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sexta-feira, 30 de março de 2012

M - 413 O RIO

O RIO

No Natal de 1550, no tempo do Abade Comendatário Cardeal D.Henrique, o Rei D.João III escreveu a Miguel Arruda, Mestre de Obras Muros e Fortalezas do Reino, sobre a necessária mudança do leito do rio para que houvesse obras de ampliação do Mosteiro para nascente.
A carta mostra alguma hesitação entre o desvio do rio ou da sua continuidade passando as águas pelo meio da obra. Obviamente que a decisão do arquiteto foi o de fazer como está hoje, desviando-se o curso das águas que viria a chamar-se Alcoa já no séc. XVIII.
Arruda já não participou desta empreitada, que será feita dezasseis anos depois.
O desvio fez-se entre 1566 e 1567, imediatamente antes da fundação da Congregação Independente de Alcobaça e durante a regência de D. Catarina de Áustria.
A fachada Filipina de Alcobaça ,coroada pela estátua do mecenas fundador do Mosteiro, D.Afonso Henriques, conclui-se em 1632 no tempo de Filipe III ,já com o rio bem domesticado.
Em 1665 é lançada a primeira pedra do edifício norte do Claustro Rachadouro, reinava D.Afonso VI, para albergar oficinas, celas, botica e capela da enfermaria.
Nos anos 70 do sec. XVII as obras deste edifício que ladeiam a Rua D.Pedro V são concluídas, ficando este último e o maior dos cinco Claustros hoje existentes, sem fechamento a nascente e a sul, daí o seu nome, Rachadouro, ou seja, abertura.
Durante o sec.XVII são construídos a Capela-Relicário, o Retábulo da morte de São Bernardo e Capela do Desterro. A Levada é reparada, o rio com o curso domado aumentará os moinhos de Chiqueda, do Mosteiro e da Fervença. Na foz do Alcoa é erguida em pedra a ponte das Barcas.
O Altar-Mor da Igreja recebe um novo sacrário de grandes dimensões. O móvel sagrado é em forma de pirâmide assentava em 6 anjos e no seu topo ostentava um pelicano. Só em 1774 será substituído pelo globo com o seu resplendor que conhecemos por fotografia.


O rio, apesar de haver notícias de grandes cheias, foi fundamental para a rega dos campos. As primeiras granjas ficavam na sua margem esquerda, entre Chiqueda, onde se construiu a primeira ponte, e Alcobaça, para a higiene das latrinas e cozinha. Para abluções e serviço da cozinha ,e enfermaria ,a sua força motriz foi usada desde a fundação e naturalmente que a sua história está ligada à cerca natural e ao trabalho dos monges barristas.
Já no sec. XVIII o Jardim do Obelisco, com o seu lago oval bordejado por quatro esculturas clássicas (hoje no Claustro do Cardeal) e as três pontes barrocas, revestidas a azulejos verdes, fizeram as delícias da Rainha D.Maria I que, com a família e Corte, passou alguns dias no Mosteiro.

Hoje este sistema hídrico está abandonado por pura negligência acumulada há vários anos pelos responsáveis.
Se isto não é uma vergonha que outro epíteto lhe devemos dar?


Rui Rasquilho

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

M - 396 EM TEMPO DE NATAL RUI RASQUILHO PÕE ORDEM NA TRADIÇÃO ORAL

Equívocos e precisões (2)

Continuamos hoje a referir como a tradição oral e a falta de crítica histórica leva a que alguns erros perdurem relativamente ao Mosteiro de Alcobaça.
Em 1702 no triénio de Frei Pedro de Alencastre, no reinado de D.Pedro II, inicia-se a construção da actual fachada da Igreja do Mosteiro que se concluirá vinte e três depois em pleno reinado de D.João V, no tempo em que se sabe estar projectado um edifício para a Livraria Nova do Mosteiro.
Há quem refira ter sido Frei João Turreano, monge de S.Bento, que desenhou e acompanhou as obras. Ora o arquitecto morreu em 1679 com 69 anos, e embora se saiba que fez obras em Alcobaça, não parece dever-lhe ser atribuído o projecto. Resta saber quem dirigiu as obras e lhe fez o risco..

Sala dos Túmulos
Séc.XVIII
Panteão real neogótico, cujo projeto é atribuído ao arquiteto Guilherme Elsden, e onde se encontram os túmulos de D. Urraca, mulher de D. Afonso II, de D. Beatriz, mulher de D. Afonso III e dos infantes, D. Fernando, D. Vicente e D. Sancho.




Em 1774 no mesmo ano em que Elsden coloca o globo e o resplendor no altar-mor na Igreja do Mosteiro ter-se-á iniciada a construção do enorme edifício da Biblioteca, onde viriam a ser alojadas as livrarias e cartório que há séculos estavam num espaço próprio na nave poente do antigo dormitório medieval.A Rainha D. Maria visitou o cartório e a livraria aí instalados em 1786.
Em 1798 Heinrich Link visita o Mosteiro e refere «está a ser arranjada uma nova e magnífica sala para a biblioteca». Ou seja o piso sobre o cartório deveria estar em trabalho final e o edifício exterior concluído. Todavia tudo indica que só após as Invasões Francesas estariam no seu novo local.
Por estas referências nem o terramoto de 1755 nem a cheia de 1788 afectaram o edifício por este não existir, mas afectaram por certo o terreno que terá ficado instável.
Em 1904 cai uma parte importante do tecto (30 m. x 1,50 m.) “devido ao peso exercido pelo barrotado da cobertura”.
Hoje, com o apoio do QREN e por um milhão de euros o edifício tem um novo telhado e as fachadas foram alindadas. Espera-se a degradação nos próximos 25 anos, se não houver conservação preventiva ou conservação integrada com instalação de um hotel.
As quatro estátuas mitológicas que ornam o parapeito da balustrada do jardim do Claustro do Cardeal estavam inicialmente na borda do lago do Obelisco, oferecendo particular beleza ao antigo jardim por onde passa a levada, agora seca, e que por enquanto tem três fontes de traça barroca. Uma delas em ruínas por estar fora da cerca junto ao desvio da levada para servir a que foi a única serração do Mosteiro.
O Rossio de Alcobaça é frequentado pelos cidadãos da Vila que se dirigiam à igreja do mosteiro desde o séc.XV.Mais tarde a Igreja, devido às disposições tridentinas (1562) é aberta à frequência dos fiéis sem restrições.

A existência do pelourinho em gravura do Sec. XVIII prova que a administração municipal se exerce no espaço do Rossio, sendo a Cerca de Dentro a própria fachada poente do Mosteiro.


Rui Rasquilho





sábado, 17 de dezembro de 2011

M - 394 FOI HÁ PRECISAMENTE CINQUENTA ANOS

A invasão da Índia Portuguesa foi em 18 de Dezembro de 1961

1. Respigado de postagem do Blog LUIS GRAÇA & CAMARADAS DAGUINÉ da autoria de José Martins (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70).
Este brilhante trabalho de pesquisa reporta-se à invasão da Índia Portuguesa em Dezembro de 1961, há precisamente 50 anos:

A QUEDA DA ÍNDIA
18 de Dezembro de 1961
Há quem atribua a queda da Índia, como marca do início da queda do Império Português. Mas, não. Tal não é verdade.
Em 22 de Agosto de 1415, com a expedição portuguesa e a consequente conquista de Ceuta, dá-se inicio expansão de Portugal rumo ao desconhecido, mas foram necessárias mais de quatro décadas, para que Ceuta consolidasse a sua posição, após a tomada em 1458 da praça de Alcácer Seguer e em 1471 de Arzila e Tânger.
Quando a Índia caiu, Alcácer Seguer, Arzila e Tanger já não faziam parte do Império, assim como o Brasil, que foi descoberto e anexado à Coroa Portuguesa depois da Índia. Também não podemos esquecer que muitas “possessões” que Portugal detinha, ao longo das costas de África e na Ásia, se foram esfumando, umas atrás das outras, independentemente do seu tamanho e/ou importância.
A “perda” de possessões nem sempre se ficou devendo à “sorte das armas”. Por exemplo, na Índia, Bombaim foi cedida ao Reino Unido, em 1661, incluída no dote de D. Catarina de Bragança, na altura do seu casamento com Carlos II de Inglaterra.
Voltemos à Índia, onde a maioria dos Portugueses nunca estiveram. Melhor, voltemos ao princípio da descoberta do caminho marítimo para a Índia, ao Século XV, que quer dizer ao meio da história deste nosso país.
Coube ao Almirante-Mor Vasco da Gama (n. Sines entre 1460 e 1469 † Cochim em 1524), filho ilegítimo de Estêvão da Gama, Cavaleiro da Casa de D. Fernando de Portugal, Duque de Viseu e Alcaide-Mor de Sines, casado com Dona Isabel Sodré, filha de João Sodré (também conhecido como João de Resende), que era de ascendência inglesa e tinha ligações à Casa do Príncipe Diogo, Duque de Viseu e Governador da Ordem Militar de Cristo.
A viagem, para a Índia começa no dia 8 de Julho de 1497 com a saída da barra do Tejo da frota constituída pelas embarcações São Gabriel, São Rafael, Bérrio e São Miguel, com cerca de cento e setenta homens a bordo entre soldados, marinheiros e religiosos.
O objectivo, a Índia, é atingido em 20 de Maio do ano seguinte, tendo Vasco da Gama que enfrentar a hostilidade do Samorim de Calecut.
 De regresso, a Armada atinge Lisboa, em fins de Agosto de 1499, tendo sido recebida em triunfo. Vasco da Gama realiza ainda mais duas viagens à Índia, sendo a última já com o título de Conde da Vidigueira e na qualidade de Vice-Rei, acabando por falecer em Cochim a 25 de Dezembro de 1524.


O Estado Português da Índia, Estado da Índia ou simplesmente Índia Portuguesa, foi um governo com a função de administrar todas as possessões portuguesas localizadas na zona do Oceano Indico, desde a África Oriental até à Ásia, que viu reduzida a sua área de governo em 1752 com a atribuição de governo próprio a Moçambique, situação que se verificou em relação a Macau, Solor e Timor em 1884, ficando, assim, restringido aos territórios de Goa, Damão, Diu, Ilha de Angediva, Dadrá, Nagar-Haveli, Simbor e Gogolá.

Com a independência obtida, da Coroa Britânica, em 15 de Agosto de 1947, a União Indiana, começou a reivindicar a posse dos territórios portugueses na zona, que foram sendo absorvidos pouco a pouco, até que, com a constituição de uma republica parlamentar, o Primeiro Ministro Pandit Jawaharlal Nehru recupera a declaração feita por Mahatma Gandhi [Mohandas Karamchand Gandhi (n. em Porbandar em 2 de Outubro de 1869 † Nova Déli em 30 de Janeiro de 1948), mais conhecido popularmente por Mahatma Gandhi (do sânscrito "Mahatma", "A Grande Alma") foi o idealizador e fundador do moderno Estado indiano e o maior defensor do Satyagraha (princípio da não-agressão, forma não-violenta de protesto) como um meio de revolução (in Wikipédia)], de que “Goa não podia ficar separada”, pelo que resolve reivindicar, formalmente, a abertura de negociações com Portugal, tendente à anexação dos territórios na Índia.

Com o Império Português “em ordem”, depois das “escaramuças” havidas em África, aquando da dobragem do século XIX para o século XX, apesar de se ter prolongado muito para além do regresso das tropas que estiveram em França, e mesmo depois do regresso dos expedicionários aos Açores e Cabo Verde, durante a 2.ª Guerra Mundial, só a Índia, a Jóia da Coroa (mesmo na República), estava a causar alguma perturbação.


Durante o período que este antecede, também na Índia houve situações que, dado os acontecimentos que ocorreram no país, desde a Conferência de Berlim até ao final da Grande Guerra, ao territórios da Índia tiveram de fazer face a uma rebelião dos soldados marathas do Batalhão de Infantaria da Índia. Esta rebelião teve origem na ordem de deslocação, para Moçambique, de duas Companhias. Desenvolveram-se, então, as operações militares em Satary, entre 1895 e 1897.


Para conter esta insurreição, foi enviado à Índia um Corpo Expedicionário do Reino, ainda estávamos no regime monárquico, sob o comando de Sua Alteza real o Senhor D. Afonso, Duque do Porto. Constituíam este corpo expedicionário, as seguintes forças: Comando e Estado-maior (1 oficial e 6 praças); uma Secção de Artilharia de Montanha (1 oficial e 40 praças); uma Companhia de Cavalaria 3 (4 oficiais e 70 praças); duas Companhias de Infantaria 3 (11 oficiais e 444 praças); Serviço de Saúde (4 praças); Serviços Administrativos (1 oficial e 3 praças); num total de 22 oficiais e 567 praças. Convém lembrar que, à época, os sargentos eram considerados praças. Também faziam parte do corpo expedicionário, um contingente de marinheiros do cruzador “Vasco da Gama”, não quantificados na fonte consultado.

Na sequência das perturbações havidas, houve novas Operações de Polícia em 1901 e 1902, dirigidas pelo Governador-geral da Índia Coronel Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo.


Em 1912 foram efectuadas novas operações em Satary, sendo necessário recorrer ao reforço da guarnição da Índia, pelo envio de três Companhias de Moçambique.

Só uma preocupação se colocava ao poder de então, no início dos anos 50 do século passado: Guarnecer os territórios naquele estado com o maior número possível de militares.


Sem negociações, a União Indiana acaba por anexar os territórios de Dadrá e Nagar-Haveli e impede o reforço daqueles territórios, mas Portugal envia mais tropas para a Índia, tendo chegado a cerca de 12.000 homens e três navios de guerra.


No inicio de 1961, o Coronel Francisco da Costa Gomes, na sua qualidade de Subsecretário de Estado do Exército (56.º Ministério, cargo que ocupou de 14 de Agosto de 1958 a 13 de Abril de 1961), sugeriu a redução dos efectivos naquelas paragens para cerca de 3.500 homens, em virtude de se ter constatado que aquele território seria indefensável, perante uma, mais que provável, invasão. Esses efectivos foram deslocados para África, onde se tinham iniciados os conflitos que se prolongariam por cerca de treze anos, e que se propagou a três frentes de combate.


Com uma guarnição de pequena dimensão, mal armada e pouco municiada, dá inicio a alguns combates esporádicos, com forças da União Indiana, em 17 de Dezembro de 1961. Porém, no dia 18, uma força de cerca de 45.000 homens, mantendo na retaguarda como reserva cerca de mais 25.000, dá inicio à invasão simultânea dos três territórios ainda em poder efectivo de Portugal.


Socorro-me, agora, dum trabalho que venho efectuando ao longo dos últimos anos, talvez 10, que intitulei, genericamente de “AD UNUM”, que significa “ATÉ AO ÚLTIMO” e é o lema da Escola Prática de Infantaria, a Casa-Mãe daquela Arma:

17 de Novembro de 1961 – Num incidente na ilha de Angediva, ao sul de Goa, a guarnição abre fogo sobre o navio de passageiros “Sabamati”, sendo transformado no pretexto para uma intervenção militar tendente a libertar os territórios pela força.


12 de Dezembro de 1961 – Na Índia, dá-se a evacuação das mulheres e crianças. A operação é desaconselhada por Lisboa, por contrária ao interesse nacional, mas o General Vassalo e Silva, governador do Estado Português da Índia, não abdica de pôr a salvo os familiares dos seus homens. Com capacidade para cento e cinco passageiros, o navio Índia larga de Mormugão com seiscentos e cinquenta.

14 de Dezembro de 1961 – Na Índia é decretado o estado de emergência, ao mesmo tempo que é recebida a mensagem rádio, enviada pelo Dr. Oliveira Salazar, presidente do Conselho e Ministro da Defesa: “Recomendo e espero a sacrifício total, única forma de nos mantermos à altura das nossa tradições e prestarmos o maior serviço ao futuro da Nação. Não prevejo possibilidades de tréguas, nem prisioneiros portugueses, como não haverá navios rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos".


17 de Dezembro de 1961 – Os territórios de Goa, Damão e Diu são cercados por efectivos das forças armadas da União Indiana, num total de quarenta e cinco mil homens e mais vinte e cinco mil de reserva, utilizando carros de combate do último modelo, artilharia, tropas aerotransportadas, unidades anfíbias, engenharia, aviação moderna. Do lado português cerca de três mil e quinhentos militares deficientemente armados e municiados – há quem não tivesse melhor que uma espingarda Kropatcheq, anterior à Primeira Guerra Mundial, espingardas Lee-Enfield, britânicas, modelo de 1917 e metralhadoras ligeiras Lewis -, sem blindados e sem armas anticarro, sem aviação e praticamente sem artilharia.

17 de Dezembro de 1961 – Ao principio da noite aterra no aeroporto de Dabolim um avião da TAP, vindo de Carachi. Prevê-se que traga uma encomenda urgente das desejadas granadas “Instalaza”, destinadas a reforçar a depauperada artilharia anticarro. Os caixotes são abertos com ansiedade, mas ninguém quer acreditar no que vê: em vez de granadas, chouriços, enviados por Lisboa no âmbito da campanha do “Natal do Soldado”.


18 de Dezembro de 1961 – Invasão, pela União Indiana, do Estado Português da Índia. Mal armados e em número reduzido, cerca de três mil e quinhentos efectivos, perante as forças indianas invasoras, cerca de cinquenta mil militares do exército, marinha e força aérea, resistir significava uma cruel e inútil auto-imolação para os efectivos militares portugueses.


19 de Dezembro de 1961 – O contingente português acabou por se render, tendo o governador, general Vassalo e Silva, ordenado a “suspensão de fogo” às suas tropas. Mais de três mil militares portugueses foram feitos prisioneiros, entre eles o próprio Comandante. O Presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar que queria “Só soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”, puniu e perseguiu alguns dos oficiais em serviço na Índia, o que abriu dolorosa ferida nas Forças Armadas Portuguesas e foi uma das raízes do derrube do regime Salazar, doze anos depois da queda de Goa, Damão e Diu.


19 de Dezembro de 1961 - Foram feitos prisioneiros em Goa (3412), Damão (853) e Diu (403), entre civis e militares, metropolitanos, africanos e indianos. Os 4668 prisioneiros foram enviados para os campos de concentração de Goa localizados em Nevelim, Praça da Aguada, Pondá e Alparceiros.


20 de Dezembro de 1961 – O General Chaudhury, das Forças Armadas Indianas, dirige-se ao campo de Alparqueiros, para uma visita ao já ex-Governador, no seu quarto-cela. O General Vassalo e Silva quis levantar-se para cumprimentar o indiano, mas este, pousando-lhe a mão no ombro, não deixou, puxando de seguida uma cadeira, sentou-se. O General português recusa a oferta de tratamento preferencial enquanto o indiano louva os militares portugueses, pelo seu comportamento nos combates travados em Mapuçá, Bicolim, Damão e Diu. O general indiano, no final, apertou a mão ao general português, colocando-se à disposição do vencido para o que fosse necessário.


27 de Dezembro de 1961 – Jawahalal Nehru, primeiro ministro indiano, manifesta-se contra os ataques internacionais de que foi alvo por ter invadido os territórios portugueses de Goa, Damão e Diu.


3 de Janeiro de 1962 – Estabelecimento, em Lisboa, de um governo do Estado da Índia.


12 de Janeiro de 1962 – O Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Dr. Franco Nogueira, entrega ao Presidente do Conselho de Ministros, Dr. Oliveira Salazar, um documento intitulado “Notas sobre a Política Externa Portuguesa”. Neste documento, de dezoito páginas, era preconizada a entrega de Macau à China e Timor à Indonésia, enquanto à Guiné e São Tomé e Príncipe seria dada a autonomia e independência. Os territórios de Angola, Moçambique e Cabo Verde seriam mantidos como colónias essenciais.

27 de Janeiro de 1962 – Acordo entre Portugal e a União Indiana para o repatriamento de mais de três mil prisioneiros.


Maio de 1962 – Começa a repatriação dos prisioneiros, com o estabelecimento de uma ponte aérea até Carachi no Paquistão, sendo, a partir daí, a viagem efectuada por mar nos navios enviados pelo Governo de Lisboa:


• Vera Cruz – Sai no dia 8 e chega a Lisboa a 22, com 2968 pessoas a bordo;


• Pátria - Sai no dia 12 e chega a Lisboa a 26, com 1265 pessoas a bordo;


• Moçambique - Sai no dia 15 e chega a Lisboa a 30, com 1382 pessoas a bordo. Foram transportadas mais de 5600 pessoas, entre militares e civis.


Quando chegam a Lisboa os navios que transportam os ex-prisioneiros de guerra da Índia, os militares repatriados só saíram a coberto da noite, debaixo de forte dispositivo de segurança militar, sendo esta atitude justificada “pela necessidade de os proteger da população, que os queria linchar pela cobardia demonstrada”.


No cais apenas alguns familiares e amigos dos regressados.


Em memória dos camaradas de armas tombados em nome de Portugal, deixamos o registo dos seus nomes, para que a História e os Homens, os não esqueçam, e não se tornem em SOLDADOS ESQUECIDOS:

Militares tombados em Defesa da Índia Portuguesa

Abel Araújo Bastos – Soldado
Abel dos Santos Rito Ribeiro – Alferes Miliciano de Infantaria
Alberto Santiago de Carvalho – Tenente Infantaria
Aníbal dos Santos Fernandes Jardino – Marinheiro
António Baptista Xavier - 1.º Cabo
António Crispim de Oliveira Godinho - 1.º Cabo
António Duarte Santa Rita - 1.º Sargento da Armada
António Fernando Ferreira da Silva - 1.º Cabo
António Ferreira – Marinheiro
António José Abreu Abrantes – Alferes Miliciano Infantaria
António Lopes Gonçalves Pereira – Alferes Miliciano Engenharia
Cândido Tavares Dias da Silva - 1.º Cabo
Damuno Vassu Canencar – Soldado
Fernando José das Neves Moura Costa - Soldado
Jacinto João Guerreiro – Soldado
João Paulo de Noronha - Guarda 2.ª classe
Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo - 2º Tenente Armada
José A. Ramiro da Fonseca - Furriel Miliciano
José Manuel Rosário da Piedade - 1.º Grumete Armada
Joviano Fonseca - Guarda-Auxiliar
Lino Gonçalves Fernandes - 1.º Cabo
Manuel Sardinha Mexia – Soldado
Mário Bernardino dos Santos – Soldado
Paulo Pedro do Rosário - Guarda Rural
Tiburcio Machado - Guarda-Rural


OBS: Esta lista pode estar incompleta


Os Soldados da Índia só foram “reabilitados” do ostracismo a que foram votados, após o 25 de Abril.
Todos os prisioneiros de guerra, foram condecorados com a Medalha de Reconhecimento (*) em 03 de Maio de 2003, pelo então Ministro de Estado e da Defesa Nacional Dr. Paulo Portas.


(a)José Marcelino Martins
de quem tenho o privilégio de ser amigo vive em Odivelas e é "figura de proa" de um dos blogs mais importantes da actualidade portuguesa- Luís Graça & Camaradasda Guiné - , que em 6 anos de existência já ultrapassou 3 milhões de visistantes.
JERO





sábado, 10 de dezembro de 2011

M -392 ACERCA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

EQUÍVOCOS E PRECISÕES

Na longa história de mais de oito séculos, atravessada por trinta e seis gerações de alcobacenses que o Mosteiro, que foi de Cister, leva de vida há uma longa série de equívocos que sobretudo a tradição oral faz perdurar.
Normalmente isto acontece, mesmo no uso da palavra escrita, porque a tendência é considerar qualquer afirmação como definitiva e portanto repete-se.
São Bernardo
A mais vulgar é a de considerar-se São Bernardo como fundador da Ordem de Cister, ainda outro dia o ouvi da boca de um Secretário de Estado da Cultura. Robert de Molesme é o Santo Fundador, Bernardo o Santo que a fez perdurar e que nela ingressa anos depois da construção do novo Mosteiro na floresta de Citeaux.

O Santo Fundador Robert de Molesme
Em 1269 o Abade Perpétuo Frei Estêvão Martins cria a primeira escola monástica para a instrução dos noviços alcobacenses e não para ensinar a ler e a contar os filhos dos camponeses.
Os túmulos do rei D.Pedro e da sua amante, a rainha morta D.Inês de Castro, foram originalmente colocados lado a lado e virados a nascente no transepto sul em frente à capela mais próxima da epístola dedicada a S.Pedro.
Aí estiveram até 1786, data em que já estão no Panteão Neo Gótico construído por William Elsden no tempo do Marquês de Pombal ,onde serão violados pelos exércitos de Massena.
Voltarão ao transepto, agora D.Inês do lado norte e, D.Pedro no transepto sul ,frente a frente, para a visita da Rainha D.Isabel II de Inglaterra, que almoça no refeitório do Mosteiro em Fevereiro de 1957.
Por volta de 1560 constrói-se às ordens do Abade Comendatário D.Henrique um Palácio Abacial sobre a nova Portaria do Mosteiro ,no topo da ala norte. Aí é construído um belíssimo claustro de exacta geometricidade e que facilmente se enquadra no figurino da Alta Renascença.
Por equívoco perdurável ,seguido por inequívocos nomes da arte e história lusas ,chamaram-lhe de D.Afonso VI, quando deve ser denominado Claustro do Palácio Abacial.
Este claustro segue rigorosamente o que Bramante desenhou, com mais um arco de cada lado, em 1502 para a Igreja de Santa Maria Della Pace, em Roma.
Do tempo de D.Afonso VI é o edifício que dá para a Rua D.Pedro V e limita o Claustro do Rachadouro a norte. Nele havia oficinas no r/c, no 1º. andar botica, capela da enfermaria e 24 celas. No último celas também, destinadas aos Monges de Lausperene, e que parecem terem servido o cenóbio geral. No último piso havia 29 celas. Neste corpo a 1ª pedra deste edifício aconteceu em 1665.


(Continua)
Rui Rasquilho


domingo, 27 de novembro de 2011

M - 386 VEM AÍ O FERIADO DO 1º. DE DEZEMBRO

RESTAURAÇÃO de valores

Aproxima-se o dia 1 de Dezembro,que é feriado nacional.
Pela experiência de vida que acumulei ao longo do tempo tenho a convicção que muita gente – principalmente das camadas mais jovens - vai “curtir” este feriado sem saber o “porquê” do chamado dia da Independência ou da Restauração.
Eis algumas das respostas de pré-universitários com 18 e 19 anos de idade que questionei à entrada de uma grande superfície.
- 1º.de Dezembro é o “Dia dos Reis Magos”!
- Foi a implantação da República!
O que se passou em 1640? «Não faço ideia.»
Os 40 conspiradores? A defenestração do traídor Miguel de Vasconcelos?
«Não faço a mínima.»
O domínio dos Filipes? Quantos anos?
- Sei lá. Sei que foram três dinastias !
A Restauração da Independência? Quem foi o primeiro Rei da IV Dinastia?
«Não faço a mínima ideia.»
À distância no tempo – quando em 1950 fiz o meu exame da 4ª. classe (hoje 4º. Ano) – sabíamos isto tudo, que agora recordo sem necessidade de consultar a Wikipédia, porque além do conhecimentos de história eram transmitidos - com a propósito - ideia de valores: a coragem, a bravura, o patriotismo, a Pátria.
Havia em fundo uma componente política – leia-se “Mocidade Portuguesa” – de que recordo essencialmente a parte desportiva e “turística”, com os jogos de voleibol e com as viagens às Caldas da Rainha, a Torres Vedras e à capital. A viagem a Lisboa era então o “limite”, com a visita ao Jamor e ao Estádio Nacional.
Esta fase competitiva da Mocidade Portuguesa - com a possibilidade de ir até ao Estádio Nacional - já nos apanhava com mais de 13 anos. mais próximos de comissários políticos, que víamos essencialmente como treinadores desportivos.
Mas o “ponto” que hoje queremos aqui deixar tem a ver com a restauração de valores - e de saberes – num tempo que é essencialmente de corrida ao consumo numa vida agitada, de luta, de competição.
Que começa nos pais e se transmite aos filhos.
Quinta feira da próxima semana é feriado .
Dia da Restauração da Independência.

Vou “perder” algum tempo com os meus netos e falar-lhes do que se passou no dia 1º. De Dezembro de 1640.
E fazer-lhes notar que essa resposta do «não faço a mínima» não é nada abonatória para quem a profere.
Tenho de aproveitar esta oportunidade dado que no próximo ano o 1º. de Dezembro já não deverá ser feriado, esperando no entanto que a nossa independência se mantenha.

 

A possível (dentro da conjuntura) obviamente.
JERO





quarta-feira, 19 de outubro de 2011

M 379 CAPUCHOS

CAPUCHOS

O Concílio de Trento termina em 1563 ,após dezoito anos de trabalho com algumas interrupções.
Em 1566 o Comendatário D. Henrique trás para os Coutos Franciscanos, Capuchinhos, e instala-os na encosta de Chiqueda onde constroem um primeiro Convento dedicado a Santa Maria Madalena, reedificando-o no mesmo local em 1639.
Os Decretos do Concílio chegam às mãos do Abade Comendatário, Cardeal D.Henrique, em 1564 e nele se determinaram alterações profundas na liturgia e nos procedimentos até aí adoptados.
A eucaristia irá a partir desta data ter um lugar primordial na Igreja e com ela serão exigidos novos símbolos para o ritual da missa. Custódias , tabernáculos e novos altares serão fabricados para o serviço de Deus e grandeza do seu povo.
Os camponeses dos Coutos poderão a partir de agora, embora com restrições, assistir às missas na Igreja do Mosteiro.
A Cerca de Dentro já não se inicia na Porta de Fora, todo o limite poente é agora a fachada do Mosteiro.
O Palácio Abacial e a Portaria, o muro do Claustro virado a Este e a fachada simples da Igreja , ainda sem Torres Sineiras é o limite monástico. Haveria provavelmente um sino dirigido ao povo numa torre que a arqueologia parece aceitar “encostada” à Sala dos Reis, antes desta existir.
 Mas não há certezas cronológicas, por enquanto.
Os Capuchos são uma Ordem Mendicante que exerce o seu trabalho no terreno, apoiando corpos e almas, Cister é uma Ordem contemplativa interior.
 Até então o exercício do apostolado nos Coutos é feito pelas paróquias.
Terá o Cardeal pensado que os Capuchinhos poderiam ajudar nos cuidados com os crentes ?
Na enfermaria nova de Alcobaça há lugar cativo para os doentes capuchos sem distinção para com os cistercienses .

Os franciscanos têm dois ramos, os conventuais e os observantes , e é destes últimos que derivam os capuchinhos, monges de vida claustral, penitentes rigorosos mas prosélitos da palavra de Deus.


 A Igreja do Convento a  que hoje vanos, tem raizes em 1639 e foi vandalizado durante dezenas de anos no sec. XIX após a extinção das Ordens.


Hoje ,na posse de particulares que o estimam, tem o figurino habitual dos franciscanos, pátio e galilé com três arcos. No seu interior havia um importante acervo de azulejos de tapete que desapareceu.

Rui Rasquilho

domingo, 16 de outubro de 2011

M 378 SINAIS BARROCOS NO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

APONTAMENTOS BARROCOS
Entre 1545 e 1563 realizou-se o Concílio de Trento convocado pelo Pontífice Paulo III.
O Santo Padre decidiu que era tempo de “condenar os erros, eliminar os abusos e restabelecer a paz e a unidade do povo cristão.”
Um século depois irrompe em toda a Europa um estilo novo, o barroco dirigido aos sentidos através de modelos de pomposa teatralidade.
A festa da vitória sobre as ideias protestantes, que haviam rompido a hegemonia católica, consolida-se.

A fachada da Igreja do Mosteiro de Alcobaça erguida entre 1702 e 1725, precedida de várias escadarias que dão acesso a diversos patins que prolongam para o exterior as três naves góticas da Igreja, assumiu o limite da teatralidade, durante as diversas recepções reais dos séculos XVIII e XIX onde o cenóbio e as autoridades civis e militares da vila esperavam as visitas ilustres presenciadas pelo povo.
Nos palácios alinhavam pelas escadarias os alabardeiros num ritual de cerimónia que ainda hoje se usa à entrada dos banquetes oficiais do Palácio da Ajuda, embora aqui as escadarias sejam interiores não servindo por isso a admiração popular.
No Mosteiro de Alcobaça o primeiro sinal barroco é dado por ordem de Frei Constantino de Sampaio, que construirá o Retrato do Céu, a Capela das Relíquias, entre 1669 e 1672 no tempo do seu abaciato trienal.
Três anos depois, durante o primeiro triénio de Frei Sebastião Sotto Mayor (1675-1678 ) o altar-mor da Igreja recebe um novo retábulo, recheado de colunas e parapeitos onde foram colocadas esculturas colossais em barro cozido dourado e policromado de Papas cistercienses, Abades cruciais da Ordem e anjos músicos, entre outras importantes estátuas, estas em madeira policromada.
Na antiga Capela de S.Vicente de novo o Abade Frei Sotto Mayor deu início ao retábulo do trânsito de S.Bernardo no ano de 1687 no começo do seu segundo triénio.
Na última visita real ao Mosteiro cisterciense a fachada serviu gloriosamente de cenário à festa da chegada do Rei absoluto D.Miguel, que nas escadarias se mostrou à aclamação do povo.
A Igreja derrota os reformadores em Trento e mais tarde o barroco, dá-lhe um rosto novo do qual o poder político se serviu legitimamente tanto mais que os reis,até à prevalência constitucional ,detinham o trono por vontade divina e aclamação em cortes.
A nova Igreja tridentina influencia também a Ordem de Cister, que agora com os seus momentos litúrgicos abertos com parcimónia aos crentes, lhes oferecerá a emoção das imagens nos altares e a comovente representação da morte de S.Bernardo no esplendor do ouro , da cor e da representação da vida em trânsito.


Rui Rasquilho





sexta-feira, 16 de setembro de 2011

M 374 - UM CLAUSTRO DE ALTA RENASCENÇA EM ALCOBAÇA

UM CLAUSTRO DE ALTA RENASCENÇA

O Claustro do Palácio Abacial construído em Alcobaça em meados do sec. XVI é a primeira ruptura com a arte medieval usada na obra monástica cisterciense.
Vasali cria em 1550 o termo “rinascità” mas teríamos de esperar até ao primeiro quarto do século XIX para o modelo da Renascença ser considerado um estilo.
O Palácio do Comendatário Abade D.Henrique, Cardeal e Príncipe, é construído na segunda metade do sec. XVI, desenvolvendo no seu interior um claustro de alta-renascença (1520-30).
A cultura renascentista tudo deve ao humanismo de filósofos, artistas, cientistas, enfim homens de cultura como o foi o Príncipe Henrique, que com o seu palácio concluído seria Rei de Portugal, devido à morte do sobrinho em Alcácer-Quibir.
Desconhece-se o nome do arquitecto que desenhou o Palácio e o seu belíssimo Claustro, mas parece ter-se inspirado em Bramante que em 1504 tinha terminado o Claustro de Santa Maria Della Pace em Roma.
Claustro D.Afonso VI em Alcobaça
As semelhanças são flagrantes na forma como adaptaram os elementos da Antiguidade Clássica, havendo uma forte possibilidade do arquitecto que traçou o Palácio de Alcobaça ter passado algum tempo em Roma.
O Claustro italiano tem 16 arcos de volta perfeita, que repousam em pilares nórdicos. O de Alcobaça tem 12 arcos ainda mais expressivos.
Os pilares dóricos têm adossados quer em Alcobaça quer em Roma pilastras jónicas que sustentam um friso e sobre ele o varandim do sobreclaustro. No Claustro do Palácio do Cardeal colunas de capital dórico sustentam o entablamento com decoração de feição também dórica.
Em Santa Maria Della Pace (2ª.foto, à direita) o sobreclaustro apresenta também colunas,estas com capitel coríntio intercalando com pilastras.
O entablamento de Roma regista um avançamento da cornija enquanto Alcobaça possui uma cornija mais leve com gárgulas geométricas.
Esperando-se que as ilustrações ajudem a compreender as semelhanças flagrantes pede-se uma visita ao Claustro do Palácio, onde é fácil aceder se for às casas de banho.
Mas a verdade é esta. Temos em Alcobaça um claustro de alta renascença com grande qualidade e que ,por equívoco, leva a denominar de D.Afonso VI.

Rui Rasquilho