Sempre presente...o passado
«Há dentro de nós um poço, no fundo dele é que estamos, porque está o que é mais nós, o que nos individualiza, a fonte do que nos enriquece no em que somos humanos».
Virgílio Ferreira, escritor (1916-1996).
“No dia 5 de Novembro (de 1964) à noite, apareceu a C. Art. 732 que, a 5 km do local onde nos encontrávamos, sofrera duas fortíssimas emboscadas quase seguidas, cada qual a mais feroz, e que provocaram um morto e vários feridos.
Vinham de cabeça perdida... e o estômago a “dar horas”; oferecemos-lhes o nosso jantar e demos-lhes ânimo, para enfrentar outros dias difíceis que ainda iriam surgir durante a longa comissão. De manhã, pareciam outros!
Partiram para sul”.
“Testa de Ponte”/Belmiro Tavares/Alf. Mil. da C.Caç. 675 (Lisboa, Abril de 2011)
O texto alusivo a 5 de Novembro de 1964 passou-se no Norte da Guiné, junto a Farim, durante a guerra do Ultramar.
Estão passados quase 47 anos.
Parafraseando Virgílio de Ferreira há de facto dentro de nós um poço, meio cheio com memórias do passado que, por vezes, nos perturbam e chegam à superfície de rompante, obrigando-nos a lutar para afastar fantasmas que afinal, ao longo do tempo, nunca deixaram de nos acompanhar…
Sob as ordens do Alferes Belmiro Tavares eu estava lá e foi na qualidade de Furriel Enfermeiro que ajudei ,com outro militar da “675” ,a retirar de uma viatura o corpo do militar da C.Art. 732,envolto numa lona, que tinha sido ferido de morte poucas horas antes.
Os homens da “732” estavam a viver o seu primeiro dia no “mato” (leia-se “guerra a sério”) e estavam autenticamente em estado de choque.
Deu para perceber pouco depois que eram autênticos novatos(“maçaricos” na gíria militar) que não sabiam “armar” as suas “G-3”. Já tinham passado por duas emboscadas e não sabiam meter a bala na câmara das suas armas a cheirar a massa de quarteleiro!Só um 2º.Sargento do "quadro" tinha ripostado ao fogo inimigo com uma metralhadora pesada. Tinham tido um morto e só por milagre não tinham sofrido mais baixas.
Passados todos estes anos vim agora a saber ,pela consulta de um livro respeitante aos mortos em Campanha do Estado Maior do Exército (8º Volume – Tomo II, Guiné –Livro I, a pgs. 80), que o militar morto perto de Farim era um jovem soldado atirador nº. 107/64,de Selmes-Vidigueira, de nome João António Beijinho Sardinha. O registo do E.M.E.refere que está sepultado no Cemitério Municipal de Évora.
À distância no tempo recordo ainda com nitidez o desnorte dos militares da ”732”, onde vim a encontrar um amigo e camarada dos meus tempos do Hospital Militar de Lisboa: o Furriel Enfermeiro Albino, por alcunha o “Six”, que me contou com algum pormenor os maus bocados desse longo e penoso dia (*).
O medo dava-lhes às faces uma lividez impressionante e estavam esfomeados. A comida das nossas marmitas foi para eles um manjar dos deuses.
E depois transmitimos-lhes ânimo. Estávamos no “mato” há apenas 4 meses mas tínhamos já na pele umas dúzias de operações com muitas vitórias pessoais e colectivas. E éramos uma grande Família. Unidos como irmãos.
Tinham que superar aquele dia de infortúnio.
Afinal já Virgílio Ribeiro o tinha dito:
“Há dentro de nós um poço …A fonte do que nos enriquece no em que somos humanos”.
Partiram para Sul poucas horas depois.
Agradeceram-nos vezes sem conta.
Da “testa de ponte” de 19 de Outubro a 6 de Novembro de 1964 é o que de mais marcante me ficou.
O passado mais uma vez me invadiu o presente.
Vindo do Rio Cacheu,
frente a Farim,
passando por Binta
até hoje,
relembrando a escuridão da noite,
o cacimbo da madrugada
que tornava ainda mais desconfortável
o descanso,
nos “colchões” improvisados .
Sempre com os mosquitos por perto.
Picando,
sugando o nosso sangue,
no pescoço,
nas mãos,
na nuca,
nos tornozelos,
na cabeça,
na alma...
Quase 47 anos depois …
o passado sempre presente.
JERO
(*)O meu amigo "Six", que já era a abreviatura de "six to five o laringe"(já não me lembra porquê) era um notável "baldas". Alfacinha de gema tinha uma lábia que nunca mais acabava. Trabalhava nas "Páginas Amarelas" e já como Cabo-Miliciano passava a vida a "desenfiar-se" para ganhar umas massas no seu emprego da "vida civil". Eu respondia por ele nas formaturas para o rancho e não só. Um dia telefonou-me para a en- fermaria onde era suposto prestar serviço(a Dermato-Sifligrafia) para na formatura da noite responder por ele.O cabo-tefefonista do HMP pediu-lhe a identificação antes de me passar a chamada e o "Six", armado em bom ,disse ser Alferes Miliciano e ordenou ao Cabo para se limitar a fazer o que lhe mandavam.O Cabo ficou desconfiado e ouviu a chamada.O "Alferes" pedia a um Cabo Miliciano para responder por ele na chamada da noite!? Resumindo: o Cabo "lateiro" telefonista ameaçou que ia participar a ocorrência e tivémos que lhe ir pedir rapidamente desculpa no dia seguinte para evitar males maiores. Está claro que o "Six" continuou a desenfiar-se sempre que podia com a "cobertura" do seu amigo Oliveira, que chefiava a Enfermaria e tinha que fazer o seu trabalho e de mais uns tantos Cabos-Milicianos, que sabiam que o seu "Chefe" temporário não iria participar deles.
Enfim, sacanagens dos "verdes anos".
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sexta-feira, 10 de junho de 2011
terça-feira, 13 de julho de 2010
M 277 - SENTIMENTOS / PARTE DOIS
LAÇOS DE EX-COMBATENTES
Há 46 anos, Rebelo Mesquita, seu pai, dilacerado pela enorme perda, dizia e repetia: " ... saiu-me a lotaria negra", hoje a sua filha Teresa, no Jornal de Famalicão que dirige, escreve: " A GADANHA DA MORTE PASSOU PELO JORNAL ...".
1) Caro Jero:
Nada fazia prever que ontem nos voltássemos a encontrar. É o que se costuma dizer para estes lados: "é a roda da vida", eu corrijo, é o raio da vida.(1) Há quase uma dezena de anos que o vi pela última vez, terá sido no funeral da mãe, o facto de residir em Paris justifica-o. Antes disso a última recordação que tenho dele, será 30 Dezembro de 1964, ou pouco mais, ele foi a nossa casa levar a triste notícia da morte do irmão, todos choramos, foi uma dor muito grande. Ele que foi colega do meu irmão mais velho, ambos da mesma idade, mais uns quantos, alguns dos quais presentes ontem, comigo e com o Varinho (2)l á fazíamos as nossas "guerras" numa devesa, propriedade de um seu tio paterno. A maioria acabou por dar com os costados no Ultramar, apenas o Varinho pagou o tributo por todos.
Gostei de conhecer o Tavares, mais tarde ou mais cedo isso iria acontecer, assim como presumo que acontecerá, conhecer os outros Alferes da 675.
Um abraço, faço votos que o próximo encontro seja noutro ambiente,
Brandão
(1)-O António Brandão é natural de Vila Nova de Famalicão.
(2) Diminutivo com que era carinhosamente tratado o Álvaro Vilhena Mesquita
2) Amigo Jero:
Ao contrário de ti(3), não deixei lá ninguém, os 164 (?) que fomos, voltamos mas, conforme os dias se iam esgotando, “ecos “ sob as mais variadíssimas formas, iam-me chegando com a triste novidade de que os meus camaradas de armas iam partindo.
Há dois que particularmente me tocaram, um, Cabo-Verdiano, Alferes, que em Mafra como cadete, ainda sem o conhecer, se destacava.
Era a sua cor, acompanhado com o único amigo que parecia ter, lá, no outro lado da parada, nos intervalos da instrução, conversavam sobre coisas que nós continentais, se calhar, dificilmente perceberíamos. Depois de prontos(4), depois de termos já dado uma recruta, vim a conhecê-lo melhor, o seu carácter, a sua camaradagem, o seu sentido de povo, enfim um Militar com letra diferente. Nesta altura, estávamos em Lamego, o seu conterrâneo, o parelha natural com quem privava em Mafra, era agora o seu parelha de curso. Eu, já o não via do outro lado de uma grade parada, pertencia agora à minha “turma” de instrução, nos tais intervalos, tive oportunidade de o conhecer melhor. Um dia, nos dias primeiros de 1969, estava eu na messe a ouvir rádio em Angola quando, vindo do outro lado do continente, o “eco” chegava: “ … o ministério do não sei quantos informa que o Alferes Miliciano Daniel Rui Almeida Fonseca faleceu em combate em Moçambique”. Que murro no peito, que chapada … O meu camarada Fonseca, o Homem que ao referir-se aos anónimos Cabo-Verdianos dizia: “ … o meu povo …”. O Fonseca acabava de partir com mais seis camaradas, num ataque ao aquartelamento, de um quartel ainda em construção, que não existia.
Um outro murro levaria eu, 40 anos depois, desta vez de uma forma mais sofisticada, mais moderna, com um “eco” ajudado pelas novas tecnologias. Foi em 2008, em Maio, procurava na net, com os poucos indícios que tinha, os camaradas que tive em Lamego. Talvez fossem umas três da manhã, não me recordo o dia mas encontra-se registado bem como as emoções que na altura me assolaram. Ao meter o nome Rogério Nunes de Carvalho, sem mais, sou remetido para a página dos Mortos em Combate no concelho da Guarda, entre aquelas dezenas de nomes, lá estava ele, Alf ml Art Oesp 00177066/ Ral 3/ G/ cart 2338/cbt/ 17.04.1968 † Freg nat (Pêga). Chorei, senti-me incomodado, revoltado. De facto, nem sequer me recordava dele, o pouco tempo que permanecemos juntos não deu para termos um momento daqueles que se recordam para sempre, não houve uma fotografia que testemunhasse termos andado juntos, apenas uma fotocomposição dos 68/70 que fomos, dizia discretamente que tínhamos andado lá, tínhamos subido a Serra das Meadas lado a lado. Podem perguntar-me “porquê, o murro” porquê teres chorado? Chorei porque um camarada que conheci, não sobreviveu, porque mais um daqueles anónimos que se encontram junto ao Forte do Bom Sucesso, deixou de o ser, porque a vida mo escondeu durante quatro décadas não permitindo a recordação de imagens, então ainda recentes, fossem refrescadas, que o luto a um camarada tivesse sido melhor desempenhado. Sobre ele, Torcato Mendonça, recorda o seu último encontro, no post p2527 do L.G. http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/02/guyin-6374-p2527-estrias-de-mansambo.html
Ultimamente, como penso que já te disse, tenho estado presente no 10 de Junho em Belém, tive sempre muita vontade de lá ir, o estar a 300 e tal km mais outros tantos para a volta, mais uma série de condicionantes, fez-me protelar o momento. Desde 2006 não falto, espero não faltar nos próximos anos, é o dia dos nossos mortos, é o dia dos meus mortos. Olho, uma a uma aquelas lajes que perpetuam os meus amigos, e todos os camaradas do meu tempo e de outros tempos, passados e seguintes, deram o seu melhor, enlutaram as suas famílias, fizeram os seus filhos órfãos, as suas namoradas, noivas e mulheres, viúvas na flor da idade. São 10, dois Furrieis, oito Alferes, ao olhar essas lajes tento refrescar o que ainda resta na minha memória cada vez mais ténue, há sempre uma lágrima, outra e outra, que escorrega há sempre um momento que se visiona. Deixo-lhes sempre uma rosa, não resolve nada mas deixa-me muito feliz por voltar a estar com eles.
Um grande abraço,
Brandão
Ps-Duas fotografias, 10 Junho 2010, anexas, o Varinho e todos os outros, as minhas rosas vs os meus mortos, com uma lágrima …
______________________________________
(3) A minha Companhia – a C.Caç. 675 – teve 3 mortos em combate.
(4)- Termo que na gíria militar se aplica a quem já cumpriu a recruta e fez a especialidade.
JERO
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segunda-feira, 12 de julho de 2010
M 276 - SENTIMENTOS / PARTE UM
NA GUERRA E NA PAZ…ATÉ AO FIM…
Álvaro e Francisco foram em vida irmãos.
Ambos já faleceram e estão sepultados na terra da sua naturalidade. Faleceram em tempos diferentes e, por motivos diferentes, também muito longe de Vila Nova de Famalicão. O Álvaro em Binta, no norte da Guiné e o Francisco no Hospital de Cochin, em França.
Estão sepultados no Cemitério da Antas S. Tiago, numa nas entradas de Famalicão.
O Álvaro morreu na Guerra do Ultramar. Morto em combate em 28 de Dezembro de 1964 na “quadrícula” da sua Companhia na região de Caurbá, a poucos Kms. do aquartelamento de Binta, Norte da Guiné.Nessa altura eu estava por perto pois pertencíamos à mesma “família”. A Companhia de Caçadores 675, então no mato desde Julho de 1964.Ele regressou à sua terra natal para ser sepultado nos primeiros dias de Dezembro de 1965.
Passaram desde essa data fatídica cerca de quarentas e cinco anos.
Na minha memória ,e ao longo de toda uma vida , o Álvaro continuou – continua – a ser o meu “irmão” dilecto dos tempos da guerra.
O seu irmão Francisco, que conheci fugazmente muitos anos depois da morte do Álvaro, num encontro casual no Hotel D.Carlos, em Lisboa, faleceu agora, com 69 anos, em 1 de Julho corrente no Hospital de Cochin, em París.
Estive presente no seu funeral , na terra da sua naturalidade, em 8 de Julho de 2010.
Estive no seu funeral por diversas ordens de razões. Em preito à sua memória, em homenagem à família Vilhena Mesquita e em nome da minha C.Caç. 675, onde militou o seu e meu “irmão” Álvaro
Eu e o ex-Alferes Belmiro Tavares ,honrando a divisa da “675”«Nunca Cederá», estivemos presentes. Primeiro na guerra. Depois na vida e, sempre que possível, na hora da morte. Porque o sentimento fraterno que nos uniu na Guiné nos continua a unir e…nunca cederá.
Antes e depois das cerimónias religiosas do funeral de Francisco Manuel Vilhena Mesquita senti-me na obrigação de dizer a alguns dos seus familiares porque estava naquele dia em Vila Nova de Famalicão.
Disse-lhes que, com o devido respeito, estava ali “em nome” do Álvaro.
Na Igreja Matriz (Velha) de Famalicão soube pela Maria Teresa Vilhena Mesquita que tinha sido exactamente naquele local que tinha estado a urna do meu “irmão” Álvaro quando veio da Guiné. Em princípios de Janeiro de 1965.
Quarenta e cinco anos depois sentia-me “presente” no funeral do meu eterno amigo Álvaro Manuel , o primeiro do ramo desta família dos Vilhena Mesquita que a morte levou. Na flor da vida…com 22 anos de idade.
Quando em Maio de 1966 terminámos a comissão na Guiné o ex-Alferes Tavares e o ex-Furriel Oliveira tínhamos vindo a Famalicão para visitar a campa do Álvaro e conhecer os seus pais e irmãos.
Na tarde de 8 de Julho de 2010, durante o funeral do Francisco, olhei vezes sem conta a campa do Álvaro, situada a uns curtos 40 metros do jazigo da Família Mesquita
O Álvaro e o Francisco continuam na morte próximos ...
Sei que o Francisco me vai perdoar por nessa tarde de Julho ter estado tanto tempo com o Álvaro.
Até um dia Amigos.
JERO
Álvaro e Francisco foram em vida irmãos.
Ambos já faleceram e estão sepultados na terra da sua naturalidade. Faleceram em tempos diferentes e, por motivos diferentes, também muito longe de Vila Nova de Famalicão. O Álvaro em Binta, no norte da Guiné e o Francisco no Hospital de Cochin, em França.
Estão sepultados no Cemitério da Antas S. Tiago, numa nas entradas de Famalicão.
O Álvaro morreu na Guerra do Ultramar. Morto em combate em 28 de Dezembro de 1964 na “quadrícula” da sua Companhia na região de Caurbá, a poucos Kms. do aquartelamento de Binta, Norte da Guiné.Passaram desde essa data fatídica cerca de quarentas e cinco anos.
Na minha memória ,e ao longo de toda uma vida , o Álvaro continuou – continua – a ser o meu “irmão” dilecto dos tempos da guerra.
O seu irmão Francisco, que conheci fugazmente muitos anos depois da morte do Álvaro, num encontro casual no Hotel D.Carlos, em Lisboa, faleceu agora, com 69 anos, em 1 de Julho corrente no Hospital de Cochin, em París.
Estive presente no seu funeral , na terra da sua naturalidade, em 8 de Julho de 2010.
Estive no seu funeral por diversas ordens de razões. Em preito à sua memória, em homenagem à família Vilhena Mesquita e em nome da minha C.Caç. 675, onde militou o seu e meu “irmão” Álvaro
Eu e o ex-Alferes Belmiro Tavares ,honrando a divisa da “675”«Nunca Cederá», estivemos presentes. Primeiro na guerra. Depois na vida e, sempre que possível, na hora da morte. Porque o sentimento fraterno que nos uniu na Guiné nos continua a unir e…nunca cederá.
Antes e depois das cerimónias religiosas do funeral de Francisco Manuel Vilhena Mesquita senti-me na obrigação de dizer a alguns dos seus familiares porque estava naquele dia em Vila Nova de Famalicão.
Disse-lhes que, com o devido respeito, estava ali “em nome” do Álvaro.
Na Igreja Matriz (Velha) de Famalicão soube pela Maria Teresa Vilhena Mesquita que tinha sido exactamente naquele local que tinha estado a urna do meu “irmão” Álvaro quando veio da Guiné. Em princípios de Janeiro de 1965.
Quarenta e cinco anos depois sentia-me “presente” no funeral do meu eterno amigo Álvaro Manuel , o primeiro do ramo desta família dos Vilhena Mesquita que a morte levou. Na flor da vida…com 22 anos de idade.
Quando em Maio de 1966 terminámos a comissão na Guiné o ex-Alferes Tavares e o ex-Furriel Oliveira tínhamos vindo a Famalicão para visitar a campa do Álvaro e conhecer os seus pais e irmãos.
Na tarde de 8 de Julho de 2010, durante o funeral do Francisco, olhei vezes sem conta a campa do Álvaro, situada a uns curtos 40 metros do jazigo da Família Mesquita
O Álvaro e o Francisco continuam na morte próximos ...
Sei que o Francisco me vai perdoar por nessa tarde de Julho ter estado tanto tempo com o Álvaro.
Até um dia Amigos.
JERO
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sábado, 7 de novembro de 2009
M98-GUERRA DO ULTRAMAR / FOTOS COM HISTÓRIA

Fotos com história Gandembel, 1968:
No Comments!
Guiné > Região de Tombali > Gandembel > CCAÇ 2317 (1968/69) > 1968 > Início da construção do aquartelamento > Sem comentários!...
As grandes fotografias dispensam legendas.
No Comments!
Guiné > Região de Tombali > Gandembel > CCAÇ 2317 (1968/69) > 1968 > Início da construção do aquartelamento > Sem comentários!...
As grandes fotografias dispensam legendas.
Esta é uma das fotos-ícones da guerra da Guiné.
Tem uma tremenda força dramática!
Está lá tudo: o homem-toupeira, o homem de nervos de aço de Gandembel/Balana, também tinha alma de poeta e sabia transformar a pá do trolha em viola de baladeiro, ou guitarra de fadista!
Estamos lá todos nesta fotografia de um camarada, sozinho, no palco da guerra, no cu do mundo, enrodilhado num manta, dedilhando a sua viola ou a sua guitarra e cantando para um público imaginário as suas alegrias, as suas tristezas, a sua coragem, a sua solidão, a sua saudade, as suas esperança, os seus medos, os seus sonhos...
Trata-se do nosso camarada Idálio Reis, Alf Mil na altura da CCAÇ 2317...
Trata-se do nosso camarada Idálio Reis, Alf Mil na altura da CCAÇ 2317...
Podemos imaginá-lo no intervalo de um dos 372 ataques e flagelações a que os nossos camaradas foram submetidos, entre 8 de Abril de 1968 até 28 de Janeiro de 1969, os nove meses em que, em tempo-recorde, construiram de raíz um aquartelamento, defenderam-no galharda e heroicamente e receberam ordens para o abandonar!...
Um verdadeiro Suplício de Sísifo!...
Noutro país, esta epopeia teria dado um grande filme, um grande livro, uma grande exposição fotográfica!...
Gandembel, quer se queira ou não, faz parte da nossa história, dos portugueses e dos guineenses...
É bom recordá-la para que não ouçamos amanhã a resposta dos nossos filhos e netos
Gandembel !?
Não, nunca ouvi falar...
Em 1969, a música mais popular entre a nossa tropa era o Hino de Gandembel...
Gandembel, quer se queira ou não, faz parte da nossa história, dos portugueses e dos guineenses...
É bom recordá-la para que não ouçamos amanhã a resposta dos nossos filhos e netos
Gandembel !?
Não, nunca ouvi falar...
Em 1969, a música mais popular entre a nossa tropa era o Hino de Gandembel...
In blog "Luís Graça e Camaradas da Guiné"
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
M72-CONCEIÇÃO UMA MULHER DE ARMAS

NINGUEM FICA PARA TRÁS
“Ninguém fica para trás” é um tema e um título que diz muito aos ex-combatentes .
De vez em quando as televisões e jornais do País pegam nele.
No que nos diz respeito confessamos que nem sempre os “compramos”. Se é jornal damos uma vista de olhos…Se é televisão dou-lhe uns segundos e se não me agrada passo à frente!
Desta vez fiz uma excepção e não me arrependi.
Está de chuva e estava em casa na tarde de 4ª. Feira, 21 de Outubro.
Por volta das 16H00 “passei” pela SIC e vi a Fátima Lopes (jornalista que aprecio particularmente pela sua componente humanista) que entrevistava e “deixava falar” uma senhora de quarenta e poucos anos, que tratava por Conceição.
Rapidamente percebi que se falava da recuperação dos corpos (das ossadas!) dos três paraquedistas de Guidage mortos em combate em Maio de 1973.
A Conceição é arqueóloga e nessa qualidade integrou a operação de resgate que teve lugar no Verão de 2008.
A dignidade e coragem com que falava da identificação das ossadas do seu irmão deixaram-me pregado à cadeira …e extremamente comovido.
«Estavam 45 graus de temperatura.Trabalhava perto de uma colega antropóloga. Nunca senti calor, sede ou fome. Sentia-me tranquila e calma. Esperava um “sinal” e aconteceu. Numa comunidade científica eu não podia confessar que esperava “um sinal dó meu irmão”…»
As campas já tinham descobertas graças a um velho mapa, e ao equipamento do geofísico, que tinha detectado sinais no subsolo.À medida que as escavações avançaram, confirmou-se a presença dos esqueletos daqueles soldados e…mais alguns.
Afinal eram 10 campas.
«Ao escavar a quarta campa encontrei uma pequena pedra vermelha muita suja de terra. Limpei-a como arqueóloga mas quando percebi que tinha o feitio de um coração…agarrei-a com mais força. Ali estava “o sinal” do meu irmão! Sem confessar o meu palpite dei a pedra à colega antropóloga e disse-lhe que ,depois de identificado o ocupante daquela campa ,esse “coração” devia ser entregue à família.
Em Guidage estavam quatro antropólogos, uma arqueóloga, um geofísico, e quatro militares que tinham combatido naquela região, há 35 anos, durante a guerra colonial.Em 23 de Maio de 1973 tombaram em combate, alem dos três paraquedistas outros cincos militares portugueses e três guineenses».[1]
“Ninguém fica para trás” é um tema e um título que diz muito aos ex-combatentes .
De vez em quando as televisões e jornais do País pegam nele.
No que nos diz respeito confessamos que nem sempre os “compramos”. Se é jornal damos uma vista de olhos…Se é televisão dou-lhe uns segundos e se não me agrada passo à frente!
Desta vez fiz uma excepção e não me arrependi.
Está de chuva e estava em casa na tarde de 4ª. Feira, 21 de Outubro.
Por volta das 16H00 “passei” pela SIC e vi a Fátima Lopes (jornalista que aprecio particularmente pela sua componente humanista) que entrevistava e “deixava falar” uma senhora de quarenta e poucos anos, que tratava por Conceição.
Rapidamente percebi que se falava da recuperação dos corpos (das ossadas!) dos três paraquedistas de Guidage mortos em combate em Maio de 1973.
A Conceição é arqueóloga e nessa qualidade integrou a operação de resgate que teve lugar no Verão de 2008.
A dignidade e coragem com que falava da identificação das ossadas do seu irmão deixaram-me pregado à cadeira …e extremamente comovido.
«Estavam 45 graus de temperatura.Trabalhava perto de uma colega antropóloga. Nunca senti calor, sede ou fome. Sentia-me tranquila e calma. Esperava um “sinal” e aconteceu. Numa comunidade científica eu não podia confessar que esperava “um sinal dó meu irmão”…»
As campas já tinham descobertas graças a um velho mapa, e ao equipamento do geofísico, que tinha detectado sinais no subsolo.À medida que as escavações avançaram, confirmou-se a presença dos esqueletos daqueles soldados e…mais alguns.
Afinal eram 10 campas.
«Ao escavar a quarta campa encontrei uma pequena pedra vermelha muita suja de terra. Limpei-a como arqueóloga mas quando percebi que tinha o feitio de um coração…agarrei-a com mais força. Ali estava “o sinal” do meu irmão! Sem confessar o meu palpite dei a pedra à colega antropóloga e disse-lhe que ,depois de identificado o ocupante daquela campa ,esse “coração” devia ser entregue à família.
Em Guidage estavam quatro antropólogos, uma arqueóloga, um geofísico, e quatro militares que tinham combatido naquela região, há 35 anos, durante a guerra colonial.Em 23 de Maio de 1973 tombaram em combate, alem dos três paraquedistas outros cincos militares portugueses e três guineenses».[1]
«Veio-se o confirmar que as ossadas do meu irmão eram mesmo as da quarta campa, a que tinha o “coração” de pedra, de cor vermelha.
E tive direito a trazê-lo comigo. E hoje uso-o, pendurado num fio de ouro, ao peito. Junto do meu coração».
Não era só a entrevistadora que estava comovida. De vez em quando as câmaras focavam a assistência e parecia que as pessoas nem respiravam Os 3 paraquedistas que morreram em Maio de 1973 regressaram às suas terras natais um mês depois da Conceição ter voltado da Guiné. No Verão de 2008. Eles e as ossadas dos outros sete militares.
«Não iríamos deixar ninguém para trás», disse convictamente a Conceição.
Finalmente tiveram eles – e as suas famílias - direito a um funeral. Com honras militares e com o preito e homenagem de antigos combatentes.«As cerimónias fúnebres, com salvas de tiros de canhão impressionaram-nos muito. A minha mãe, hoje com 83 anos , sofreu muito. Mas conseguimos finalmente fechar um capítulo que tinha de ser escrito.
O meu irmão repousa junto de nós»
E Conceição termina o seu depoimento dizendo:
«Quero participar em mais missões de resgate. Tem que haver vontade de fazer regressar às suas terras natais os militares que morreram na guerra colonial.»
E tive direito a trazê-lo comigo. E hoje uso-o, pendurado num fio de ouro, ao peito. Junto do meu coração».
Não era só a entrevistadora que estava comovida. De vez em quando as câmaras focavam a assistência e parecia que as pessoas nem respiravam Os 3 paraquedistas que morreram em Maio de 1973 regressaram às suas terras natais um mês depois da Conceição ter voltado da Guiné. No Verão de 2008. Eles e as ossadas dos outros sete militares.
«Não iríamos deixar ninguém para trás», disse convictamente a Conceição.
Finalmente tiveram eles – e as suas famílias - direito a um funeral. Com honras militares e com o preito e homenagem de antigos combatentes.«As cerimónias fúnebres, com salvas de tiros de canhão impressionaram-nos muito. A minha mãe, hoje com 83 anos , sofreu muito. Mas conseguimos finalmente fechar um capítulo que tinha de ser escrito.
O meu irmão repousa junto de nós»
E Conceição termina o seu depoimento dizendo:
«Quero participar em mais missões de resgate. Tem que haver vontade de fazer regressar às suas terras natais os militares que morreram na guerra colonial.»
E agora dizemos nós:
Ninguém fica para trás!?Infelizmente alguns ficaram.A saga dos paraquedistas de Guidage poderia – e deveria – ser o mote para os representantes do Estado Português tratarem com os governos da CPLP(Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) da transladação condigna dos restos mortais dos militares que “caíram” em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.Custará dinheiro? Obviamente.O nosso Ministério da Defesa não terá disponibilidades para tal!? Sabemos a resposta antecipadamente…Mau grado o interesse …por constrangimentos orçamentais…etc., etc.Deixamos uma sugestão.
A recente Lei nº. 3/2009, a tal que passou o CEP para SEP, não terá criado algum reforço e/ou disponibilidade orçamental!? …A nossa sugestão é a seguinte. Já que estão com “a mão na massa” apliquem os valores disponíveis para pagar uma “divida de honra” que têm com os antigos combatentes . Há mais de 30 anos que muitas famílias portuguesas esperam o regresso dos seus soldados, da guerra colonial. O Estado português enviou-os para a frente de combate, mas não resgatou os corpos de quem morreu na guerra.Providenciem pelo seu regresso.Para que um dia... possamos dizer...finalmente:
Ninguém fica para trás!?Infelizmente alguns ficaram.A saga dos paraquedistas de Guidage poderia – e deveria – ser o mote para os representantes do Estado Português tratarem com os governos da CPLP(Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) da transladação condigna dos restos mortais dos militares que “caíram” em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.Custará dinheiro? Obviamente.O nosso Ministério da Defesa não terá disponibilidades para tal!? Sabemos a resposta antecipadamente…Mau grado o interesse …por constrangimentos orçamentais…etc., etc.Deixamos uma sugestão.
A recente Lei nº. 3/2009, a tal que passou o CEP para SEP, não terá criado algum reforço e/ou disponibilidade orçamental!? …A nossa sugestão é a seguinte. Já que estão com “a mão na massa” apliquem os valores disponíveis para pagar uma “divida de honra” que têm com os antigos combatentes . Há mais de 30 anos que muitas famílias portuguesas esperam o regresso dos seus soldados, da guerra colonial. O Estado português enviou-os para a frente de combate, mas não resgatou os corpos de quem morreu na guerra.Providenciem pelo seu regresso.Para que um dia... possamos dizer...finalmente:
Ninguém ficou para trás.
JERO
[1] O Início do ataque do PAIGC ao quartel de Guidage, no Norte da Guiné deu-se em 8 de Maio de 1973.Na operação de auxílio, reabastecimento e contra-ofensiva, que durou de 8 de Maio a 8 de Junho de 1973, as forças portuguesas tiveram 39 mortos e 122 feridos. Pelo menos seis viaturas militares de vários tipos foram destruídas e foram abatidos três aviões (um T6 e dois DO27). Só a unidade de Guidage contabilizou sete mortos e 30 feridos, todos militares. Nos cerca de 20 dias que ficou cercada, Guidage esteve sujeita a 43 ataques com foguetões de 122m/m, artilharia e morteiros. Todos os edifícios do quartel foram danificados. A unidade, que, no conjunto, teve mais mortos foi o Batalhão de Comandos: dez. Sofreu ainda 22 feridos, quase todos graves, e três desaparecidos".
[1] O Início do ataque do PAIGC ao quartel de Guidage, no Norte da Guiné deu-se em 8 de Maio de 1973.Na operação de auxílio, reabastecimento e contra-ofensiva, que durou de 8 de Maio a 8 de Junho de 1973, as forças portuguesas tiveram 39 mortos e 122 feridos. Pelo menos seis viaturas militares de vários tipos foram destruídas e foram abatidos três aviões (um T6 e dois DO27). Só a unidade de Guidage contabilizou sete mortos e 30 feridos, todos militares. Nos cerca de 20 dias que ficou cercada, Guidage esteve sujeita a 43 ataques com foguetões de 122m/m, artilharia e morteiros. Todos os edifícios do quartel foram danificados. A unidade, que, no conjunto, teve mais mortos foi o Batalhão de Comandos: dez. Sofreu ainda 22 feridos, quase todos graves, e três desaparecidos".
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009
M67-DIA DO VETERANO EM IMAGENS
Nº.1 -Palestra do escritor e ex-militar da Guiné Dr. Luis Rosa sobre a Batalha de Aljubarrota.
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terça-feira, 20 de outubro de 2009
M66-DIAS COM HISTÓRIA

DIA DO VETERANO DE GUERRA
Por iniciativa da Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra celebrou-se em Aljubarrota no passado dia 20 de Outubro, o Dia do Veterano de Guerra,
Apesar do mau tempo cerca de três centenas de ex-combatentes e suas famílias marcaram presença na histórica vila de Aljubarrota, comparecendo à chamada dos dirigentes da dinâmica APVG, que já congrega mais de 50.000 associados em todo o País.
O programa inicial teve que sofrer algumas alterações devido à chuva que se fez sentir durante parte da manhã de 3ª. Feira, nomeadamente no que respeita ao lançamento de paraquedistas, que teve de ser anulado.
Estava prevista uma visita guiada a Aljubarrota que também não se realizou ,sendo substituída por uma palestra pelo escritor e também ex-combatente Dr.Luís Rosa, que decorreu no interior da Igreja de Paroquial de Nossa Senhora dos Prazeres.
Seguiu-se a missa celebrada pelo Revmº. Padre Ramiro Portela, com a igreja literalmente cheia até à porta.
No final da celebração foi tempo de discursos – ainda dentro da Igreja -.Usaram da palavra José Fialho, da APVG de Alcobaça, Prof. Dr. Augusto Fernandes e Manuel Anjos Pereirinha, ambos dirigentes nacionais da APVG e finalmente o Dr. Carlos Bonifácio, que representou a C.M de Alcobaça.
A melhoria do tempo permitiu aos ex-combatentes dirigiram-se a pé até à estátua do Condestável D.Nuno Álvares Pereira, onde decorreram novas cerimónias, emotivamente participadas por todos os presentes.
Seguiu-se o almoço, ainda em Aljubarrota, com animado convívio. Antes da sobremesa tiveram lugar mais alguns discursos com tomadas de posição da APVG em relação à recente alteração do Complemento Especial de Pensão que passou a Suplemento”, com uma substancial alteração para menos que os ex-combatentes não aceitam. Oportunamente irão ser tomadas posição concertadas a nível nacional para fazer chegar ecos desse descontentamento a nível do Governo.
O resto da tarde foi de convívio terminando o Dia do Veterano de Guerra em ambiente de festa com um concerto no Cine-Teatro de Alcobaça a cargo da Orquestra Ligeira Juvenil do Bárrio.
Concerto de uma orquestra de 40 jovens estudantes, que terminou com o Hino Nacional cantado de pé por uma assistência menos jovem mas não menos aguerrida.
A “prova de vida” foi feita.
Os Veteranos de Guerra vão continuar por aí à espera do reconhecimento e respeito que merecem.
JERO
Por iniciativa da Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra celebrou-se em Aljubarrota no passado dia 20 de Outubro, o Dia do Veterano de Guerra,
Apesar do mau tempo cerca de três centenas de ex-combatentes e suas famílias marcaram presença na histórica vila de Aljubarrota, comparecendo à chamada dos dirigentes da dinâmica APVG, que já congrega mais de 50.000 associados em todo o País.
O programa inicial teve que sofrer algumas alterações devido à chuva que se fez sentir durante parte da manhã de 3ª. Feira, nomeadamente no que respeita ao lançamento de paraquedistas, que teve de ser anulado.
Estava prevista uma visita guiada a Aljubarrota que também não se realizou ,sendo substituída por uma palestra pelo escritor e também ex-combatente Dr.Luís Rosa, que decorreu no interior da Igreja de Paroquial de Nossa Senhora dos Prazeres.
Seguiu-se a missa celebrada pelo Revmº. Padre Ramiro Portela, com a igreja literalmente cheia até à porta.
No final da celebração foi tempo de discursos – ainda dentro da Igreja -.Usaram da palavra José Fialho, da APVG de Alcobaça, Prof. Dr. Augusto Fernandes e Manuel Anjos Pereirinha, ambos dirigentes nacionais da APVG e finalmente o Dr. Carlos Bonifácio, que representou a C.M de Alcobaça.
A melhoria do tempo permitiu aos ex-combatentes dirigiram-se a pé até à estátua do Condestável D.Nuno Álvares Pereira, onde decorreram novas cerimónias, emotivamente participadas por todos os presentes.
Seguiu-se o almoço, ainda em Aljubarrota, com animado convívio. Antes da sobremesa tiveram lugar mais alguns discursos com tomadas de posição da APVG em relação à recente alteração do Complemento Especial de Pensão que passou a Suplemento”, com uma substancial alteração para menos que os ex-combatentes não aceitam. Oportunamente irão ser tomadas posição concertadas a nível nacional para fazer chegar ecos desse descontentamento a nível do Governo.
O resto da tarde foi de convívio terminando o Dia do Veterano de Guerra em ambiente de festa com um concerto no Cine-Teatro de Alcobaça a cargo da Orquestra Ligeira Juvenil do Bárrio.
Concerto de uma orquestra de 40 jovens estudantes, que terminou com o Hino Nacional cantado de pé por uma assistência menos jovem mas não menos aguerrida.
A “prova de vida” foi feita.
Os Veteranos de Guerra vão continuar por aí à espera do reconhecimento e respeito que merecem.
JERO
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sábado, 17 de outubro de 2009
PLACAS ONDE ESTÃO GRAVADOS 8290 NOMES

No Monumento aos Combatentes do Ultramar da autoria de Carlos Guerreiro e Batista Barros, em homenagem a todos aqueles que morreram em combate, na Guerra do Ultramar, entre 1961 a 1974 estão 8290 nomes .
A parede em redor do monumento está revestida com placas onde estão gravados os nomes de todos os ex-combatentes mortos em combate.
As lágrimas de quem por eles choraram estão por perto...
As lágrimas de quem por eles choraram estão por perto...
Logo atrás do Forte do Bom Sucesso, em Belem, passa o Tejo, a caminho do mar .
JERO
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M64-HUMANIZAR A MORTE

O TEXTO QUE SE SEGUE É A CONTINUAÇÃO DA MINHA POSTAGEM M50(Guerra sem fim, Ex-Combatentes Homens com dores de Alma) e foi publicado no blogue "Luis Graça e Camaradas da Guiné".
Carta aos Pais do Nascimento
quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Guiné 63/74 – P5105: Histórias do Jero (José Eduardo Oliveira) (18): Mina antipessoal
1. O nosso Camarada José Eduardo Reis de Oliveira (JERO), foi Fur Mil da CCAÇ 675 (Binta, 1964/65), enviou-nos a sua 18ª história, com data de 10 de Outubro de 2009:
Mina antipessoal – parte II
Quarenta e tal anos depois... memórias do ex-Alferes Belmiro Tavares.
Estava em Bissau. Ao fim da tarde encontrei o Honório que me disse:
– Houve azar na tua Companhia. Fui buscar um soldado que chegou morto ao Hospital.
– Sabes como se chamava?
– Nascimento.
– É meu, porra!
Segui de táxi para o Hospital.
Mal cheguei dei de caras com o «Rato», o Cabo-Enfermeiro Martins.
Este estava no HM-241 a fazer tratamento de desparasitação (!?) e logo que me viu gritou-me a má nova:
- Morreu o Nascimento.
Estava agitadíssimo. Em cada três palavras dizia duas asneiras.
Já não sei como mas... seguiu-o pelos corredores do Hospital e fui dar a uma sala onde estava um corpo coberto por um lençol.
O «Rato» destapou o corpo e reconheci o corpo desnudado do Nascimento. Morto. Não tinha um pé.
Falei com o Médico de serviço.
– Como é que isto aconteceu? Por que morreu?
– Faleceu à saída da ambulância. Quando passou a porta do Hospital já não estava vivo.
Voltei a Bissau completamente destroçado. Recusava-me a acreditar!
Tinha conhecimento do caso de um militar que tinha ficado sem as 2 pernas e safou-se e o Nascimento estava morto... por ter ficado sem um pé!? Procurei e encontrei o Honório, a quem pedi mais pormenores sobre a evacuação.
Contou-me que estava muito mau tempo. Céu nublado baixo. A visibilidade era diminuta. Só um maluco é que arriscaria a descolagem de Bissau a caminho do Norte.
Está claro que foi o Honório. Fez voo rasante de Bissau a Binta, seguindo sempre o Rio Cacheu. Regressou com o ferido a Bissau sempre a baixa altitude. À chegada o ferido tinha o garrote desapertado. Foi metido numa ambulância a caminho do Hospital. Pouco depois rebenta um pneu da ambulância. Mais uma demora.
O último azar nesse dia terrível. Fatal para o Nascimento.Quando finalmente chegou ao Hospital era tarde demais.
O ex-Alferes Tavares desfia estas recordações com a voz embargada. Por vezes tem que parar de falar.
– Comigo em Binta, o Nascimento não teria pisado a mina anti-pessoal...Se junto a Santacoto «o trilho era recente», ele não devia ter sido pisado pela nossa tropa... Recordo o Nascimento como um soldado leal e frontal nas relações com os seus superiores. Não consigo esquecê-lo... Se lá estivesse ele podia estar vivo!
O ex-Alferes Tavares faz um longo silêncio.
– Oliveira... vamos ficar por aqui.
Mina antipessoal – parte III
Mais uma achega do Belmiro Tavares:
«O primeiro grande acto cívico da 675 aconteceu ainda na Guiné. Custeámos as transladações (urnas próprias) dos nossos 3 mortos em combate para que os corpos fossem entregues às famílias que tiveram assim a oportunidade de fazer funerais condignos. Caso contrário ficariam “esquecidos” algures na Guiné... a norte do Cacheu.»
Mais tarde acrescentou às suas “obrigações” tratar das lápides para as sepulturas dos companheiros que, pela ordem natural da vida, foram desaparecendo do número dos vivos.
E não só:Tivemos acesso a uma carta para os Pais do Soldado João Nunes do Nascimento – morto em combate em 30 de Julho de 1965, que é particularmente tocante.
«… Lisboa , 29 de Abril de 1968
Exmº. Senhor João Nascimento
…
O senhor não sabe quem eu sou mas vou dizer-lhe. Meu nome é Belmiro Tavares e sou Alferes Miliciano. Estive na Guiné de 1964 a 66 e fui comandante de pelotão a que pertenceu seu filho, o meu grande e saudoso amigo, João Nunes do Nascimento. Do fundo do coração peço desculpa por fazer sangrar mais uma vez a ferida que a morte do seu filho abriu no seu coração de pai mas eu, que tinha em grande consideração o seu filho, não podia por mais tempo calar este desejo íntimo, esta ânsia de desabafar e contactar com o pai dum dos meus soldados, o único do meu pelotão que tombou em defesa da Pátria. Aproveito a oportunidade para o felicitar pela educação esmerada que soube dar ao seu filho fazendo dele um modelo de virtudes e um bom português. Da consideração e estima que todos nós -oficiais, sargentos e soldados – tínhamos pelo seu filho já o senhor tem provas de sobejo e posso dizer-lhe, em abono da verdade, que o seu filho era um dos mais destacados soldados duma Companhia que se distinguiu na Guiné.
...
Dentro de dias, no dia cinco de Maio, um grupo de soldados da nossa Companhia reúne em Lisboa para mandar rezar uma missa por alma do seu filho e por alma de mais dois rapazes que para sempre nos abandonaram e que jamais poderemos esquecer… Ficar-lhe-íamos eternamente gratos se nos desse alegria da sua presença.
… Todos os anos no primeiro domingo de Maio a sua memória será reavivada por todos nós até que o bom Deus nos chame para junto dele.
…
a) Belmiro Tavares:
E os pais do Nascimento compareceram e compartilharam com os camaradas do seu filho a saudade e a memória do militar do 3º Pelotão, Soldado Atirador nº. 2.169/63, João Nunes do Nascimento.
Continua a não ser um final feliz. Mas o encontro com os Pais do Nascimento acrescentou dignidade e paz à família “675” que… não esquece e continua a honrar os seus mortos.
Fotos: José Eduardo Oliveira (2009). Direitos reservados.
Um abraço,
JERO
Fur Mil Enf da CCAÇ 675
quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Guiné 63/74 – P5105: Histórias do Jero (José Eduardo Oliveira) (18): Mina antipessoal
1. O nosso Camarada José Eduardo Reis de Oliveira (JERO), foi Fur Mil da CCAÇ 675 (Binta, 1964/65), enviou-nos a sua 18ª história, com data de 10 de Outubro de 2009:
Mina antipessoal – parte II
Quarenta e tal anos depois... memórias do ex-Alferes Belmiro Tavares.
Estava em Bissau. Ao fim da tarde encontrei o Honório que me disse:
– Houve azar na tua Companhia. Fui buscar um soldado que chegou morto ao Hospital.
– Sabes como se chamava?
– Nascimento.
– É meu, porra!
Segui de táxi para o Hospital.
Mal cheguei dei de caras com o «Rato», o Cabo-Enfermeiro Martins.
Este estava no HM-241 a fazer tratamento de desparasitação (!?) e logo que me viu gritou-me a má nova:
- Morreu o Nascimento.
Estava agitadíssimo. Em cada três palavras dizia duas asneiras.
Já não sei como mas... seguiu-o pelos corredores do Hospital e fui dar a uma sala onde estava um corpo coberto por um lençol.
O «Rato» destapou o corpo e reconheci o corpo desnudado do Nascimento. Morto. Não tinha um pé.
Falei com o Médico de serviço.
– Como é que isto aconteceu? Por que morreu?
– Faleceu à saída da ambulância. Quando passou a porta do Hospital já não estava vivo.
Voltei a Bissau completamente destroçado. Recusava-me a acreditar!
Tinha conhecimento do caso de um militar que tinha ficado sem as 2 pernas e safou-se e o Nascimento estava morto... por ter ficado sem um pé!? Procurei e encontrei o Honório, a quem pedi mais pormenores sobre a evacuação.
Contou-me que estava muito mau tempo. Céu nublado baixo. A visibilidade era diminuta. Só um maluco é que arriscaria a descolagem de Bissau a caminho do Norte.
Está claro que foi o Honório. Fez voo rasante de Bissau a Binta, seguindo sempre o Rio Cacheu. Regressou com o ferido a Bissau sempre a baixa altitude. À chegada o ferido tinha o garrote desapertado. Foi metido numa ambulância a caminho do Hospital. Pouco depois rebenta um pneu da ambulância. Mais uma demora.
O último azar nesse dia terrível. Fatal para o Nascimento.Quando finalmente chegou ao Hospital era tarde demais.
O ex-Alferes Tavares desfia estas recordações com a voz embargada. Por vezes tem que parar de falar.
– Comigo em Binta, o Nascimento não teria pisado a mina anti-pessoal...Se junto a Santacoto «o trilho era recente», ele não devia ter sido pisado pela nossa tropa... Recordo o Nascimento como um soldado leal e frontal nas relações com os seus superiores. Não consigo esquecê-lo... Se lá estivesse ele podia estar vivo!
O ex-Alferes Tavares faz um longo silêncio.
– Oliveira... vamos ficar por aqui.
Mina antipessoal – parte III
Mais uma achega do Belmiro Tavares:
«O primeiro grande acto cívico da 675 aconteceu ainda na Guiné. Custeámos as transladações (urnas próprias) dos nossos 3 mortos em combate para que os corpos fossem entregues às famílias que tiveram assim a oportunidade de fazer funerais condignos. Caso contrário ficariam “esquecidos” algures na Guiné... a norte do Cacheu.»
Mais tarde acrescentou às suas “obrigações” tratar das lápides para as sepulturas dos companheiros que, pela ordem natural da vida, foram desaparecendo do número dos vivos.
E não só:Tivemos acesso a uma carta para os Pais do Soldado João Nunes do Nascimento – morto em combate em 30 de Julho de 1965, que é particularmente tocante.
«… Lisboa , 29 de Abril de 1968
Exmº. Senhor João Nascimento
…
O senhor não sabe quem eu sou mas vou dizer-lhe. Meu nome é Belmiro Tavares e sou Alferes Miliciano. Estive na Guiné de 1964 a 66 e fui comandante de pelotão a que pertenceu seu filho, o meu grande e saudoso amigo, João Nunes do Nascimento. Do fundo do coração peço desculpa por fazer sangrar mais uma vez a ferida que a morte do seu filho abriu no seu coração de pai mas eu, que tinha em grande consideração o seu filho, não podia por mais tempo calar este desejo íntimo, esta ânsia de desabafar e contactar com o pai dum dos meus soldados, o único do meu pelotão que tombou em defesa da Pátria. Aproveito a oportunidade para o felicitar pela educação esmerada que soube dar ao seu filho fazendo dele um modelo de virtudes e um bom português. Da consideração e estima que todos nós -oficiais, sargentos e soldados – tínhamos pelo seu filho já o senhor tem provas de sobejo e posso dizer-lhe, em abono da verdade, que o seu filho era um dos mais destacados soldados duma Companhia que se distinguiu na Guiné.
...
Dentro de dias, no dia cinco de Maio, um grupo de soldados da nossa Companhia reúne em Lisboa para mandar rezar uma missa por alma do seu filho e por alma de mais dois rapazes que para sempre nos abandonaram e que jamais poderemos esquecer… Ficar-lhe-íamos eternamente gratos se nos desse alegria da sua presença.
… Todos os anos no primeiro domingo de Maio a sua memória será reavivada por todos nós até que o bom Deus nos chame para junto dele.
…
a) Belmiro Tavares:
E os pais do Nascimento compareceram e compartilharam com os camaradas do seu filho a saudade e a memória do militar do 3º Pelotão, Soldado Atirador nº. 2.169/63, João Nunes do Nascimento.
Continua a não ser um final feliz. Mas o encontro com os Pais do Nascimento acrescentou dignidade e paz à família “675” que… não esquece e continua a honrar os seus mortos.
Fotos: José Eduardo Oliveira (2009). Direitos reservados.
Um abraço,
JERO
Fur Mil Enf da CCAÇ 675
___________ . Luís Graça, ex-Fur Mil da CCAÇ 2590/CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71, deixou este comentário no poste 5105, no dia 14 de Outubro de 2009:
Binta, meu caro JERO, foi também uma escola de virtudes... Na tua boca, poderia ser um auto-elogio, escrito por um dos fiéis leitores, deve aproximar-se da verdade...Parece ser uma lugar-comum, e até uma afirmação temerária dizer que situações-limites como a guerra e a preparação para a guerra podem ser reveladoras...Reveladoras do que há de melhor e pior nos seres humanos... Em grupo, como primatas sociais que somos, para mais territoriais, predadores, armados de massa cinzenta q.b. e de tecnologias de morte q.b., somos capazes de tudo, incluindo matar e ter compaixão pelas nossas vítimas, e até matarmos-nos por altruísmo... (quantos heróis não terão sido suicidas altruístas ?).A morte dos nossos camaradas, ao longe ou ao nosso lado, deixou marcas... Éramos uns putos e não estávamos preparados nem para matar nem para morrer nem para ver morrer (independentemente da causa, da bandeira...).A tropa, a IAO e as todas palhaçadas que andámos a fazer, uns por Santa Margarida, outros por Bolama, outros por Contuboel, tudo isso não passava de um prolongamento das nossas brincadeiras de adolescentes... Uns levavam-nas a sério, até a sério demais... Mas ainda estávamos na guerra do faz-de-conta...(de tal maneira que houve Companhias, tal como a minha, a CCAÇ 12, que teve o seu baptismo de fogo, com mortos e feridos graves, ainda em fato-macaco, em farda n.º 3, logo a seguir ao fim da IAO)...A guerra, logo a seguir à IAO, essa, era mesmo a sério... Sobretudo as minas, as emboscadas, as colunas logísticas, os golpes de mão, os patrulhamentos ofensivos, a espera (à noite) do ataque, da flagelação... Os dias, as noites, o inferno verde, os mortos, os feridos, a sede, a desidratação, as abelhas, os mosquitos... Enfim, e sobretudo, o INIMIGO sem rosto... Quase como Deus, ubíquo, invisível, imprevisível, insondável...A guerra marcou-nos com um ferro em brasa... por muito que a gente negue, denegue, racionalize, faça humor, ironize, verbalize, tente esquecer, escamotear, branquear, efabular, infantilizar...Gestos como o do Belmiro Tavares da tua história também nos sensibilizam e enobrecem (não já como portugueses, simplesmente como homens)... E as cartas que o Belmiro e tantos outros graduados, anónimos, mandaram aos pais dos nossos camaradas mortos (em combate, mas também por acidente e doença) deviam poder chegar ao nosso conhecimento, deviam ser conhecidas e preservadas, deviam figurar no futuro museu da guerra colonial...São documentos muitos íntimos guardados ainda pelas famílias (?)... Quantas cartas dessas terão sido escritas? Quantas poderão ainda chegar até nós, digitalizadas ou transcritas para suporte digital? Ou ao Arquivo Histórico-Militar, os originais?Cartas (como a do Belmiro Tavares escrita aos pais do malogrado Nascimento) ajudaram, seguramente, a fazer o luto, a humanizar a morte, a suportar a perda irreparável que era a morte de um filho na flor da vida, e para mais a milhares de quilómetros de distância, numa terra estranha...Estas cartas, de consolo, de solidariedade, de compaixão, escritas por camaradas nossos às famílias em luto, contrastavam com o seco, brutal, frio, impessoal, telegrama, remetido pelos competentes serviços do Exército... (Mas era assim, julgo que era assim, que se comunicava, naquele tempo, a funesta notícia às famílias... Poderia ter sido de outra maneira? Sem dúvida, deveria ter sido de outra maneira...).
Luís Graça
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