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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

M - 461 CHINEL VERSUS CHANEL (nº.s. 5)

CHINEL Nº.5
Uma recente brincadeira no “facebook” fez-me recordar o que muito chinelei nos meus tempos de comissão no Norte da Guiné (Binta-Farim) já lá vão muitos anos (1964-66).
  Não há nada como ter vinte e poucos anos e ter a arte de desenrascanço que nasce connosco- portugueses - .
Quem era então mobilizado para a Guerra do Ultramar já tinha feito recruta, especialidade e vivido alguns meses de vida militar em quartéis. Nesses tempos calçavam-se “botas da tropa” que tinham que se manter impecavelmente engraxadas. Não só “intramuros” mas principalmente quando se vinha para a rua e se podia ter um “mau encontro” com uns camaradas de que ninguém gostava: os polícias militares.
Feito este introito ,comum a todos que foram para África entre 1961 e 1974, tivemos que nos adaptar a viver dois longos anos em clima tropical.
 Quem estava no “mato” não andava sempre em operações militares e no quartel (pomposo nome que se dava ,normalmente, a um conjunto de barracões circundado por arame farpado) vestia –quando não estava de serviço – uns calções e pouco mais. Neste “pouco mais” é que entrava o “chinel nº.5”…
E passadas umas semanas toda a gente chinelava “à maneira”, como sempre o tivesse feito durante toda a vida.

E o “chinel nº.5” fazia correr alguns riscos aos utilizadores, como bem alertavam os médicos e enfermeiros.
Com efeito podia-se  contrair a dracunculíase (infecção pelo Verme da Guiné) ou a elefantíase. Como, infelizmente, se podia constatar em muitos elementos da população africana.
Mas está claro que “isso” só poderia acontecer aos outros…e vá de usar o “chinel nº.5”, sendo certo que a maioria escapou a problemas de saúde.
E quanto ao verdadeiro, ao autêntico “Chanel nº. 5” quem o usaria ?
A partir daqui o que se deixa escrito é meramente especulativo. 

Se este “produto” bem cheiroso andou na guerra só poderia ter acontecido em Estados-Maiores ou…lá perto, ou seja, em cidades afastadas do “mato”, onde decorriam jantares e festas com a presença de Senhoras de Oficiais.

Sinceramente veio-me à ideia a Cilinha ( Cecília Supico Pinto)  mas se o usou bem o mereceu pois visitou no mato muitos militares.
 Aí Chanel nº. 5 “terá convivido” perfeitamente com o Chinel nº. 5 !!!
JERO (ex-chineleiro nº.5).








segunda-feira, 30 de julho de 2012

M - 429 MEMÓRIAS DA GUERRA


Corpo a corpo

 A guerra acabou há décadas.
Reporto-me à Guerra do Ultramar ou Guerra Colonial, que decorreu entre 1961 e 1974.
Para os mais “antigos” – que é o meu caso (1964-66) – já lá vai quase meio século.
Apesar de todo esse tempo decorrido ainda há histórias (ou memórias)  que ainda não foram contadas. E –arrisco dizê-lo – haverá histórias(ou memórias) que nunca serão contadas. 
Estou a pensar, obviamente , pela minha cabeça mas acredito que não  estarei só nessas recordações complicadas que desde então se agarraram à nossa pele (ou à nossa alma) e permanecem…
Vou hoje fazer a catarse de uma dessas.
 Bem complicada e que não é fácil de passar ao papel. Mas, já que comecei, vamos aos factos.
Quem esteve na guerra teve situações em que era matar ou morrer. Porque guerra não é um jogo de xadrez, que permite “xeque-mate” . 
Na guerra há sangue, há gritos, há medo. E ficam fantasmas …e memórias dolorosas.
 No teatro de guerra onde estive – Guiné – onde enfrentámos uma guerra de emboscadas, de “mata e foge” …raramente víamos quem nos atacava.
 A guerrilha tinha as suas “regras” e raramente encarávamos – olhos nos olhos – quem disparava contra nós.
 Uma luta corpo a corpo era quase impensável mas …aconteceu por onde andei.
Numa emboscada montada pela nossa tropa o sangue frio do Alferes ,que comandou a operação, deixou que o grupo inimigo se aproximasse a pequena distância para então, e após a sua ordem de “fogo” ,o ter desbaratado completamente.

Houve tiros a poucos metros do IN (abreviatura de “inimigo”) e chegou-se a combater corpo o corpo.
 O soldado Cardoso(nome fictício), por se ter encravado a sua arma,  matou à coronhada um dos terroristas e retirou-lhe a sua P.M.(pistola metralhadora).
 Foram abatidos uns 5 “ turras” e capturadas, entre diverso armamento, duas pistolas metralhadores Thompson, daquelas que conhecíamos dos filmes americanos de gangsteres.
Tempos depois e passada a euforia do momento começaram a constar alguns pormenores “falados à boca pequena”… no “universo” muito limitado do quartel.
 O Cardoso não tinha disparado a sua arma porque não quisera e matou o inimigo à coronhada porque era um “sanguinário”.
Sendo um trabalhador infatigável no quartel e um aguerrido combatente no mato era, no entanto, um homem estranho. O Cardoso – no quartel ou no mato –  tratava tudo “à bruta”.
 É caso para dizer que ,felizmente, estava do nosso lado…
E há também que referir que foi distinguido e condecorado pela sua contribuição no sucesso militar da tal emboscada que abateu inimigos e permitiu capturar armas.
Em circunstâncias que já não consigo recordar ao pormenor fomos protagonistas de uma cena caricata, com um final “animalesco”.
 Quando progredíamos numa zona de floresta cruzámos com uma cabra do mato e suas crias. Não me recordo se houve ou não tiros. Sei que momentos depois deste encontro inesperado me vi nos braços com uma assustada cabrinha do mato. Tentei salvar o “bicho” e levá-lo para o quartel mas não consegui acalmá-lo.
A cabrinha começou a balir e comecei a não ter mãos para levar a bolsa de enfermeiro, a arma e o pequeno mas irrequieto animal.
 O Cardoso aproximou-se e disse-me:- Meu Furriel, dê cá a cabra que eu trato dela.
Assim fiz convencido que o Cardoso, com a sua experiência do mundo rural donde era proveniente, iria acalmar o animal e levá-lo para o quartel para o criarmos.  
Estava redondamente enganado.
 O Cardoso agarrou o animal com as duas mãos e mandou-o violentamente para o chão.
 Ainda me lembro do berro da cabrinha e dos seus olhos saltarem da cabeça. 
O que disse já não sei, mas sei que não mais esqueci esta cena de bestialidade. O Cardoso seguiu na patrulha como se nada se tivesse passado.
No nosso dia a dia no quartel era raro o dia em que não houvesse, à tarde, um jogo de futebol.
 Mantinha-nos ocupados e era bom para a forma física. Havia os predestinados e os outros …
O Cardoso era destes últimos. Era esforçado mas um “nabo” a jogar a bola. Eu jogava a defesa-central, e, modéstia à parte, “metia no bolso” o Cardoso sem dificuldades de maior. Reconheço que não era “meigo” a defender e numa jogada em que o Cardoso me passou por perto “dei-lhe com força”. E não passou… “nem a bola nem o homem”.
 O Cardoso cresceu para mim e, de cabeça perdida, ameaçou-me de morte. Foi um momento tenso que alguns camaradas ajudaram a ultrapassar. 
O Cardoso abandonou o jogo a coxear e a remoer ameaças.
Ainda faltavam uns meses para o final da comissão e não esqueci o ódio do Cardoso nesse momento do jogo de futebol em que entrei às suas pernas… “a matar”.
Dali para a frente em todas as operações em que  participava e onde ia o Cardoso integrado no seu pelotão eu tinha uma preocupação acrescida. “Um olho no burro e outro no cigano”.
 Porque já então se ouviam falar de histórias em que um “tiro perdido” calhava a um superior ...
Refiro-me a patentes, está claro. 
Nunca confessei a ninguém esta minha preocupação “particular”.
A comissão acabou e…regressámos os dois.
 O Cardoso(nome fictício) só muitos anos depois apareceu num convívio da Companhia. Apareceu e fiquei com a sensação que…ficou isolado!
O tempo não parou. Passaram todos estes anos ...
Ainda não esqueci a expressão e as palavras de ódio do Cardoso, quando levou a minha canelada no “tal” jogo de futebol: “Eu mato-o, meu Furriel”.
Esta é a minha verdade e sei que “não sou o dono da verdade”.
Posso estar a ser injusto.
 Mas, ia jurar, que nesse dia longínquo, na Guiné, joguei a bola com um assassino.
“Está contada” uma das histórias proibidas…
Há mais uma ou duas mas vão continuar em “arquivo morto”!
Até um dia…ou talvez não!
JERO


sábado, 1 de janeiro de 2011

M 327 - PARA MERECER O FUTURO NÃO SE DEVE ESQUECER O PASSADO

As grandes fotografias dispensam legendas...



Esta é uma das fotos-ícones da guerra da Guiné.


Tem uma tremenda força dramática!


Está lá tudo:
o homem-toupeira,
 o homem de nervos de aço de Gandembel/Balana, também tinha alma de poeta e sabia transformar a pá do trolha em viola de baladeiro, ou guitarra de fadista!







Estamos lá todos nesta fotografia de um camarada, sozinho, no palco da guerra, no cu do mundo, enrodilhado num manta, dedilhando a sua viola ou a sua guitarra e cantando para um público imaginário as suas alegrias, as suas tristezas, a sua coragem, a sua solidão, a sua saudade, as suas esperança, os seus medos, os seus sonhos...
Trata-se de Idálio Reis, na altura Alf Mil da CCAÇ 2317...
Podemos imaginá-lo no intervalo de um dos 372 ataques e flagelações a que os nossos camaradas foram submetidos, entre 8 de Abril de 1968 até 28 de Janeiro de 1969, os nove meses em que, em tempo-recorde, construiram de raíz um aquartelamento, defenderam-no galharda e heroicamente e receberam ordens para o abandonar!...
Um verdadeiro Suplício de Sísifo!...
Noutro país, esta epopeia teria dado um grande filme, um grande livro, uma grande exposição fotográfica!... Gandembel, quer se queira ou não, faz parte da nossa história, dos portugueses e dos guineenses…
É bom invocá-la para que não ouçamos amanhã a resposta dos nossos filhos e netos: Gandembel ? Não, nunca ouvi falar...
Em 1969, a música mais popular entre a nossa tropa era o Hino de Gandembel.


Guiné > Região de Tombali > Gandembel > CCAÇ 2317 (1968/69) > 1968
Início da construção do aquartelamento >
Sem comentários!...


As grandes fotografias dispensam legendas.

(Respigado por JERO do blog "Luís Graça & Camaradas da Guiné")



sábado, 5 de junho de 2010

M 260 - OS MISTÉRIOS DE UMA URNA VAZIA

OS MISTÉRIOS DE UMA URNA VAZIA
O "Expresso" de 5 de Junho de 2010 volta ao assunto que tratámos na nossa postagem M-257(Só areia e pedras em urna de ex-militar).
O jornalista Ricardo Marques refere o depoimento de um camarada de Tertuliano Henriques ,morto num acidente em Angola em 1967. Ernesto Ferreira ,camarada no pelotão de canhões de recuo 1197, afirma que viu o corpo de Tertuliano, que contava 22 anos, na morgue de Luanda, no final de Junho de 1967.Contou ao "Expresso" que «...vestimo-lo com farda de combate, prestámos honras militares e selámos o caixão.Fui eu que coloquei a placa.»O caixão seguiu para Portugal duas semanas depois.
A partir daí...passaram 43 anos e...quando a viuva do Tertuliano Henriques morreu abriram a campa para o seu funeral e...encontraram uma urna vazia com areia e pedras.
Prometem-se agora investigações para apurar a verdade.
Admito que ...com alguma descrença da minha parte ...me lembrei logo das comissões que investigaram o desastre de Camararate com os resultados que são conhecidos...
O que pensam alguns militares!?
O Presidente da Liga dos Combatentes, General Chito Rodrigues, diz que é um caso estranho mas que deve ser totalmente esclarecido. José Arruda, da Associação de Deficientes das Forças Armadas afirma que«...o Estado não pode ficar indiferente nem permitir que haja qualquer suspeita».José Nunes, da Associação Combatentes Ultramar Português considera o caso «...capaz de abrir feridas desnecessárias».
Reproduzo um comentário que foi feito à mimha postagem M-257(Só areia e pedras em urna de ex-militar).

Alfredo disse...
Até certo ponto concordo com o Joaquim, embora neste caso concreto, em que havia corpo, segundo testemunhos, seja dificil encontrar explicações.Vou resumir um caso que poderá tornar algo semelhante em explicável:Nos paiois de uma unidade estão de sentinela e guarda dois soldados e um cabo, noite, de repente desaba sobre a zona um temporal daqueles que só se vêm em África. Um raio atinge em cheio o paiol, enorme explosão e o paiol volatiza-se e tudo o que estava dentro e em redor desaparece.
Os corpos dos três militares são enviados para a Metrópole, em caixões devidamente selados e etiquetados... mas quais corpos?
Caso veridico.
Um abraço
A. Justiça
3 de Junho de 2010 00:16

José Eduardo Oliveira disse...
Caros Alfredo e Joaquim
Agradeço os vossos comentários.
A história do Alfredo é dramática e dá que pensar.Tive hoje mais uma achega à questão que ...pode ser "lenda" ou talvez não...Em determinada altura,em Angola, acabaram-se os caixões e...não havia câmaras frigoríficas para conservar corpos.O que se fazia? Enterravam-se provisoriamente no cemitério mais próximo.Quando havia caixões e ordens para a transladação ia-se desenterrar o corpo e...se não se encontrava à primeira ...enchia-se o caixão com areia e pedras.São memórias dos anos 60 e 70!!!
Um abraço camaradas e temos que carregar com o passado...
Quer se queira quer não.
JERO
3 de Junho de 2010 10:39

Prometemos voltar ao assunto.
5 de Junho de 2010.
JERO

PS-Foto do "Correio da Manhã" no Cemitério de Bufarda, em Peniche, em finais de Maio de 2010.

terça-feira, 1 de junho de 2010

M 257 - SÓ AREIA E PEDRAS EM URNA DE EX-MILITAR


Viúva vela caixão vazio durante 42 anos
Deveria ser o corpo de um combatente, mas era só areia e roupa.

Confesso que esta notícia, que jornais nacionais e serviços noticiosos da nossa televisão referiram nos últimos dias de Maio ,me perturbou bastante.
A “quente” a primeira reacção que tive foi a de que isto não é um engano. Isto é um crime!
Depois tentei, já mais a “frio”, interrogar-me: como devo equacionar este problema? Como maior de 60 anos que sou ou... voltar a trás, e olhar para a questão como se tivesse vinte e poucos anos… A idade que tinha quando cumpri serviço militar no Ultramar. No meu caso 1964-66 na Guiné , no caso do rapaz de Atouguia da Baleia- Peniche 1965-67, em Angola.
Fui Enfermeiro de Guerra e convivi algumas vezes com a morte. “Enfermeiro de guerra” porque estive no mato e entrei em mais de 50 operações militares que deram origem a tiroteios, com mortos e feridos. Os nossos 3 mortos (da C.Caç.675) foram evacuados por meios aéreos para Bissau e desde sempre pensei que os seus corpos repousam nos cemitérios das terras da sua naturalidade. Com direito a luto e última homenagem dos seus familiares e amigos.
Depois estive envolvido na recuperação dos corpos de vários soldados que morreram num acidente de barco durante uma operação militar no Rio Cacheu (Norte da Guiné).
A tragédia do Pelotão de Morteiros 980 afectou-me particularmente pois «calhou-me na sorte» a recuperação dos corpos dos seus mortos.
Poucos dias depois da operação de 5 de Janeiro de 1965 apareceram a boiar no rio Cacheu , perto de Binta ,cinco corpos.
Foram recuperados pela nossa tropa e, como Furriel Enfermeiro, tive que me ocupar dos seus restos, nomeadamente no que diz respeito à recolha de objectos pessoais que servissem para a sua identificação posterior.
Objectos pessoais nos bolsos das calças(uma navalha, um espelho de mão) e outras pequenas coisas que já não consigo recordar.
O que nunca mais vou esquecer é que a maioria dos corpos tinham apenas as pernas e um pedaço do tronco, com algumas costelas à vista.
Uns dias no fundo do rio e a presença de jacarés explicava o estado em que nos tinham aparecido os corpos daqueles camaradas.
Os seus restos mortais foram removidos para Farim(sede do Batalhão 490) a que pertencia o Pelotão de Morteiros 980, com excepção de um militar, que ajudei a enterrar a Sul do nosso aquartelamento, tendo ficado a sua identificação (?) numa garrafa dentro do improvisado caixão com que foi sepultado. Senti necessidade da interrogação (?) pois fui então eu que tive a responsabilidade de preencher o documento que ficaria na garrafa para efeitos de identificação no caso do corpo vir a ser exumado mais tarde. Será que ficou o nome do militar ou apenas a data do acidente e o número da unidade a que pertencia? Não consigo recordar-me!

Mais tarde, pela consulta do livro «Mortos em Campanha», Tomo II – Guiné-Livro 1 da Resenha Histórico Militar das Campanhas de África (1961-1974), vim a saber a identificação de todos eles.
Vou aqui recordar aquele que ajudei a enterrar e o nome dos três militares cujos corpos não mais voltaram a aparecer.

#João Jota da Costa, soldado nº. 3021/63. Está sepultado no Cemitério a Sul de Binta – Margem esquerda do Rio Cacheu.
Observações- Sepultado pela tripulação da LDG «Orion».

Como já referi anteriormente não consigo recordar porque é que o João Costa ficou sepultado junto a Binta e não foi também removido para a Sede do Batalhão. Passaram 45 anos…Mas recordo o caixão improvisado e a “espécie” de funeral que lhe fizemos, com honras militares.
Não voltaram a aparecer três corpos de militares que eram naturais de Torrão-Alcácer do Sal, Santa Maria-Viseu e Freixomil-Giimarães.

#António José Patronilho Ferreira, soldado nº. 2143/63.Natural da de Torrão, Alcácer do Sal. Corpo não recuperado.
#António Maria Ferreira, soldado nº. 3029/63.Natural de Santa Maria-Viseu. Corpo não recuperado.
#João Machado, Soldado nº. 2143/63, natural de Freixomil, Guimarães. Corpo não recuperado.

Saltando agora no tempo ,e assumindo-me como maior de 60 anos, interrogo-me.
Não teria ajudado o luto dos seus familiares terem então recebido três caixões com areia e pedras ? Como terão reagido à notícia morte dos seus e posterior informação de que os seus corpos tinham desaparecido num rio de África, infestado de crocodilos ?
Voltando ao militar de vinte e poucos anos que fui na Guiné não me imagino a carregar de pedras e areia um caixão para a família de um camarada.
Mas como fizeram luto as suas famílias?
Voltando ao militar de Atouguia da Baleia que morreu por acidente em Angola em 1967.
Um seu ex-camarada referiu ,depois da primeira notícia de 27 de Maio último, que se lembrava de ter visto o seu corpo dentro do caixão,ainda em Angola.
O que terá acontecido para 42 anos depois se encontrar na cova aberta do cemitério de Atouguia(para enterrar a sua viúva) um caixão de chumbo com pedras e areia dentro?
Um engano? Mas porquê areias e pedras?
Referi anteriormente o caso dos militares afogados cujos corpos não voltaram aparecer. Também houve mortos -ao longo de 13 anos de guerra – em viaturas incendiadas por terem accionado minas anti-carro ou por outras razões de que terão restado apenas cinzas ou pouco mais!?
Nestes casos o que se meteu nos caixões para o regresso à Metrópole ?
Julgo que será impossível responder a esta e a outras questões idênticas.
Quarenta e tal anos depois li opiniões sobre este assunto que asseguravam convictamente:
«Todos temos que aceitar as dores que nos aparecem. Em minha opinião é mais fácil uma verdade difícil, do que uma mentira piedosa .Num caso deste preferia saber que houve um desaparecimento do que andar 42 anos a chorar em cima de uma campa de pedras e areia.»
É uma opinião respeitável…mas que não é a minha.
Ainda não fui capaz de esquecer a tragédia do Pelotão de Morteiros 980.

Não voltaram a aparecer três corpos de militares que eram naturais de Torrão-Alcácer do Sal, Santa Maria-Viseu e Freixomil-Guimarães.

Será que os seus familiares não teriam preferido fazer o seu luto em campas de cemitérios com caixões vazios mas..."carregados" das memóras dos seus?Carregados com… as suas saudades?
Nunca o saberemos…
A única certeza é que para exorcizar definitivamente os fantasmas da guerra do Ultramar vai ser preciso ainda passar muito tempo.
JERO

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

M161- AS GUERRAS


A(s) Guerra(s)





A Guerra é, provavelmente, o alvo mais recriminado pelos Humanos; no entanto ela existe, prolifera e espalha-se intensamente por todos os cantos do mundo. Muitos a contestam, a detestam, a abominam... mas milhões a praticam todos os dias.

Uma coisa é matar para não morrer – uma inevitabilidade. Mais recriminável é matar aos milhares, cidadãos indiferenciados que nada de mal fizeram para que tal lhes acontecesse... apenas estavam no local certo (errado) à hora certa.

A Guerra é, digo eu, a mais antiga profissão do mundo!

Há quem defenda que a mais antiga é aquela outra actividade... a “da perna aberta” ou “à vela” que se praticava (pratica?) largamente na mata de Monsanto e continua abundantemente na margem de muitas estradas deste nosso rectângulo à beira mar plantado.

Os defensores desta são principalmente as “rachistas” que gostam muito de dizer coisas.

Eu, porém, continuo a defender a “minha dama” e apresento argumentos.

Vejamos!: Caím, em tempos bíblicos, talvez com um único pontapé, não se sabe bem onde – mas suspeita-se, - enviou o irmão, Abel, para o Jardim das Tabuletas.

Terá sido esta a guerra mais mortífera e a mais curta de que há memória; uma elevadíssima percentagem dos habitantes do planeta foi, naquele momento, prestar contas ao Criador. E nessa altura ainda não havia sido inventada aquela terrível arma devastadora a que se convencionou chamar “coup de poing”.

A arte de lutar, porém, evoluiu “rapidamente” durante os milénios que se seguiram. Mais ou menos sequencialmente, usaram-se pedras, facas (de madeira, antes e metálicas, depois) espadas, lanças e setas; no lado oposto apareceram os antídotos: os escudos (primeiro de couro... depois metálicos) elmos, capacetes e as pesadas armaduras que atingiram o auge na Idade Média. Surgem os castelos fortemente resistentes construídos em pontos estratégicos e/ou de difícil acesso.

A cavalaria foi durante séculos a implacável decisora de vitórias e derrotas.

Com a Guerra dos Cem Anos, em França, e a sua ramificação na Península Ibérica (a Luso Castelhana Guerra da Independência) a Infantaria passou a ser – defendem os Infantes – a rainha de todos as armas.

De facto quer em Poitiers e Azincourt quer em Aljubarrota e Valverde a Infantaria dizimou as fortíssimas cavalarias francesa e castelhana.

A evolução acelera com os canhões as espingardas os carros de combate (os substitutos das romanas catapultas) e os castelos passaram a ter interesse apenas para o turismo; aparece a aviação, as bombas atómicas e quejandas... e os mísseis; surgem outros antídotos: abrigos, bazucas, ati-aérias e os anti-mísseis.

Quando parecia que tinham sido já inventadas todas as belicosas armas mortíferas e os diferentes modos de as usar... eis que surgem outras variantes: a guerra fria, a psicológica (era a que meu pai – que Deus o tenha em bom lugar – usava comigo – só contarei a pedido) os movimentos autonomistas e emancipalistas que trazem consigo a guerrilha e por fim os homens-bomba. Será o fim? No mínimo é o fim dos que se fazem explodir. Isto não é guerra... é doidice!

É na guerrilha que vamos deter-nos; com ela todos convivemos cerca de dois anos. A guerrilha é mais uma maneira “legal” de matar em que pequenos grupos armados (bate e foge) militarizados ou não,substituem batalhões, divisões e exércitos numerosos.

Na nossa guerrilha não consta que houvesse homens-bomba mas havia minas e armadilhas, armas altamente perigosas e nada selectivas. A diferença é que aqui o seu autor, em princípio, não vai accioná-las.

Na guerrilha (talvez mais que nas guerras de numerosas gentes) a inteligência, a esperteza, a imaginação e o conhecimento do terreno são atributos da maior importância, ultrapassados, talvez e só, pela “posse” da população não combatente – como defendia Mao Tsé-Tung. Como afirmei em texto anterior, pertenci à C. Caç. 675 e pertencerei até ao fim dos meus dias.

O nosso capitão, além de “secreto” estudioso de Mao, era extremamente inteligente e sabia muito de guerrilha; ensinava-nos quanto podia; não seríamos tão bons receptores como ele era bom emissor; fazíamos o que podíamos.

Normalmente os nossos instrutores da E. P. (Escola Prática) sabiam apenas (ou quase) o que vinha no Guia Oficial Miliciano – creio que era este o nome. Mas também o(s) seu(s) autor(es) pouco mais seriam que aristarcos de outros aristarcos e nós... carne para canhão.

Se seguíssemos à letra o que vinha no livro, na Guiné não poderíamos montar emboscadas segundo aqueles cânones.

Sendo o terreno quase completamente plano (o ponto mais alto – cerca de 220m – chamava-se Cumtimaque significa colina do Norte.) não existiam os tais obstáculos na berma da estrada para evitar a fuga de quem era emboscado. Esquecendo as regras ensinadas na E.P. montaram-se muitas emboscadas bem sucedidas.

Lembro aqui um alferes, meu instrutor em Mafra, que, quando chegou à Guiné, em Janeiro de 1966, me perguntou, no QG de Bissau, como reagíamos, lá às emboscadas.

Resposta directa:

- Tal como me ensinaste em Mafra! Lembras-te?!

Ao que ele retorquiu:

- Lá, cada um “largava a posta” como podia!

- Havia muitas maneiras de “largar a posta” e tu não respeitavas sequer os teus subordinados, o que molestou muita gente.

De seguida, no café do Bento, contei-lhe como na C. Caç. 675 reagíamos às emboscadas e outras coisas de interesse... e logo ali o diferendo ficou sanado.

varias maneiras de fazer guerra segundo a imaginação e o saber de cada um:

A - Guerra “amorosa” e respeitosa

Um dia aprisionámos uma mulher de 30/40 “chuvas” (esta veio connosco). Dias depois o “capitão, com a necessária e prestimosa ajuda do nosso guia, perguntou-lhe se preferia continuar junto da tropa ou regressar ao mato. Desculpa atrás de desculpa... manifestou vontade de voltar ao seu “chão”... por causa da família.

O capitão ofereceu-lhe cerca de uma arroba de arroz e uns “panos” – manga de ronco – e transmitiu-lhe o seguinte recado:

- “Vais dizer ao pessoal que retire as abatises entre Banhima e o rio Buborim (limite oeste de nossa zona); caso tal não aconteça destruirei os vossos acampamentos “e não há mais arroz nem panos para ninguém “!

Este vosso escrevinhador foi incumbido de transportar a “prisioneira” (ex) até à primeira abatis. Lembrei-lhe ali o recado do capitão e imformei-a que não podia levá-la mais além porque as viaturas não podiam passar.

Uns dias mais tarde voltámos àquela zona e já não havia obstáculos na estrada; como não podiam retirar as árvores... queimaram-nos no local.

Até Abril de 1966 não houve mais abatises na estrada... mas eles abandonaram a zona.

A isto chamamos “Respeito”!... É bonito!

B Avisar o Inimigo

Pode fazer-se guerra (não convencional) avisando amável e amigávelmente o In dos reais perigos que pode encontrar em determinado local.

A cerca de 7km de Binta, na estrada de Bigene, havia uma pequena ponte de madeira; os independentistas queimaram-na. Sempre que por ali nos deslocávamos (o que era frequente) usávamos pranchas de madeira e/ou as vigas em “U” metálicas das Mercedes para cruzar o ribeiro. Com aquele “toma a viga”, “coloca a viga” e “recolhe a viga” perdia-se muito tempo e, com o ruído dos motores, acordávamos o Infora de horas.

Os independentistas, eram muito sensíveis! Por vezes amuavam e até faziam “birra” porque não podiam dormir a sono solto.

Era urgente mudar de rumo.

O capitão incumbiu-me de fazer ali uma ponte para que sem dificuldades acrescidas, pudéssemos visitar os “turras” nos seus “aposentos” (covis dizia o Alf. Mendonça) enquanto iam permanecendo (por pouco mais tempo) naquela zona.

Como escrevi em texto anterior, na vida militar, especialmente em campanha, éramos “pau para toda a colher”; Desta vez saiu-me na rifa ser engenheiro e empreiteiro de pontes... sem direito a apresentar a conta ao dono da obra.

Mandei rebaixar o piso da estrada cerca de 20cm nas duas margens; derrubámos cinco palmeiras; cortámos os troncos à medida e com a ajuda do unimog, colocámo-los sobre o ribeiro; e qualquer das nossas viaturas já podia passar em segurança e sem mais delongas.

Aqueles troncos eram demasiado pesados para serem removidos à mão.

Na berma da estrada coloquei uma placa de “sinalização” com a seguinte informação com letra garrafal e a vermelho: “Atenção! – há armadilhas!” E desenhei toscamente dois ossos e uma caveira – sinal de explosivos.

Armadilhei apenas a placa com uma granada de mão instantânea de fabrico nacional e outra com retardador, de fabrico canadiano.

O In passou por ali; achou graça àquela informação... real e sincera; arrancou a placa e... pum-pum... a armadilha funcionou.

Inicialmente não acreditaram na veracidade do aviso mas convenceram-se que haveria ali mais explosivos porque nunca mexeram naquela ponte rústica e obtusa construída por um engenheiro improvisado.

Como se depreende, do que atrás foi dito, a guerra pode ser feita com carinho e respeito – 1º caso e pode ser um aviso de forma quase lúdica – 2º caso.

Nota: quase quarenta anos depois soube por um guineense (tinha naquela época 7/8anos) que os habitantes de Binta (os naturais e os “retornados” do mato e/ou do Senegal) me apelidaram de “olho de gato” porque as minhas armadilhas funcionavam sempre.

Cumpre informar que eu não tinha o “curso de minas e armadilhas” que era ministrado a um oficial por companhia durante 3 ou 4 horas de instrução. Pensem nisto! Era mesmo assim!A guerra é mesmo a mais antiga profissão do Mundo!

Sexta, 15 de Janeiro de 2010

Belmiro Tavares

Ten. Mil

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

M50-«GUERRA SEM FIM» Ex-combatentes Homens com dores de alma

Mina antipessoal

Tinha amanhecido há pouco.
A patrulha estava marcada para as 6H00.
Os militares do 3º.Pelotão «aprontavam-se» para mais uma saída.
Iam «pró mato» sem o seu Alferes(Belmiro Tavares) que estava em Bissau.
O Furriel Figueiredo(de Monção) apareceu na «caserna» para «apressar» a malta.
O Soldado Nascimento(da região de Sarzedas) estava um pouco atrasado. Arrumou as cartas que tinha recebido no dia anterior e juntou-se à sua Secção .
Alguém dizia: «Porque é que esta porra desta patrulha há-de ser tão cedo. Ainda por cima está cá uma merda de um tempo!».
6h00 da manhã. Toca a subir para as viaturas.
O Alferes Mendonça deu ordem de partida e a coluna pôs--se em marcha.
Quem ficava no aquartelamento acenava aos que partiam e desejava «boa sorte».
Binta ficava para trás e havia que «pôr a bala na câmara».
Toda a gente o fazia automaticamente.
Ia-se «bater» a região de Banhima-Santacoto-Jongo com um grupo de combate(30 homens).
O dia estava muito nublado e de vez em quando chovia torrencialmente.
A coluna de viaturas avançava com dificuldade por causa da lama.
Alguém com piada dizia que já era de tempo de alcatroar aqueles caminhos...
Como fazer boas médias com as viaturas a atascarem-se a todo o momento...
Atingimos Genicó Mandinga e os homens do 3º. Grupo de combate apearam-se.
A coluna ficou-se por ali com os condutores e mais alguns homens para fazer a segurança.
Os militares apeados seguiram em fila indiana (bicha de pirilau) e, tocados pela chuva, atingiram com rapidez Banhima.
Fez-se uma pequena paragem para retemperar forças.
Bebeu-se uns goles do cantil, quem tinha trazido farnel comeu alguma coisa, ajustaram-se as cartucheiras e ala para a frente que se faz tarde.
Manteve-se o dispositivo – «bicha de pirilau» – e avançou-se em direcção ao objectivo.
Próximo de Santacoto os homens da frente – os da Secção do Furriel Rodrigues igueiredo – seguiram um trilho(que parecia recente) na beira esquerda do caminho.
A chuva fustigava sem piedade os militares.
Caminhava-se com esforço e em silêncio.
Um estoiro inesperado surpreendeu toda a gente.
Houve reacção de alguns dos nossos que se deitaram para o chão e dispararam para a frente e para os lados.
Quando se restabeleceu alguma calma deu para perceber que o militar que caminhava na frente estava caído. Junto a ele, no chão, parecia sair fumo de um buraco.
Rapidamente se percebeu que o soldado estava ferido e que tinha pisado uma mina anti pessoal.
O seu pé direito tinha desaparecido! O coto da sua perna mutilada era horrível de se ver.
Tinha calhado «a má sorte» ao soldado João Nunes do Nascimento.
O cabo-enfermeiro Pereira fez os primeiros socorros ao Nascimento e entrou-se em contacto via rádio com a coluna para se deslocar ao local o Furriel Enfermeiro Oliveira.
Fez-se um dispositivo de segurança à volta do ferido, cujo estado preocupava toda a gente.
O Furriel Enfermeiro chegou e conseguiu estancar a hemorragia com a aplicação de um garrote.
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O soldado Nascimento estava em estado de choque. Não falava e estava muito agitado. As cores da sua cara eram difíceis de descrever. Estava lívido, cinzento e naquele local(e
naquelas condições) dificilmente se conseguia fazer alguma coisa que aliviasse o seu sofrimento.
Pela primeira vez enfrentávamos as terríveis consequências de uma mina anti pessoal.
Havia que evacuar o Nascimento com a maior urgência.
Contactou-se Binta para pedir um helicóptero.
A resposta que nos chegou passado algum tempo não foi nada animadora. Com o tempo nublado e chuvoso que se fazia sentir não poderíamos contar com o «heli» para a evacuação.
Embora o estado do ferido o desaconselhasse foi resolvido transportá-lo de viatura até Binta. Teríamos que fazer alguma coisa.
O caminho de regresso ao aquartelamento foi demorado e penoso. Cada solavanco da viatura que transportava o Nascimento era terrível para o ferido.
Fiz a viagem junto dele. Agarrava-lhe as mãos, limpava-lhe a cara e falava sem parar para o animar. O Nascimento piorava e a sua lividez era impressionante.
De vez em quando era preciso aliviar o garrote, o que parecia dar-lhe algum alívio, mas o seu tormento recomeçava quando este lhe era novamente colocado.
O tempo passava e nunca mais chegávamos a Binta.
Como é que iríamos conseguir a sua evacuação para Bissau?
Finalmente... o aquartelamento e... a boa nova que vinha a caminho uma avioneta para proceder à evacuação do Nascimento.
Ficámos logo na zona da nossa pista à espera do avião.
O Médico Dr. Barata tomou conta do Nascimento e todos que tinham lutado para o trazer até ali respirámos de alívio na esperança de que finalmente se conseguisse inverter a marcha dos acontecimentos.
Mas... tudo estava muito complicado.
Tinham passado mais de 3 horas e as bolandas em que tinha andado o Nascimento no transporte de Santacoto até Binta tinham deixado marcas.
As artérias estavam colapsadas e não se conseguia aplicar soro, já que plasma nem pensar. Não o tínhamos no Posto de Socorros da Companhia.
Tentou-se um desbridamento junto ao pé esquerdo mas
também não resultou. Em desespero de causa tentou-se a aplicação de soro por via intramuscular.
Chegou a «DO» a Binta.
Mais uma vez era o Sargento- piloto Honório. O que esse homem não conseguisse ninguém conseguia. Praticamente sem «tecto» tinha voado de Bissau até Binta em voo rasante, orientando-se pelo curso do Rio Cacheu.
Tinham passado 3 horas e meia desde que o Nascimento tinha ficado sem um pé ao pisar a mina A/P no trilho próximo de Santacoto.
Tinha-se utilizado no pedido de evacuação o código «Y»,que corresponde a um ferido grave. Devia ter vindo com o piloto um enfermeiro. Veio um Cabo-Mecânico! Porquê?
Ninguém na altura o conseguiu explicar.
Transmissão errada de código ou, por o voo ter sido decidido pelo voluntarismo do piloto em cima da hora, tinha-se improvisado !? Não estaria por perto nenhum enfermeiro?
Junto ao avião o que se pretendia acima de tudo era evacuar com a maior urgência o Nascimento.
Foi-lhe aplicado um garrote dos «Fuzileiros», que o Furriel Enfermeiro tinha em seu poder. Era mais seguro e menos doloroso dos que os do Exército.
Sempre com o motor a trabalhar o piloto preparou-se para levantar e foi explicado ao cabo-mecânico, que o acompanhava, que deveria aliviar o garrote de 20 em 20 minutos ao ferido.
O Nascimento estava mal, muito mal, mas se chegasse vivo ao Hospital havia de escapar. No HM-241 faziam-se milagres!
Caramba depois de tanto esforço o Nascimento havia de safar-se.
Ficaria aleijado mas com uma prótese... tinha toda uma vida à sua frente.
Foi com estes pensamento que recolhemos «a quartéis».
Que sacana de dia 30...
Fui ter com Médico de manhãzinha.
Fomos para o Posto de rádio para saber notícias do Hospital de Bissau.
Como estava o Nascimento!? A resposta foi brutal:
«O Nascimento morreu. Morreu com o Hospital à vista!
Lembro-me de me ter agarrado ao Dr. Barata.Chorámos juntos, amargamente, a morte do Nascimento.
Daqui a uns dias seria a vez da família receber a notícia. E chorar!
Nunca mais esquecerei a morada do Nascimento que escrevi nos meus «apontamentos de guerra»: Casal Águas de Verão – Sarzedas – Castelo Branco.
Casal Águas de Verão. Um nome poético, bucólico, correspondente a um lugar, que nada tinha a ver com a guerra.
Mais uma vez nos tinha calhado «em sorte» ver um camarada de armas ceifado pela morte.
E... numa guerra todos os mortos são sempre demais!

JERO

A páginas 135 da RESENHA HISTÓRICO-MILITAR DAS CAMPANHAS DE ÁFRICA (1961-1974), 8º Volume –Mortos em Campanha, Tomo II Guiné -Livro I, 1ª. Edição, LISBOA 2001 está referido, em “linguagem oficial”, o seguinte:

João Nunes Nascimento
Soldado-Atirador número 2169/63
Companhia de Caçadores Nº. 675
Unidade Mob.: Regimento de Infantaria nº. 16 – Évora
Solteiro
Filho de João Nascimento e Augusto Nunes.
Natural de Casal Água do Verão, freguesia de Sarzedas, concelho de Castelo de Branco.
Local de operações: Na mata entre Banhima e Santacoto.
Data do Falecimento: 30 de Julho de 1965, no HM 241-Bissau.
Causas da morte: Ferimentos em combate.
Local da sepultura: Cemitério de Sarzedas

MINA ANTI PESSOAL


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

M48-RENDER DA GUARDA em templo e tempo de memória!




M47-À DISTÃNCIA NO TEMPO...


DIÁRIO-– 28 DE DEZEMBRO 1964
GUINÉ-BINTA

-O DIA MAIS TRÁGICO DA COMPANHIA-

Passavam alguns minutos do meio dia.
Regressávamos de mais uma patrulha. Binta estava a poucos quilómetros e todos tinham deixado já de pensar nas peripécias movimentadas da perseguição a um grupo inimigo na região de Buborim, para pensar nas delícias de um banho que atenuasse a fadiga de algumas horas de marcha na selva.
Tínhamos saído às 6.30 horas, seguindo de viaturas até Sansancutoto. A partir daí seguiram apeados os 1.º e 2.º grupos de combate, debaixo do comando do nosso Capitão.
A missão seria um «golpe de mão» à tabanca de Udasse.
Quinhentos metros à frente de Banhima foi visto à distância um grupo inimigo que desapareceu rapidamente, internando-se no mato.
Percorridos mais uns quilómetros e quando se atravessava o rio Buburim em direcção ao objectivo, foram vistes numerosos grupos de mulheres e alguns homens armados que iam colher arroz numa bolanha.
Evitou-se o mais possível denunciar a nossa presença, continuando-se a progressão lentamente e aproveitando os arbustos da orla da bolanha, que começámos a contornar, para «desenfiados» continuarmos em direcção a Ubasse.
Apesar de todos os cuidados fomos pressentidos. Os grupos referidos começaram a fugir em direcção a Udasse, sendo perseguidos pelas nossas tropas que abriram fogo e abateram 7 indivíduos, fazendo ainda 3 prisioneiros.
Perdida a surpresa e denunciada a nossa presença na região, não se continuou sobre o objectivo iniciando-se regresso em direcção à coluna-auto.
Meio-dia e trinta.
Um estoiro medonho, um rebentamento de violência extraordinária, faz parar a coluna. A segunda viatura, um Unimog, estava envolta numa fumarada expessa e começava a arder.
Simultaneamente de um dos lados da estrada, emboscado no mato o inimigo começava a disparar.
Embora paralisados momentaneamente pela surpresa os nossos homens têm uma reacção fortíssima que faz calar em poucos momentos o inimigo.
Há uma pausa; os oficiais disciplinaram o fogo e todos procuram saber o que se passa lá à frente.
A viatura sinistrada incendiara-se e há feridos que gemem e que correm perigo junto das chamas que podem provocar uma explosão no depósito do Unimog e incendiar o capim das bermas do caminho.
A mata fechada, a fumarada da viatura incendiada, a estrada multo estreita, mais complicam a situação e há dificuldades nos primeiros momentos em avaliar a extensão e gravidade do acontecimento.

Não restam dúvidas sobre a causa do rebentamento.
Tinha sido uma mina.
Sob o pneu direito da retaguarda da viatura que seguia em segundo lugar, tinha rebentado um engenho explosivo de grande potência.
Todos os homens que seguiam na viatura tinham sido projectados com violência.
O médico e os enfermeiros acorrem à frente.
«Há um morto!» — diz uma voz.
A notícia corre ao longo da coluna e faz estremecer aqueles que a ouvem, abalando-os mais que o violente estampido de há momentos.
«O furriel Mesquita está morto
Será possível o pobre do furriel Mesquita já não pertencer ao mundo dos vivos? Cada qual interroga-se com desespero, sem poder largar a sua arma, sem poder sair do lugar onde está, sem poder até limpar uma lágrima.
O inimigo pode voltar à carga e a vigilância não pode descurar-se um momento.
O médico e os dois enfermeiros, auxiliados por alguns soldados, multiplicam-se em esforços para socorrer os feridos.
Os lamentos misturam-se com as expressões de conforto daqueles que socorrem os que sofrem atrozmente.
O perigo das chamas passou devido à coragem de alguns soldados que retiraram os seus camaradas feridos de imito da viatura sinistrada, cujos depósitos felizmente não chegaram a explodir por a gasolina se ter derramado pelo chão.
Há 8 feridos e o estado de alguns inspira sérios cuidados.
O Unimog atingido pela mina arde completamente, transformado num autêntico braseiro donde sai um fumo espesso que atinge umas dezenas de metros de altura. Alguns metros à sua volta há um calor horrível, mas é mesmo ali que têm de ser tratados os feridos.
É pedido um helicóptero.
Aqueles momentos infernais parecem prolongar-se indefinidamente.
A certa altura, na estrada, a algumas centenas de metros da retaguarda da coluna, surge um grupo inimigo que parece dançar festejando o rebentamento da mina. Faz algumas rajadas de pistola metralhadora na nossa direcção. Responde-se ao fogo com algumas morteiradas, uma das quais cai próximo do local onde se encontra o inimigo, que se pôs em fuga.
A viatura destruída, que com o rebentamento, ficou atravessada no meio da estrada, é encostada à berma direita, seguindo a coluna para a frente, para uma região mais despida de vegetação, onde se aguarda o helicóptero pedido.
Finalmente, quase duas horas depois do rebentamento da mina, é possível evacuar os primeiros feridos. O helicóptero faz várias viagens transportando os feridos mais graves para Farim, donde são evacuados em avionetas para Bissau.
Entretanto no aquartelamento viviam-se horas de expectativa desesperante, pois não se sabia nada de concreto sobre a coluna, embora o pedido do helicóptero e de dois DO não augurasse nada de bom.
Pelas 15 horas houve ordem para o 3.° grupo de combate ir ao encontro da coluna, montar a segurança junto ao cruzamento da estrada Bigene-Guidage.
A coluna surgiu pouco depois.
Desfigurados, física e moralmente abatidos, eles passaram pelos seus camaradas que ficariam emboscados algumas horas.
Aqueles que ficaram no mato e que só então souberam a extensão da tragédia que já adivinhavam há algumas horas, viveram momentos de uma dolorosa angústia dese­jando com uma raiva surda o aparecimento do inimigo traiçoeiro.
Lado a lado, sem poderem falar, com a alma dilacerada por saberem um seu camarada morto e outros gravemente feridos, eles tinham que se manter imóveis aguardando o inimigo que talvez viesse explorar a sua vitória cobarde, arriscando uma sortida ao aquartelamento.
Entretanto a coluna chegou a Binta.
Apesar de todos os dias em contacto com a morte não nos poderíamos habituar à ideia que um camarada, um amigo, tinha sido levado brutalmente para sempre, do mundo dos vivos.
O espectro da morte, com requintes dantescos, tinha descido das suas paragens de Sombra Eterna, para levar no seu manto mais uma vida.
Ao anoitecer regressou o 3.° grupo de combate que não teve contacto com o inimigo.
As palavras não poderão dar uma ideia pálida dos momentos que se viveram no dia 28 de Dezembro.
Ele ficará assinalado na existência de todos os homens da «675» como um dia trágico que não se esquecerá jamais.

JERO