sábado, 7 de dezembro de 2013

M - 457 STRESSES...

Stresses

"O stress de guerra é contagioso e crónico", como afirmam especialistas.
A quarenta e tal anos da minha passagem pela guerra alguns dos meus stresses de paz sobrepõem-se ainda aos de guerra…
Vivi em tempo de guerra uma experiência comunitária tão intensa e tão próxima de uma sociedade perfeita que nunca mais encontrei nada parecido.
Refiro-me, obviamente, à sociedade dita normal, em que tive de me integrar depois do regresso da guerra em 1966.
A minha experiência comunitária foi ainda muito marcado por um chefe. Também não voltei a encontrar ninguém do seu gabarito nos quarenta e tal anos seguintes…

No Norte da Guiné, em Binta e sua região, criámos uma comunidade «ancorada» numa unidade militar que (re)fez uma aldeia, onde chegaram a viver cerca de mil pessoas. E…mais importante que tudo, ajudámos as populações. Assegurámos-lhes condições de vida que, talvez, nunca tivessem tido anteriormente. E que, na actualidade estão infelizmente longe de ter.
Quando saímos de Binta tivemos direito a lágrimas de saudade dos que ficaram.
Tínhamos sido importantes para eles e para nós próprios.
O último ano em Binta aconteceu n’outro mundo! Quase que tínhamos esquecido o mundo para onde regressámos em Maio de 1966!

Quando regressámos à Metrópole e à vida civil chocámos com um mundo onde a nossa importância anterior rapidamente se esbateu.
Já estava tudo feito - éramos apenas um pequeno parafuso de uma máquina gigantesca que girava sem cessar – e à nossa volta já não tínhamos a malta da Companhia. Todos tinham partido para as suas vidas. Para longe.
O tempo…o passar dos anos… atenuou as memórias daquele tempo excepcional.
Mais tarde, muito mais tarde…na idade do condor, maduros pela passagem dos anos e com netos por perto…percebemos que…afinal a guerra, a nossa guerra foi uma experiência única quando conseguimos construir a paz.
Se calhar fomos uns privilegiados. Nós conseguimos com as mãos que fizemos a guerra fazer também a paz!
Essa experiência única nas nossas vidas perdura ainda.
Não foi fácil ultrapassar o streess da paz…mas conseguimos.

Por alguma razão o emblema da Companhia referia que a 675 nunca cederá.
Não cedeu.
Em Binta….no Norte da Guiné…vivemos alguns dos melhores tempos da nossa vida. Lá longe…junto ao Cacheu… nos idos de 60!

Passou quase meio século. E ainda “volto lá”…vezes sem conta!!!
JERO

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

M - 456 "MEMÓRIAS DE QUARENTA"

APRESENTAÇÃO

No passado dia 16 de Novembro decorreu numa sala do Hotel Santa Maria, em Alcobaça, a apresentação de “MEMÓRIAS DE QUARENTA”, o novo livro do nosso camarigo José Eduardo Reis de Oliveira, o JERO, um alcobacense de gema que nesta nova obra volta a homenagear a terra que o viu nascer.
Um bom número de amigos e admiradores do autor esteva presente na sala.

 Na mesa de honra sentaram-se o JERO, o apresentador da obra, Vasco da Gama (outro nosso camarigo), um alcobacence amigo de longa data, Rui Rasquilho, e Madalena Tavares, alcobacense do coração e igualmente amiga do JERO.
Começou esta última por referir que este é o tipo de obra em que se pretende dar a conhecer o que é a história local de uma região e das pessoas que habitualmente se encontram nas pequenas localidades, realçando o papel importante que desempenharam na história local.
 Sendo o JERO um óptimo contador de histórias, estas são neste caso memórias do próprio escritor mas também de outras pessoas que muitos conheceram.
 E aproveitou para lançar um desafio ao autor, o de publicar um livro só de histórias de outro alcobacense bem conhecido, o Engº. Costa e Sousa, hoje com 92 anos e com muitas histórias interessantes para divulgar. 

Como exemplo foram narrados alguns episódios que justificariam o aparecimento de um livro sobre esta típica personagem deste Concelho, muitas delas ocorridas no decorrer da sua actividade profissional na Câmara de Alcobaça.
A mulher Maria Helena teve uma intervenção inesperada para o JERO, fazendo um relacionamento entre os eventos referidos no livro e as suas marcas pessoais no relacionamento entre os dois ao longo de todos estes anos – o namoro, o casamento, o nascimento dos filhos, o aparecimento dos netos.Duas” estrelas” que iluminam a vida de seus avós, como fez questão de salientar.Sendo  certo que ninguém faz pelos netos o que fazem os avós. Que no seu dia a dia têm o “retorno” de uma espécie de pó de estrelas sobre as suas vidas. 
O nosso camarigo Vasco da Gama fez então a apresentação do novo livro. Pelo seu interesse resolvemos publicar na íntegra o texto que ele tinha preparado para o efeito:
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Quando o nosso Amigo JERO, num dos encontros da nossa Tabanca do Centro, ( Local encontro de ex - Combatentes da Guiné em Monte Real) me disse : “Vasco, vais apresentar o meu novo livro”, não dei parte de fraco e logo lhe disse que sim.
Embora prefira o recato dos bastidores à luz da ribalta, aqui me encontro perante esta plateia, tentando não desmerecer a confiança que um grande amigo em mim depositou.
Se eu sou “periquito” ( militar recém-chegado da Metrópole à Guiné, portanto sem qualquer experiência) nestas andanças de apresentador de uma obra literária, o JERO é um “ velhinho”( militar cheio de experiência e perto do final da sua comissão de serviço na Guiné) no que à autoria de livros diz respeito. Este, que aqui nos reúne – Memórias de Quarenta -  vem juntar-se ao “ Diário da Companhia de Caçadores 675”, ao “ Golpes de Mão’s”  e ao “ Alcobaça é Comigo”!
Eu, que não trago no meu curriculum qualquer prova de apresentação de uma obra, creio no entanto que deve ser necessária a existência de uma evidente COINCIDÊNCIA ENTRE O PROCESSO DE  ESCRITA DO AUTOR E ESTA MINHA EXPOSIÇAO. Daí que tenha iniciado este encontro utilizando uma linguagem coloquial e descontraída, tendo também em devida conta que a APRESENTAÇÃO não é nem deve pretender ser a peça principal deste acontecimento que aqui nos junta.
MEMÓRIAS DE QUARENTA – ALGUMAS NOTAS SOBRE O MUNDO, PORTUGAL E ALCOBAÇA,  à minha maneira!, assim se chama o livro com que o JERO nos presenteia.
Este MEMÓRIAS DE QUARENTA  abre com uma das mais bonitas dedicatórias que eu tenho lido: “À MINHA MÃE QUE, EM PEQUENINO, ME ABRIU A PORTA DA MEMÓRIA”.
Quero enfatizar a beleza  e o quanto de ternura estas palavras contêm : “À MINHA MÃE QUE, EM PEQUENINO, ME ABRIU A PORTA DA MEMÓRIA”!
E é a sua Mãe que o acorda no dia oito de Maio de 1945, tinha ele cinco anos, para lhe anunciar que a segunda guerra mundial havia terminado. É a sua primeira memória e também o ponto de partida para outras memórias de infância e de idade adulta entrelaçadas com vivências e acontecimentos marcantes da nossa história e de outros horizontes.
Por vezes torna-se difícil transmitir o que nesta obra nos fascina, tanta é a diversidade de registos.
Estamos pois em presença de um texto memorialista, diarístico e simultaneamente de carácter jornalístico de um Homem atento ao que se passa à sua volta.
Salazar, Marcelo Caetano, Humberto Delgado, Fidel Castro, a sua amada Alcobaça, Guerra Colonial, Guiné, Ditadura, o Glorioso Benfica a quem o alcobacense Lourenço pregou uma grande partida ao marcar quatro golos com a camisola do nosso eterno rival, Maio de 1968 liderado por Daniel Cohn-Bendit que pôs Paris a ferro e fogo e fez tremer o governo de De Gaulle e serviu de rastilho para a crise académica de Coimbra de 1969, Fernando Pessoa, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Lobo Antunes, Cardoso Pires, Stau Monteiro, Saramago, Democracia, 25 de Abril, PREC , … são alguns dos léxicos presentes no desenrolar de quarenta anos de “Memórias” que nos obrigam a mergulhar na leitura desta obra  e de seguida a querer investigar e estudar de uma forma mais profunda todas as pistas que o autor, com inteligência e sagacidade, seleccionou.
Esta é pois também uma narrativa  de teor pedagógico, capaz de incentivar o estudo e evitar que a nossa sociedade, e em particular alguma da nossa juventude, demonstre uma ignorância crassa e assustadora de momentos marcantes da nossa história e até do nosso passado recente. Há dias, assisti a um vídeo realizado por uma estação de televisão intitulado “A ignorância dos filhos da luta” do qual respiguei algumas passagens: O locutor interrogava os passantes com questões que eu julgava ninguém desconhecer como, por exemplo,:  “Quem fez o 25 de Abril?” entre outras disparatadas respostas, recordo “Foi o Salazar”, “Já foi há muito tempo”, “Não sei responder” “E Otelo Saraiva de Carvalho, sabe quem foi?” “Não conheço diz um cavalheiro, acho que é um hotel de 5 estrelas” respondeu outra pessoa “Pertenceu ao governo de Salazar, mas já morreu”. “Como morreu Salazar”? “Não sei, não estou a par dessas coisas”.
QUE  LEIAM O LIVRO DO JERO!!!
Duas palavras sobre o Homem, o Amigo, o Camarada, o Camarigo, na feliz junção das palavras Camarada e Amigo, da autoria do Mexia Alves, que como nós também foi combatente na Guiné.
O JERO é um Homem que vive plenamente e que tem a capacidade de dar mais vida e saber aos anos que vão passando, não se limitando a amontoar anos à vida.
A palavra nostalgia não faz parte da sua vivência .
Consegue reunir todos os contributos que o passar dos anos nele vai depositando: a sabedoria, o comedimento, a modéstia e a solidariedade.
O JERO é o melhor exemplo que eu conheço do que deve ser o comprometimento com a vida ao mostrar-nos todos os dias a sua jovialidade e a sua actividade física e mental.
O JERO controla a vida!
Muitos de nós, que nesta etapa da vida nos deixamos invadir por uma certa passividade, somos diariamente “acordados” pelo JERO através das suas publicações no Facebook  onde ele semeia sempre uma palavra carinhosa, um chiste que nos faz sorrir, uma fotografia da sua amada Alcobaça e um qualquer memorial sempre a preceito com o dia.
Se comecei esta modesta apresentação com a dedicatória que faz a sua mãe : “ À MINHA MÃE, QUE EM PEQUENINO ME ABRIU A PORTA DA MEMÓRIA” termino com as palavras dos seus netos que o definem assim: O meu avô, escreve livros, diz o Pedro! A Mariana diz “ O meu Avô está  apaixonado pelo computador!
Que por muitos e bons anos o nosso JERO escreva livros e continue a sua paixão pelo computador!
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Na sua intervenção, Rui Rasquilho realçou a beleza da capa do novo livro, com a imagem da mãe e do filho e dos respectivos olhares – o da Mãe atento ao fotógrafo, o do JERO olhando bem mais além. Referiu que o autor observou o mundo da janela alcobacense e trouxe-o para dentro de si e da sua cidade, salientando o seu estilo fácil e coloquial, uma escrita simples e natural para que todos o entendam, orientando-se mais pelos afectos presentes do que pela importância global da história.
“As pessoas são fundamentais na sua obra – as paisagens são as pessoas; a casa, o jardim, são o pano de fundo da história”, referiu Rui Rasquilho, que acrescentou – tendo em conta a nova paixão do autor, a fotografia -  esperar no futuro a publicação de “um livro de imagens e algumas palavras em próxima obra”.
Aproximávamos-nos do fim da sessão e o JERO dirigiu aos presentes algumas palavras de satisfação e de agradecimento pelo apoio prestado.
Falou igualmente da grande fotografia da capa, dizendo que na memória de cada um há um menino com a sua Mãe e que essa imagem só desaparecerá quando a memória desaparecer.

Nas palavras finais o autor quis prestar homenagem a diversos grupos:
Aos escritores e às frequentes desilusões e frustrações por não conseguirem ver a sua obra publicada. Aos jornalistas e ao trabalho que desenvolvem para informarem o público Aos camarigos da Tabanca do Centro e à troca de afectos que os seus convívios têm proporcionado. Aos militares no activo, de que realçou os princípios de ética e de deontologia que os orientam. Aos amigos – os presentes, que o apoiaram nesta nova etapa, e os ausentes, muitos que não podendo estar presentes fisicamente, o estiveram em espírito.
E assim terminou esta interessante sessão, em que realçamos a presença de vários camarigos da Tabanca do Centro – a Maria Arminda Santos, Giselda Pessoa, Vasco da Gama, Manuel Joaquim, Miguel Pessoa, Vitor Caseiro, Agostinho Gaspar a Cláudio Moreira – que quiseram apoiar o seu camarada JERO. 
Outros, como o nosso Joaquim Mexia Alves, presos a outros compromissos, não quiseram deixar de lhe deixar em devido tempo uma palavra amiga de apoio e desejar-lhe os maiores êxitos no futuro. E venham mais livros!
Miguel Pessoa

M- 454 «FECHEM A PORTA QUE ESTÁ FRIO»

O TIBÚRCIO
À distância no tempo recordo um “homem feito” que dormia na rua e que fazia a sua higiene matinal numa “fonte” situada aos pés da estátua de São Bernardo, na Praça da República.
Na então vila de Alcobaça o Tibúrcio era muito conhecido. Por variadas razões mas principalmente por estar sempre na rua...e por todo o lado!
Na aldeia onde nasceu poucos tinham o que precisavam e o caso dele não foi exceção. Pior do que isso, o Tibúrcio saltou para a vida sem as defesas suficientes e rapidamente se integrou nos desprotegidos da sorte. E deu tanto “nas vistas” que alguém, bem-intencionado, o meteu num asilo de mendicidade.
 “Ajuda” que não resultou.
Como “ave de campo não quer capoeira”, logo ao segundo dia, o Tibúrcio fugiu para bem longe, só regressando alguns meses mais tarde, depois de lhe terem garantido que não teria de voltar para o que considerava ser pior do que a cadeia.
Pelo tempo fora, foi vivendo incertamente, amigo dos gatos e dos  cães, com os quais partilhava escassos pães ou minguadas sopas que algumas almas generosas lhe  abonavam.
Trabalho ou ofício fixos nunca teve porque não aceitava cumprimento de horários. Mas não era preguiçoso. 
Chegou mesmo a montar caixa de engraxador  junto à Farmácia Campeão. Por vezes, acontecia que um ou outro cliente saía com peúgas e sapatos engraxados por igual… E, vá lá saber-se porquê, esse “bónus” não agradava à generalidade das pessoas. Encerrou esses “negócio” e optou por fazer recados. 
Porque o Tibúrcio não mendigava, limitava-se a oferecer a sua força de trabalho.
Quando a paga era boa, ala para o Beco do Grilo, onde numa tasca “à maneira” matava velhas sedes, até ficar um pouco zonzo.
Numa noite invernosa foi surpreendido pela chuva e como estava perto do Hospital refugiou-se na casa mortuária, onde terá entrado por a porta estar mal fechada… Aconchegou-se a um canto e adormeceu.
Altas horas da madrugada duas auxiliares de enfermagem - de apoio ao banco de urgências - tiveram a desagradável incumbência de transportar a vítima mortal de um acidente para a casa mortuária. Carregaram o cadáver numa maca até ao local. Abriram e porta e um grito inesperado vindo do fundo da sala quase as matou: «fechem a porta que está frio». Fugiram esbaforidas… e o Tibúrcio teve que se levantar mais cedo.
 À distância no tempo, já um pouco desvanecido na bruma da distância, não o esqueço.
 É só passar pela “fonte” situada aos pés da estátua de São Bernardo… e lá está ele!

JERO

M - 453 Tuudo ééé preciso nasss passagens deeesta vidaaaaa!!

O CAFEZINHO

Foi durante muitos anos uma referência na pacata vila de Alcobaça.
O seu nome era José e a alcunha ganhou-a quando foi preso por contrabandear café durante a guerra civil espanhola. Uns tiveram sorte, ele teve pouca.
Toda a gente o conhecia. Era uma figura simpática, que nos habituámos a ver passar numa pasteleira enorme, onde se gingava no selim para chegar com os pés aos pedais.
Parecia que pedalava em câmara lenta! Infelizmente o combustível da bicicleta era normalmente “tinto”.
Um dia alguma coisa correu mal e caiu da bicicleta. E feriu-se com alguma gravidade na cabeça. Teve que ir ao Hospital de Alcobaça.
Depois de tratado veio até à saída amparado pelo enfermeiro. O “Cafezinho” deu dois ou três passos titubeantes e regressou ao exterior.
Um penso na cabeça denunciava o traumatismo que a queda lhe tinha causado.
Pequeno com ar teatral, abriu os braços e num gesto de quem está num palco cantou com voz pastosa:-Tuudo ééé preciso nasss passagens deeesta vidaaaaa!!
O filho que o esperava fora da sala, abanou a cabeça e disse:
- Pois e agora cantas.
Quem por ali estava riu e o Cafezinho, aproveitou para tentar logo vender lotaria aos presentes.
Assumia-se como um autêntico vendedor de jogo branco.
Mas não enganava ninguém. E apregoava assim a sua lotaria: «O "Cafezinho" tem jogo branquinho» !!!E rematava: «Se eu soubesse que ela aqui estava, não a vendia a ninguém».Quem é que podia resistir a este apregoar tão original? Poucos, está claro.


O seu “posto de vendas” era normalmente na esquina da “Pharmácia Campeão”, na Rua das Lojas.

Esquina que os menos novos recordam ainda como sendo a “Esquina dos indecisos”.

Bons velhos tempos.

JERO







DOMINGO, 19 DE JUNHO DE 2011

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

M - 452 - REENCONTROS NA VIDA...

SALIQUINHEDIM…FRENTE A FARIM
Uma história publicada no “Correio da Manhã”(A Minha Guerra) no seu
suplemento de 28 de Julho de 2013 fez com que voltasse a “reencontrar” um velho
camarada dos tempos do H.M.P.-Lisboa (1962-64)e da Guiné (1964-66).




O Aníbal Albino, alfacinha dos quatros costados, que na Estrela tratávamos por “six/five/ò/laring”(vá-se lá saber porquê…) ,relata o nosso dramático encontro na Guiné, perto de Saliquinhedim em meados de Novembro de 1964. O Aníbal era então o Furriel Enfermeiro da CART. 732, recém-chegada à Guiné, e eu desempenhava idênticas funções na
CCaç. 675, na altura já com a experiência de 4 meses de mato na região de Binta, a cerca de 20 kms. de Farim.


Eu estava integrado num pelotão da minha Companhia, que garantia uma
“testa de ponte” frente a Farim (na margem esquerda do Rio Cacheu) para uma operação da CCav. 487 e o Aníbal vinha com a sua Companhia de Bissau para se instalarem em Saliquinhedim, a 5 kms. de Farim.




Encontramo-nos na noite de 5 de Novembro – conforme registo do “Diário
da 675” – e o Aníbal não exagera quando diz no artigo do “Correio da Manhã”, que “tremia por tudo quando era sítio”.
A sua Companhia que tinha partido de Bissau, em coluna-auto, via Mansoa-Mansabá-Olossato,  tinha sido violentamente atacada por
duas vezes, resultando dessas emboscadas um morto (*) e cinco feridos. Quando chegaram junto de nós os militares da “732” vinham de cabeça perdida e completamente desorientados.
Ainda hoje me lembra do Aníbal me contar que os militares da sua
Companhia tinham recebido as “G-3” nessa manhã e já tinham passado por dois ataques e muitos nem “a bala na câmara “sabiam meter nas armas que lhes foram distribuídas. Praticamente a reacção ao fogo inimigo tinha sido feita por um Sargento do Quadro, com uma metralhadora-pesada instalada numa viatura(!). O resto da malta tinha-se mandado ao chão à espera que a “trovoada” passasse… A confusão tinha sido tanta que até as tropas de Saliquinhedim, que vinham
render, tinha feito fogo sobre eles, pois não tinham informação de que iam ser rendidos nesse dia !!!
Recordo-me ainda do pormenor macabro de ter sido eu, mais o meu
cabo-enfermeiro Martins, que fomos acima de uma viatura buscar o morto da “732”, para o confiar às tropas da “487”, que regressavam nessa noite a Farim, pois os seus camaradas nem tinham coragem de olhar para o corpo, já então envolto numa lona.
Refiro umas linhas do “Diário da 675”(**):« Quase há dois dias sem comerem eles aceitaram como “dádiva” do céu” o nosso jantar de que prescindimos para lhes oferecer. Pouco a pouco conseguimos confortá-los e dar-lhes alento».
«Não podiam cruzar os braços. Tinham que reagir, lutar, vingar os seus mortos e feridos.»
Foi uma longa noite para eles mas quando chegou o novo dia, apesar de inexperientes, estavam prontos para voltar à luta.
Quando abalaram de novo nas suas viaturas para render a “487”, e continuar a operação, tinham um ar resoluto e uma nova confiança. «Obrigado 675», gritaram-nos. «Para a frente 732», incitámo-los na despedida.




No que nos diz respeito a operação , que estava prevista para três dias prolongou-se por mais quatro  – uma surpresa tão desagradável quanto imprevista! 
Ultrapassada que foi a operação nocturna de desembargue, bem complicada por sinal, para instalarmos a tal “testa de ponte”
para a “487” actuar,  passámos a ter como “inimigos” principais: a escuridão da noite, o cacimbo que fazia baixar drasticamente a temperatura, os “colchões” de terra dura e mosquitos infatigáveis sem ligarem ao repelente com que nos besuntávamos!
Mas na minha memória – mais do que essa semana terrivelmente
desconfortável – o que perdura são os camaradas da “732” e, particularmente, o  Enfermeiro Aníbal Albino. Que muitos anos mais
tarde vi a reencontrar na praia de São Martinho do Porto. E, claro está, as
primeiras palavras que trocámos tiveram a ver com a terrível noite da Guiné em
Saliquinhedim…frente a Farim.


JERO


(*)-Identificação do morto em combate
JOÃO ANTÓNIO BEIJINHO SARDINHA Soldado Atirador nº 107/64, da CART 732, mobilizado no RAL 1,em Lisboa. Era solteiro, filho de João António Sardinha e de Inácia Maria Beijinho. Natural da freguesia de Selmes, concelho de Vidigueira. Faleceu em 5 de Novembro de 1964, vítima de ferimentos em combate, na região de Farim, tendo sido inumado no Cemitério Municipal de Évora.”(elementos transmitidos por José Silva
Marcelino Martins).


(**)- Diário da 675, a pgs. 130.


Com a devida vénia ao "Correio da Manhã", reproduzimos o texto original publicado no suplemento do CM do passado dia 28 de Julho:







segunda-feira, 8 de julho de 2013

M - 451 MEMÓRIA DE UMA VIAGEM EM TEMPO DE GUERRA

PS- Com um agradecimento muito especial ao Coronel PilAviador Miguel Pessoa.
JERO

domingo, 23 de junho de 2013

M - 450 MEMÓRIAS DAS FESTAS DA REGIÃO DE ALCOBAÇA DOS ANOS 40-50-60

AS FESTAS FAMILIARES E OS CONVÍVIOS D'OUTROS TEMPOS
Recorrendo e memórias pessoais recordo 3 tempos distintos.
1-A memória mais distante tem a ver com deslocações aos Capuchos, com obrigatório “passeio pedonal” dado que as distâncias a percorrer eram curtas: cerca de 2 Kms. para cada lado. Deveria ter os meus 8 ou 9 anos e o que tenho mais presente na minha cabeça era “o frete” de ter que ir …Ninguém me perguntava se gostava ou não. A família ia e eu tinha que alinhar. (ponto final). Recorda-me de uma das vezes, na viagem de retorno, me ter adiantado ao “pelotão” e ter feito o percurso à frente de toda a gente aí uns bons 30 metros ! Foi a maneira de demonstrar o meu desagrado, sem abusar muito da paciência dos meus pais… Birras de miúdo. Em relação à festa e aos Capuchos o que me lembra ? Muito pouco. Socorrendo-me de alguma documentação do tempo realço o seguinte:-
«… Por trás do Parque de Merendas, fica o antigo Convento que deu nome ao lugar e que foi fundado pelo cardeal D. Henrique em 1566. Perto do convento havia instalações agrícolas que provavelmente datam do séc. XIII e estavam ligadas a uma quinta que o Mosteiro explorou nessa época.

Capela da Senhora dos Aflitos -Das construções religiosas, só resta esta Capela, que tem sobre a porta um brasão bipartido com estrelas em aspa e um leão rompante. Por timbre tem um leão virado á esquerda. Conservava restos de azulejos da fábrica do juncal, que infelizmente com o passar dos tempos desapareceram. Actualmente só resta na capela, o átrio forrado de azulejos.»
2- Da memória do meio tenho bem presente os piqueniques em Chiqueda, em dia de Espiga. Já andava no Colégio do Dr.Cabrita e recordo com nitidez – reforçada por algumas fotografias do tempo – os belos fins de tarde que davam direito a excelentes merendas na pedrosa encosta perto dos “Olhos de Água” do rio Alcoa. Havia muitas famílias de Alcobaça e uma figura “única”: o “Ti Gavião”, fotógrafo “à la minuta”.
 A apanha da espiga, era feita a caminho de Chiqueda e fazia-se um ramo de papoilas, espigas de trigo, oliveira e um malmequer.
Juntavam-se vários grupos que iam a pé levando um farnel para comerem quando chegassem. Chiqueda era assim o local do grande encontro.
O ramo era guardado e uma vez chegados a casa punha-se a secar atrás da porta, sendo renovado todos os anos para que não faltasse pão (espigas de trigo), azeite (oliveira), alegria (papoilas), e sorte (malmequer).

3- Senhora dos Enfermos
 Aqui as minhas recordações passam obrigatoriamente pelo mestre Arnesto (ERNESTO JOAQUIM COELHO ) , “maestro vitalício” da Banda da Festa da Senhora dos Enfermos. Era um dia especial, de grande paródia, em que toda a gente confraternizava e trocava iguarias de bem recheados farnéis, sem prescindir do consumo de muito e bom vinho tinto. Nas últimas actuações do dia a banda do mestre Arnesto trocava algumas notas mas a “Marcha do Vapor” chegava sempre à margem…Nem que fosse a cambalear !!!

Socorrendo-me também de alguma documentação do tempo, nomeadamente de Manuel Vieira Natividade relembro que «…a Romaria da Senhora dos Enfermos era uma verdadeira festa das colheitas, uma celebração agrícola com origens pré-cristãs.Era uma festa alegre, com direito a estrear novas roupas e que servia para marcar o tempo.
Celebrada no Domingo de Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa, não era exactamente um festejo mariano. Antes, pentecostal, com rituais que a aproximavam das festas do Espírito Santo. De notável, por comparação com as festas das demais aldeias da região, tinha o círio, abundância de fogaças e os favores da pequena burguesia alcobacence que nesse dia ia ver de perto os serranos, fazer pic-nics nos arvoredos que circundavam o arraial e, talvez, comprar no leilão alguma fogaça.
Este costume, manteve-se, aliás, por muito tempo e, durante anos, a Banda do Mestre Ernesto era animador imprescindível do arraial.
A grande quantidade de gente, alguns divertimentos que, como o jogo do frango, hoje seriam, simplesmente, proibidos pela sua barbaridade, o vinho que corria em abundância e os bailes, propiciavam frequentes desacatos. Por isso, a festa de Nossa Senhora dos Enfermos era, naquele tempo, a única com policiamento permanente.

Além de M. Vieira Natividade, também José Diogo Ribeiro, in Turquel Folclórico (1928), dedicou atenção a esta romaria, registando, designadamente, os seguintes versos que o círio dedicava à santa:

Ó Senhora dos Enfermos
Aqui vimos, aqui estemos
Pro ano, se formos vivos,
Ainda cá tornaremos.

Ó Senhora dos enfermos
Cá vos vimos visitar.
Pro ano, se formos vivos,
Havemos de cá tornar.

 Relativamente à festa de Nossa Senhora dos Enfermos grande parte do texto  reproduzido é da autoria de José Quitério e foi  publicado em 29 de Maio de 2012 no seu blog "Ataíja de Cima".

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