quinta-feira, 18 de outubro de 2012

M - 435 DUAS VEZES OITO = 88


Mais uma HISTÓRIA ConVIDA

José Canha dos Santos, nasceu em Chaqueda,( freguesia de Prazeres de Aljubarrota) em 4 de Novembro de 1924 , sendo o filho mais novo de uma família de 7 irmãos.
 Fez a instrução primária com a Professora Maria Ilídia Figueiredo, em Chaqueda,  e começou a trabalhar aos 11 anos de idade “na barbearia de seu irmão Manuel, no Rossio, em Alcobaça.»
 Viveu e trabalhou sempre em Alcobaça.
 Casou com 30 anos de idade em Lisboa, na Igreja da Graça, com Maria Augusta.
 Desse casamento nasceu a sua única filha, a Maria João, que conta agora 53 anos. Tem 2 netos – o João, com 22 anos e o António, com 17 anos, que são estudantes. 
Sempre viveu para o trabalho mas arranjou algum tempo para ser columbófilo e praticar cicloturismo.
Mas também ofereceu a si próprio  viagens a Inglaterra, Espanha, Brasil, Argentina e Paraguai.
À beira de completar a invejável idade de 88 anos surpreende pela sua memória, qualidade de vida, interesses diversos e por continuar a trabalhar na sua profissão de cabeleiro, que iniciou por conta própria em Alcobaça ,no Hotel Galinha, às Portas de Fora, em 1952.»
Vive desde há uns anos a esta parte em Alfeizerão onde faz de tudo para ocupar o seu tempo  – carpinteiro, pedreiro, jardineiro – e desloca-se 3 dias por semana – 4ª.,5ª. e sextas feiras - ao seu salão de cabeleiro em Alcobaça para atender algumas clientes muito antigas e dedicadas, que o continuam a preferir. 
Já trabalhou 6 dias por semana mas infelizmente as suas clientes foram envelhecendo e morrendo, o que o levou a reduzir o seu horário de trabalho. 
O seu segredo para a longevidade ?
« Estar ocupado e fazer o que se gosta. Fiz muito desporto , incluindo natação no Rio Alcoa, em Chaqueda, onde cheguei a ter um barco. Como cicloturista fiz milhares e milhares de quilómetros.»
 Mostra-nos jornais portugueses e espanhóis onde são referidas essas façanhas desportivas, que ocuparam uma parte importante da sua vida. Tem no seu salão um expositor com troféus dessa modalidade, de columbofilia e de automóveis antigos.
 Tem um automóvel que é preciosidade – um “Datsum 1600” – com 41 anos de idade e que trabalha como “um relógio”. É um dos seus orgulhos, que fez questão em nos mostrar. «Daqui bocado, por volta das 5 e meia da tarde lá vou no meu “espada” para Alfeizerão».

E que diz do actual “estado da nação” ? Nunca paguei tantos impostos. Não me lembro de uma coisa assim! Vou trabalhar mais algum tempo no meu salão mas já não compensa. Mas não me vou sentar a ver o tempo passar. Sei fazer de tudo. Não me vou aborrecer. Sempre gostei de viver.»
Em 4 de Novembro próximo vai fazer, se Deus quiser,  88 anos. Uma bonita idade.
JERO






domingo, 7 de outubro de 2012

M - 434 INSTANTES QUE PASSAM...


ESQUINAS DA VIDA

Se existe uma idade para a gente ser feliz, uma época na vida em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-las a despeito de todas as dificuldades e obstáculos…é quando se anda por volta dos 20 , 20 e poucos anos.
Nessa idade de encanto com a vida desfruta-se tudo com toda intensidade sem medo, nem culpa de sentir prazer. 
É a fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida, à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores. 
É o tempo de entusiasmo e coragem em que todo o desafio é mais um convite à luta 
que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo de novo, quantas vezes for preciso. 
Essa idade tão fugaz na vida chama-se presente e pode ter a duração do instante que passa.
Aconteceu recentemente com o João Pedro Dinis que, depois de um almoço em família, se sentiu mal e teve uma paragem cardíaca.
Socorrido de imediato chegou sem vida ao hospital da sua terra. Tinha festejado 24 anos na semana anterior. Concluíra pouco tempo atrás o curso de engenheiro agrónomo e iria partir dentro em breve para um estágio de 2 meses na Universidade de Berlim.
 Tinha jogado futebol no clube da sua terra e parecia vender saúde. Mantinha uma actividade física regular na sua Universidade e era vice-presidente da Associação de estudantes do Instituto Superior de Agronomia.
Durante um instante que passa… deixou a vida.
 E uma imensa saudade aos seus familiares e amigos. Que quiseram estar por perto no seu funeral, que constituiu uma enorme manifestação de pesar.
 Na igreja da sua freguesia nunca se tinha visto tanta gente.
 Uma colega, depois da homilia, fez-lhe um emocionado testemunho de despedida, que a todos fez chorar.

O seu caixão, quando saiu da igreja, foi transportado por 6 jovens amigos. Seguido pelos seus familiares mais próximos, passou por cima das capas negras do seus colegas de Agronomia.
 Os pais seguiam-no.
 E logo a seguir o avô, que parecendo atingido por raio, caminhava com dificuldade e olhava para o céu perguntando, sem palavras, o porquê do seu neto partir e ele…ficar.
A multidão ,que saía da Igreja parou momentaneamente, e só prosseguiu depois de as capas negras terem sido retiradas do pavimento pelos colegas do João Pedro Dinis.
Seguiu-se um longo cortejo a caminho do cemitério. Onde ficou o João. A poucas centenas de metros casa dos seus familiares.
Regressámos a casa. 
Passámos pela florista para pagar um ramo de flores que tinha ficado nas mãos de um tio do João, devido à dificuldade em chegar até à campa.
 A florista que ,além de nossa vizinha é pessoa amiga, confidenciou-nos que durante horas e horas tinha feito arranjos de flores para o funeral do jovem. Tinha parado à pouco. Quando se preparava para ir beber um café apareceu mais um cliente.
Queria um bouquet de flores bonito e bem colorido para uma senhora de idade. Quantos anos faz perguntou, por curiosidade a florista.
-Faz hoje 100 anos.
Fiquei sem palavras.
 E voltei a (re)ver a imagem terrível do avô do João Dinis a caminhar tropegamente atrás do caixão do seu neto.
 A questionar,
 mudo,
 o céu.
 Nas esquinas da vida presente que pode ter a duração do instante que passa.
Mas a vida continua.
Momentos antes alguém tinha levado um bouquet de flores bonito e bem colorido para uma senhora de idade.
Que fazia nesse dia 100 anos.

São as esquinas da vida.
Insondáveis.Inacessíveis.
Inexplicáveis.


JERO



quinta-feira, 4 de outubro de 2012

M - 433 INTERVENÇÕES NO MOSTEIRO DE alcobaça


INTERVENÇÕES
O Claustro da Hospedaria, que foi prisão em rudes tempos patrimoniais, esteve longos anos ao abandono.
No ano 2000, intervenções arqueológicas levaram, entre outras descobertas, ao aparecimento do portal gótico que até ao sec. XVI servia de ligação entre o Claustro de D.Dinis e o terreiro, servido nessa altura por uma escadaria que atenuava o desnível entre um e outro.
Curiosamente as autoridades patrimoniais continuam lamentavelmente a ignorar que o Claustro do Palácio não é de “D.Afonso VI” e o da Hospedaria não se denomina de “Cadeia”.
 Um dia o bom senso científico prevalecerá sobre os lapsos.
O Claustro da Hospedaria foi recuperado (1º.piso) em 2005 no que respeita a janelas, paredes exteriores, tectos de madeira e paredes interiores.
No piso térreo, os paramentos, devido a saída da cadeia continuavam picados e não havia revestimento de piso. Alguém terá pintado as cantarias de amarelo.
Por volta de 2005 a AMA-Associação de Amigos do Mosteiro de Alcobaça apresentou um projecto de recuperação deste espaço pois considerava que o Claustro da Alta Renascença do Palácio Abacial, construído no tempo do Abade Comendatário D.Henrique, e a Portaria muito alterada e o Claustro da Hospedaria, construído no sec. XVII, deviam integrar o circuito de  visita ao Monumento.
A Sala de Conclusões foi então limpa (aí funcionou a Repartição de Finanças até 1986)  e pensou-se poder aí instalar a nova loja, ligada directamente à Praça 25 de Abril.
 Bem que o actual director desejava cumprir este projecto. Mas…
Acontece que em dado momento, creio que haverá cerca de um ano, o IGESPAR resolveu seguir as recomendações dos Amigos do Mosteiro e rebocar paredes e tetos à base de cal e lajear o solo.
Tudo bem, mas houve um desastre, o vão, da tal ligação medieval do Claustro do Silêncio ao Terreiro.
 Com a decisão de construir “um desenho sóbrio e contemporâneo”, cobriram o que estava à vista do vão gótico e os silhares de pedra do arranque da porta medieval.
Não entendeu o decisor que poderia ter conciliado o vão mais antigo e o vão menos antigo e vai daí tirou tudo com o argumento usado na arqueologia horizontal – tapa-se. E assim conserva-se.
Alexandra Gesta disse um dia: transformar não implica destruir nem reproduzir. Foi o que se fez em 1980 na Casa dos Bicos, em Lisboa. Afirma a citado arquitecta(*) que é necessário produzir novos valores a partir dos existentes.
O novo “valor” da ligação citada, foi o apagamento da memória, considerando-se esta “requalificação” uma intervenção moderna do vão.
Tenho pena que hoje em dia ninguém oiça ninguém quando intervém no terreno que mal conhece e amputa a leitura histórica, mesmo tendo tido à disposição imagens e relatórios que deveriam ter impedido o gesto de diluição, continuando afinal o erro que se fez no terreiro destruindo a escada no eixo do portal medieval com o desenho do novo terreiro.
Rui Rasquilho
Membro fundador do ICOMOS-Portugal.

(*)- Por lapso está referido que Alexandra Gesta é “arquitecta”, quando na verdade é uma especialista da área de salvaguarda do património com trabalhos feitos na cidade de Guimarães, onde foi responsável pela reabilitação do Centro Histórico.





terça-feira, 25 de setembro de 2012

M - 432 O AVÔ DA MATILDE


O avô da Matilde, um vizinho especial
Uma das vantagens de ser avô é poder conhecer através dos nossos netos pessoas que, em circunstâncias normais, nos passariam “ao lado”.
Nas férias do mês de Agosto deste ano, em São Martinho do Porto, a minha neta Mariana começou a brincar com a Matilde e daí até conhecer o seu avô foi um instante.
Nas primeiras palavras que troquei com o Avô da Matilde adivinhei que estava na presença de um ex-combatente, o que se confirmou no momento seguinte quando trocámos nomes, idades e interesses…
Ambos tínhamos 72 anos e, no nosso passado, a Guiné dizia-nos muita coisa.
O Carlos Ferreira quando me disse que tinha 2 comissões na Guiné e tinha sido sargento-chefe paraquedista deixou-me …altamente interessado em cimentar a nossa relação. Ficou logo combinada uma conversa para mais tarde. E, no momento, em que passo ao papel estas linhas já tivemos duas ou três conversas, o que já permite fazer o seu B.I., com os seus dados militares.
Carlos Herculano da Silva Ferreira nasceu em Braga em 16 de Dezembro de 1940. Em 4 Maio de 1961, com quase 20 anos e meio, assentou praça na Escola do BA 3- Tancos. Frequentou o 14º. Curso de paraquedistas e foi “brevetado” em Julho desse ano. 
Nos meses seguintes está envolvido em diversas ”diligências”, sendo colocado em Monsanto “para fazer guarda às antenas”, que tinham um papel importante nas comunicações com as nossas províncias ultramarinas. A guerra já tinha então começado em Angola (Fevereiro de 1961).
Regressa a Tancos em 1962 e em 1963 é mobilizado para a Guiné.
 Viaja de Tancos para Bissau num “Skymaster”, integrado de um contingente de cerca de 50 paraquedistas.
 Chega à Guiné em Junho de 1963 e em meados de Janeiro de 1964 integra as primeiras tropas da “Operação Tridente”, que invadem a Ilha do COMO.

Permanece no Como até ao final operação, que termina em 22 de Março.
 E continua na Guiné até Agosto de 1964.
Era então soldado-paraquedista e chefe de equipa.
Regressa à Metrópole e casa em Janeiro de 1965.Frequenta em Tancos o curso de Sargentos.
Em Setembro de 1967, já então como Furriel, segue para Angola, onde cumpre mais uma comissão, até Novembro de 1969 (1ª.Companhia 121).
Mais um regresso a Tancos onde vai permanecer até inícios do ano de 1972.Durante esse período colabora na instrução de 14 “cursos de combate”. Passam-lhe “pelas mãos” centenas de paraquedistas.
Em Fevereiro de 1972 segue de novo para a Guiné em rendição individual. Foi substituir o Furriel Pires, de Setúbal, morto em combate. Cumpre uma comissão muita dura, que vai prolongar-se até 28 de Março de 1974.
Integra muitas operações, passando por Guidage, integrado no 2º.Pelotão da Companhia 112, onde tiveram 4 mortos.
Regressa à Metrópole a tempo de “apanhar” a Revolução de Abril.
 Estava colocado em Tancos quando, em 25 de Abril, é chamado para integrar um grupo de paraquedistas que ,entre várias operações, têm “responsabilidades” junto da sede da PIDE e na prisão de Caxias.
 Encontra então nessa prisão um alto funcionário da Pide que tinha conhecido em Bissau durante a sua última comissão na Guiné.
Segue depois para a segurança do Aeroporto de Lisboa, onde está em serviço durante algumas semanas.
 Mais um regresso a Tancos e, passado algum tempo, é chamado para próximo do General António Spínola.
 Presta serviço na Presidência da República de 1974 a 1977. Em 1979 faz o Curso de Sargento-Chefe e é colocado em Monsanto. 
Passa à reforma em Fevereiro de 1988.
E,à distância no tempo, o que mais o marcou nas suas 2 comissões na Guiné!?
Em relação à primeira comissão ainda hoje recorda as más condições da sua estadia inicial em Bissau.
 Foram 29 dias a dormir no chão debaixo de um alpendre com telhado de zinco. Foi um período em que quase deu em doido e que lhe valeram 10 dias de prisão… «Um cabo de serviço embirrou comigo, saltou-me a “tampa” e ofendi-lhe a mãe». A “porrada” foi despenalizada mas não deixou de a apanhar. «Depois a vida dá muitas voltas e um dia, durante uma operação no mato, tive que o carregar às costas.»
Depois, em Janeiro de 1964, fez parte do pelotão de paraquedistas que integrou os mais de 1.000 homens que fizeram parte do contingente da Operação Tridente,  para a recuperação da soberania da Ilha do Como , ocupada pelo PAIGC desde 1963.
Foram dias muito duros. À distância no tempo recorda um momento para o qual ainda hoje – tantos anos passados -  ainda não encontra uma “boa explicação”.
Já estava no Como há 2 ou 3 dias quando integrou uma “coluna” para entrar no “mato”.Com a floresta à vista  - deslocavam-se “em bicha de pirilau em cima do “separador” da bolanha - e as uns 30 metros da mata ouviu um barulho suspeito. «Era o 4º. da fila e vi um “vigia” deles saltar de uma árvore. Logo a seguir aparece um tipo, fardado de caqui, que nos faz um sinal de “alto”.»
Logo após o salto do“vigia” ficámos no chão e pedimos pela rádio apoio de fogo de morteiro. O inimigo desapareceu e as nossas tropas recuaram.
Que quis dizer aquele gesto de “alto” !?
 Não quiseram fazer fogo, não queriam guerra ? Tinham a “surpresa” do lado deles e não a aproveitaram.
Ainda hoje, 48 anos passados, a cena não se apagou da “sua cabeça” e o enigma mantém-se.
Em relação à “Operação Tridente” não se pronuncia pois a sua crónica está contada e ao tempo - não teve tempo nem espaço, nem informação – que valha a pena acrescentar mais alguma coisa ao que está escrito e …já passou à história.
Quanto à segunda comissão ,que como já foi referido cumpriu em rendição individual, prolongou-se de Fevereiro de 1972 até 28 de Março de 1974.
Das muitas operações em que esteve envolvido recorda especialmente a invasão do Cantanhez.
«A minha Companhia  estava em Teixeira Pinto e veio para Bissau para preparar a operação. Na data prevista fomos hélio-transportados até à orla da Mata do Cantanhez.
 Fui o primeiro militar do primeiro “heli” a saltar.
Era então 2º. Sargento e o meu chefe directo era  o Alferes Silva, que é hoje Coronel. 
A nossa missão consistia em limpar a área para se montar um aquartelamento.
 Estivemos vários dias na zona e fomos atacados durante uma noite. Ao fim de 3 dias o “Caco Baldé” aparece lá e vai falar com o Comandante de Companhia, o Capitão Augusto Martins, que chegou a General.»
Mandaram-se chamar ao Comando porque o General Spínola queria conhecer a mata. «Foi comigo e fomos sempre a falar. No final da visita deu-me os seus parabéns e disse-me que tinha gostado de me conhecer.»
«Foi para mim um dia e uma ocasião muito especial. Que não mais esqueci.»
 Ficámos um mês no Cantanhez.
Tempos depois, numa operação na zona de Babadinca, fomos sobrevoados por um helicóptero.
 Para meu espanto o “héli” baixou e veio aterrar perto dos meus homens. 
O “Caco” vinha a bordo e ,quando me aproximei, perguntou-me se estava tudo bem e se era preciso alguma coisa. Reagi de imediato e pedi-lhe: «Meu General vá-se embora, que me dá cabo da operação.»
- «Se precisares de alguma coisa chama». Acenou-me com o bengali e o “héli”afastou-se.
«Nunca mais esqueci o momento».
«Deixo para o fim a recordação de uma ocasião muito dolorosa e marcante.Um dos meus homens – o 1º.Cabo Melo – ganhou o Prémio Governador da Guiné e teve direito a um período de férias no Continente. Podia ter vindo para Bissau para apanhar o avião para Lisboa mas fez questão de entrar numa operação comigo, porque sabia que fazia falta. Nessa operação foi morto em combate. Em Junho de 1973.
Foi o maior desgosto da minha vida de militar. Andei 8 dias bêbado.»

À distância no tempo…o Avô da Matilde emociona-se e cala-se.
Mais tarde diz-me que lhe fez bem falar.
Daqui para a frente sempre que for a São Martinho do Porto vou tocar à campainha do apartamento do Sargento-Chefe Carlos Ferreira.
 Um vizinho especial.
JERO







segunda-feira, 17 de setembro de 2012

M - 431 ALMA ATÉ ALMEIDA...


De vez em quando…uma viagem ao passado

A primeira paragem foi em Tondela. 
O Belmiro Tavares e a sua mulher, Luísa, tinham partido de Lisboa e deram-me boleia a partir de Alcobaça.
 Para ali chegar já tínhamos andado uns bons quilómetros. Em números redondos cerca de 300.
Entrámos no cemitério e encontrámos a campa do 1º.Cabo Enfermeiro  António da Silva Martins sem dificuldade. 
O Tavares já cá tinha estado anteriormente.
 Eu vi pela primeira vez a sepultura do “Rato”, alcunha por que ficara conhecido por toda sua Companhia – a nossa CCaç.675. 
Em 1970 não tinha resistido a um acidente de motorizada numas fatídicas férias que passou na sua terra natal. Contava 28 anos.
 Anteriormente tinha vivido – ou sobrevivido - em Lisboa, após o regresso da Guiné .
 Na sua humilde sepultura estavam também a mãe e uma irmã (Maria Manuela Silva Martins Neves Antunes – 1946/1998), conforme informação do coveiro, que nos acompanhou na visita. O pai também já tinha falecido e o nosso solícito informador nada mais nos conseguiu dizer sobre familiares do Martins, que estivessem vivos.
Depois do nosso regresso da Guiné em Maio de 1966 os primeiros reencontros entre camaradas da guerra haviam acontecido por causa de casamentos, que aconteceram quase por todo o País. Depois do nosso regresso para a vida o “Rato” fora o primeiro a encontrar a morte.
 Todas estas recordações me passaram pela cabeça enquanto colocávamos a lápide na campa nº. 31 do nosso camarada: PRESENTE /António Martins/ 1º.Cabo Enfermeiro/ Os Companheiros.
Abandonámos o cemitério.
 Antes de sair da cidade visitámos ainda a Igreja Matriz de Tondela.
Continuava a “ver” o “Rato” com o seu sorriso inconfundível, que fazia parte da sua imagem de marca.
 Irreverente, malandro, irresistível no quartel e na tabanca com as “bajudas”, mas valente e desenrascado no “mato”.
 Voltara da guerra sem um arranhão e, dois anos depois, morreu num desastre de viação. Num tempo em que não havia telemóveis a notícia da sua morte chegou-me algo atrasada. 
Felizmente que alguns meses antes tinha-o conseguido levar a casa dos meus pais, em Alcobaça, onde tinha sido tratado como um filho. Esse tempo feliz ficou-me gravado na alma.
Seguimos depois para Freinedo, junto a Vilar Formoso, onde nos deslocámos para honrar a memória de outro camarada: - António de Jesus de Encarnação, que fora 1º.Cabo rádio telegrafista.
Cabe aqui fazer um pequeno parêntesis para recordar que durante a permanência da Guiné (1964-66) tivemos 3 mortos em combate:
 - Furriel Miliciano Mesquita 
-  Soldado Gonçalves e
-  Soldado Nascimento.

 Depois, pela ordem natural da vida, que envolve a morte, “deixaram” a família da CCaç. 675 mais 4 dezenas de camaradas.

 Graças à iniciativa do ex-Alferes Miliciano Belmiro Tavares temos, desde há uns anos a esta parte, vindo a colocar lápides nas suas sepulturas com a mensagem de PRESENTE, que faz jus ao lema da Companhia, que no seu emblema referia “Nunca Cederá”.
Na visita à sepultura do Encarnação, que faleceu em 2008 com 66 anos de idade, tivemos a companhia de uma sua filha, que também reside em Freinedo. Ficámos a saber que o nosso antigo camarada foi emigrante em França, durante grande parte da sua vida.
No dia seguinte cumprimos um “programa” diferente, dedicado aos “vivos”. Fomos ao encontro de 2 camaradas que residem perto de Almeida, uma terra com história e com alma…até Almeida(1).
Como o Belmiro Tavares gosta de dizer fizemos nessa tarde um “mini-convívio” da “675”.
Reencontrámos o António Alberto Nunes Espinha, por alcunha o ”Cara Rota”, e o Silvestre Fernando Verges Flor, que passou à história como o “Aguardente”. Vá lá saber-se porquê !
São agora “rapazes” com 70 anos e a vida marcou-os de maneira diferente. Curiosamente o “Aguardente” afastou-se da dita e passa a imagem de um homem tranquilo, com “as coisas” todas bem arrumadas. Em relação à sua idade actual passou mais tempo em França que em Portugal. Está bem na vida. O “Cara Rota” vê-se que é um homem desenrascado, que conhece bem o solo que pisa e que vive o seu dia …”à sua maneira”. De manhã bebe uns “copos” com uns amigos. À tarde faz “alguma coisa” e, logo que está livre, joga à sueca com uns parceiros habituais. E o tempo vai-se passando.

Espinha, Tavares, Luísa, Flor e JERO
Prometeram comparecer no próximo convívio da CCaç.675, desde sempre marcado para o 1º domingo do mês de Maio de cada ano.
 E já passaram 46 anos desde que o navio “UÍGE” nos transportou de Bissau para Lisboa, onde aportámos em Alcântara em 3 de Maio de 1966.
Para uma próxima “agenda”, a cumprir ainda este ano, temos para entregar as placas do Alferes Miliciano Artur Mendonça(Felgueiras) e do 1º. Cabo Cozinheiro Rogério Romão (Sabrosa/Vila Real).
 O Belmiro Tavares e sua mulher ficaram mais uns dias no “Retiro dos Caetanos”, em Souto Chão (Rocas do Vouga), que foi o nosso” quartel-general”. Grato pela hospitalidade regressei a casa pelos “meus meios” e com a ajuda da Rodoviária Nacional.
 Desta jornada de saudade a recordação mais viva, mais marcante foi a visita à campa do “Rato e ter visto a sua fotografia sumida, esfumada, apagada pelo tempo.
 Encaixada na sua lápide do cemitério de Pinhel.
Que saudades eu tenho do “puto” irreverente da Guiné dos longínquos anos de 1964-66 em Binta,
 na Vila Tomé Pinto !
Desse tempo que não volta e do tempo que corre e…não se detém .

Quanto mais tempo andaremos nesta saga ???
Num dia recordámos os mortos. No dia seguinte confraternizámos com os vivos !!!
Todos nós sabemos que só uma coisa é certa…
 Mas …a nossa amizade NUNCA CEDERÁ.
JERO


(1)- Evoca este grito –“ alma até Almeida” - a importância que teve Almeida, fortaleza que só passou a integrar definitivamente território português no século XIII, com a celebração do Tratado de Alcanizes, na defesa de toda a Beira, face às muitas incursões castelhanas, e a valentia com que os seus guardiões disso fizeram um ponto de honra.

domingo, 19 de agosto de 2012

M - 430 GENTE NOVA


TIPO TÁS A VER…
Uma viagem num autocarro da Rodoviária Nacional Lisboa – Alcobaça demora cerca de uma hora e cinquenta. 
Em passado recente fui passageiro num autocarro que saiu de Lisboa completamente lotado. 
Ocupei o nº. 32 e a meu lado, no lugar nº.31, viajou uma adolescente que ,à primeira vista, me pareceu poder ter uns 14 ou 15 anos de idade.
 Vestia o “uniforme” que a maioria das jovens utiliza nos tempos actuais: blusa de cor, calções curtos justos e a habitual parafernália de colares, brincos e anéis.
 O “conjunto” era complementado com um “piercing” na narina esquerda.
 Num pequena mala de mão levava um moderno telemóvel que consultou durante a viagem vezes sem conta. Em telefonemas e mensagens.
Era capaz de apostar que durante toda a viagem o telemóvel deverá ter estado em “sossego” aí uns dez minutos.
Por viajarmos em proximidade ouvi – inevitavelmente - os seus telefonemas. 
Confesso que a linguagem usada era tão estranha que nos primeiros telefonemas tive dúvidas se a jovem estaria a falar algum dialecto de alguma região do país que eu desconhecesse, tipo mirandês ou minderico.
A partir de certa altura cheguei à conclusão que era uma” espécie” de português.
“Bué” foi utilizado vezes sem conta.
 ”Tipo tás a ver” repetidas vezes .
 Cada novo telefonema começava com um “continuando”. 
Os quilómetros iam sendo percorridos e a jovem juntou a conversa alguns palavrões, que me dispenso de reproduzir, parecendo completamente esquecida que viajava junto de um adulto “tipo avô, tás a ver”!!!
As surpresas continuavam.
 Um amigo estava “bêbado” em tal dia e …ela também estava bêbada em outra ocasião. 
Isto era referido a uma amiga. 
O tal amigo, que era uma ano mais velho e tinha 15 anos, curtia uma nova namorada “bué” de feia, tipo estás a ver…
E os telefonemas não paravam.
 A excepção foi quando telefonou a uma pessoa de família (pai ou avô) para informar que estava a chegar. Este telefonema para a família deverá ter demorado uns 10 segundos !
 Pois havia que reatar a conversa telefónica com a amiga. ”Continuando…” 
Antes de sair do seu lugar ainda prometeu à amiga que telefonaria logo à noite (estávamos em cima das 21h00) e informou que tinha voltado a fumar !!!
Fiquei só com os meus pensamentos e fui-me questionando.
 Como é que estes jovens poderão ler, aprender a falar português – a tal língua de Camões – utilizando a cada passo aquele “dialecto” repleto de bués, tipo estás a ver ???
Senti-me confuso. Muito confuso.
Está claro que sou eu que estou a mais neste “estado novo” de gente jovem !
Que fazer !?
Não sei.
 Mas parece-me, sinceramente, que se não forem os pais a estarem mais atentos a esta gente jovem eles irão “crescer” mal…
Muito mal, com bué de problemas.
Digo eu.
Que sou d'outros tempos...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

M - 429 MEMÓRIAS DA GUERRA


Corpo a corpo

 A guerra acabou há décadas.
Reporto-me à Guerra do Ultramar ou Guerra Colonial, que decorreu entre 1961 e 1974.
Para os mais “antigos” – que é o meu caso (1964-66) – já lá vai quase meio século.
Apesar de todo esse tempo decorrido ainda há histórias (ou memórias)  que ainda não foram contadas. E –arrisco dizê-lo – haverá histórias(ou memórias) que nunca serão contadas. 
Estou a pensar, obviamente , pela minha cabeça mas acredito que não  estarei só nessas recordações complicadas que desde então se agarraram à nossa pele (ou à nossa alma) e permanecem…
Vou hoje fazer a catarse de uma dessas.
 Bem complicada e que não é fácil de passar ao papel. Mas, já que comecei, vamos aos factos.
Quem esteve na guerra teve situações em que era matar ou morrer. Porque guerra não é um jogo de xadrez, que permite “xeque-mate” . 
Na guerra há sangue, há gritos, há medo. E ficam fantasmas …e memórias dolorosas.
 No teatro de guerra onde estive – Guiné – onde enfrentámos uma guerra de emboscadas, de “mata e foge” …raramente víamos quem nos atacava.
 A guerrilha tinha as suas “regras” e raramente encarávamos – olhos nos olhos – quem disparava contra nós.
 Uma luta corpo a corpo era quase impensável mas …aconteceu por onde andei.
Numa emboscada montada pela nossa tropa o sangue frio do Alferes ,que comandou a operação, deixou que o grupo inimigo se aproximasse a pequena distância para então, e após a sua ordem de “fogo” ,o ter desbaratado completamente.

Houve tiros a poucos metros do IN (abreviatura de “inimigo”) e chegou-se a combater corpo o corpo.
 O soldado Cardoso(nome fictício), por se ter encravado a sua arma,  matou à coronhada um dos terroristas e retirou-lhe a sua P.M.(pistola metralhadora).
 Foram abatidos uns 5 “ turras” e capturadas, entre diverso armamento, duas pistolas metralhadores Thompson, daquelas que conhecíamos dos filmes americanos de gangsteres.
Tempos depois e passada a euforia do momento começaram a constar alguns pormenores “falados à boca pequena”… no “universo” muito limitado do quartel.
 O Cardoso não tinha disparado a sua arma porque não quisera e matou o inimigo à coronhada porque era um “sanguinário”.
Sendo um trabalhador infatigável no quartel e um aguerrido combatente no mato era, no entanto, um homem estranho. O Cardoso – no quartel ou no mato –  tratava tudo “à bruta”.
 É caso para dizer que ,felizmente, estava do nosso lado…
E há também que referir que foi distinguido e condecorado pela sua contribuição no sucesso militar da tal emboscada que abateu inimigos e permitiu capturar armas.
Em circunstâncias que já não consigo recordar ao pormenor fomos protagonistas de uma cena caricata, com um final “animalesco”.
 Quando progredíamos numa zona de floresta cruzámos com uma cabra do mato e suas crias. Não me recordo se houve ou não tiros. Sei que momentos depois deste encontro inesperado me vi nos braços com uma assustada cabrinha do mato. Tentei salvar o “bicho” e levá-lo para o quartel mas não consegui acalmá-lo.
A cabrinha começou a balir e comecei a não ter mãos para levar a bolsa de enfermeiro, a arma e o pequeno mas irrequieto animal.
 O Cardoso aproximou-se e disse-me:- Meu Furriel, dê cá a cabra que eu trato dela.
Assim fiz convencido que o Cardoso, com a sua experiência do mundo rural donde era proveniente, iria acalmar o animal e levá-lo para o quartel para o criarmos.  
Estava redondamente enganado.
 O Cardoso agarrou o animal com as duas mãos e mandou-o violentamente para o chão.
 Ainda me lembro do berro da cabrinha e dos seus olhos saltarem da cabeça. 
O que disse já não sei, mas sei que não mais esqueci esta cena de bestialidade. O Cardoso seguiu na patrulha como se nada se tivesse passado.
No nosso dia a dia no quartel era raro o dia em que não houvesse, à tarde, um jogo de futebol.
 Mantinha-nos ocupados e era bom para a forma física. Havia os predestinados e os outros …
O Cardoso era destes últimos. Era esforçado mas um “nabo” a jogar a bola. Eu jogava a defesa-central, e, modéstia à parte, “metia no bolso” o Cardoso sem dificuldades de maior. Reconheço que não era “meigo” a defender e numa jogada em que o Cardoso me passou por perto “dei-lhe com força”. E não passou… “nem a bola nem o homem”.
 O Cardoso cresceu para mim e, de cabeça perdida, ameaçou-me de morte. Foi um momento tenso que alguns camaradas ajudaram a ultrapassar. 
O Cardoso abandonou o jogo a coxear e a remoer ameaças.
Ainda faltavam uns meses para o final da comissão e não esqueci o ódio do Cardoso nesse momento do jogo de futebol em que entrei às suas pernas… “a matar”.
Dali para a frente em todas as operações em que  participava e onde ia o Cardoso integrado no seu pelotão eu tinha uma preocupação acrescida. “Um olho no burro e outro no cigano”.
 Porque já então se ouviam falar de histórias em que um “tiro perdido” calhava a um superior ...
Refiro-me a patentes, está claro. 
Nunca confessei a ninguém esta minha preocupação “particular”.
A comissão acabou e…regressámos os dois.
 O Cardoso(nome fictício) só muitos anos depois apareceu num convívio da Companhia. Apareceu e fiquei com a sensação que…ficou isolado!
O tempo não parou. Passaram todos estes anos ...
Ainda não esqueci a expressão e as palavras de ódio do Cardoso, quando levou a minha canelada no “tal” jogo de futebol: “Eu mato-o, meu Furriel”.
Esta é a minha verdade e sei que “não sou o dono da verdade”.
Posso estar a ser injusto.
 Mas, ia jurar, que nesse dia longínquo, na Guiné, joguei a bola com um assassino.
“Está contada” uma das histórias proibidas…
Há mais uma ou duas mas vão continuar em “arquivo morto”!
Até um dia…ou talvez não!
JERO