quarta-feira, 18 de julho de 2012

M - 428 E QUANDO A RAINHA DE INGLATERRA VEIO A ALCOBAÇA ?


MEMÓRIAS NÃO TÊM FIM
Mais uma evocação com mais de meio século, que vai trazer algumas recordações aos maiores de setenta.
Tem a ver com a visita a Portugal da Rainha Isabel II de Inglaterra nos inícios do ano de 1957, quando era Presidente da República o General Craveiro Lopes.
Ainda hoje se diz nos meios diplomáticos portugueses que foi "a visita do século".
Tirou-se o bergantim real do Museu da Marinha, ofereceram-se presentes caríssimos à família real, requisitou-se a baixela Germain, fez-se um desfile de barcos no Tejo, cortejo pela cidade com coche do século XVIII, arranjos no Palácio de Queluz e Mosteiro da Alcobaça.
A Rainha, então com 30 anos, trazia consigo os olhos do mundo, imprensa cor-de-rosa e não só, que designou a sua estada oficial entre 18 e 21 de Fevereiro de 1957 no Portugal fascista como "uma segunda lua- -de-mel".
O marido, duque de Edimburgo, vinha juntar-se-lhe em Portugal depois de uma viagem de muitos meses pela Commonwealth .
Por onde andou (Belém, Alcobaça, Nazaré, Mosteiro da Batalha), a soberana foi aclamada por milhares de pessoas.
Este apontamento diz basicamente respeito à visita de Isabel de Inglaterra a Alcobaça e aos trabalhos feitos apressadamente nos meses que antecederam Fevereiro de 1957.
O Engº. José Costa e Sousa era ao tempo, Chefe dos Serviços Técnicos da Câmara Municipal e é “fonte” privilegiada das linhas que se seguem:«…as obras de desaterro foram alargadas para além do inicialmente previsto… O pessoal municipal trabalhava à luz dos faróis de camionetas…para tudo estar pronto a tempo e horas. Mas “o vendaval num copo de água” – expressão de Costa e Sousa” -  chegou com a construção das instalações sanitárias para uso dos Reis de Inglaterra.
Havia três entidades responsáveis pelas obras : SNI (Secretariado Nacional de Informação), MOP (Ministério das Obras Públicas) e MNE (Ministério dos Negócios Estrangeiros). O responsável do SNI queria que fossem utilizadas louças cor de rosa; o da MPO defendia o azul enquanto que o do MNE se inclinava para o branco.
Como quem estava mais tempo no local das obras era o técnico da Câmara de Alcobaça, Engº. Costa e Sousa, todos lhe diziam nas costas do outro, para aplicar a louça da cor que defendiam. O assunto assumiu tais proporções que o encarregado do SNI ameaçou fazer queixa ao Dr.Salazar, se outra fosse a cor da louça, que não o rosa.

Mas que foi a visita do século…foi.
 Os 80 contos foram mais tarde (realmente) rentabilizados…
JERO

segunda-feira, 9 de julho de 2012

M - 427 MEMÓRIAS DA MEIA IDADE


ANTI-CONSTITUIONAL
A recente decisão do Tribunal Constitucional ,que tanta tinta fez (e fará) correr ainda, fez-me lembrar uma história de vida, que me aconteceu já lá vão uns bons anos.
Só para situar melhor o momento actual, recordo que, em passado recente, o Tribunal Constitucional declarou a inconstitucionalidade da suspensão do pagamento dos subsídios de férias ou de Natal a funcionários públicos ou aposentados.
 O TC considerou que o corte de subsídios inscrito no Orçamento do Estado para 2012 "não se faz de igual forma entre todos os cidadãos na proporção das suas capacidades financeiras", tendo assim sido violado o princípio da igualdade, consagrado no artigo 13.º da Constituição.
É aqui que “eu vou saltar no tempo” e recuar a meados  dos anos 90 para contar a tal história que a recente situação do Tribunal Constitucional fez “despertar” no meu “arquivo de memórias”.
Por casamento ganhei direito a ter férias “institucionais” na praia de São Martinho do Porto, no Litoral Oeste. A minha mulher herdou de uma sua avó uma casa, onde aliás tinha sido criada até aos 12 anos, e as férias de Verão passaram a ser nesse prédio, situada a meia centena de metros do longo areal da “Concha Azul”. Por ter relações pessoais com uma das senhoras que alugava barracas na zona mais central da praia não foi difícil à minha mulher arranjar uma “barraca” na 8º.fila,logo após a entrada no areal.
Começámos a ficar por ali desde 1970 e na nossa fila tínhamos como vizinhos “certos” e habituais desde marqueses, a grandes capitalistas ligados a empresas de Camionagem, engenheiros, doutores  e…a família Vale de Azevedo.
Era notório que “aceitavam” a nossa presença com alguma condescendência, que só se “atenuou” quando a minha mulher começou a levar apetitosos lanches para os nossos filhos, que também chegavam para “reforçar a dieta” dos filhos das “elites”, que brincavam na nossa fila. A 8ª. dos paus vermelhos, no zona mais central da praia.
Também quando perceberam que eu era “comercial” de uma Fábrica de Porcelanas da região e que poderia “tirar” uns serviços de chá ou café com 25% desconto, a nossa popularidade junto dos vizinhos da “alta finança” cresceu mais um pouco.
 Os anos foram passando e o João Vale Azevedo, que viria a ser Presidente do Sport Lisboa e Benfica, conversava cordial e simpaticamente comigo e “ajudava-me” a ler os jornais que eu comprava. «O vizinho empreste-me aí “A Bola”», acontecia com freequência.
 Benfiquista assumido já nessa altura  fazia grandes discursos sobre o “Benfica à Benfica “ e “um escudo é um escudo”.
Era advogado e lembro-me que, durante algum tempo       ( entre 1981 e 1983), foi assessor jurídico do primeiro-ministro de Portugal Francisco Pinto Balsemão. .
 Foi das primeiras pessoas a ter um telemóvel na nossa fila de barracas e quando atendia – ou fazia uma chamada – saía da barraca para “se fazer ouvir” e ser visto.
 Dava de facto nas vistas mas era sem dúvida uma pessoa simpática, que também me dava “a honra” de jogar a bola com ele e seus amigos na praia. Por acaso a bola era minha mas era-me solicitada com a maior delicadeza e lá íamos jogar quando a maré estava vazia…e o cabo-do-mar estava longe. Porque, tal como hoje, era proibido jogar a bola na praia.
 Um dia o jogo estava tão animado – jogávamos normalmente uns 7 contra 7 – que fomos “apanhados” em flagrante pelo cabo-do-mar. Que parou o jogo e apreendeu a bola, porque era proibido jogar na praia.
 O que ele foi fazer !!! O Dr.Vale Azevedo interpelou-o e, em alta voz, disse-lhe que o que ele estava a fazer era “anti-constitucional”.
 Não podia aprender a bola! E foi tão peremptório na sua argumentação que o cabo-do-mar devolveu a bola e, com “o rabo entre as pernas” – salvo seja - afastou-se.
Nunca mais esqueci este incidente e a grande ”lata” do Dr.João Vale Azevedo.
Julgo que nos anos seguintes a esta cena foi Presidente do Benfica- de Outubro de 1997 a Novembro de 2000 - e daí para a frente…a sua história é conhecida.
 Ainda me lembra de o ver na baía de São Martinho do Porto com o seu iate “Lucky me”…

Até desaparecer por completo, sendo de vez quando notícia do jornais, como aconteceu recentemente devido a alguns problemas em Londres, onde tem vivido desde 2006.
Continuamos vizinhos de barraca de seus pais, irmã, cunhado e sobrinhos que são, aliás, pessoas muito simpáticas.
Ainda vi durante alguns o tal cabo-do-mar que nos tinha confiscado a “minha” bola e que há muito deve estar reformado.
 Com um bocado de jeito e, eventualmente, como pensionista, também lhe calhou o “corte” anti-constitucional dos subsídios de férias e de Natal.
Cá se fazem e …cá se pagam.
JERO


quinta-feira, 5 de julho de 2012

M - 426 CRÓNICA DE UM CONGRESSO


A ORDEM DE CISTER-CRÓNICA DE UM CONGRESSO

«EGO ALFONSUS DEI MISERICORDIA PORTUGALENSIUM REX, UNA CUM UXORE MEA D.MAHALDA REGNI MEI CONFORTE TESTAMENTUM E CAUTUN FACIMUS UOBIS D.ERNADO CLARAVALENSLS ALCOBACHA NUNCUPATUR»

Os Reis assinaram de “propriis manibus” e o Mosteiro instalou-se no lugar de Alcobaça dezenas de anos depois da sua instalação provisória em Chiqueda, onde se agricultou a primeira granja e se construiu uma robusta ponte de três arcos, por onde D.João I passará em Agosto de 1385 para vir instalar-se, por alguns dias, no Mosteiro dirigido pelo Abade d’Ornelas.

Muitos séculos depois centena e meia de congressistas reuniram-se no Capítulo de Alcobaça para ouvir o Abade de S.Isidro de Bueñas D.Juan Martin Hernandez OCSO falar na Ordem de Cister, em particular do seu presente e futuro.O Abade de Poblet D.Josep Alegre OCIST, o Bispo D.Carlos Azevedo e o Prof. José Mattoso enviaram mensagens.
A 15 e 16, uma sexta e um sábado de Junho de 212 oitenta professores, alguns deles religiosos, e outros apaixonados pela Ordem fundada por S. Roberto na floresta de Citeaux, na Bolonha, em 1093, reuniram-se num Capítulo imaginário nas preciosas instalações da Escola Secundária de D.Inês de Castro.
Assuntos espirituais, económicos, históricos, artísticos e da lavoura da secular Ordem foram aprofundados e discutidos. A Livraria de Alcobaça e seus incunábulos viram as suas iluminuras interpretadas, os olivais e os vinhedos dos Coutos analisados. 

O grande edifício desvendou alguns segredos. As representações pictóricas da Padroeira da Ordem festejadas, explicadas. As encomendas das baixelas cerâmicas analisadas. O canto gregoriano, a liturgia, o quotidiano do cenóbio, o “ora et labora” foram outros temas tratados com uma qualidade impar.
A arqueologia deu respostas às propostas de futuro, o Museu, o Centro de Estudos, o Hotel de Charme surgiram num contexto de conservação integrada e de salvaguarda auto sustentada.
Não fora a Câmara Municipal de Alcobaça não haveria Congresso. Não fora a JORLIS não sairiam as actas que tão uteis serão no futuro. Não fora o Mosteiro e não teríamos uma criteriosa exposição bibliográfica, com a descoberta simultânea da arte das reservas do Mosteiro e da modernidade do Irmão Luís de Oseira.
Na”loja” dos livros várias obras foram adquiridas por entre aromáticas maçãs de Alcobaça.No “Refeitório da Escola” preparado para os congressistas o vinho de Monte Capucho, a memória da Granja de Chiqueda com as suas cepas viradas ao sol nascente de onde vem a luz e a vida.
Foi uma operação trabalhosa, um formidável trabalho de equipa. A solidariedade passou muito além do labor das Comissões Executiva e Científica, chegou aos funcionários da Câmara, da Escola e do Mosteiro. Os especialistas trabalharam em condições óptimas por temos uma Escola Pública moderna com um grupo directivo inteligente e ágil, com professores na sua maioria inteiramente dedicados, com funcionários apaixonados e alunos orgulhosos.
O Município e o seu Presidente compreenderam a importância desta realização em Alcobaça, trazer aqui Abades Cistercienses, outros religiosos da Ordem, tal como vieram de outras professores universitários e técnicos, dedicados à história da Ordem de S.Roberto, S.Harding e S.Bernardo foi doce tarefa.
As actas serão o culminar desta festa científica, deste reencontro de Cister com o seu grande Mosteiro.
No dia 17 António Maduro e Saúl Gomes, doutores coimbrões, guiaram uma viagem pelos Coutos, mostraram a sustentação agro-económica e o Mosteiro Feminino de Cós.Visitou-se a Matriz de Évora e os portais e pelourinhos de algumas vilas de D.Manuel. Uma verdadeira festa sobre a história, com as suas maleitas e as alegrias também.
Ao Amigos do Mosteiro de Alcobaça editaram um livro sobre o espírito, a pedra e a terra de Cister Alcobacense, a Associação Portuguesa de Cister, o ICOMOS coadjuvaram para erguer o projecto. A APC promoveu uma tertúlia, onde se bebeu cerveja de Cister. O ICOMOS acarinhou o Património da Humanidade. O Mosteiro que se ergueu junto ao Castelo do lugar de Alcobaça desde 1178.
Rui Rasquilho

Nota: O Director Geral do Património Cultural prometeu para breve a abertura do concurso para o Hotel de Charme.Paulo Inácio aguarda para ver.Nós na AMA e na ADEPA também.


quarta-feira, 4 de julho de 2012

M - 425 MEMÓRIAS DA ADOLESCÊNCIA


A mulher que se “matou” à minha frente…
Teria na altura 15 ou 16 anos. 
Frequentava o antigo 5º.ano do Liceu e voltava para casa depois de um dia rotineiro.
 Até a Professora de Inglês nos tinha ameaçado com o “8” habitual – as notas eram então de 0 a 20 – porque não estudávamos nada, porque eras uns cábulas, etc, etc. 
Quando cheguei à ponte junto da casa do Dr.Neves vi muita gente a correr e a gritar. Apressei o passo e quando me foi possível ver alguma coisa tive a surpresa de ver uma jovem mulher que tinha saltado da ponte para o rio.
 Tinha água pela cintura mas caminhava em direcção à represa, para águas mais profundas.Adivinhava-se que era um acto de desespero e que a mulher se queria afogar!
Os minutos seguintes ficaram-me gravados na memória. Até hoje. E já passaram mais de 50 anos.
Toda a gente gritava. Toda a gente apontava para a mulher e esperava que o “outro” fizesse alguma coisa…Eu, miúdo do 5º.ano., perguntava-me porque ninguém fazia nada e…ia arranjando argumentos para não me sentir “culpado”. Afinal estavam ali ao meu lado homens feitos…Era preciso dar um salto de uns 2 a 3 metros de altura para o rio e impedir que a mulher se afogasse. Lentamente a mulher, agora já debaixo da ponte, caminhava para a morte. Mais gritos, mais braços no ar e …ninguém fazia nada. A mulher parou. Só tinha a cabeça fora de água. Parecia não olhar para ninguém.
 E de repente …alguma coisa mudou. Os gritos dirigiam-se agora para um homem que ,vindo de um armazém próximo, com escadas que davam para o rio já estava dentro de água. Os gritos agora eram de entusiasmo e de ânimo. “Força pá. Agarra-a, agarra-a”. O homem, seguindo encostado à margem, aproximou-se rapidamente da mulher e conseguiu agarrá-la, retirando-a da zona mais profunda. Foi um momento emocionante com os “mirones” a aplaudir.
 De um minuto para o outro toda a gente arranjou coragem para dizer que estava mesmo à beira de saltar e que ninguém deixaria a jovem mulher morrer…
 Também fiz qualquer “negócio” comigo mesmo …para me libertar da sensação de culpa.
Falou-se depois que o acto de desespero esteve “ligado” a um desgosto de amor.
 A jovem mulher nunca mais foi a mesma.
 Ficou solteira para a toda a vida e vive sozinha. 
Continuo a vê-la na sua rua, parecendo quase sempre alheada do mundo e a falar sozinha.
 Uma irmã e o cunhado garantem-lhe o sustento.
Vejo-a muitas vezes a dar de comer aos pombos.
 Recentemente tirei-lhe uma fotografia. Nem me viu. Ainda é uma mulher bonita.Com os cabelos completamente brancos. Usa sempre um chapéu.
 Não fala, não vive. 
Continua a olhar para longe.
 Da mesma maneira que a recordo no dia em que saltou para o rio.
Não mais esquecerei aqueles minutos.
 Senti necessidade de escrever esta história de vida. Para lhe pedir desculpa…
 Julgo que o empregado dos armazéns junto ao rio que a salvou…já partiu. Também lhe quero agradecer.
Agarrou-a nesse dia longínquo.
 E já passaram mais de 50 anos. 
Mas a mulher sem o “seu” amor… não mais quis viver.

Amanhã estará no sítio do costume a dar de comer aos pombos.
Bem me apetecia passar por perto e dizer-lhe alguma coisa.
Mas o quê? 
Há-de ocorrer qualquer coisa...
Até sempre!
JERO

quarta-feira, 20 de junho de 2012

M - 423 O VENDEDOR DA PROVÍNCIA


O VENDEDOR DA PROVÍNCIA
Num serão caseiro vi recentemente no canal “Hollywood” um filme que tinha como protagonista um vendedor de facas e artigos congéneres.
Os seus métodos de trabalho fizeram-me recordar um vendedor com quem tive o privilégio de trabalhar no início da minha carreira comercial, onde comecei “miúdo” assustado e acabei, 32 anos depois, como sénior experimentado.
O tal vendedor que hoje vou recordar era o “agente da Província”. Tinha a responsabilidade de todo o território de Portugal continental, com excepção das zonas de grande Lisboa e Porto.
Nos anos 70 não existiam as auto-estradas que hoje atravessam o “solo pátrio” por todo o lado e uma viagem para visitar clientes do norte ou do sul do País obrigava a uma estadia de uma ou duas semanas. O viajante da Província vinha a casa – na região de Setúbal - ver a família duas vezes por mês.
Era um trabalhador infantigável e tinha a confiança total dos seus clientes. Quase se pode dizer que, em termos comerciais, ”mandava” em casa do cliente.
O que recomendava como “novidade” era o que o cliente encomendava.
Acompanhei-o n’algumas viagens e ficava espantado como ele era recebido em casa dos clientes. Era uma festa.
Se houvesse estômago para 2 almoços e 3 jantares diários era o que o F.M.Antunes e o “miúdo” da Fábrica tinham que consumir. Cada um, está bem de ver!
Numa viagem de trabalho ao Algarve – no intervalo das visitas aos clientes – o Antunes conduzia-me às pastelarias onde era bem conhecido e encomendava: um café e dois bolos. Para cada um!
Foi por essa e por outras que em poucos anos passei de 80 quilos para um número que não confesso, mas que esteve muito perto dos 3 dígitos…
E tive que arrepiar caminho.
Mas não esqueço as visitas de norte a sul de Portugal com o vendedor da Província.
Os anos passaram.
 O vendedor F.M.Antunes, que fazia longas viagens sozinho, fumava que nem uma chaminé. Não gastava fósforos. Acendia os cigarros uns nos outros…
Um dia sentiu-se mal e resolveu ir ao médico na cidade onde estava, que era Coimbra.
Depois de auscultado respondeu ao inquérito do médico.
- Você fuma muito, não?
-Uns 4 ou 5. Por dia.
-Vá lá. Pensei que era mais.
- 4 ou 5 maços por dia, senhor doutor!
- Oh sua besta. Ou você muda de vida ou escusa de me voltar a entrar pelo consultório dentro.
Não tenho a certeza mas julgo que o Antunes quando me contou esta história de vida me falou num Doutor Bruto da Costa.
O F.M.Antunes que tinha resposta na ponta da língua para tudo confessou-me que daquela vez ficou mudo e quedo…
E veio de novo para a vida e para a estrada.
Mas deixou de fumar cigarros…
Passou a fumar cachimbo e…cigarrilhas!
Já não o vejo há bastante tempo.
Aposentou-se e continua a viver na região de Setúbal.
A vida dos vendedores mudou muito.
Com as modernices que entretanto se instalaram na vida –desde telemóveis a e.mails - já não há tempo nem necessidade para muitos e repetidos almoços comercias.
São os novos tempos.
Ainda hoje me dá vontade rir a ida ao médico em Coimbra (- 4 ou 5 maços por dia!- Oh sua besta não me volto a entrar por aquela porta).
Mas as recordações dos velhos tempos ficaram.
E, como os menos jovens sabem, não há nada tão bom como …os velhos tempos.
JERO




quarta-feira, 13 de junho de 2012

M - 422 MIÚDOS ESPECIAIS


PEDRO, O FUGITIVO

Apesar de reformado tento manter-me vivo... Vou a todas (ou quase…)!
 Na Universidade da Vida cursei “cidadania” e participo activamente nas “coisas” da minha terra. Já estive na direcção de variadas instituições.
Na Liga dos Combatentes, nos Bombeiros, no Clube de Natação, na ADEPA (defesa de património), no Armazém das Artes (fundação cultural), na AMA (associação de amigos do Mosteiro de Alcobaça), na Fundação Maria Oliveira (apoio a idosos) e no CEERIA (educação especial).
A história (com)vida de hoje tem como protagonista um jovem desta última instituição, fundada em 1976.
À data da sua fundação, o CEERIA procurou fundamentalmente ser uma resposta no âmbito da Educação Especial, acolhendo crianças e jovens que, dadas as suas características, possuíam necessidades especiais de educação, que não poderiam ser supridas no ensino regular. 
O Pedro, o jovem da fotografia com camisola de riscas, “assentou praça” na instituição com apenas 2 anos de idade. Hoje tem 20. Desde miúdo que, sempre que podia, se escapava da sala onde devia estar. Conquistou sem dificuldades de maior a alcunha de “o fugitivo”.
 Num jantar de Natal, que teve lugar há uns 2 ou 3 anos , foi meu parceiro de mesa. A certa altura peguei numa esferográfica e comecei a desenhar-lhe num pulso um relógio. O Pedro delirou com a brincadeira e fui acrescentando pormenores até parecer um relógio a sério.
Terminei o meu mandato e passei a visitar a instituição com menos regularidade.
Reencontrei-me como Pedro há dois dias atrás. A instituição fez uma arruada, para promover uma “semana aberta” de actividades e eu aproximei-me para cumprimentar os amigos e tirar umas fotografias.
Logo que me viu o Pedro sorriu e apontou para o pulso, onde eu tinha desenhado o “tal” relógio ,que tanto o divertiu numa ceia de Natal. Já não o via desde então.
Fiquei sem palavras e quando eles passaram tive que limpar com a mão uma lágrima “fugidia”…
Estes miúdos são mesmos especiais. Marcam-nos para a vida inteira…
Nunca mais vou esquecer este momento do meu amigo Pedro. "O Fugitivo".
JERO






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