quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

M - 461 CHINEL VERSUS CHANEL (nº.s. 5)

CHINEL Nº.5
Uma recente brincadeira no “facebook” fez-me recordar o que muito chinelei nos meus tempos de comissão no Norte da Guiné (Binta-Farim) já lá vão muitos anos (1964-66).
  Não há nada como ter vinte e poucos anos e ter a arte de desenrascanço que nasce connosco- portugueses - .
Quem era então mobilizado para a Guerra do Ultramar já tinha feito recruta, especialidade e vivido alguns meses de vida militar em quartéis. Nesses tempos calçavam-se “botas da tropa” que tinham que se manter impecavelmente engraxadas. Não só “intramuros” mas principalmente quando se vinha para a rua e se podia ter um “mau encontro” com uns camaradas de que ninguém gostava: os polícias militares.
Feito este introito ,comum a todos que foram para África entre 1961 e 1974, tivemos que nos adaptar a viver dois longos anos em clima tropical.
 Quem estava no “mato” não andava sempre em operações militares e no quartel (pomposo nome que se dava ,normalmente, a um conjunto de barracões circundado por arame farpado) vestia –quando não estava de serviço – uns calções e pouco mais. Neste “pouco mais” é que entrava o “chinel nº.5”…
E passadas umas semanas toda a gente chinelava “à maneira”, como sempre o tivesse feito durante toda a vida.

E o “chinel nº.5” fazia correr alguns riscos aos utilizadores, como bem alertavam os médicos e enfermeiros.
Com efeito podia-se  contrair a dracunculíase (infecção pelo Verme da Guiné) ou a elefantíase. Como, infelizmente, se podia constatar em muitos elementos da população africana.
Mas está claro que “isso” só poderia acontecer aos outros…e vá de usar o “chinel nº.5”, sendo certo que a maioria escapou a problemas de saúde.
E quanto ao verdadeiro, ao autêntico “Chanel nº. 5” quem o usaria ?
A partir daqui o que se deixa escrito é meramente especulativo. 

Se este “produto” bem cheiroso andou na guerra só poderia ter acontecido em Estados-Maiores ou…lá perto, ou seja, em cidades afastadas do “mato”, onde decorriam jantares e festas com a presença de Senhoras de Oficiais.

Sinceramente veio-me à ideia a Cilinha ( Cecília Supico Pinto)  mas se o usou bem o mereceu pois visitou no mato muitos militares.
 Aí Chanel nº. 5 “terá convivido” perfeitamente com o Chinel nº. 5 !!!
JERO (ex-chineleiro nº.5).








domingo, 8 de dezembro de 2013

M - 460 A GUERRA DA GUINÉ E AS COMPANHIAS AFRICANAS

 A Guerra da Guiné e as Companhias Africanas

Embora já tudo possa ter sido dito sobre a guerra da Guiné o papel das
Companhias Africanas não terá tido, talvez, a referência que efectivamente merece.
Em passado recente assisti a uma tertúlia em Leiria e tomei nota do testemunho de Joaquim Mexia Alves, que julgo merecer mais ampla divulgação.(Na fotografia ao centro).
Aqui fica – à minha maneira – o seu testemunho.
Começou por referir a sua chegada à Guerra, a um mundo diferente, a uma realidade que nada tinha a ver com o que até então todos tinham vivido. Mas África exerce um fascínio que sentiu de imediato. Estava-se em 1971. Tinha 22 anos, o posto de Alferes Mil. Op. Especiais e ia comandar o 1º Pelotão da CART 3492, a que se seguiram o Pelotão de Caçadores Nativos 52, e depois ainda a C. Caç. 15.
Sentiu especialmente essa responsabilidade de comando no primeiro ataque que sofreu à Ponte dos Fulas. Depois sentiu necessidade de “mostrar” aos seus homens que estava ali para o que desse e viesse, e assim resolveu levantar uma mina, numa segurança a uma coluna de abastecimento, correndo um risco desnecessário. Enquanto o suor lhe corria pela cara abaixo os minutos pareceram-lhe horas. E, mais tarde, veio a saber que tinha “lá estado” apenas 10 minutos…
Referiu ainda o mito da “guerra ganha”, justificando o ser um mito com o tamanho da Guiné, (talvez próximo do tamanho do Alentejo), e assim possibilitar os ataques e consequente fuga pelas fronteiras.
Isto para além do facto de que, os ataques mais mediáticos consistiam num esforço total junto dos aquartelamentos de fronteira, deixando o resto da Guiné com ataques esporádicos.

Os primeiros contactos com os homens das Companhias africanas foram muito estranhos. Realmente ao comandar o Pel Caç Nat 52, com soldados de várias etnias diferentes, apercebeu-se das enormes diferenças entre eles, o que tornava bem mais difícil uma unidade e integração.
Mas bem depressa percebeu que lidava com bons combatentes, leais e amigos. A ligação com os seus homens tornou-se profunda. O seu regresso em 1973 foi uma “página” inesquecível da sua passagem pela Guiné. Não esquece abraços nem o brilho dos homens que deixou.
E que poucos meses depois, quando aconteceu o 25 de Abril de 74, foram abandonados pelo País cuja bandeira tinham defendido sob juramento.
 Abandonados, perseguidos e mortos por fuzilamento.

No entanto apesar da guerra e por causa da guerra muita coisa positiva aconteceu, junto das populações, que deve ser recordada. As populações tiveram assistência médica, com profilaxia para doenças como as do sono e paludismo, acompanhada da distribuição de alimentos. Conseguiram-se, através de furos e de tratamento adequados, uma riqueza única para as populações:- água potável. Construíram-se estradas e pontes. E também muitos militares regressaram da guerra com diplomas escolares, depois de nos seus quartéis terem feito exames da 4ª.classe, para além do facto de que muitos militares se disponibilizavam para alfabetizar as populações jovens de guineenses. Ninguém de boa fé pode acusar o Exército Português de ter feito a guerra só pela guerra.
Subscrevo.
JERO


M - 459 QUASE MEIO SÉCULO DEPOIS - DE BINTA-NORTE DA GUINÉ (1964) A ALCOBAÇA (2013)

MENSAGEM DE NATAL *

Natal do Soldado
Natal diferente…

“La fora não se ouvem os sinos
Repicando numa harmonia jubilosa…»

Na noite escura,
O sentinela está alerta no seu posto.
Vigia atento…
Na noite de reunião, de comunhão
 Perpectuada através dos séculos 
Ele está só…


“La fora não se ouvem os sinos
Repicando numa harmonia jubilosa…»

Natal em campanha
 Natal diferente…

Mas nem tudo é silêncio no acampamento, 
 Há luz, há bulício na caserna
 Em volta duma mesa improvisada, 
Oficiais e soldados estão reunidos na “sua” Ceia de Natal. 
 Há no rosto das pessoas e das coisas 
Uma alegria, uma ternura eufórica. 
 Apesar da distância, da saudade 
 Há uma chama de ventura em cada coração.

É noite de Natal,
 Chega até nós uma auréola de ternura transcendente

“La fora não se ouvem os sinos
Repicando numa harmonia jubilosa…»

Mas debaixo do “camuflado”,
 No coração de cada soldado 
 Rejubila uma alma nova.
 No seu subconsciente 
 Ouvem-se numa limpidez que é deleite e euforia
 Os sinos da terra mãe.

Noite de Natal 
 Noite de sonho e de esperança
Sem amarguras nem agravos, 
 Noite de evocação, de saudade.

Natal da selva 
 Natal diferente…

Na noite escura
 O sentinela está alerta no seu posto. 
Vigia atento…
 Na noite de reunião, de comunhão 
 Perpectuada através dos séculos 
 Ele está só

“La fora não se ouvem os sinos
Repicando numa harmonia jubilosa…»

Mas flutua no ar 
Nesta noite diferente 
Uma mensagem de amor, paz e esperança.



(in “Dois Anos de Guiné-Diário da CCaç.675" 
– Pelo Furriel Mil.Enf. José Eduardo Reis de Oliveira)

*
 AMIGOS DAS LETRAS
 no 4ª.Salão Literário de Alcobaça / 
Auditório da Biblioteca Municipal de Alcobaça
dia 7
Dezembro
ano de 2013.

sábado, 7 de dezembro de 2013

M - 458 CANTOS E RECANTOS DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA (à minha maneira)

MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

O mosteiro é constituído por uma igreja ao lado da sacristia e, a norte, por três claustros seguidos, sendo cada um circundado, na sua totalidade, por dois andares, assim como também por uma ala a sul.

 Os claustros, inclusive o mais antigo, possuem, igualmente, dois andares. Os edifícios à volta dos claustros mais recentes possuem três andares. Entre 1998 e 2000 foi descoberto um presumível quarto claustro no lado sul da igreja. Este claustro foi, provavelmente, aplanado na sequência da destruição causada pelo terramoto de 1755 e da grande inundação de 1772. Também é possível que os vestígios dos habitantes da ala sul tenham sido eliminados em 1834.

 O edifício completo ainda hoje possui uma área de construção de 27.000 m² e uma área total de pisos de 40.000 m². A área construída, juntamente com o claustro sul, terá tido a dimensão de 33.500 m².

 A fachada principal do mosteiro, da igreja e da ala norte e sul tem uma largura de 221 metros, tendo o lado norte cerca de 250 metros.

Entre 1178 e 1240, a igreja e o primeiro claustro foram construídos no estilo pré-gótico, da passagem do românico, tendo a Igreja sido inaugurada em 1252 -é a primeira obra plenamente gótica erguida em solo português.

 Os edifícios do lado sul foram provavelmente construídos no século XIV.

 No último terço do século XVI, iniciou-se a construção do Claustro da Levada que se ligava ao claustro medieval norte. 

Por último, entre o século XVII e a metade do século XVIII construiu-se o Claustro da Biblioteca (ou do Rachadoiro).
WIKIPÉDIA










M - 457 STRESSES...

Stresses

"O stress de guerra é contagioso e crónico", como afirmam especialistas.
A quarenta e tal anos da minha passagem pela guerra alguns dos meus stresses de paz sobrepõem-se ainda aos de guerra…
Vivi em tempo de guerra uma experiência comunitária tão intensa e tão próxima de uma sociedade perfeita que nunca mais encontrei nada parecido.
Refiro-me, obviamente, à sociedade dita normal, em que tive de me integrar depois do regresso da guerra em 1966.
A minha experiência comunitária foi ainda muito marcado por um chefe. Também não voltei a encontrar ninguém do seu gabarito nos quarenta e tal anos seguintes…

No Norte da Guiné, em Binta e sua região, criámos uma comunidade «ancorada» numa unidade militar que (re)fez uma aldeia, onde chegaram a viver cerca de mil pessoas. E…mais importante que tudo, ajudámos as populações. Assegurámos-lhes condições de vida que, talvez, nunca tivessem tido anteriormente. E que, na actualidade estão infelizmente longe de ter.
Quando saímos de Binta tivemos direito a lágrimas de saudade dos que ficaram.
Tínhamos sido importantes para eles e para nós próprios.
O último ano em Binta aconteceu n’outro mundo! Quase que tínhamos esquecido o mundo para onde regressámos em Maio de 1966!

Quando regressámos à Metrópole e à vida civil chocámos com um mundo onde a nossa importância anterior rapidamente se esbateu.
Já estava tudo feito - éramos apenas um pequeno parafuso de uma máquina gigantesca que girava sem cessar – e à nossa volta já não tínhamos a malta da Companhia. Todos tinham partido para as suas vidas. Para longe.
O tempo…o passar dos anos… atenuou as memórias daquele tempo excepcional.
Mais tarde, muito mais tarde…na idade do condor, maduros pela passagem dos anos e com netos por perto…percebemos que…afinal a guerra, a nossa guerra foi uma experiência única quando conseguimos construir a paz.
Se calhar fomos uns privilegiados. Nós conseguimos com as mãos que fizemos a guerra fazer também a paz!
Essa experiência única nas nossas vidas perdura ainda.
Não foi fácil ultrapassar o streess da paz…mas conseguimos.

Por alguma razão o emblema da Companhia referia que a 675 nunca cederá.
Não cedeu.
Em Binta….no Norte da Guiné…vivemos alguns dos melhores tempos da nossa vida. Lá longe…junto ao Cacheu… nos idos de 60!

Passou quase meio século. E ainda “volto lá”…vezes sem conta!!!
JERO

_______________


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

M - 456 "MEMÓRIAS DE QUARENTA"

APRESENTAÇÃO

No passado dia 16 de Novembro decorreu numa sala do Hotel Santa Maria, em Alcobaça, a apresentação de “MEMÓRIAS DE QUARENTA”, o novo livro do nosso camarigo José Eduardo Reis de Oliveira, o JERO, um alcobacense de gema que nesta nova obra volta a homenagear a terra que o viu nascer.
Um bom número de amigos e admiradores do autor esteva presente na sala.

 Na mesa de honra sentaram-se o JERO, o apresentador da obra, Vasco da Gama (outro nosso camarigo), um alcobacence amigo de longa data, Rui Rasquilho, e Madalena Tavares, alcobacense do coração e igualmente amiga do JERO.
Começou esta última por referir que este é o tipo de obra em que se pretende dar a conhecer o que é a história local de uma região e das pessoas que habitualmente se encontram nas pequenas localidades, realçando o papel importante que desempenharam na história local.
 Sendo o JERO um óptimo contador de histórias, estas são neste caso memórias do próprio escritor mas também de outras pessoas que muitos conheceram.
 E aproveitou para lançar um desafio ao autor, o de publicar um livro só de histórias de outro alcobacense bem conhecido, o Engº. Costa e Sousa, hoje com 92 anos e com muitas histórias interessantes para divulgar. 

Como exemplo foram narrados alguns episódios que justificariam o aparecimento de um livro sobre esta típica personagem deste Concelho, muitas delas ocorridas no decorrer da sua actividade profissional na Câmara de Alcobaça.
A mulher Maria Helena teve uma intervenção inesperada para o JERO, fazendo um relacionamento entre os eventos referidos no livro e as suas marcas pessoais no relacionamento entre os dois ao longo de todos estes anos – o namoro, o casamento, o nascimento dos filhos, o aparecimento dos netos.Duas” estrelas” que iluminam a vida de seus avós, como fez questão de salientar.Sendo  certo que ninguém faz pelos netos o que fazem os avós. Que no seu dia a dia têm o “retorno” de uma espécie de pó de estrelas sobre as suas vidas. 
O nosso camarigo Vasco da Gama fez então a apresentação do novo livro. Pelo seu interesse resolvemos publicar na íntegra o texto que ele tinha preparado para o efeito:
----------------------------
Quando o nosso Amigo JERO, num dos encontros da nossa Tabanca do Centro, ( Local encontro de ex - Combatentes da Guiné em Monte Real) me disse : “Vasco, vais apresentar o meu novo livro”, não dei parte de fraco e logo lhe disse que sim.
Embora prefira o recato dos bastidores à luz da ribalta, aqui me encontro perante esta plateia, tentando não desmerecer a confiança que um grande amigo em mim depositou.
Se eu sou “periquito” ( militar recém-chegado da Metrópole à Guiné, portanto sem qualquer experiência) nestas andanças de apresentador de uma obra literária, o JERO é um “ velhinho”( militar cheio de experiência e perto do final da sua comissão de serviço na Guiné) no que à autoria de livros diz respeito. Este, que aqui nos reúne – Memórias de Quarenta -  vem juntar-se ao “ Diário da Companhia de Caçadores 675”, ao “ Golpes de Mão’s”  e ao “ Alcobaça é Comigo”!
Eu, que não trago no meu curriculum qualquer prova de apresentação de uma obra, creio no entanto que deve ser necessária a existência de uma evidente COINCIDÊNCIA ENTRE O PROCESSO DE  ESCRITA DO AUTOR E ESTA MINHA EXPOSIÇAO. Daí que tenha iniciado este encontro utilizando uma linguagem coloquial e descontraída, tendo também em devida conta que a APRESENTAÇÃO não é nem deve pretender ser a peça principal deste acontecimento que aqui nos junta.
MEMÓRIAS DE QUARENTA – ALGUMAS NOTAS SOBRE O MUNDO, PORTUGAL E ALCOBAÇA,  à minha maneira!, assim se chama o livro com que o JERO nos presenteia.
Este MEMÓRIAS DE QUARENTA  abre com uma das mais bonitas dedicatórias que eu tenho lido: “À MINHA MÃE QUE, EM PEQUENINO, ME ABRIU A PORTA DA MEMÓRIA”.
Quero enfatizar a beleza  e o quanto de ternura estas palavras contêm : “À MINHA MÃE QUE, EM PEQUENINO, ME ABRIU A PORTA DA MEMÓRIA”!
E é a sua Mãe que o acorda no dia oito de Maio de 1945, tinha ele cinco anos, para lhe anunciar que a segunda guerra mundial havia terminado. É a sua primeira memória e também o ponto de partida para outras memórias de infância e de idade adulta entrelaçadas com vivências e acontecimentos marcantes da nossa história e de outros horizontes.
Por vezes torna-se difícil transmitir o que nesta obra nos fascina, tanta é a diversidade de registos.
Estamos pois em presença de um texto memorialista, diarístico e simultaneamente de carácter jornalístico de um Homem atento ao que se passa à sua volta.
Salazar, Marcelo Caetano, Humberto Delgado, Fidel Castro, a sua amada Alcobaça, Guerra Colonial, Guiné, Ditadura, o Glorioso Benfica a quem o alcobacense Lourenço pregou uma grande partida ao marcar quatro golos com a camisola do nosso eterno rival, Maio de 1968 liderado por Daniel Cohn-Bendit que pôs Paris a ferro e fogo e fez tremer o governo de De Gaulle e serviu de rastilho para a crise académica de Coimbra de 1969, Fernando Pessoa, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Lobo Antunes, Cardoso Pires, Stau Monteiro, Saramago, Democracia, 25 de Abril, PREC , … são alguns dos léxicos presentes no desenrolar de quarenta anos de “Memórias” que nos obrigam a mergulhar na leitura desta obra  e de seguida a querer investigar e estudar de uma forma mais profunda todas as pistas que o autor, com inteligência e sagacidade, seleccionou.
Esta é pois também uma narrativa  de teor pedagógico, capaz de incentivar o estudo e evitar que a nossa sociedade, e em particular alguma da nossa juventude, demonstre uma ignorância crassa e assustadora de momentos marcantes da nossa história e até do nosso passado recente. Há dias, assisti a um vídeo realizado por uma estação de televisão intitulado “A ignorância dos filhos da luta” do qual respiguei algumas passagens: O locutor interrogava os passantes com questões que eu julgava ninguém desconhecer como, por exemplo,:  “Quem fez o 25 de Abril?” entre outras disparatadas respostas, recordo “Foi o Salazar”, “Já foi há muito tempo”, “Não sei responder” “E Otelo Saraiva de Carvalho, sabe quem foi?” “Não conheço diz um cavalheiro, acho que é um hotel de 5 estrelas” respondeu outra pessoa “Pertenceu ao governo de Salazar, mas já morreu”. “Como morreu Salazar”? “Não sei, não estou a par dessas coisas”.
QUE  LEIAM O LIVRO DO JERO!!!
Duas palavras sobre o Homem, o Amigo, o Camarada, o Camarigo, na feliz junção das palavras Camarada e Amigo, da autoria do Mexia Alves, que como nós também foi combatente na Guiné.
O JERO é um Homem que vive plenamente e que tem a capacidade de dar mais vida e saber aos anos que vão passando, não se limitando a amontoar anos à vida.
A palavra nostalgia não faz parte da sua vivência .
Consegue reunir todos os contributos que o passar dos anos nele vai depositando: a sabedoria, o comedimento, a modéstia e a solidariedade.
O JERO é o melhor exemplo que eu conheço do que deve ser o comprometimento com a vida ao mostrar-nos todos os dias a sua jovialidade e a sua actividade física e mental.
O JERO controla a vida!
Muitos de nós, que nesta etapa da vida nos deixamos invadir por uma certa passividade, somos diariamente “acordados” pelo JERO através das suas publicações no Facebook  onde ele semeia sempre uma palavra carinhosa, um chiste que nos faz sorrir, uma fotografia da sua amada Alcobaça e um qualquer memorial sempre a preceito com o dia.
Se comecei esta modesta apresentação com a dedicatória que faz a sua mãe : “ À MINHA MÃE, QUE EM PEQUENINO ME ABRIU A PORTA DA MEMÓRIA” termino com as palavras dos seus netos que o definem assim: O meu avô, escreve livros, diz o Pedro! A Mariana diz “ O meu Avô está  apaixonado pelo computador!
Que por muitos e bons anos o nosso JERO escreva livros e continue a sua paixão pelo computador!
………………………………..

Na sua intervenção, Rui Rasquilho realçou a beleza da capa do novo livro, com a imagem da mãe e do filho e dos respectivos olhares – o da Mãe atento ao fotógrafo, o do JERO olhando bem mais além. Referiu que o autor observou o mundo da janela alcobacense e trouxe-o para dentro de si e da sua cidade, salientando o seu estilo fácil e coloquial, uma escrita simples e natural para que todos o entendam, orientando-se mais pelos afectos presentes do que pela importância global da história.
“As pessoas são fundamentais na sua obra – as paisagens são as pessoas; a casa, o jardim, são o pano de fundo da história”, referiu Rui Rasquilho, que acrescentou – tendo em conta a nova paixão do autor, a fotografia -  esperar no futuro a publicação de “um livro de imagens e algumas palavras em próxima obra”.
Aproximávamos-nos do fim da sessão e o JERO dirigiu aos presentes algumas palavras de satisfação e de agradecimento pelo apoio prestado.
Falou igualmente da grande fotografia da capa, dizendo que na memória de cada um há um menino com a sua Mãe e que essa imagem só desaparecerá quando a memória desaparecer.

Nas palavras finais o autor quis prestar homenagem a diversos grupos:
Aos escritores e às frequentes desilusões e frustrações por não conseguirem ver a sua obra publicada. Aos jornalistas e ao trabalho que desenvolvem para informarem o público Aos camarigos da Tabanca do Centro e à troca de afectos que os seus convívios têm proporcionado. Aos militares no activo, de que realçou os princípios de ética e de deontologia que os orientam. Aos amigos – os presentes, que o apoiaram nesta nova etapa, e os ausentes, muitos que não podendo estar presentes fisicamente, o estiveram em espírito.
E assim terminou esta interessante sessão, em que realçamos a presença de vários camarigos da Tabanca do Centro – a Maria Arminda Santos, Giselda Pessoa, Vasco da Gama, Manuel Joaquim, Miguel Pessoa, Vitor Caseiro, Agostinho Gaspar a Cláudio Moreira – que quiseram apoiar o seu camarada JERO. 
Outros, como o nosso Joaquim Mexia Alves, presos a outros compromissos, não quiseram deixar de lhe deixar em devido tempo uma palavra amiga de apoio e desejar-lhe os maiores êxitos no futuro. E venham mais livros!
Miguel Pessoa

M- 454 «FECHEM A PORTA QUE ESTÁ FRIO»

O TIBÚRCIO
À distância no tempo recordo um “homem feito” que dormia na rua e que fazia a sua higiene matinal numa “fonte” situada aos pés da estátua de São Bernardo, na Praça da República.
Na então vila de Alcobaça o Tibúrcio era muito conhecido. Por variadas razões mas principalmente por estar sempre na rua...e por todo o lado!
Na aldeia onde nasceu poucos tinham o que precisavam e o caso dele não foi exceção. Pior do que isso, o Tibúrcio saltou para a vida sem as defesas suficientes e rapidamente se integrou nos desprotegidos da sorte. E deu tanto “nas vistas” que alguém, bem-intencionado, o meteu num asilo de mendicidade.
 “Ajuda” que não resultou.
Como “ave de campo não quer capoeira”, logo ao segundo dia, o Tibúrcio fugiu para bem longe, só regressando alguns meses mais tarde, depois de lhe terem garantido que não teria de voltar para o que considerava ser pior do que a cadeia.
Pelo tempo fora, foi vivendo incertamente, amigo dos gatos e dos  cães, com os quais partilhava escassos pães ou minguadas sopas que algumas almas generosas lhe  abonavam.
Trabalho ou ofício fixos nunca teve porque não aceitava cumprimento de horários. Mas não era preguiçoso. 
Chegou mesmo a montar caixa de engraxador  junto à Farmácia Campeão. Por vezes, acontecia que um ou outro cliente saía com peúgas e sapatos engraxados por igual… E, vá lá saber-se porquê, esse “bónus” não agradava à generalidade das pessoas. Encerrou esses “negócio” e optou por fazer recados. 
Porque o Tibúrcio não mendigava, limitava-se a oferecer a sua força de trabalho.
Quando a paga era boa, ala para o Beco do Grilo, onde numa tasca “à maneira” matava velhas sedes, até ficar um pouco zonzo.
Numa noite invernosa foi surpreendido pela chuva e como estava perto do Hospital refugiou-se na casa mortuária, onde terá entrado por a porta estar mal fechada… Aconchegou-se a um canto e adormeceu.
Altas horas da madrugada duas auxiliares de enfermagem - de apoio ao banco de urgências - tiveram a desagradável incumbência de transportar a vítima mortal de um acidente para a casa mortuária. Carregaram o cadáver numa maca até ao local. Abriram e porta e um grito inesperado vindo do fundo da sala quase as matou: «fechem a porta que está frio». Fugiram esbaforidas… e o Tibúrcio teve que se levantar mais cedo.
 À distância no tempo, já um pouco desvanecido na bruma da distância, não o esqueço.
 É só passar pela “fonte” situada aos pés da estátua de São Bernardo… e lá está ele!

JERO