou avô) para informar que estava a chegar. Este telefonema para a família deverá ter demorado uns 10 segundos !
 Pois havia que reatar a conversa telefónica com a amiga. ”Continuando…” 
Antes de sair do seu lugar ainda prometeu à amiga que telefonaria logo à noite (estávamos em cima das 21h00) e informou que tinha voltado a fumar !!!
Fiquei só com os meus pensamentos e fui-me questionando.
 Como é que estes jovens poderão ler, aprender a falar português – a tal língua de Camões – utilizando a cada passo aquele “dialecto” repleto de bués, tipo estás a ver ???
Senti-me confuso. Muito confuso.
Está claro que sou eu que estou a mais neste “estado novo” de gente jovem !
Que fazer !?
Não sei.
 Mas parece-me, sinceramente, que se não forem os pais a estarem mais atentos a esta gente jovem eles irão “crescer” mal…
Muito mal, com bué de problemas.
Digo eu.
Que sou d'outros tempos...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

M - 425 MEMÓRIAS DA ADOLESCÊNCIA


A mulher que se “matou” à minha frente…
Teria na altura 15 ou 16 anos. 
Frequentava o antigo 5º.ano do Liceu e voltava para casa depois de um dia rotineiro.
 Até a Professora de Inglês nos tinha ameaçado com o “8” habitual – as notas eram então de 0 a 20 – porque não estudávamos nada, porque eras uns cábulas, etc, etc. 
Quando cheguei à ponte junto da casa do Dr.Neves vi muita gente a correr e a gritar. Apressei o passo e quando me foi possível ver alguma coisa tive a surpresa de ver uma jovem mulher que tinha saltado da ponte para o rio.
 Tinha água pela cintura mas caminhava em direcção à represa, para águas mais profundas.Adivinhava-se que era um acto de desespero e que a mulher se queria afogar!
Os minutos seguintes ficaram-me gravados na memória. Até hoje. E já passaram mais de 50 anos.
Toda a gente gritava. Toda a gente apontava para a mulher e esperava que o “outro” fizesse alguma coisa…Eu, miúdo do 5º.ano., perguntava-me porque ninguém fazia nada e…ia arranjando argumentos para não me sentir “culpado”. Afinal estavam ali ao meu lado homens feitos…Era preciso dar um salto de uns 2 a 3 metros de altura para o rio e impedir que a mulher se afogasse. Lentamente a mulher, agora já debaixo da ponte, caminhava para a morte. Mais gritos, mais braços no ar e …ninguém fazia nada. A mulher parou. Só tinha a cabeça fora de água. Parecia não olhar para ninguém.
 E de repente …alguma coisa mudou. Os gritos dirigiam-se agora para um homem que ,vindo de um armazém próximo, com escadas que davam para o rio já estava dentro de água. Os gritos agora eram de entusiasmo e de ânimo. “Força pá. Agarra-a, agarra-a”. O homem, seguindo encostado à margem, aproximou-se rapidamente da mulher e conseguiu agarrá-la, retirando-a da zona mais profunda. Foi um momento emocionante com os “mirones” a aplaudir.
 De um minuto para o outro toda a gente arranjou coragem para dizer que estava mesmo à beira de saltar e que ninguém deixaria a jovem mulher morrer…
 Também fiz qualquer “negócio” comigo mesmo …para me libertar da sensação de culpa.
Falou-se depois que o acto de desespero esteve “ligado” a um desgosto de amor.
 A jovem mulher nunca mais foi a mesma.
 Ficou solteira para a toda a vida e vive sozinha. 
Continuo a vê-la na sua rua, parecendo quase sempre alheada do mundo e a falar sozinha.
 Uma irmã e o cunhado garantem-lhe o sustento.
Vejo-a muitas vezes a dar de comer aos pombos.
 Recentemente tirei-lhe uma fotografia. Nem me viu. Ainda é uma mulher bonita.Com os cabelos completamente brancos. Usa sempre um chapéu.
 Não fala, não vive. 
Continua a olhar para longe.
 Da mesma maneira que a recordo no dia em que saltou para o rio.
Não mais esquecerei aqueles minutos.
 Senti necessidade de escrever esta história de vida. Para lhe pedir desculpa…
 Julgo que o empregado dos armazéns junto ao rio que a salvou…já partiu. Também lhe quero agradecer.
Agarrou-a nesse dia longínquo.
 E já passaram mais de 50 anos. 
Mas a mulher sem o “seu” amor… não mais quis viver.

Amanhã estará no sítio do costume a dar de comer aos pombos.
Bem me apetecia passar por perto e dizer-lhe alguma coisa.
Mas o quê? 
Há-de ocorrer qualquer coisa...
Até sempre!
JERO

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

M 382 - AS ÁRVORES NEM SEMPRE MORREM DE PÉ...

AS ÁRVORES NEM SEMPRE MORREM DE PÉ…


Este velho carvalho foi deitado abaixo no Outono de 2011.
Depois de um longo e ardente Verão ,que entrou por Outubro adentro, as primeiras chuvas e ventanias que prenunciaram o próximo Inverno derrubaram o velho carvalho do “Casal Maria Dias”, nas proximidades de Turquel.
Este velho e imponente carvalho foi notícia em O ALCOA, no seu nº. 2060, de 12 de Junho de 2003, numa rubrica titulada “Clube de Caminheiros de Alcobaça”, que promovia o exercício físico e o conhecimento das belezas da região de Alcobaça.
Era também então referido o “Roteiro Cultural da Região de Alcobaça”, que exactamente num dos seus “capítulos” valorizava a paisagem e os passeios a pé.
No artigo do quinzenário de Alcobaça referia-se que esta espécie de carvalho chega a atingir 2.000 anos de existência e que a monumental espécie florestal da “Casal Maria Dias” remontaria aos tempos da batalha de Aljubarrota, o que significaria ter a provecta idade de 600 anos…
Era uma árvore frondosa com uma copa de cerca de 20 metros de diâmetro e que na sua base tinha um diâmetro que só quatro adultos de mãos dados poderiam abraçar.
Derrubado pelas intempéries deste Outono, que começa a ser agreste, o velho carvalho jaz agora ao nível do solo…a caminho do fim.


Vai no entanto ficar na nossa memória…


E aqui é difícil não recordar a maravilhosa representação de PALMIRA BASTOS na peça de teatro “As árvores morrem de pé”.
Nunca mais esqueci a cena magistral que fazia a plateia levantar-se num aplauso tremendo, capaz de fazer vir abaixo o teatro Monumental.
Aquela estatura meã e aparentemente frágil de Palmira Bastos, batendo vigorosamente com a bengala e sentenciando de forma loquaz: “Morta por dentro, mas de pé. De pé, como as árvores!”.
Aconteceu em 1966 e foi transmitido para milhões de telespectadores pela RTP.


Na vida real o que pode ficar de pé,vivo, com maior ou menor destaque, é o que ficar editado, registado ...para memória futura! 


Do carvalho, de que teriam brotado os primeiros ramos e folhas quando por ali perto  passaram os exércitos que se defrontaram com violência inaudita na cumeeira de Aljubarrota, irão restar por algum tempo folhas e ramos , que vão secar lentamente no Outono…das nossas vidas.
Mas a sua memória...aqui fica.


JERO


Fotos de Sara Susano em 2011 e  de JERO em 2003.

terça-feira, 11 de maio de 2010

M 248 - RECORDAR É VIVER...

LOUREIRO, OLIVEIRA E PASSADOS…

Nem sempre o que parece é !
Nesta história de vida, que nos propomos dar à estampa ,o Loureiro, o Oliveira não são árvores mas apelidos de dois ex-militares que se conheceram na Guiné na década de 60.
Também nesta história os “passados” nada têm a ver com os frutos secos, que se costumam comer a partir do final do Outono, mas com “tempos” diferentes de vida…
Aqui os passados reportam-se a tempos recentes e distantes que circunstâncias diferentes da vida fizeram cruzar…
Em passado recente , mais propriamente no passado dia 9 de Maio, o Loureiro e o Oliveira encontraram-se em Mafra, na E.P.I. (Escola Prática de Infantaria) num convívio de ex-militares da sua Companhia da Guiné.
Cabe aqui esclarecer, para os menos conhecedores do “meio”, que estes convívios são muito frequentes de norte a sul do País e a maioria deles ocorre durante o mês de Maio.
O Loureiro e o Oliveira estiveram assim no 44º. Convívio da C.Caç. 675, que foi a “família” de 170 jovens militares no período de 1964 a 1966.
Em relação à viagem de regresso - de Bissau a Lisboa em 3 de Maio de 1966- já lá vão portanto 44 anos…
Regressando a esse passado distante é tempo de dizer que o Loureiro é natural da Marinha Grande. O responsável por estas linhas – o tal Oliveira do título – é de Alcobaça.
Personalizando…
o facto de sermos vizinhos na vida civil facilitou a nossa proximidade “militar”numa relação que, a correr bem, ia durar pelo menos dois anos.
O Loureiro - Leonel João Gil Loureiro de seu nome completo – era o Furriel das Transmissões. O facto de na sua missão ser obrigado a sigilo, por lidar com informações e documentos confidenciais, explica (de algum modo) o seu comportamento reservado para com a maioria dos camaradas. Independente disso era de facto um tipo “fechado”, mas com quem sempre tive um bom relacionamento. Não muito íntimo mas um relacionamento leal e amigo, que norteou a nossa vivência num aquartelamento de dimensões reduzidas.
Foi pois com surpresa que descobri em 9 de Maio de 2010 um Loureiro que falou de si e da sua vida – sem parar – mais de uma hora.
E aconteceu por motivos imprevistos .Avaria do carro do Loureiro que obrigou a uma viagem a dois.
Obviamente que, logo que soube que o Loureiro estava “apeado”, lhe ofereci uma boleia até aos nossos sítios, pois continuamos a viver nas terras onde nascemos – Alcobaça e Marinha Grande, separadas por 30 kms. -.
E foi nessa viagem de retorno às origens que conheci um “novo”Loureiro.
Bem mais velho que o dos tempos da Guiné mas “novo”… porque já não se mostrava “fechado”.
Quarenta e tal anos depois de Binta estava sentado no meu carro ,ao meu lado, um Loureiro que falava “pelos cotovelos”…
O Loureiro falou, falou…e durante 100 Kms. quase que não abri a boca.
Fiquei a saber que o Loureiro teve desde jovem uma vida dura. Nascido na Marinha Grande passou, como muita gente do seu tempo, pelas “artes do fogo”, trabalhando na indústria vidreira...
Viveu portanto ,desde cedo, à entrada do “inferno”…pois quem se iniciava na indústria passava longas horas nas proximidades dos fornos, que cozem a altas temperaturas.
Estudou durante a noite num curso de comércio. Conseguiu arranjar um emprego melhor mas nunca teve uma vida desafogada.
Em termos familiares passou por grandes traumas.
Seu pai, vítima de doença prolongada, pôs fim à vida. E sua mãe faleceu meses depois quando o Loureiro já cumpria serviço militar na Guiné.
Nesta fase do seu regresso ao passado o Loureiro confessa o desgosto por não se ter despedido da sua mãe.
Não o fez simplesmente …porque não foi capaz.
Sabia que lhe ia dar um grande desgosto e… encarregou uma tia ,com quem tinha uma relação muito próxima, de informar a mãe que ia para a guerra do Ultramar .
E só escreveu à mãe…quando já estava na Guiné !
E foi em Binta, no Norte da Guiné, que veio a receber a dolorosa notícia da morte da sua mãe.
O Furriel Loureiro refugiou-se no seu trabalho de transmissões e aguentou o desgosto sozinho.
Como amigo, e também como enfermeiro, não me lembra de um único queixume do Loureiro. Era rijo o homem da Marinha Grande…
Cumpriu os seus dois anos de Guiné e, quando regressou, apressou-se a cumprir o doloroso dever de visitar a campa de sua mãe. Na Marinha Grande, na terra onde tinha visto pela última vez viva a sua mãe. Mãe de que não se tinha despedido…
Depois…começou “as lutas” da vida civil.
Novo emprego, casamento, pequeno empresário, filhos, divórcio…Altos e baixos numa vida de luta…
Voltava “à guerra” uma vez por ano nos convívios da sua Companhia da Guiné.
E os anos iam passando.
Em 1989 morre uma sua irmã. Em relação à morte da sua mãe tinham passado 24 anos.
O Loureiro sentiu de novo na pele o desgosto da perda de mais um familiar. No dia do velório da sua irmã resolveu a certa altura ir ao cemitério para ver como estavam a correr as coisas.
Chegou junto do coveiro que estava a abrir a cova para a sepultura da sua irmã.
O coveiro interrompeu o seu trabalho e disse ao Loureiro que havia um problema.
-Olhe que se calhar vamos ter que atrasar o funeral. Acabei de encontrar o caixão da sua mãe que está “inteiro”.Não vai caber aqui outro caixão.
O Loureiro ficou sem palavras e sem saber o que fazer.
Ali estava, à vista, o caixão de sua mãe… de que ele não se tinha despedido…
Passou-lhe uma coisa pela cabeça e pediu ao coveiro para abrir a tampa do caixão.
Foram momentos em que quase não respirou.
Retirada a tampa do caixão viu o corpo da sua mãe. Inteiro. Mirrado mas sem sinais de decomposição.
Até tirei as mãos do volante e …disse finalmente alguma coisa.
Eh pá ,que coragem tivestes !
O Loureiro continua e descreve o momento com tranquilidade.
- Parecia que tinha estado ali todos aqueles anos à minha espera. Consegui finalmente despedir-me da minha mãe e… senti uma paz imensa…
Questionei o meu amigo e companheiro da C.Caç. 675:
- Vês alguma coisa de místico, de sobrenatural no facto do corpo da tua mãe estar intacto?
- Eh pá não pensei nisso. Não sei explicar. Naquele dia senti que tinha que ir ao cemitério antes do funeral. E vi a minha mãe. E ganhei uma paz que não tinha…
Pensei cá com os meus botões :
- Para um tipo calado, fechado que nem uma ostra, naqueles cento e poucos quilómetros que tínhamos percorrido juntos, o Loureiro tinha falado mais que em dois anos de Guiné!

Quarenta e tal anos …conheci um novo Loureiro.
Despedimo-nos com um grande abraço e com uma fotografia. Para mais tarde recordar…
A história está a chegar ao fim.
Apesar de algumas referências à morte acho que é uma extraordinária história de vida…
Quanto ao futuro…costuma dizer-se que a Deus pertence.
No dia do convívio da C.Caç. 675 ouvi dizer (e fixei…) que só tem futuro quem honra o passado…
Acho que o Loureiro o fez.
Em nome do passado – e para efeitos futuros – aqui fica o meu testemunho.

JERO

terça-feira, 2 de março de 2010

M203-EM TERRAS COM NOME DE SANTO...

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­Em terras com nome de Santo…passado, presente e …futuro!

Um velho amigo dos tempos da vida militar – um amigo a que quero como a um irmão – está a viver temporariamente na região de Benavente. O meu amigo dos tempos da guerra (Guiné 1964-66) está numa fase complicada da vida. De costas para a família – ou a família de costas para ele – vive muito só. Tem o seu orgulho e não dá parte de fraco. Pelo sim pelo não dois ou três amigos mais chegados andam com olho nele.

Um dia destes visitei-o. Falámos da vida e da morte… O meu amigo contou-me que tinha oferecido o seu corpo a uma Faculdade de Medicina. Olhei-o, sem palavras, e ele explicou-me.

«Quando morrer…não quero nenhum sacana no meu velório a dizer que eu era um gajo porreiro e tal e tal…Que os pariu… Quando eu morrer vou para cima de uma “cama de pedra” na Universidade…para me estudarem…O médico com quem falei começou a tentar animar-me e a levantar algumas dificuldades mas…eu consegui convencê-lo. Disse-lhe que não ia ao médico há mais de vinte anos e que seria portanto um bom caso para estudo. Mas já agora punha umas condições. Só médicas, de preferência jeitosas, é que me podiam mexer no “cabedal”…Esta condição foi aceite e…está tudo tratado.»

Perante esta conversa ,que não deixou de me surpreender, partimos para outras. Recordações de bons velhos tempos tiraram algum dramatismo à inesperada “confissão” do meu amigo.

Fomos dar uma volta pela região, e com o “desenrascanso” a que sempre me habituou o meu amigo dos tempos da Guiné, levou-me a conhecer um “condomínio fechado” da região de Santo Estêvão.. Se era “fechado” mas estava “aberto” podíamos entrar…E entrámos !

Explicou-me o meu amigo que Santo Estêvão, que fica apenas a 50 quilómetros de Lisboa, tem vindo a registar um grande desenvolvimento , o que tem a ver com o loteamento de diversas herdades existentes na zona. Os lotes têm vindo a ser adquiridos maioritariamente por pessoas de fora da região - em especial da região de Lisboa -, para construção de segunda habitação. Entre os “clientes” fala-se de figuras públicas, nomeadamente ligadas ao mundo do futebol. Cristiano Ronaldo é um dos que tem uma vivenda em construção na região. O local é lindíssimo e não me admirava nada que a tendência de “segunda habitação” passasse, dentro de algum tempo, a ser a de habitação permanente.

Passámos por um Campo de Golf – o Santo Estêvão Golf – que viemos depois a saber que tem um lago enorme(14 hectares) implantado num espaço de lazer de cerca de 450 hectares .

Este empreendimento está inserido numa parte da Herdade de Monte dos Condes, chamada Aroeira.

Quando passávamos por estes lados comecei a avistar ao longe um edifício em ruínas com um “traço” muito especial. Pedi ao meu amigo para parar e fui tirar umas fotografias. Nunca tinha visto nada parecido com “aquilo”!

Andámos mais uma centenas de metros e perguntámos a um agricultor que ruínas eram aquelas .«Ah isso é do tempo dos Reis.É muito antigo!«.Fomos à Junta de Freguesia. Mostrámos as fotografias da nossa máquina digital e a atenciosa funcionária não sabia o que era. Fomos à Câmara de Benavente e aqui sim disseram-nos alguma coisa. O que tanto nos tinha surpreendido era um “ovil”.

- E o que era um ovil?

Era um estábulo para ovelhas. No caso - o da Herdade da Aroeira de Manuel Luís Anastácio - teria tido cerca de 2.000 ovelhas. As ovelhas eram guardadas dia e noite por 4 ou 5 “ganhões”…

Para saber mais sobre o assunto teria que encontrar o livro “Santo Estêvão de Benavente – Passado, presente e futuro…”

Não foi fácil mas…como somos teimosos…demos com o livro e(e uns bons 15 dias depois…) fizemos a sua aquisição à Junta de Freguesia de Santo Estêvão ,com a ajuda dos serviços competentes da Câmara Municipal de Benavente.

Já agora vale a pena referir que Santo Estêvão é uma freguesia do concelho de Benavente, com 62,42 km² de área e 1 381 habitantes (2001), com uma densidade de 22,1 habitantes/km²..

Mas voltando ao ovil da Herdade da Aroeira…

Afinal não era dos tempos dos Reis…

«…No início dos anos 40 o dono da herdade, Manuel Luís Anastácio, mandou construir de raiz, um ovil, com capacidade para abrigar 1.000 a 2.000 ovelhas. Respeitou a arquitectura regional tendo em conta a defesa do ambiente .Era um projecto preparado ecologicamente , à frente no seu tempo, para permitir uma ventilação natural permanente do estábulo e ainda a recolha, por gravidade, dos dejectos líquidos do gado. Estes seriam aproveitados posteriormente, para enriquecimento dos terrenos circundantes.»[1]

Parece que existe a vontade de fazer obras de recuperação deste extraordinário conjunto. Esperemos que sim…antes que o tempo dê cabo do que resta…

A tarde chegava ao fim … O ovil da Aroeira tinha tido o mérito de nos ter feito esquecer, por algum tempo,alguns problemas da vida…

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­Foi nesse dia de contrastes um "tempo" de quietude…

Mas pode ser que a paz ainda chegue para os lados do meu “amigo da guerra”…Vamos esperar que sim…

Se isso acontecer teremos que voltar ao ovil da Aroeira para beber um “copo” .À reveria da paz, em honra da vida.

Nessa parte… esta nossa “estória” fica pendente…A aguardar melhores dias…

Que,em nome do passado, Santo Estêvão nos ajude…no presente e no futuro!

JERO



[1] “ (pg.278 do livro “Santo Estêvão de Benavente – Passado, presente e futuro…, da autoria de Maria Conceição Quintas e Vera Dimas.”






sábado, 13 de fevereiro de 2010

M189-CONTRASTES DA VIDA

Estas fotografias foram tiradas com dois minutos de diferença!
Pouco passava das 10 da manhã do passado dia 12 de Fevereiro.
Tinha saído de casa para fotografar as caras larocas das crianças das creches e escolas primárias que tinham marcado nas suas "agendas" uma manhã de máscaras e brincadeira...
A sirene dos Bombeiros de Alcobaça começou a tocar e quem estava junto do Estádio Municipal-como era o meu caso - começou de imediato a ver fumo negro, que parecia não estar muito longe...
Fotografei os mascarados que saíam do "Ninho" indiferentes à agitação de carros e pessoas que subiam a rua em direcção à nuvem de fumo negro ,que não parava de aumentar...
Deixei de ver mascarados e vi gente preocupada com a cena de "guerra" que se avistava para lá do "Modelo", atrás da Estação de Serviço da GALP.Viam-se à distância labaredas e fumo, muito fumo.Parecia ter havido um bombardeamento com "napalm"...
Cheguei perto do incêndio.As sirenes dos carros de bombeiros e carros de polícia enchiam o ar de "uivos" que pareciam chegar às nuvens de fumo, mas nada mdavam.Continuavam negras, o que dava para perceber que o fogo resistia ao ataque das dezenas de bombeiros que tinham acorrido ao local.
Uma boa meia hora mais tarde as nuvens de fumo passaram a cinzento.
Mais uns minutos e pareceu que o incêndio estava dominado.Deu então para falar com responsáveis no local e alguma coisa perceber do que tinha passado.

O incêndio tinha atingido um armazém de pneus na Rua do Janeiro, junto ao Modelo de Alcobaça obrigando à intervenção dos bombeiros das corporações de Alcobaça, Benedita, São Martinho do Porto, Pataias e Nazaré (22 viaturas e 60 voluntários).Cerca de 4 mil pneus novos ou recauchutados da empresa "O.D. Pneus" tinham sido consumidos pelas chamas. As razões do sinistro eram desconhecidas.
Regressámos ao Carnaval dos miúdos das escolas da região ...então já frente ao Mosteiro...
O fogo não tinha sido com eles. Riam e brincavam...Tem ainda muito tempo para as "chatisses" da vida.
Que é feita de contrastes.
Uns brincam...outros têm que apagar fogos...

O rescaldo prologou-se até às 18 horas, altura em que o fogo foi dado como extinto. Só mesmo os bombeiros é que se vão lembrar deste longo dia 12, que deu início do Carnaval de 2010. Os bombeiros e os proprietário da oficina de pneus.
Para eles o rescaldo vai durar muito mais tempo...
Contrastes da vida.
JERO

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

M184-NÓS POR CÁ


Abrigo de paragem de autocarro colocado no meio de uma estrada

Um abrigo de paragem de autocarro, novinho em folha, foi colocado, pela nossa autarquia, recentemente na localidade de Orjo, em Turquel e ainda bem pois era muito necessitado e vêm em benefício da nossa população.

Mas será que no meio de um entroncamento de estradas é o local mais indicado para o colocar?

Fica a dúvida...

Mas que é no mínimo estranho lá isso é! Merece ir para o livro das curiosidades e atracções deste nosso belo país à beira-mar plantado!

Acácio Ribeiro

Correspondente de O ALCOA

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NÓS POR CÁ...também não nos ficamos...

Passámos hoje de manhã(a caminho de Rio Maior) pelo "abrigo" da fotografia e pasmámos.

O que sabíamos por intermédio do Acácio Ribeiro excedeu as nossas piores expectativas...

Se houver um pequeno erro de condução aquele "abrigo"pode ser desastroso!

Sinceramente achamos que vale a pena rever (e mudar de sítio) aquele "melhoramento"...

JERO