domingo, 14 de março de 2010

M214- NA PRISÃO É QUE ESTÁ A DAR...

Na “prisão” é que está a dar...


Começo por declarar que sou um felizardo em termos de amigos. Tenho um “património de afectos” que não é brincadeira.

Sempre que posso dou uma saltada para visitar o meu amigo Moreira.Um amigo especial.Amigo das tropa.

Podemos estar alguns meses sem nos falarmos mas quando o telefone toca não são precisos nomes.

Como estás e onde estás?

Estive com ele na semana passada. Nesta fase do “campeonato da vida” deu em agricultor.

Levei-lhe uma prenda simbólica e obrigou-me a trazer laranjas e limões. E contou-me uma história da vida… Lindíssima. Pelo menos eu achei. Vou partilhá-la com quem tem a paciência de me ler de quando em quando.

«Até ao ano passado tive neste barracão com rede cerca de 150 pássaros. Tinha alguns melros e disseram-me que eram aves protegidas, que não podia ter em cativeiro. Por essa e outras razões chateei-me com tanta passarada e resolvi devolvê-los à liberdade.

Tinha alguns pombos e poucos dias depois apercebi-me que, contra a sua vontade, já tinham feito parte do “petisco” de uns caçadores que moravam por perto.»

O Moreira, que é transmontano, disse seguidamente uns palavrões, que não reproduzo, mas que queriam dizer que mais valia ter estado quieto.

Mas como nem tudo é mau na vida teve recentemente uma boa surpresa.

Num arbusto que tem dentro do seu barracão vedado com rede (mas com uma abertura no cimo) avistou um dos seus antigos melros. Tinha voltado à “prisão” e fazia com afã um ninho.O seu ninho.

O Moreira via-o entrar e sair, trazendo materiais para a sua “habitação”. Sentia-se em casa, desfrutando com à vontade a segurança da sua antiga prisão. Dias depois o ninho estava pronto e tinha 3 bonitos ovos.

Disse ao Moreira:Agora é que o teu melro, da tal espécie protegida, está efectivamente protegido. Vais pô-lo fora?

«Nem pensar.Aqui é que ele (ou ela) está bem.

Tirei umas fotos ,dei um abraço ao meu amigo da tropa, e regressei a Alcobaça.

Apanhei pouco trânsito e fartei-me de pensar no melro do Moreira.

Um pássaro “diz-nos” que a “prisão” é opção mais segura do que viver em liberdade! Dá que pensar!

Nos dias anteriores serviços noticiosos das televisões e jornais nacionais tinham referido o suicídio de uma criança em idade escolar e a morte de um professor que (eventualmente) não aguentou a pressão da sua profissão e acabou com a vida.

Afinal que tempos são estes em que vivemos?

A segurança para viver está na cadeia?

A opção do melro dava-me que pensar.

Uma espécie protegida pela lei estava bem porque estava em cativeiro…

Segurança para viver …precisa-se!

JERO

sexta-feira, 12 de março de 2010

M213-UM COMBOIO DE TRACÇÃO BOVINA...

O Comboio Americano

Para agilizar a expedição das madeiras do pinhal decidiu-se, no ano 1856, proceder a estudos para a abertura de uma via rolante desde o Pinhal de Leiria até S. Martinho do Porto. Em 1857, o Administrador Geral das Matas regozijava-se pela aceitação por parte da tutela do caminho de madeira por ele idealizado, assim como da ordem de construção de dois iates (baptizados pelo nomes de Marinha Grande e Valado).

Esta linha com 36 km de extensão partia de Pedreanes (depósito de madeiras serradas) e tinha estações de muda na Martingança, Valado dos Frades, Mouchinha e S. Martinho, onde o gado repousava.

No trajecto de retorno, os vagões eram atestados de areia e pedra na Martingança para abastecer a Fábrica Nacional de Vidros. A reduzida durabilidade dos carris de madeira, leva à sua substituição por elementos de ferro em 1861.

O comboio americano era constituído por nove vagões de carga e um de passageiros e a sua tracção dependia de parelhas de gado bovino. O percurso tinha a duração prevista de oito horas. O trânsito dos vagões decorria entre a segunda-feira e o sábado, disponibilizando-se uma junta por cada vagão.

As fontes notariais elucidam-nos sobre a natureza das condições contratuais estabelecidas entre os concessionários da linha e os boieiros que, com o seu gado, se vão encarregar da deslocação dos vagões entre a estação do Valado, o Pinhal do Santíssimo e o Casal do Bispo.

Num contrato estabelecido para o ano de 1862 acorda-se o serviço de cinco boieiros (provenientes das localidades de Valado e Cela Velha). Apenas um deles ocupava os seus animais em permanência, alternando os restantes carreiros o gado no serviço. A remuneração da junta de gado por vagão é fixada em 390 réis. Já num contrato firmado no ano sequente, ficamos a saber que Maria Carvalha, boieira de profissão, tinha de apresentar na estação do Valado seis bois todas as segundas, quartas e sextas-feiras, sendo o frete anual das madeiras entregue a quatro boieiros. Esta escritura mais pormenorizada estipula “que cada junta será obrigada a puxar somente um vagão ganhando em cada dia trezentos e cinquenta reis”. Cada falta ao serviço tinha como contrapartida a indemnização de 5.000 réis. Idêntica quantia se comprometia a pagar o concessionário da linha, caso os vagões, por algum imprevisto, não comparecessem na estação. Por motivo de doença, o boieiro podia recorrer aos companheiros que nesse dia não tivessem serviço.

As madeiras provenientes das matas de Alcobaça eram exportadas em toros por falta de engenhos hidráulicos aplicados na serração. Num estudo sobre a economia do concelho e suas potencialidades de desenvolvimento, intitulado Alcobaça. Melhoramentos Industriais (1861) refere-se que ”a maior parte das madeiras até agora vão por serrar. A pouca que submetem a esta operação é serrada a braços por homens que ganham 400 réis diários”. Nesta obra lastima-se a falta de iniciativa no aproveitamento do motor hidráulico na serração de madeiras. Propunha-se a instalação de um engenho de serrar nas quedas de água da Fervença. Segundo os autores do estudo, esta queda oferecia uma potência de 50 cavalos, o que correspondia aos gastos de 616 toneladas de carvão anuais para accionar uma máquina de serrar a vapor com capacidade equivalente.

O único engenho hidráulico de que temos conhecimento na área geográfica dos Coutos estava localizado na Cerca de Dentro do Mosteiro.

Na escritura de arrendamento do Moinho da Praça, celebrada a 16 de Junho de 1828, previa-se a redução da renda no caso em que a deslocação de parte do caudal da levada, para fazer funcionar o “engenho da madeira”, inutilizasse alguma mó do moinho. Mas este engenho de serrar já estava inactivo em 1838. No aforamento que o notável Francisco Pereira da Trindade faz à Câmara Municipal do moinho da Praça, sublinha que o contrato só será exequível desde que a Câmara lhe garanta a posse e a servidão das águas e que no local em que trabalhava o engenho não se venha a instalar outro ofício similar. O actual foreiro relembra que a laboração do engenho prejudicou, em grande medida, os anteriores rendeiros e que, por esse motivo, as pensões chegaram a ser reduzidas para um terço do valor estabelecido.

As madeiras carreadas pelo comboio americano dependiam das condições do Porto de S. Martinho. A Câmara de Alcobaça, corria o ano de 1859, apresenta uma diligência junto da Câmara de Deputados para que se proceda a melhoramentos portuários urgentes. Na defesa do projecto argumenta-se que as obras são imperiosas, caso contrário, dentro de dez anos as areias inutilizam a barra “e parecerá grande disparate se ter feito um caminho-de-ferro, em que se gastaram 120:000.000, para um porto onde não há meio de embarcar a madeira do pinhal de Leiria”.



António Valério Maduro

Nota:
As fotografias têm a ver com a partida -Pedreanes (Marinha Grande) e São Martinho do Porto (chegada).
JERO

quarta-feira, 10 de março de 2010

M212-PREVISÕES METEREOLÓGICAS

Pedra molhada - chuva(vá buscar um chapéu de chuva a casa...)

Pedra seca - tempo seco (proteja a cabeça...)

Sombra no chão- ensolarado (vá pela sombra...)

Pedra branca no topo- nevando (vá para casa...)

Não se consegue ver a pedra - nevoeiro (veja bem onde põe os pés...)

Pedra balançando- vento (agarre bem o chapéu ...)

Pedra pulando para cima e para baixo - terramoto (fuja para local seguro)

A pedra não está - tornado (não seja pessimista...pode ter sido apenas roubada!!!).

NB-Estas informações não dispensam a consulta ao Borda d'Água.

JERO

terça-feira, 9 de março de 2010

M211- IMAGENS QUE VALEM MAIS DE MIL PALAVRAS

GRANDES FOTOGRAFIAS

Imagens como esta fazem-nos perceber porque é que uma fotografia vale mais do que mil palavras ...
Não só pela imponência… mas principalmente pela beleza.

Esta fotografia terá sido tirada junto duma Plataforma Petrolífera da Global Marine Drilling, estacionada em St.Johns Newfoundland.

Os responsáveis da “Global Marine Drilling” têm que mudar o rumo dos icebergs, puxando-os com rebocadores para evitar que se choquem com as plataformas.
Neste caso particular, o mar estava calmo, a água cristalina e o sol quase directamente sobre o iceberg, assim um mergulhador pode tirar esta fotografia fantástica.

O peso estimado deste iceberg é de 300 milhões de toneladas.

Se ainda fosse preciso aqui está o exemplo de uma fotografia que pesa muitas toneladas e vale mais do que mil palavras ...

Texto adaptado por JERO

M210- AINDA O DIA DA MULHER...

A caixa de Pandora...
Ou um poema panteísta contra a misoginia...
No Dia Internacional da Mulher

(Para a minha mãe, Maria,
para a Alice,
para a Joana,
para todas as mulheres do nosso blogue,
para todas as mulheres de Portugal e da Guiné-Bissau,
para todas mulheres do mundo)


Os deuses criaram a primeira mulher,
e puseram-lhe o nome de Pandora.
Diziam os gregos antigos que fora por castigo,
como presente envenenado,
oferecido aos homens,
a quem Prometeu, o titã, tinha dado o fogo,
roubado aos céus.

Na sua fabricação,
à imagem e semelhança dos deuses,
trabalharam Hefesto e Atena,
sob as ordens do próprio Zeus,
e com o auxílio do resto do Olimpo.

Cada divindade se esmerou
e lhe deu uma qualidade:
a graça,
a beleza,
a meiguice,
a paciência,
a compaixão,
a persuasão,
a generosidade,
a inteligência emocional,
a sensibilidade,
a sensualidade,
o sexto sentido,
a graciosidade na dança,
a arte da sedução,
o erotismo,
o talento para a cozinha,
a destreza para os trabalhos manuais,
o amor maternal…

Porém Hermes, o pérfido,
inoculou no seu coração
o vírus da traição e da mentira.

Zeus, o colérico e vingativo pai dos deuses
e de todas as demais criaturas,
mandou então a sua obra-prima
para a terra,
qual cavalo de Tróia.
Epimeteu, irmão de Prometeu, estava por este avisado:
- Do céu nunca virá nada de bom!
Nunca aceites nenhum presente divino…

Deslumbrado com a sua beleza,
Epimeteu tomou Pandora como esposa.
Em casa, ele tinha uma misteriosa caixa
que outrora lhe enviara o céu.
Pandora fora instada a nunca a abrir,
em circunstância alguma.
Mas a curiosidade feminina foi superior às suas forças.
Outros dizem
que era o seu dote de casamento.

… Lá dentro, na caixa de Pandora,
estavam todos os males e todas as doenças,
incluindo a peste (a pior das doenças),
que haveriam de afligir a humanidade,
até ao fim dos séculos dos séculos…

Mas, no fundo da caixa, ficou ainda
um resto do recheio,
o único elemento que não se chegara a libertar,
porque Pandora, assustada,
ainda conseguira fechar a tampa,
na última fracção de segundo …
E esse elemento era… a Esperança,
disfarçada de mal !

Apesar do erro irreparável,
Pandora vai permitir aos homens,
empunhar com orgulho o archote de fogo
que lhes dera Prometeu,
manter acesa a luz ao fundo do túnel,
manter vivo esse outro fogo do conhecimento e da paixão,
dominar alguns dos piores males
que estiveram prestes a destruir a humanidade,
conquistar o direito ao futuro,
lutar contra a doença e a morte,
alimentar a esperança,
combater o fatum, a condenação ao absurdo,
levá-los, enfim, aos seres humanos
a superar as limitações da sua condição animal...

Com Pandora, não somos definitivamente criaturas divinas,
nem obras-primas da criação,
somos assumidamente seres livres,
humanos,
frágeis,
vulneráveis,
mortais,
bons e maus,
mas donos do nosso destino.

Com Pandora, tornámos irrisórios os deuses,
libertámos criadores e criaturas,
deixámos a sub urbanidade do Olimpo,
humanizámos a vida,
hospedámo-nos no sistema solar,
começámos a escrever a história,
ganhámos a terra como nossa casa,
conhecemos a vertigem e o sabor
da aventura da liberdade...
Pandora não é a fonte de todos os males,
não é o pecado original,
é afinal “a que tudo dá",
em grego.
Com Pandora somos fogo e estopa,
mas já não vem o diabo... e assopra!
Para quê o diabo,
se voltámos a ter, de volta,
a caixinha de Pandora,
agora domada e explicada às criancinhas,
e outrora mortal brinquedo dos deuses ?

Luís Graça


Luís Graça, fundador, administrador e editor do blogue “Luís Graça e Camaradas da Guiné”, que recentemente atingiu 1.500.000 de páginas visitadas em 6 anos de existência.

Natural da Lourinhã (a "capital dos dinossauros"), mora em Alfragide, é sociólogo do trabalho e da saúde, doutorado em saúde pública, professor na Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa, em Lisboa... Casado, com a Alice Carneiro. Dois filhos: Joana Graça, psicóloga e ilustradora, e João Graça, médico e músico. Fez a guerra colonial na Guiné (CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71).

Na fotografia dois ex-combatentes da Guiné, ambos naturais do Litoral-Oeste.Luís Graça da Lourinhã e JERO, de Alcobaça,que se vieram a conhecer e a tornar-se amigos 40 anos depois da guerra... por causa dos blogues.

segunda-feira, 8 de março de 2010

M209-DIA INTERNACIONAL DA MULHER



Dia internacional da mulher

No Rio de Janeiro - Flordelis

Flordelis dos Santos de Souza é uma verdadeira mãe-coragem. Resgatou do seu destino infeliz das drogas, do tráfico e da miséria das ruas do Rio de Janeiro 46 meninos. A juntar aos seus quatro filhos biológicos, são 50 ao todo os filhos com espaço no coração de Flor. Cada um deles é uma história trágica com um final feliz.

Pode-se dizer com propriedade que já, passou por tudo, dormiu na rua, foi julgada, enfrentou lugares perigosos para salvar seus filhos, ela sim teve e tem muita coragem.

Respigámos de um extraordinário trabalho jornalístico de Mafalda Anjos, publicado na Revista ÚNICA ,do “Expresso” # 1949, de 6 de Março de 2010,algums “flashes” da vida de Flordelis.

Só para começar:

«Foi o pai, pastor evangélico, que escolheu o seu nome. A flor-de-lis foi a planta usada para ornamentar o Templo de Salomão, uma das sete maravilhas do mundo antigo…”Nasci e cresci na favela de Jacaré-Jacarezinho.Um dia, decidi fazer alguma coisa para mudar isso.(Flordelis vivia na favela de Jacarezinha, a segunda pior do Rio de Janeiro.Foi lá que conheceu o marido Anderson e onde resgatou do tráfico de droga o filho Alex).Saía toda a sexta-feira de madrugada para o baile funk, para tentar ganhar a confiança dos meninos do tráfico. Queria entender o que os levava às drogas.O ciclo vicioso das drogas começava muitas vezes pelas salas de jogos.Primeiro os meninos viciavam-se nos jogos, depois cometiam pequenos furtos, a seguir vinham as drogas e mais tarde o tráfico.Pelos menos oito em cada dez meninos das favelas estavam envolvidos no tráfico e quase todos acabavam por morrer.

…Em 1991 Flordelis comprou uma máquina de videojogos.”Assim, eles podiam ir brincar para minha casa lá na favela e saíam dos locais perigosos. Vieram logo cinco meninos e, aos poucos, acabaram ficando por lá.”

…A sua fama na favela no Jacarezinho acabou por se propagar como uma brisa fresca num dia de 40 graus ao sol.

37 filhos numa noite…Numa fatídica noite de em Fevereiro de 1994 um atirador furtivo disparou indiscriminadamente sobre meninos da favela. Onze meninos morreram e vários ficaram feridos .

O desespero e o pavor invadiram as crianças. Perante o pânico geral, uma rapariga aponta a solução: “Vamos pedir ajuda a Flordelis”. Era a mãe de Rayane, a menina que Flor tinha resgatado do lixo havia poucos meses, que regressara ao vício do crack e andava novamente pelas ruas do Rio de Janeiro.

…”Nessa madrugada de uma vez só, fiquei com 37 meninos, 14 deles bebés”. A juntar aos seus filhos biológicos e às outras crianças que entretanto já tinha abrigado, ao todo eram 43 pequenos entre aquelas quatro paredes.

…Tempos depois uma entrevista num jornal para ajudar Flordelis teve efeitos contrários. Um Juiz de Menores intimou Flordelis a comparecer em Tribunal porque não tinha o direito de ter crianças à sua guarda. O Juiz sentenciou que as crianças de Flordelis deveriam ser colocadas em abrigos de menores.

Flordelis desobedeceu e fugiu. Durante meses.

Uma nova entrevista levou-a a conhecer a presidente do Centro Brasileiro para a Defesa da Criança e do Adolescente. Depois de ouvir Flordelis durante horas transmitiu-lhe finalmente uma mensagem de esperança:”Ninguém consegue tirar essas crianças de você, porque se as tirarem elas voltam. Não foi você que as adoptou, foram elas que a adoptaram a si”.

…Na casa de Flor e do seu marido, em Niterói, há dezenas de casos de sofrimento transformados em esperança, cada um com o seu final feliz

Hoje vivem com ela 44 filhos e uma neta, numa lição única de partilha e generosidade.

Flordelis é sinónimo de Amor, Coragem, Determinação, Coração…

Flordelis é uma verdadeira mãe-coragem.

Em Alcobaça – Tias do Gonçalinho

São três mulheres.Doces e solidárias, que fazem o mesmo caminho.

No seu caminho encontraram o Princepezinho e fizeram dele mais um projecto da sua vida.

É vê-las "chilrear" como passarinhos felizes quando o Gonçalinho dança, quando ri , quando abraça...

São três mulheres solidárias que têm contribuído para que o "nosso Gonçalinho tenha uma vida mais feliz e colorida .

Tiveram antúrios de uma admiradora.(M.H.)

Neste "Dia da Mulher" a minha singela homenagem para estas mulheres solidárias,que Alcobaça conhece.



Na fotografia Alice com o Gonçalinho.A Júlia e a Ilda estão por perto.

JERO

domingo, 7 de março de 2010

M208-GESTÃO INOVADORA DO MOSTEIRO PRECISA-SE

A gestão do Mosteiro de Alcobaça

Alcobaça poderia ganhar se o Estado partilhasse a gestão do seu Mosteiro com os órgãos vivos locais.

Por que há medo de o fazer? Falta de políticas culturais com dimensão social e de confiança nas populações, ou seja, nos portugueses, eles mesmos?

Alcobaça começa por ser daqueles que a habitam e que, melhor do que ninguém, a sabem valorizar. Uma gestão inovadora do seu Mosteiro pressupõe mudanças de mentalidade ao nível do poder central, começando, desde logo, por se atribuir maior autonomia e capacidade de decisão, que significa sempre assunção de responsabilidades, em matéria de gestão cultural e patrimonial efectiva, para aqueles que, efectivamente estão perto do monumento.

Quem o diz é o historiador Saul Gomes [1]num recente comentário a um artigo de opinião de Rui Rasquilho, antigo Director Mosteiro de Alcobaça que, com a devida vénia, transcrevemos do “Tinta Fresca”(postagem de 5 de Março de 2010)


Rui Rasquilho[2] dixit

1- Uma história quase alegre para começar

Pede-me o atento órgão de informação Tinta Fresca um comentário sobre o Mosteiro de Alcobaça, Monumento Nacional e integrante das listas do Património Mundial da UNESCO, tal como o Mosteiro da Batalha, o Convento de Cristo em Tomar e o Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.

De todos eles, apenas Alcobaça foi construído e acolheu a ordem de Cister fundada em França, em 1098.

Apesar das fases de construção do Monumento de Alcobaça serem inúmeras, em todos os séculos houve obras significativas, não será impróprio dizer-se que há dois grandes momentos no edificado monástico.

No período medieval construiu-se o núcleo visitável hoje em dia e a partir do século XVI e até ao início da guerra civil ergueu-se o núcleo não visitável e hoje o mais abandonado a nível de conservação por não ter uso conveniente.

É uma verdade incontestável que um edifício sem uso fica à mercê de um acelerado processo de degradação. Elísio Summavielle, que foi director do IGESPAR até às últimas eleições, afirmava sem complexos ao jornal Expresso, à jornalista Alexandra Carita, que “abandonámos os nossos monumentos há vinte anos” para declarar mais adiante que em “ três anos o parque patrimonial nacional terá a cara lavada.”

Sendo hoje secretário de Estado da Cultura, lugar que considero bem entregue e sabendo que Summavielle considera e bem, o património como área transversal, acredito em mudanças com o estímulo único de haver 55 milhões de euros do QREN para aplicar até 2013.

É agradável verificar que todas as propostas que a anterior direcção fez estão a ser cumpridas pelo IGESPAR: “recuperação” dos túmulos de Pedro e Inés, iluminação do relicário da Sacristia Nova; telhados da ala norte e do relicário; instalações sanitárias para o publico e para os funcionários; o problemático centro de interpretação que vejo com muitas reservas; recuperação em várias abóbadas e planos para os telhados da Biblioteca, escadas e corredores de acesso que estão em situação de doença grave. Até os vidros para a Sala dos Monges vão vir com cinco anos de atraso.

O que vi do jardim do Claustro do Silêncio parece-me um projecto em todo contrário ao espírito do lugar. Sem pôr em causa o traço do paisagista, tenho sérias dúvidas se deveria ser este o modelo, mas diga-se que ninguém se vai preocupar com a solução encontrada. Felizmente, a direcção anterior não considerou nunca esta mudança claustral prioritária num edifício com tantas gangrenas e sem dinheiro para as curar antes da amputação.

Fiel à observação com a qual iniciei o artigo que me foi pedido pela direcção do jornal, iniciei no final de 2006 contacto com os grupos hoteleiros, devidamente autorizado pela direcção do ainda IPAAR.

Vários grupos manifestaram interesse em serem concessionados pelo Estado. Um deles fez um estudo de mercado, elaborou um pré-projecto e apresentou-o no IGESPAR numa reunião onde esteve presente o anterior presidente da Câmara Municipal. Havia dinheiro privado para avançar.

Deveria ter sido preparado um concurso internacional, mas tal não ocorreu.

Refira-se que contrariamente ao que se diz por manifesto desconhecimento, a UNESCO defende a reocupação de espaços em projectos de conservação integrada.

Acresce que há técnicos responsáveis que julgam haver ainda celas nos antigos corpos do edifício, destinados a dormitórios monásticos. Felizmente, o actual secretário de Estado, conhece bem o estado actual dos edifícios à volta dos Claustros dos Noviços e da Biblioteca (Rachadouro) e di-lo: “o espaço expectante não aberto ao público por não ter interesse arquitectónico que justifique a visita(...) já sofreu alterações na traça original” e acrescenta “ está a ser analisada uma reutilização e a hotelaria é uma das várias hipóteses” (Jornal Público, 24 de Maio de 2009, Alexandra Prado Coelho).

A solução “hotel” foi estudada, planeada e após um sério estudo de mercado, um grupo privado entre outros interessados, apresentou no IGESPAR e na presença do então presidente da Câmara, o pré-projecto do que seria um dos modelos a ser presente a um concurso internacional. Acrescente-se que, tal como o arquitecto Byrne propôs em 1998, que o Jardim do Obelisco seria tratado como espaço público e os edifícios espúrios da lavandaria, refeitório e cozinha do antigo lar demolidos.

Há 35 anos que se procura uma solução de conservação integrada para os espaços da 2ª fase, edificados entre o séc. XVI e o inicio da Guerra Civil.

Tem razão a ministra Canavilhas quando defende deverem as direcções de monumentos e museus terem perfil de gestão ou quando refere direcções bicéfalas para melhor os gerir. Técnicos transformados em directores parece um caminho tíbio.

A governança de espaços culturais devera ter também vocação empresarial.

Gostaria ainda de me referir à Casa-Museu Vieira natividade para defender o projecto que, desde que conheci o espólio Natividade, sempre defendi. A Casa-Museu deve conservar naturalmente a sua fachada principal original, ser retirado o seu miolo para ampliar o edifício pelo quintal até à rua que o separa do Armazém das Artes, para criar um amplo espaço útil expositivo.

Este espaço interior deverá ser concebido por forma a albergar o espólio de forma rotativa e aliciante. Se o município de Alcobaça se responsabilizar por esta operação e gestão futura, poderemos vir a ter um eixo cultural desde o Museu Nacional do Vinho, passando pelo museu da cerâmica, restauração e hotelaria no Rachadouro, Mosteiro medieval como museu da Ordem de Cister, Casa-Museu e Armazém das Artes.

Aguarda-se o grande debate sobre o futuro.

2.Uma historia quase triste para terminar.

No mês passado, a hora incerta e com algum pudor, os camiões começaram a chegar, descarregaram paletes e arcas, papéis coloridos, livros preciosos e muito material lítico e exposições, ou o que delas sobrou.

As salas do piso térreo do Claustro do Rachadouro, foram alindadas de branco, uma gambiarra de lâmpadas corre-lhes agora o centro.

A carga acomodou-se nas salas, vinda de Lisboa, de onde veio o asilo da mendicidade há muitos anos. O índice de humidade das salas térreas está nos 100% , mas nada importa se o espaço é gratuito.

Durante anos por aqui ficará este espólio sem ninguém que o conserve. Nos andares de cima, os pombos e o vento guardarão os corredores abandonados, as janelas continuarão sem vidros e a água da chuva e a caca dos pombos irão atapetando os vastíssimos corredores do hotel abandonado, da universidade decadente, do museu exangue.

[1] Saúl António Gomes

Professor Associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Instituto de Paleografia e Diplomática
Na
Área de Actividade Científica é
Docente de Paleografia e Diplomática, Codicologia, Sigilografia e História da Idade Média.

[1] Rui Rasquilho
Membro do ICOMOS- Unesco e um dos amigos do Mosteiro de Alcobaça

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