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sexta-feira, 12 de abril de 2013

M - 445 PARA A MISERICÓRDIA DE ALCOBAÇA




Senhoras, senhores
                          Quem
Nunca sentiu a alegria
e o bem que faz fazer bem;
quem não viveu algum dia
o goso espiritual
de se aproximar de Deus
- negação de todo o mal,
que se alberga sob os céus;
quem não cumpre entre os humanos
o seu dever bem cumprido,
pode até viver mil anos
que morre sem ter vivido!
Diz o Povo, onde os mais nobres
preceitos marcam lição,
que aquele que dá aos pobres,
empresta a Deus. Porque não?!
Deus existe em toda a parte;
Em todas almas cabe!
E, porque assim se reparte,
Tudo vê e tudo sabe.
Arrancar do coração
qualquer semente ruim.
que nos leve a dizer não
quando é justo dizer sim;
pagar o mal com o bem
sem reservas, que é mesquinho,
não custa nada a ninguém
e é ser Deus um bocadinho!
Ai dos que prevaricarem!...
O caminho de mais luz
É o da recta. Reparem
Nas linhas rectas da Cruz !
Nós somos aqui por bem.
Guiou-nos o coração,
Para acudirem a quem
Não tem saúde nem pão.
Deus é connosco, por certo,
Nesta hora que se esfuma.
Vindos de longe ou de perto,
Bem hajam todos, à uma!
E por quanto desgraçado,
Vai, por vós, ser socorrido,
Senhoras, - muito obrigado;
Senhores, a agradecido.

Silva Tavares.
22-11-951

(A minha humilde homenagem aos 450 anos da Misericórdia de Alcobaça)
JERO

sexta-feira, 1 de julho de 2011

M - 362 OS MELHORES VINHOS DO MOSTEIRO

O Vinho do Mosteiro de Alcobaça

Deve-se à Ordem Cisterciense o desenvolvimento da cultura mediterrânica da vinha e o aperfeiçoamento dos métodos de fabrico do vinho. O vinho dá o sustento ao corpo, mas os excessos podem enlouquecer os homens, tirar-lhes a razão e a regra, para evitar este perigo, ao longo da Idade Média, os vinhos eram quebrados com água. Mas este princípio moral que adulterava a essência do vinho foi-se tornando caduco e o vinho passou a ser apreciado com a natureza do seu espírito.
Falamos agora de Alcobaça, das maneiras de produzir e conservar os vinhos em terras cistercienses.
Os 23 lagares de vinho que o Mosteiro de Alcobaça explorava no século XVIII eram todos de pedra e a espremedura fazia-se sob o sistema de prensa de vara. As 18 adegas eram edificadas sem rumo certo, o que não beneficiava a conservação dos vinhos. Conhecemos a capacidade de armazenamento da adega da Quinta da Gafa, a maior propriedade de vinha do Mosteiro. Entre os 12 tonéis da sua adega e lagar compreendia 36 pipas.
O fabrico e a conservação dos vinhos do Mosteiro eram feitos integralmente em vasilhame de madeira. Nos inventários das suas adegas e lagares não encontrámos nenhuma referência a talhas e potes de receber vinhos. As vasilhas do Mosteiro eram de madeira de choupo, embora também se utilizassem recipientes de castanho. O uso do choupo nas vasilhas vinárias terá comprometido a conservação dos vinhos, mas esta madeira (à semelhança do pinho que se populariza por meados do século XIX) só deve ter sido utilizada para arrecadar vinhos débeis destinados, em grande medida, aos serviçais.
O apresto das vasilhas vinárias era crucial para o sucesso dos vinhos arrecadados. Como nos elucida Frei Manuel de Figueiredo, estes recipientes eram limpos e devidamente emechados.
O fabrico do vinho, na Comarca de Alcobaça, seguia, predominantemente, o método de bica aberta. A exclusividade desta técnica de vinificação não se pode dissociar do regime de monopólio imposto pelo Mosteiro. De facto, a restrição do serviço do lagar pelo espaço de 24 horas inviabilizava a feitura de vinhos de curtimenta, tendo o camponês de se sujeitar a lotar o branco com tintas para lhe conferir um pouco de cor.
As uvas tintas e brancas fermentavam à parte. Concluída a fermentação dos tonéis do branco e dada a primeira trasfega eram adicionadas as tintas de curtimenta para colorir os vinhos monásticos.
O historiador Jean-Louis Flandrin elucida-nos que os vinhos brancos e claretes estavam para o pão alvo como os retintos para o pão de segunda. A cor agia como indicador de posição social, sendo os vinhos retintos e adstringentes impróprios para as Ordens sociais elevadas. A própria cerimónia da Eucaristia pedia um vinho mais claro que o sangue do Senhor para não tornar ainda mais dramático o acto religioso.
Na comarca de Ourém, a vinificação seguia, de igual forma, o sistema de bica aberta. Por cada 20 almudes de branco, deitavam-se 5 almudes de tinta. Esta relação permite calcular a relação de castas brancas e tintas, o que não seria arbitrário extrapolar para a realidade alcobacense.
Quando os vinhos se toldavam, não obstante a acção da trasfega, o que era caso raro nos vinhos de bica aberta, aplicava-se uma colagem. Nas pipas e cascos vertiam sangue de boi e claras de ovos. De seguida, batiam os vinhos rolando os tonéis e aguardava-se o processo de decantação que os agentes de clarificação propiciavam. O sangue de boi (também se utilizava o de carneiro) tinha de ser fresco e as claras, numa média estimada de 24 por pipa, eram batidas previamente. Aglutinada a borra no fundo realizava-se uma nova trasfega.
Para temperar, fortalecer e aromatizar o vinho juntavam-lhes folhelho torrado, cascas de laranja e camoesas (que podiam ser assadas com açucar), casta de pequenas maçãs de aroma e gosto intenso, que conferiam a este licor um sabor frutado.
Os cistercienses também adicionavam arrobe aos seus vinhos. O arrobe, produto já utilizado pelos gregos, cartagineses e romanos, era obtido a partir do mosto de uva fresco que era fervido em lume brando até evaporar cerca de metade a dois terços do líquido. Para além de adubar os vinhos, tinha a função de os conservar, daí constituir uma prática obrigatória arrobar os vinhos que tinham de ser embarcados. Por tonel (equivalente a duas pipas ou superior) acrescentava-se meio almude de arrobe no período em que decorria a fermentação tumultuosa. O arrobe subsistiu nas artes vinárias até a aguardente ocupar o seu espaço. Segundo Frei Manuel de Figueiredo, em toda a Comarca não se chegava sequer a produzir uma pipa de aguardente. De facto, os vinhos só deixam de ser arrobados quando a indústria da destilação fornece aguardentes em quantidade para acudir aos vinhos, o que só se verifica durante a primeira metade do século XIX.
Os vinhos recebiam ainda uma determinada quantidade de sal para impedir a colonização por bactérias.
Os melhores vinhos do Mosteiro eram produzidos nas encostas de Aljubarrota, na Gafa... O palhete cisterciense era um vinho graduado, frutado e aromático que cativava os convivas do Mosteiro.
A história da vinha e do vinho da região de Alcobaça merece ser contada e vivida. O Museu do Vinho, o único Museu que Alcobaça possui, está hoje encerrado. Aguardamos com expectativa que este belo núcleo museológico possa ser reactivado e musealizado para cumprir a missão não só de restituir a memória e dar cimento à identidade regional, como potenciar o turismo cultural, filão que continua a ser minimizado numa época de tantas necessidades.

António Valério Maduro

quinta-feira, 31 de março de 2011

M 348 - TURISMO D'OUTROS TEMPOS

Alcobaça e o Congresso de Turismo de 1911


Por iniciativa da Sociedade de Propaganda Nacional realizou-se em Lisboa a 4ª edição do Congresso de Turismo no mês de Maio de 1911, iniciativa que recebeu 1500 congressistas. O poder republicano desejoso de reconhecimento e de visibilidade internacional e ciente da necessidade de atracção de divisas vai, finalmente, dotar o país de estruturas orgânicas para o fomento turístico, instituindo um Conselho e uma Repartição do Turismo.


O turismo passa a ser entendido como uma indústria em que se depositam grandes esperanças. A Sociedade de Propaganda Nacional realça as potencialidades turísticas de Portugal, criticando, todavia, a falta de visão e de iniciativa na exploração de um filão intacto e inesgotável:


“a apregoada situação geográfica do Cais da Europa…; as prodigiosas e tantas vezes enaltecidas condições climatéricas que nos podem converter na estação de inverno e no sanatório da Europa e da América; as belezas naturais que são toda uma paisagem orquestral de luz, de colorido, de fecundidade e de encanto; as termas e praias, as cidades e as vilas, os montes e os rios e até o carácter bondosamente hospitaleiro duma população diligente, afectuosa e simples, tudo isso, que constitui um património valiosíssimo que uma rudimentar noção de economia ensina hoje a valorizar, é como se fosse res nulius para nós, é, como uma campa da nossa inércia…. É tudo isso, enquanto as outras nações senhoras de um património bem menos valioso do que o nosso tratam, por todas as formas, de o fazer render pelo turismo, explorando afinal essas duas singelas necessidades humanas e universais de distracção e de descanso…” (Diário da Câmara dos Deputados, 8/01/1912).


O Congresso de Turismo numa missão de propaganda sobre as mais-valias do território patrocinou itinerários de visita. No periódico Leiria Ilustrada faz-se referência à visitação de uma embaixada de cem congressistas às terras de Alcobaça, Batalha, Leiria e Caldas da Rainha.


Na chegada a Alcobaça a ampla comitiva era efusivamente aguardada por centenas de pessoas na praça do município. A fanfarra que abrilhantava a recepção tocava no coreto os hinos de França, de Espanha, de Inglaterra, da Bélgica e de Portugal.


A visita ao Mosteiro foi seguida de um almoço na Sala do Capítulo. A fanfarra que acompanhou o repasto permitiu que, entre os pratos, os convivas pudessem dançar com as senhoras alcobacenses. A notícia destaca os vinhos ofertados pelo lavrador e governador civil José Eduardo Raposo de Magalhães, assim como os doces, mencionando as queijadas do Bárrio, o pão-de-ló de Alfeizerão e o arroz doce de Alcobaça (doce, aliás comum nas refeições monásticas). A generosidade dos congressistas materializou-se numa colecta endereçada ao Hospital da vila.


António Valério Maduro







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domingo, 14 de novembro de 2010

M 311 - INIMIGO ÍNTIMO

ESTÁTUA EQUESTRE NA ROTUNDA DA GAFA…



José Carlos Martins Costa e Sousa foi Director do Departamento Técnico da Câmara de Alcobaça durante 42 anos, 10 meses e 6 dias.
O rigor da contagem do tempo de trabalho é obviamente da sua responsabilidade.
Conta Costa e Sousa que foi o Dr. Nascimento e Sousa que recomendou o Dr.Júlio Biel para lhe suceder na Presidência da Câmara de Alcobaça.
Esta relação de amizade deteriorou-se passados alguns meses e Nascimento e Sousa cortou relações com Júlio Biel.
Este, conta Costa e Sousa, tinha um sentido humor pouco conhecido fora do seu gabinete, e referia-se a Nascimento e Sousa em privado como seu “inimigo íntimo”.No seu mandato (1947-1953) foi resolvido construir a rotunda que ainda hoje existe frente ao edifício dos Paços do Concelho. Costa e Sousa foi o responsável pela obra que, pouco tempo de arrancar, começou a suscitar algumas críticas em Alcobaça.
O Presidente Biel chamou um dia ao seu gabinete o EngºCosta e Sousa e perguntou-lhe: Já sabe a última sobre a rotunda?
Dizem que a Câmara vai mandar pôr no centro uma estátua equestre!
Perante o silêncio de Costa e Sousa o Presidente Biel continuou com um ar divertido.
Dizem que o cavaleiro ainda não se sabe quem é mas que a besta é o Presidente da Câmara.
 Quer saber quem é que diz isto ou já percebeu!?
E terminou a revelação com um sorriso bem disposto: é o meu “inimigo íntimo”, o Nascimento e Sousa.
JERO






sábado, 7 de agosto de 2010

M 286-OS MONGES CISTERCIENSES E AS FRUTAS DE ALCOBAÇA


Património Cisterciense – As Frutas de Alcobaça

Os monges cistercienses acarinharam a fruticultura. O profundo amor com que tratavam os seus pomares de laranjeiras doces e pessegueiros explica que para os designarem utilizassem a singela expressão de “jardim”, numa clara alusão ao paraíso celestial. A exploração agrícola das Granjas monásticas reservava um espaço para as árvores de fruto. Mesmo nas granjas de solos mais inóspitos, privados de águas de nascente e cravejados de pedra, as fruteiras marcavam posição.
A diversidade de árvores frutíferas repartia-se entre os pomares de espinho, caroço e pevide. Na resposta à questão sobre qual a qualidade dos pomares e a diversidade das árvores de fruta, Frei Manuel de Figueiredo testemunha-nos a sua inusitada riqueza: “Os Pomares constão de frutas chamadas de caroços principiando pelas primeiras frutas de cereijas, ginjas, alvoricoques, damascos [os “ovos do sol” dos Persas], athe as maçans, e peros de Inverno [frutas de pevide] que são mais raras, ainda que crião arvores de bastante corpo [e nos de espinho] laranjeiras doces, e agras, limeiras, cidreiras, limoeiros que dão limoens grandes e gallegos”.
Outros autores pronunciam-se sobre as fruteiras de Alcobaça. D. António Macedo fala do renome que conquistaram as laranjas de Alcobaça e as melancias de Pataias. Também João Maria Baptista, narra que chega “a todo o reino a fama dos bellos peros e camoezas e que os seus delicados pecegos egualmente merecem”.
Segundo Beckford no seu diário de viagem “Alcobaça e Batalha”, as primeiras laranjeiras da China que tinham vindo para Portugal foram plantadas no claustro de D. Dinis. O cultivo dos citrinos floresceu nas terras de Alcobaça. No relatório da Sociedade Agrícola do distrito de Leiria (1856) menciona-se que os pomares de espinho apenas existem nos concelhos de Alcobaça, Caldas da Rainha e no lugar da Barreira (Leiria) e que as espécies cultivadas são as laranjas da China, o limão acre e doce, a cidra, a lima, a laranja lima e a tangerina. Fazendo fé nas declarações de produção dos concelhos que integram o distrito de Leiria, no ano de 1865 Alcobaça contribuiu com 99% dos citrinos. A colheita da laranja ultrapassou os 806 milheiros e a dos limões alcançou os 50 milheiros.
Quanto às pereiras, J. B. de Castro informa-nos sobre as castas e designações populares. Temos então as “de rei, de conde, bergamotas, bojardas, carvalhaes, conforto, flamengas, gervasias, codornos, engonxo, S. Bento, bom cristão, virgulozas, lambe-lhe os dedos (…) ”. Iria Gonçalves recupera diversas qualidades de peros, nomeadamente os de Santiago, brancos, marmelares, e as maçãs baionesas, que pela sua excelência os monges elegiam nos foros.
As fontes do século XVIII dão conta da maçã leirioa (nomeadamente nas terras da Vestiaria), das deliciosas e aromáticas camoesas. Já o Relatório da Sociedade Agrícola do distrito de Leiria, que atribui ao concelho de Alcobaça o domínio incontestado dos pomares de pevide, ao pronunciar-se sobre as qualidades das maçãs, refere que nas temporãs “cultiva-se a leiriôa, a cerigal e outras. Das serôdias temos a olandeza, páu preto, bemposta, raineta, parda e vermelha.
O comércio dos frutos constituía uma mais-valia económica das terras de Alcobaça. A expedição dos frutos era feita por contratadores tendo como destinos preferenciais os mercados de Lisboa e das comarcas vizinhas. As frutas eram despachadas através da barra de S. Martinho. A importância deste porto na exportação das frutas explica que os afamados peros recebessem a designação do cais de embarque. Segundo J. Vieira Natividade, só no ano de 1854 foram exportadas 251 carradas de fruta verde (maçãs). Enquanto as laranjas e os limões tinham como destino a Inglaterra e o Brasil, as maçãs eram conduzidas para o Algarve e norte de África. Os concelhos vizinhos de Caldas da Rainha e Nazaré absorviam parte da produção, embora também se fornecessem os mercados de Lisboa, Santarém e Vila Franca.
A indústria da seca de frutos foi também bastante desenvolvida no território dos coutos, ganhando notoriedade os ramais de maçãs camoesas, as peras aparadas, as passas de ameixa. Entre as peras passavam-se as variedades almíscar, carvalhal, calvário e pé curto, nas ameixas destacam-se as caragoçanas, a branca de passar, a doçarina, a rainha-cláudia. Nos pêssegos a variedade molar. Também as uvas se penduram no barrotado da frutaria e os figos se dispõem nos balaios ao sol.
Eram populares os ramais de maçãs que se transaccionavam nas feiras e mercados da região e se exportavam para Santarém e Vila Franca. Estes frutos mirrados e doces eram ofertados às crianças pelo pão por Deus e serviam de mimo para os velhos e doentes.


António Valério Maduro

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

M 285- QUINTA DAS FREIRAS ...entre Chiqueda e a cidade de Alcobaça

Respigámos(*) da edição de 29 de Julho de O ALCOA

PARQUE DOS MONGES

Da Quinta das Freiras de Cós até ao parque temático dos nossos dias.
Foi Bernardo Pereira de Sousa, que adquiriu nacionalidade portuguesa em 1836 (casado com Francisca Jacinta Pereira, filha de João Pereira Gomes, homem de avultada fazenda em terras do Maranhão-Brasil) que deteve, por título de compra e herança, entre outras propriedades e meios de produção outrora afectos ao Mosteiro de Alcobaça, a Quinta das Freiras de Cós (Chiqueda).
Recuando ainda mais no tempo é possível saber que a outrora denominada "Quinta das Freiras", pertenceu à Ordem de Cister desde o século XII até ao século XIX.
Julga-se que era nesta Quinta que se produzia a maioria dos alimentos que sustentavam o Convento de Cós, situado a 10 km de Alcobaça e onde residiam as freiras.
É pois neste terreno com história - ali também se instalou a primeira comunidade dos Monges de Cister, onde permaneceram durante 22 anos para preparem a construção do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça e mais tarde as tropas montaram o acampamento para festejar a vitória na Batalha de Aljubarrota  -  com cerca de nove hectares, que vai renascer nas margens do Rio Alcoa um espaço de animação turística, de cultura e lazer designado por Parque dos Monges.
Projecto que nasceu há doze anos e que obrigou a limpar o terreno e a remover os drenos existentes, reconstituindo o paúl e plano de água existente na época dos monges de Cister.
Na fase actual está alcançada a valorização paisagística e biofísica e a integração de uma zona húmida (lago) já existente, associada à criação de matas e galerias ripícolas com espécies tradicionais na paisagem vegetal local.
E o Parque, vai estar “aberto” não só aos visitantes e utentes do empreendimento mas também para a população da região, podendo ser usufruído em percursos pedonais, de bicicleta e também como circuitos de manutenção.
É tempo de referir que fizemos em passado recente uma visita ao Parque dos Monges, tendo como cicerone Alexandre Alves, um dos homens fortes do empreendimento.
A visita demorou uma tarde e deu para perceber como será fácil passar um dia inteiro neste local paradisíaco, pois as diversas “ofertas” parecem nunca mais acabar.
Saltando um pouco o percurso “natural” do visitante, que deverá começará pela Recepção, nós fomos na parte inicial da nossa visita guiada até ao final do lago e “descobrimos” um “pedaço” do Rio Alcoa de margens luxuriantes e com águas límpidas….A nossa surpresa foi complementada com a constatação de que “neste” Rio Alcoa até existem peixes e patos. Estes últimos são originários do lago do Parque que, para “espairecer”, vão de vez em quando até ao rio. Para nosso espanto fomos informados que de vez em quando também aparecem por ali lontras que, “sem pagar bilhete”, vêm consumir algumas das espécies de peixes raras que o lago acolhe.
Depois …há espaços arborizados onde podem ser feitas refeições aligeiradas pela gente mais nova e…não só. O empresário esclareceu, contudo, que o investimento não se esgota na promoção do ambiente, estando igualmente centrado na área de animação turística e cultural, sobretudo na presença da Ordem de Cister em Alcobaça.
Estão a ser recuperadas e adaptadas aos fins em vista habitações e respectivos anexos que complementam a oferta de ar livre que o centro vai proporcionar e que se vão desenvolver em torno do lago, onde já existe vida natural e onde vão ser levadas a efeito actividades de sensibilização ambiental baseadas em acções desportivas, culturais, pedagógicas e lúdicas.
Saltando para a zona da entrada do Parque, que tem um espaço de estacionamento para 150 viaturas, encontramos um edifício acastelado, construído em madeira que, pela sua execução refinada, se tornou na “imagem de marca” do espaço.
Bem perto fica o “espaço de restauração” (Refeitório dos Monges), que funcionará num edifício de rés do chão e 1º. Andar, com uma sala de refeições surpreendente pelo bom gosto e… vistas para o exterior.
Um outro espaço, em frente ao restaurante (Oficinas Monásticas), vai albergar artistas e artesãos, nomeadamente um oleiro, um copista, um boticário, um licoreiro, um padeiro, um ferreiro, um serralheiro, etc..
Nas imediações, noutro edifício primorosamente recuperado, vai funcionar uma das “jóias” do parque: o Museu dos Doces Conventuais
Alexandre Alves referiu-nos que famílias, escolas e empresas que pretendam interagir com o ambiente serão o público-alvo do Parque, havendo ainda a novidade de uma parte do empreendimenot estar destinada a um turismo de carácter religioso, através do Jardim Bíblico.
A segunda fase do Parque dos Monges contemplará uma área de alojamento “amiga do ambiente", com “bungalows” que vão ter “planos de poupança de água e energia”, referiu.
Para uma fase posterior, está ainda prevista a reprodução, em tamanho real, do burgo de Alcobaça na Idade Média, cujo objectivo final é ser uma escola de artes e ofícios.
Um edifício multiusos, com oferta ao nível da restauração e uma sala de espectáculos, e um hotel que pretende retratar a vida monástica em Alcobaça completa o Parque dos Monges.
“Trata-se de um albergue como os monges tinham para receber os passantes e viajantes”, declarou o empresário, acrescentando que o projecto se iniciou há 12 anos.
É de facto um projecto de uma vida de dois irmãos (Alexandre e Isidro Alves) de que Alcobaça tem motivos para se orgulhar.
Muito mais haveria para dizer… da Quinta das Freiras de Cós até ao parque temático dos nossos dias.
Da Quinta das Freiras de Cós até ao parque temático dos nossos dias percorreram-se tempos diversos…Estamos de novo próximos de um tempo novo…na fronteira da Nova Alcobaça…com expectativas muito grandes.
O Parque dos Monges poderá concorrer para uma Alcobaça Nova…que faça esquecer o pobre(e apressado) turismo actual que ajuda a consumir café, postais e…pouco mais.
Que venha depressa o tempo novo!
JERO



(*) Com a devida vénia -pela utilização do termo- ao distinto blogger Rogério Raimundo, que é useiro e veseiro no "respiganço", que no nosso caso especial muito nos honra.

Parque Bíblico
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Lago do parque com 3 hectares.
Museu dos Doces Conventuais
Alexandre Alves(ao fundo o Restaurante)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

M 282 - UM MORTO POR DEZASSEIS HECTOLITROS DE ARROZ !!!


A cultura do arroz nos campos de Alcobaça

A cultura do arroz aporta a Portugal, provavelmente, pela mão dos árabes. Frei Francisco Brandão refere que no reinado de D. Dinis ainda se semeava o arroz. A interrupção desta cultura confinada a áreas palustres ter-se-á devido a uma inaptidão do mundo rural para lidar com o regadio, assim como às incessantes flagelações da população com a malária. Na sua “Memória Histórica sobre a Agricultura Portuguesa…”, José Veríssimo Silva testemunha o longo esquecimento dos arrozais na lavoura nacional. A redescoberta e desenvolvimento da cultura do arroz têm lugar no consulado Pombalino. Para estancar o fluxo das importações provenientes da Califórnia, o governo, sob o impulso do Secretário de Estado dos Negócios e Marinha Martinho Mello e Castro, manda realizar sementeiras no Brasil na segunda metade do século XVIII, o que vai contribuir para atenuar a dependência da metrópole.
Na comarca de Alcobaça, como aliás na generalidade do país, a cultura do arroz só se implantou tardiamente. Frei Manuel de Figueiredo, na resposta ao inquérito agrícola da Academia Real de Ciências de Lisboa (1787), confirma a ausência deste cereal do calendário agrícola. Os monges ensaiaram esta cultura nas terras de campo de Alfeizerão e na Granja do Valado (década de 20 do século XIX). Mas, ao que parece, estas experiências foram travadas pelo martírio das sezões. A cultura do arroz com carácter de permanência só se estabelece a partir da viragem para a segunda metade do século XIX. A primeira sementeira teve lugar, no ano de 1848, na Quinta da Ordem (concelho de S. Martinho do Porto). Nas terras de campo em que a circulação das águas apresenta um traçado capilar graças à deriva facilitada pelos enguieiros, o arrozal alastrou como uma nódoa, desalojando, parcialmente, o milho e as culturas hortícolas. Na década de 50 do século XIX, semeava-se o arroz em Alfeizerão, Salir, S. Martinho, Valado dos Frades e Maiorga.
O arroz chega mesmo a ser encarado como uma bênção dos céus que vem compensar os homens da lavoura dos prejuízos causados pelo oídio nas vinhas. Cultivava-se o arroz carolino (Oryza Mutica L.) e o galego ou da terra (de pragana). A cultura do carolino era considerada mais remuneradora pelos agricultores. A produção média do concelho não ultrapassava a relação de um alqueire para trinta e dois, embora algumas explorações alcançassem resultados de quarenta alqueires.
A relação umbilical desta cultura com os surtos palúdicos que fustigavam ciclicamente os povoados entestantes com os arrozais foi denunciada pelas populações e pelos homens da cultura e ciência que faziam ouvir a sua voz na imprensa e no Parlamento. As recidivas da malária, doença endémica das regiões planas em que os charcos abundam e o curso das águas é entorpecido, provocavam, pelo seu furor, não só inúmeras baixas, como imobilizavam os braços de trabalho. O Agrónomo Andrade Corvo relata apavorado que dezasseis hectolitros de arroz correspondem ao preço de uma vida. As autoridades tentaram salvar a cultura impondo aos lavradores um conjunto de regras dificilmente exequíveis para muitos dos terrenos que o arroz tinha ocupado. O cultivo do arroz passa a ser objecto de licenciamento e as sementeiras a ser vistoriadas para se garantir o cumprimento dos requisitos legais, nomeadamente ter água corrente em permanência.
A falta de condições culturais leva à proibição dos arrozais no concelho de Alcobaça por decreto de 1870, interditando-se a cultura no distrito de Leiria por decreto de 4 de Maio de 1871.

António Valério Maduro

sábado, 10 de julho de 2010

M 275 - UMA IGREJA RENOVADA

DATAS HISTÓRICAS NA VIDA RELIGIOSA DE ALCOBAÇA

(7.Fevereiro.1960/ 2.Julho.2010)
Cinquenta anos e alguns meses depois de uma data inscrita no tempo e na pedra anunciando que «A fé da Cristandade desta vila restaurou esta Capela que reabriu no 7 de Fevereiro de 1960» novamente foi celebrada a reabertura deste local de culto com tradições multisseculares.
Foi numa Igreja renovada que no passado dia 2 de Julho corrente foi reatado o fio condutor que une a comunidade religiosa alcobacense.
Esta data, que no calendário litúrgico é assinalada como sendo o Dia da Invocação da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, por ser o Dia da Visitação de Nossa Senhora à sua prima Santa Isabel, foi portanto a escolhida para a apresentação da Igreja “com novos arranjos” aos seus fiéis.
Na palavra do Provedor João Rosa Carreira «…arranjos novos…poucos mas significativos».
Em recente postagem anterior já demos relevo ao melhoramento que foi talvez o mais emblemático desta “obra nova”: o Senhor do Armário.


Relendo a notícia que “O Alcoa” publicou em 13 de Fevereiro de 1960 (nº. 684) chega-se à conclusão que então a reabertura ao culto “da antiga e veneranda Capela de Nossa Senhora da Piedade” teve notória pompa e circunstância, já que estiveram presentes o Bispo de Fèbiana, Senhor D.António da Campos e o Presidente da Câmara Joaquim Augusto Carvalho, além do Pároco de Alcobaça, outras entidades e muito povo.

Em 2 de Julho de 2010 presidiu à cerimónia religiosa o Revmº. Padre Carlos Jorge Vicente, que vemos na fotografia no final do acto litúrgico a cumprimentar efusivamente os representantes da Misericórdia de Alcobaça, que estiveram presentes neste dia com história.
Pela sua actualidade terminamos este nosso apontamento reproduzindo a parte final da notícia do nosso jornal de 13 de Fevereiro de 1960:«Do que temos visto e ouvido, cremos mesmo poder deduzir que estas recordações saudosas, agora acordadas, não adormecem mais. Praza a Deus assim suceda. Não advirá, daí, senão bem.»
Porque não somos capaz de fazer melhor…subscrevemos… a peça jornalística de João Maria de Sousa e Brito.
Cinquenta anos e alguns meses depois …praza a Deus assim suceda.


JERO



terça-feira, 6 de julho de 2010

M 274 - ALCOBACENSES ILUSTRES DOS NOSSOS DIAS


José Afonso Furtado

Uma voz amiga deu-me conhecimento que José Afonso Furtado esteve recentemente a participar num debate que teve lugar nos primeiros dias de Julho corrente na Feira do Livro de Viana do Castelo. Nesse debate ,sobre o tema “O livro impresso na era digital”, estiveram ainda presentes outros “pesos pesados” da cultura portuguesa. A saber :José Pacheco Pereira e Carlos Pinto Coelho.
O meu amigo , que é da geração de José Afonso Furtado, questionou-me : Como é um alcobacense deste nível nunca foi convidado para nada em Alcobaça? Não soube responder.
Mas …para memória futura…fica aqui o alerta.
JERO


E quem é este senhor que participa em debates em Feiras do Livro?
José Afonso Furtado nasceu em Alcobaça em 1953. Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian desde 1992.
Tem assegurado a cadeira de «Sociologia do Livro e da Leitura» no Curso de Especialização de Técnicas Editoriais da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Universidade de Lisboa.
Membro do Painel de Avaliação da Medida 2.2 ( Conteúdos.Pt) do Programa Operacional Sociedade de Informação.Membro do Conselho Consultivo do Centro Português de Fotografia (Ministério da Cultura).Membro do Conselho Superior de Bibliotecas.


Publicações:


• O que é o Livro, Difusão Cultural, Lisboa, 1995
• Os Livros e as Leituras. Novas Ecologias da Informação, Livros e Leituras, Lisboa 2000.


Participações em Conferências e Seminários (2000/2002):


• Conferência “A Edição no Mundo Digital. Questões de Código e de Controlo”, I Colóquio Internacional Ciência, Natureza e Tecnoética (Coordenação científica de Hermínio Martins e de José Luís Garcia), Cascais, 28 e 29 de Setembro de 2001.
• Conferência “Os Futuros do Livro e os Novos Suportes”, Pontes da literatura para o mundo, Porto 2001, 20 de Julho de 2001.
• Participou como perito convidado (“expert witness”) na “public hearing” promovida pelo Parlamento Europeu (Committe on Culture, Youth, Education, The Media and Sport) sobre Reading and Electronic Books onde fez uma apresentação: «Electronic Publishing: a state of affairs». (Bruxelas, 25 de Junho de 2001).
• Conferência “Os Futuros da Leitura”, 1º Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, Instituto Politécnico de Leiria, 17 e 18 de Abril de 2001.
• Conferência “O Livro e a Edição na Era Digital”, Jornadas sobre As Novas Tecnologias e a Biblioteca. A Edição Electrónica, Biblioteca Nacional, 15 e 16 de março de 2001.
• Conferência “Edição no novo milénio: A experiência do «Print on Demand»”, Microlib 2000, 27 a 30 de Junho de 2000, Lisboa.
• Conferência “O Circuito do Livro e as Bibliotecas na Era Digital”, Grupo Trabalho de de Tecnologias de Informação da BAD, Departamento de Gestão da Universidade Nova, 5 de Abril de 2000.







sexta-feira, 2 de julho de 2010

M 272 - SENHOR DO ARMÁRIO

PATRIMÓNIO RELIGIOSO
O dia 2 de Julho foi um dia importante para Alcobaça.
 Celebrou-se a reabertura da Igreja da Misericórdia após obras de beneficiação que foram da responsabilidade da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Alcobaça.Um dos restauros mais significativos teve a ver com o chamado "Armário", onde foi recolocado o Cristo milagroso, que nele se venerou durante centenas de anos...Foi tudo feito com base numa descrição desta Igreja por um Monge do Mosteiro, que visitou a Misericórdia em 1 de Julho de 1781 e nos deixou os seguintes apontamentos ainda inéditos:
«É pequeno e  bem repartido o Corpo da sua Igreja, o tecto todo de abóbada; no Altar da Capela-Mor se venera a Imagem do Senhor dos Passos; da parte do Evangelho, Nossa Senhora da Soledade e São Francisco, e da parte da Epístola, Nossa Senhora do Carmo; e desta parte, em um nicho, a Imagem de Cristo Senhor Nosso Crucificado a que chamam vulgarmente o Senhor do Armário.»
E mais para a frente, Frei Manuel de Figueiredo explica-nos a origem deste "Senhor do Armário":

«No ano de 1632, os moços dos Sinos do Real Mosteiro que tocavam a Matinas na antevéspera do Domingo de Pássos, com repetidas vozes avisaram o povo que a Misericórdia estava ateada em fogo, que a consumiu toda, ficando só ileso o Senhor do Armário em que já falámos, ficando reduzido a cinza o nicho e madeira a que estava encostado, e todas estaladas as pedras do arco do mesmo nicho.»

Foi portanto com base neste testemunho insuspeito, que os Irmãos e Amigos da Misericórdia de Alcobaça resolveram restaurar este nicho com o seu Cristo que, em tempos passados foi tão caro à piedade dos Alcobacenses...«Assim, a Santa Casa reassume também parte da sua missão própria, consubstanciada na prática das Sete Obras de Misericórdia Espiritual, duas das quais, e não as menores, são precisamente,"Rogar a Deus pelos vivos e pelos  mortos" e "Consolar os desconsolados".»
Fonte:
Discurso do Provedor da Misericórdia de Alcobaça sr.João Carreira.
Recolhido por JERO

quarta-feira, 2 de junho de 2010

M 258-APRENDIZES DA VIDA DURA

A Aprendizagem dos ofícios na Alcobaça do século XIX
O atraso histórico português em matéria industrial favoreceu a longevidade dos ofícios mecânicos, assim como consentiu que as condições de acesso à profissão pouco ou nada se alterassem com o fluir do tempo.
De facto, as dezasseis escrituras de aprendizagem levantadas entre 1821 e 1879 nos notariais alcobacenses replicam na íntegra os actos realizados no período medieval e moderno, sem que a extinção do instituto corporativo por decreto de 7 de Maio de 1834 tenha interferido no clausulado contratual.

A aprendizagem de um ofício podia começar de tenra idade, quando a força, a destreza e o raciocínio consentiam ingressar no mundo do trabalho de sol a sol, mas em cerca de metade dos registos compulsados os aprendizes já tinha alcançado a maioridade.
A precocidade da aprendizagem verifica-se no ofício de sapateiro e funileiro, enquanto os futuros oficiais de carpinteiro, ferreiro, serralheiro e pedreiro só procuram alcançar uma profissão em idade maior. Esta adesão tardia pode explicar-se como resultado da emancipação do poder paternal e de uma tentativa de fuga ao trabalho de jornaleiro na lavoura.
A duração da aprendizagem variava consoante o grau de exigência da iniciação e formação profissional, sendo, porventura, tida em consideração a idade do aprendiz, a perfeição esperada no mester, e a própria capacidade de negociação do contrato entre o próprio ou representantes e o mestre. No ofício de sapateiro a temporalidade do aprendizado estava compreendida entre os dois anos e os três anos e meio, no de carpinteiro (quatro a cinco anos), de funileiro (quatro a cinco anos), de ferreiro (quatro anos), de pedreiro (quatro anos) e de serralheiro (quatro anos).
No final dos anos estipulados o mestre tinha de dar o aprendiz como pronto e capaz de exercer o respectivo ofício. Mas os contratos envolviam garantias e responsabilidades mútuas. O mestre seria ressarcido das faltas do aprendiz à razão de 200 réis diários, exceptuando motivos maiores, como a chamada para cumprimento de serviço militar e doença incapacitante. As faltas por doença implicavam, em princípio, a reposição dos dias de trabalho perdidos. Apenas uma escritura de aprendizagem de serralheiro rejeita liminarmente qualquer compensação em caso de abandono se for comprovado mau tratamento. Já o mestre seria obrigado a indemnizar o aprendiz ou seus representantes com idêntica quantia de 200 réis diários, em caso de resolução unilateral do contrato ou se, ao termo do mesmo, o aprendiz não estivesse apto para a profissão. Este valor pecuniário só deixaria de ser pago quando o aprendiz cumprisse todos os requisitos para se tornar num oficial autónomo.
Em cerca de um terço dos contratos analisados o mestre recebia uma determinada quantia em dinheiro como contribuição pelo seu ensino, despesas com a manutenção do aprendiz e eventuais estragos de material decorrentes da situação de aprendizagem. As importâncias auferidas variavam, provavelmente, consoante a condição económica da família do aprendiz, as exigências do mestre e o valor estimado do mester. Nos actos que não envolviam contrapartidas financeiras subentende-se que o mestre se considerava satisfeito com o trabalho que o aprendiz iria realizar a seu benefício. Como é óbvio, a duração contratual excedia a necessidade de formação do aprendiz, pelo que o mestre garantia o serviço de um oficial de facto, embora não de direito, por um período dilatado sem que este auferisse qualquer jornal.
Ao mestre incumbia dar pensão ou hospedaria ao aprendiz. Esta obrigação consistia concretamente em dar cama, alimentação e vestuário. O aprendiz vivia portanto com o mestre ao longo de todo o contrato, não se prevendo visitas à casa paterna, o que poderia ser facilmente resolvido em caso de proximidade. Este afastamento forçado aliado ao trabalho intenso e a um mestre demasiado rigoroso explica o risco anunciado de evasão do aprendiz.
Apenas em dois contratos do ofício de carpinteiro se permitia libertar os aprendizes aos Domingos e dias santificados, salvo em caso do mestre necessitar da sua mão-de-obra, correndo então a seu encargo a ”comida e bebida”. Assinale-se, contudo, que nestes dois contratos os aprendizes já são homens feitos. O costume da interdição de trabalho nos dias santificados não era respeitado pelos mestres, o que obrigava a que alguns contratos consignassem essa vontade no respectivo clausulado.
O mestre podia isentar-se do dever de alimentar, vestir e calçar concedendo ao aprendiz uma determinada parcela da soldada. Alguns contratos destacam a obrigação do mestre em dar ao aprendiz sapatos e meias, ou, numa fórmula repetida, fornecer-lhe o necessário do “joelho para baixo”, assim como dar-lhe roupa e remendá-la, chegando mesmo um contrato a precisar que o aprendiz deve trazer os remendos para o seu fato. Quando o mestre se furta a vestir o aprendiz pode, todavia, consentir que “nas horas de descanso (o aprendiz) possa trabalhar para ajuda do seu vestuário”. Compete ainda ao mestre zelar pela higiene do aprendiz cuidando que se lave, assim como mandando-o lavar a sua própria roupa.
A submissão do aprendiz à vontade do mestre é explicitada nas escrituras. Repete-se que “será sempre obediente ao mestre, cumprindo fielmente as ordens que d’elle receber com relação ao ensino e trabalho no officio”. Verificava-se, de facto, uma alienação consentida do poder paternal, mas esta transferência de tutela não se fazia, por vezes, sem registar algumas advertências e pedidos, como a de tentar acautelar o bom trato ao filho que abandonava temporariamente o lar.
Para além da atribuição primeira de formar profissionalmente o aprendiz, o mestre era incumbido de cuidar da sua educação/socialização, ampará-lo na doença, conduzindo-o ao hospital em caso de necessidade, amenizar o trabalho e os eventuais castigos com um pouco de afecto paternal.

António Valério Maduro

domingo, 16 de maio de 2010

M 252 - E FEZ-SE LUZ...


A Iluminação Pública em Alcobaça

A iluminação pública como sinónimo de civilização, conforto e segurança é um projecto historicamente recente. A cidade iluminada dos bairros aristocráticos e burgueses, do passeio público e dos edifícios da administração contrastava com a cidade escura das classes populares.

Em Portugal, Lisboa é a primeira cidade a beneficiar de um plano de iluminação pública, obra avançada no ano de 1780 pelo intendente Pina Manique. Por motivos de segurança, os candeeiros multiplicam-se e manda-se que sejam acesos independentemente de fazer luar. No ano de 1840, só para iluminar a cidade de Lisboa existiam 2.328 candeeiros que consumiam entre 12.000 a 13.000 almudes de azeite por ano.
Em 1854, a vereação de Leiria solicitava à sua congénere de Lisboa a cedência de 40 candeeiros para queima de azeite, em virtude do gás, que passa a iluminar a capital, os deixar sem préstimo. Vinte e quatro anos volvidos, o arrematante da iluminação demandava uma pensão maior para manter acesos por toda a noite os candeeiros de Leiria. A Câmara decide então restringir a iluminação pública. Apenas nos meses de Janeiro, Fevereiro, Novembro e Dezembro se autoriza que os candeeiros se mantenham acesos em permanência, devendo nos restantes meses ser acesos apenas nas noites em que não faça luar.
A iluminação pública só chega a Alcobaça no final da década de 70. Na sessão camarária, de 10 de Dezembro de 1877, autoriza-se a compra de 22 candeeiros e respectivas consolas para servir a vila de Alcobaça e o povoado da Nazaré durante a época balnear. Os custos elevadíssimos da queima de azeite levam à procura de soluções alternativas.
A concorrência de oleaginosas como a purgueira vai, gradualmente, desalojar o azeite da iluminação dos espaços públicos.

Jacome Ratton, nas suas “Recordações…”, propunha a substituição do azeite na iluminação e indústria pelo óleo de baleia”.

Segundo deliberação da vereação alcobacense, de 9 de Junho de 1846, o azeite destinado à iluminação da cadeia municipal passa a ser traçado com ⅓ de óleo de peixe.

A ideologia e moral da sociedade oitocentista não repugnava submeter os prisioneiros ao cheiro fétido da queima de óleo de peixe num recinto fechado.
Os ritmos de mudança são assimétricos.

As matérias de queima para iluminação convivem nas próprias áreas urbanas estabelecendo a distinção entre centro e periferia. Queimam-se velas de sebo, azeite de oliveira e de purgueira, resinas, petróleo e gás, até a energia pura da electricidade erradicar o processo da queima para a obtenção de luz.
Em Alcobaça, o industrial Joaquim Ferreira de Araújo Guimarães já tem a funcionar, desde o final do século XIX, uma turbina de alimentação e um dínamo para produção de energia eléctrica. No contrato de arrendamento de um moinho de farinação contíguo à sua casa de habitação pode ler-se que: “Da corrente d’agua que serve de motor ao moinho arrendado e que também serve de motor ao dynamo da luz eléctrica estabelecida no mesmo prédio não poderão os rendeiros (…) utilizar-se como motor do moinho desde o anoutecer até à meia noute e também da meia noute em diante, nas noutes em que for necessária luz para o clube e para casa d’ella senhoria alem da meia noute, pois que n’aquelas horas toda a corrente d’agua será empregada na produção de luz eléctrica”.

No ano de 1889, a Avenida da Liberdade recebe a energia eléctrica.

Mas o benefício da electricidade só se divulga na capital a partir da primeira guerra. A irradiação da luz eléctrica pelo território nacional encalhou nas barreiras de um país rural de povoamento disperso.

A cobertura eléctrica plena só chega na década de 90.

António Valério Maduro