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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

M - 468 UMA CHAMADA A HORAS MORTAS...

Uma “chamada” com que ninguém contava…
 Saber lidar com a morte é algo difícil para a maioria das pessoas. Nessas horas o sentimento de dor e desespero pela perda é muito difícil de ultrapassar pelos familiares e amigos próximos.
Mas depois há as profissões que convivem de perto com a morte.
 Uma das profissões em que isso acontece – quase sempre em condições dramáticas - é a do perito legista. Trabalhando no Instituto Médico Legal esses profissionais, na maioria das vezes, realizam perícias de mortes trágicas, que envolvem acidentes ou assassinatos.
Há ainda o caso dos coveiros que precisam trabalhar perante o sofrimento e a dor dos familiares do ente querido que vai a enterrar.
Mas ainda antes do acto de sepultar os mortos, existe o serviço das funerárias , onde os seus funcionários, normalmente conhecido por cangalheiros, preparam o corpo para a última viagem.  Vestem, fazem maquiagem, cortam o cabelo, fazem a barba, colocam flores no caixão, para que fique uma boa impressão do falecido durante o velório. Para que um corpo fique pronto gastam-se largos minutos. Quando não são horas.
Feito o contexto do tema que hoje abordamos vamos ficar por “estórias” que constam acerca de alguns velórios.
 Desde a daquele homem do campo, cujo caixão foi transportado durante alguns quilómetros em cima de um burro até à Igreja, e que caiu tantas vezes durante o percurso que, durante o velório, abriu os olhos e voltou  (momentaneamente) à vida...assustando toda a gente.
Ou a de um pescador já idoso, que no velório na capela da sua naturalidade, “acordou” e se levantou por momentos do caixão onde repousava, sujeitando-se de imediato a um ralhete da sua (assumida) viúva, que rapidamente o aconselhou a deitar-se de novo pois as despesas do funeral já estavam feitas…
A última é dos nossos dias e aconteceu durante o velório numa capela duma igreja duma aldeia do Litoral Oeste.
Na preparação do corpo para o funeral o cangalheiro, que trabalhava sozinho, reparou que o casaco do morto era do mesmo padrão e cor do que trazia vestido, mas com uma diferença. Era novo e o seu …nem por isso. E quanto a tamanho? Eram iguais. O cangalheiro pensou em voz alta (ou teria sido em voz baixa…) que o morto não se ia importar e fez a troca.
Seguiu-se o velório. As horas foram passando e, como é habitual, com o decorrer do tempo as condolências foram escasseando e na capela mortuária ficaram os familiares mais próximos e dois ou três amigos indefectíveis. E o cangalheiro.
Perto da meia-noite tocou um telemóvel. Uma, duas, três, quatro vezes e mais vezes. Ninguém atendia. Os presentes olhavam uns para os outros mas o som do telemóvel parecia cada vez mais estridente no silêncio da noite que já ia longa.
Mas o mais estranho de tudo era que o som do telemóvel parecia vir de dentro do caixão…
O longo minuto terminou quando o cangalheiro bateu com a mão na própria cabeça e foi “ajeitar o corpo” no caixão. O som do telemóvel deixou se ouvir.
Vá se lá saber porquê!!!
Quem é que ia esperar uma “chamada” a horas mortas…
JERO



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

M - 452 - REENCONTROS NA VIDA...

SALIQUINHEDIM…FRENTE A FARIM
Uma história publicada no “Correio da Manhã”(A Minha Guerra) no seu
suplemento de 28 de Julho de 2013 fez com que voltasse a “reencontrar” um velho
camarada dos tempos do H.M.P.-Lisboa (1962-64)e da Guiné (1964-66).




O Aníbal Albino, alfacinha dos quatros costados, que na Estrela tratávamos por “six/five/ò/laring”(vá-se lá saber porquê…) ,relata o nosso dramático encontro na Guiné, perto de Saliquinhedim em meados de Novembro de 1964. O Aníbal era então o Furriel Enfermeiro da CART. 732, recém-chegada à Guiné, e eu desempenhava idênticas funções na
CCaç. 675, na altura já com a experiência de 4 meses de mato na região de Binta, a cerca de 20 kms. de Farim.


Eu estava integrado num pelotão da minha Companhia, que garantia uma
“testa de ponte” frente a Farim (na margem esquerda do Rio Cacheu) para uma operação da CCav. 487 e o Aníbal vinha com a sua Companhia de Bissau para se instalarem em Saliquinhedim, a 5 kms. de Farim.




Encontramo-nos na noite de 5 de Novembro – conforme registo do “Diário
da 675” – e o Aníbal não exagera quando diz no artigo do “Correio da Manhã”, que “tremia por tudo quando era sítio”.
A sua Companhia que tinha partido de Bissau, em coluna-auto, via Mansoa-Mansabá-Olossato,  tinha sido violentamente atacada por
duas vezes, resultando dessas emboscadas um morto (*) e cinco feridos. Quando chegaram junto de nós os militares da “732” vinham de cabeça perdida e completamente desorientados.
Ainda hoje me lembra do Aníbal me contar que os militares da sua
Companhia tinham recebido as “G-3” nessa manhã e já tinham passado por dois ataques e muitos nem “a bala na câmara “sabiam meter nas armas que lhes foram distribuídas. Praticamente a reacção ao fogo inimigo tinha sido feita por um Sargento do Quadro, com uma metralhadora-pesada instalada numa viatura(!). O resto da malta tinha-se mandado ao chão à espera que a “trovoada” passasse… A confusão tinha sido tanta que até as tropas de Saliquinhedim, que vinham
render, tinha feito fogo sobre eles, pois não tinham informação de que iam ser rendidos nesse dia !!!
Recordo-me ainda do pormenor macabro de ter sido eu, mais o meu
cabo-enfermeiro Martins, que fomos acima de uma viatura buscar o morto da “732”, para o confiar às tropas da “487”, que regressavam nessa noite a Farim, pois os seus camaradas nem tinham coragem de olhar para o corpo, já então envolto numa lona.
Refiro umas linhas do “Diário da 675”(**):« Quase há dois dias sem comerem eles aceitaram como “dádiva” do céu” o nosso jantar de que prescindimos para lhes oferecer. Pouco a pouco conseguimos confortá-los e dar-lhes alento».
«Não podiam cruzar os braços. Tinham que reagir, lutar, vingar os seus mortos e feridos.»
Foi uma longa noite para eles mas quando chegou o novo dia, apesar de inexperientes, estavam prontos para voltar à luta.
Quando abalaram de novo nas suas viaturas para render a “487”, e continuar a operação, tinham um ar resoluto e uma nova confiança. «Obrigado 675», gritaram-nos. «Para a frente 732», incitámo-los na despedida.




No que nos diz respeito a operação , que estava prevista para três dias prolongou-se por mais quatro  – uma surpresa tão desagradável quanto imprevista! 
Ultrapassada que foi a operação nocturna de desembargue, bem complicada por sinal, para instalarmos a tal “testa de ponte”
para a “487” actuar,  passámos a ter como “inimigos” principais: a escuridão da noite, o cacimbo que fazia baixar drasticamente a temperatura, os “colchões” de terra dura e mosquitos infatigáveis sem ligarem ao repelente com que nos besuntávamos!
Mas na minha memória – mais do que essa semana terrivelmente
desconfortável – o que perdura são os camaradas da “732” e, particularmente, o  Enfermeiro Aníbal Albino. Que muitos anos mais
tarde vi a reencontrar na praia de São Martinho do Porto. E, claro está, as
primeiras palavras que trocámos tiveram a ver com a terrível noite da Guiné em
Saliquinhedim…frente a Farim.


JERO


(*)-Identificação do morto em combate
JOÃO ANTÓNIO BEIJINHO SARDINHA Soldado Atirador nº 107/64, da CART 732, mobilizado no RAL 1,em Lisboa. Era solteiro, filho de João António Sardinha e de Inácia Maria Beijinho. Natural da freguesia de Selmes, concelho de Vidigueira. Faleceu em 5 de Novembro de 1964, vítima de ferimentos em combate, na região de Farim, tendo sido inumado no Cemitério Municipal de Évora.”(elementos transmitidos por José Silva
Marcelino Martins).


(**)- Diário da 675, a pgs. 130.


Com a devida vénia ao "Correio da Manhã", reproduzimos o texto original publicado no suplemento do CM do passado dia 28 de Julho:







segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

M - 402 NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO (NAO) NÃO, MUITO OBRIGADO

Sambaro, o Dicionário e o Afecto

Agora que tenho tempo tornei-me um caminheiro. Logo pela manhã abalo pela cidade. Travessas, calçadas, pátios, becos, vilas, percorro devagar essa Lisboa escondida, quase invisível. Foi num desses passeios que encontrei Ansumane.


Um negro velho e calvo, que entre a Travessa da Lua e o Beco das Estrelas, arengava em crioulo.


Dei-lhe os bons dias e ele apresentou-se:
- Ansumane Baldé, segurança.
- Segurança? Foi militar?
- Soldado de Artilharia, Número Mecanográfico 82062962, Guileje, com os Alferes… e desfiou uma lista de nomes.
- Eu estive na Guiné. Era o Alferes Cabral do Pel Caç Nat 63.


- Ah! O Alfero Bigodes!
- Sim usava um grande bigode. Mas como sabes? Estive sempre no Leste, em Fá e Missirá!

- Quando fugimos para o Senegal iam muitos soldados dos Pelotões Nativos.
Do teu, foi o Sambaro, que já morreu. Morávamos na mesma Tabanca e muitas vezes falávamos de vocês todos.
 Sambaro, o homem da bazuca.
Talvez quarenta anos, forte, sério, três mulheres, muitos filhos.
Queria ser cabo e estudava, estudava para ir fazer o exame da 3ª classe a Bambadinca.
Quando voltei de férias ofereci-lhe um Dicionário. E que contente ficou! E leu e releu a dedicatória: “Para o Sambaro que é quase Cabo e ainda há-de chegar a Sargento. Com Afecto”.
- Alfero o que é Afecto? (ele lia o “c”)
- Procura no Dicionário, Sambaro. Que é para isso que ele serve.

Isto passou-se em Fevereiro de 1971. O Sambaro, além da bazuca, passou a carregar o dicionário. Ainda me lembro de o ver no Mato Cão a folheá-lo…
Disse-me o Ansumane, que os filhos e os netos do Sambaro vivem para as bandas de Sonaco. E que será feito do dicionário?
Imagino um dos netos a procurar nele a palavra afecto;
- Olha, Sambaro Neto, se te disserem que agora é afeto, não acredites. Ninguém lhe pode tirar o “c” de coração.


Jorge Cabral


Além de professor de direito penal, agora reformado, é conhecido por ser um escritor lusófono que diz não ao NAO (Novo Acordo Ortográfico)

Respigado do blogue LUIS GRAÇA &CAMARADAS DA GUINÉ
(Postagem 9304, de 3 de Janeiro de 2012).


Com particular estima e apreço/JERO



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