segunda-feira, 28 de maio de 2012

M - 416 DOIS TEMPOS


A MEMÓRIA

Entrei pela primeira vez no Mosteiro de Alcobaça na Primavera de 1945. Confesso que nessa altura não apreciei devidamente a beleza gótica da Igreja, até porque ia adormecido ao colo da minha mãe.

Creio que acordei na Sala dos Reis quando a água benta me correu pela cara e talvez tenha chorado perante o trio impassível de Afonso Henriques, Alexandre III e São Bernardo.
 Que não me ligaram nenhuma.
Depois os meus pais, os padrinhos e um, penso eu, pequeno grupo de amigos, não me lembro de nenhum, voltamos para o patim barroco da Igreja de onde me disseram havia uma agradável vista sobre um lindíssimo jardim cheio de relva, bucho, árvores e empedrados, azuis e brancos, tudo maravilhosamente colocado.
Carros havia muito poucos.
 Mas o “oldsmobile” cor de vinho (um” must”) do meu avô lá estava esperando por nós.
 Contaram-me mais tarde que o senhor Campeão, da Pharmácia, me veio beijar a testa antes de entrarmos para o carro.
Contaram-me também que houve um almoço lá em casa onde a grande iguaria, eu diria uma delas, foi uma canja de galinha com pequenos ovos da dita, e uma pata para dar mais gosto. Que regalou o meu avô Leonardo.
A guerra de 39-45 não terminara e havia ainda racionamento, mas, lá em casa, no quintal, ali onde o Baça entra no Alcoa, viviam coelhos, galinhas e patos para além de crescer farta horta.
 E haver um forno para coser pão.
A última vez que entrei no Mosteiro tinha 99 anos e ia dentro de uma urna de cinzas em ouro, coroada por uma esmeralda, levada pelo meu bisneto Martim, de 15 anos.
Como imaginam também, por evidentes razões, não pude apreciar o monumento, mas sei por onde andei, antes de serem lançadas da Torre Norte, a do relógio mecânico, que sempre me fascinara desde que havia sido Director do Mosteiro no início do sec. XXI.

Nesse tempo, foram apenas três anos, olhei várias vezes o edifício para o ver e insisti para que outros o vissem.
 Mas a verdade é que tudo é breve e efémero e que a única coisa a fazer é preservar a memória tão pura quanto formos capazes de  guardar para a transmitir, para que outros a interpretem a seu saber. 
Por nisso não estraguem, aprendam e trabalhem com cuidado.

Rui Rasquilho

M - 415 UMA HISTÓRIA conVIDA


Vocês aí a comer e o meu tenente a morrer!
Esta história “conVida” aconteceu há mais de 50 anos. Mais propriamente ao longo ano de 1961.
Tem a ver com o início da guerra em Angola.
Como disse então o primeiro-ministro Oliveira Salazar “rapidamente e força para Angola ”.
E assim aconteceu. O governo da Nação respondeu prontamente enviando tropas em defesa da Província Ultramarina.
O tenente de Infantaria Tomé Pinto tinha casado em Janeiro.
 Um mês depois foi mobilizado. 
Embarcou no “Niassa” integrado no CCaç.129, que pertencia ao Batalhão 155, em Maio de 1961.
 A alvorada do dia 28 de Maio de 1961 teria sido igualzinha a tantas outras, não fosse a circunstância de ser o dia previsto para o segundo grande embarque de tropas para Angola no N/M NIASSA, a partir do Cais de Alcântara, em Lisboa.”                        
   O “Niassa” abarrotava de militares de farda amarela que, em 12 de Junho, logo após o desembarque em Luanda, desfilaram pelas avenidas da capital da maior Província do Império Português.

Foi um desfile emocionante saudado por milhares de civis que aplaudiam as tropas que marchavam com garbo. Lisboa continuava a mandar tropas para defender Angola.
Os militares do Batalhão 155 estiveram cerca de um mês em Luanda. Depois de alguma adaptação aos “ares” de Africa … receberam ordens para seguir para o Norte.
Tinham como principal missão fazer uma manobra de envolvimento à zona onde tinham decorrido os duros combates de Nambuangongo.
A coluna militar incluía viaturas civis pois as do Exercito não chegavam para transportar o contingente “amarelo”.
 “O transporte das companhias era feito tendo por base jipes Willes MB 4×4 mod. 1944, “jipões”Dodge 4×4 mod. 1948, camiões GMC 6×6 mod. 1952 e Ford mod. Canada 4×4 (rodado simples).
É oportuno recordar aqui que os militares seguiram armados com “Mauser”. E com camas desarmadas para montar quando “aquartelassem”.
Seguiram para a zona do Negage, Quitexe, Songo e Nova Caipemba.
Percorriam de 200 a 300 Km por dia tentando “apagar fogos”, sempre que era caso disso.
Quando a noite chegava a coluna estacionava, fazia-se a segurança e dormia-se debaixo das viaturas.
Um bocado de capim, coberto por uma lona, servia de colchão.
E tempo de entrar nesta história o “Marra”, que era o condutor da viatura onde seguia o nosso jovem tenente Tomé Pinto. Que contava então 25 anos.
O “Marra”, originário da região de Viseu, era um militar generoso, inteiramente dedicado ao seu tenente, e com uma razoável dose de “maluqueira congénita”.
Para ganhar uma ou duas cervejas da “Cuca” era capaz de agarrar os bornes da bateria da sua viatura com o “seu” carro a trabalhar.
Antes que caísse para o lado as suas desmioladas façanhas foram “interrompidas” pelo seu Tenente . Que o recorda com muita saudade e apreço: “era capaz de concertar qualquer motor”. E fazia a preceito a “cama de capim” do oficial de que era ordenança.
Como estava organizada a Companhia 129?
Um capitão (de nome Albuquerque), um tenente (Tomé Pinto), três alferes, sargentos, cabos e soldados.
E o inimigo?
Não se via. De vez em quando uns tiros ao longe e… pouco mais.
A CCaç. 129 chegou a região de Quizabala, onde se viria a instalar por alguns meses. Tinha sido nesta região que tinha começado o terrorismo em Angola em Marco de 1961.
"Em 15 de Março de 1961, um bando de terroristas da UPA (mais tarde denominada FNLA) chacinaram centenas de portugueses à catanada, homens, mulheres e crianças, da forma mais vil e cobarde”.
Todas as pontes estavam destruídas.
Uma das viaturas da coluna-auto transportava pranchas de ferro que serviam para “passar” os rios nos locais onde as pontes tinham sido destruídas.
E que armas tinha o inimigo?
Catanas, canhangulos, e uma ou outra arma de precisão - “carabinas” herdadas de caçadores de caça grossa -. Também haveriam algumas pistolas-metralhadoras!
Na altura já então era lendário um atirador do inimigo, com provas dadas como o temível caçador de homens. Era conhecido como “o caça alferes” .Vá se lá saber porquê…
O jovem tenente Tomé Pinto (na actualidade tenente-general, na reserva) recorda uma família de apelido Poço, da fazenda do mesmo nome, que foi alvo de uma terrível carnificina.
Alguns elementos da família foram mortos à catanada. Nessa e noutras fazendas da região crianças, mulheres e homens foram chacinados.  Novos e velhos, brancos e pretos, tudo o que mexia…
-“ Os guerrilheiros, nestes primeiros meses de guerra, acreditavam na ressurreição: mesmo que fossem mortalmente atingidos voltavam a viver – só morriam se lhes fosse amputada parte importante do corpo. “

A população nativa tinha desaparecido.
Andavam-se quilómetros e quilómetros sem ver viva alma.
Mas sorte diferente teve uma companhia ”irmã” que tinha também embarcado no navio “Niassa” na viagem iniciada em 28 de Maio de 1961.
Numa deslocação em zona bastante acidentada, quando os seus homens circulavam numa “picada” no meio uma floresta fechada, foram atacados a “mão” e as consequências foram terríveis.
Quando as nossas tropas reagiram a tiro de “Mauser” já muita gente estava seriamente ferida. Foi um banho de sangue. Quinze dos “nossos” já não responderam à chamada. Quinze mortos a catanada !
O inimigo terá tido bastantes baixas depois da reacção da nossa tropa mas a consequências para a CCaç. 115 foram muito pesadas.
A CCac. 129 continuava a sua acção na zona dos produtores de café e os contactos com o inimigo continuavam a ser esporádicos.
Um dia depararam com uma cena macabra numa picada próximo  de São José do Encoje (região dos Dembos).
As nossas tropas encontraram um nativo morto(talvez um ex-trabalhador de uma das fazendas da região) amarrado a uma cadeira no meio da picada, com um dístico ao peito: “tugas vão-se embora”.
Enterrou-se o morto e quando regressvam para as viaturas...
ouviu-se um tiro, seguido de algumas rajadas de pistola metralhadora. Seriam umas 11 horas da manhã.
O tenente Tomé Pinto que seguia então dentro de um jipão, com o capitão Albuquerque ,sentiu de repente uma queimadura no rosto.
Quando levou a mão a face já “tudo” era sangue.
Foi de imediato assistido no local pelo cabo enfermeiro Leonel.
O aquartelamento ficava a cerca de 3 horas de caminho.
Começou aí “o dia mais longo” da vida do jovem tenente Tomé Pinto.
Chegados ao aquartelamento pediu-se a evacuação do ferido por helicóptero. Mas só havia um e estava em Luanda, a 850Km de distância. E não estava disponível.
A solução possível no momento era seguir para o hospital de Carmona (Uíge).
Deitado numa maca seguiram-se 7 horas de viagem num jipão.
A seu lado deitaram-se 2 soldados para evitarem que o ferido se mexesse na maca.  Esse militares fizeram de “almofadas laterais” de forma espontânea e voluntaria na “ambulância” improvisada.
.Em Carmona o médico que o atendeu, diagnosticou uma fractura no maxilar esquerdo e o palatino “furado”.

Já próximo da cidade de Carmona o tenente Tomé Pinto continuava consciente e com o seu próprio sangue “escreveu” na lona da maca onde seguia :- “Frio”.
“Aguenta”, disse o médico da Companhia. “Aguenta”.
A mensagem – “ frio” - era o prenúncio de estado de choque, um sintoma pouco animador.
Em Carmona fizeram-lhe transfusões de sangue, que todos os soldados da CCaç. 129 fizeram questão de dar.
O “nosso” tenente recorda-se de, durante a noite, ter visto sempre a volta da sua cama militares com as espingardas “Mauser” a tiracolo.
Chegou o dia seguinte e uma boa nova.
Havia a possibilidade de evacuação de avião para Luanda.
Seguiu para o Negaje num avião “Tiger”.
Aí apareceram-lhe um médico e um capelão. Que lhe “ofereceu” a extrema-unção. Com um sinal de mão deu o seu “ok”.
Com os seus botões pensou:-Porque não?
Depois meteram-no num barracão onde ficou só com o cabo enfermeiro Leonel que nunca o largou. Todo o tempo.
Sentiu que estava a piorar. Teve uma sensação de abandono. Por sinais pediu ao Leonel um papel e uma caneta. Sabe que escreveu qualquer coisa de que já não se lembra. O Leonel ficou assustado e correu esbaforido para a messe dos oficiais. De cabeça perdida entrou sem pedir licença e gritou: “Estão todos aí a comer e está o meu tenente a morrer”.
Depois de um silêncio… vários oficiais levantaram-se e deslocaram-se ao barracão para ver o ferido. Alguns tinham sido do seu curso na Academia Militar e reconheceram-no de imediato: “olha o Tomé Pinto”.
 As coisas melhoraram.
 O Leonel mostrou-lhe mais tarde o papel onde pensava ter escrito algumas palavras de socorro. Só tinha feito um risco. Não tinha qualquer palavra escrita.
O tenente Tomé Pinto resistia a todas as ordens de quem lhe queria mexer nas feridas do seu rosto. Nem queria morfina para atenuar as dores. Tinha a noção de que não resistiria se lhe voltassem a mexer na cara. Se as feridas “ abrissem” perderia o resto do seu sangue. As horas iam passando lentamente…
 E lá chegaram os dois aviões “DO”. Chovia muito.
 O pequeno avião onde foi embarcado o nosso tenente borregou duas vezes. A terceira tentativa levantou vôo. 
Seguiam na avioneta o piloto, o tenente Tomé Pinto, na sua maca, e o cabo enfermeiro Leonel.
 A segunda “DO” levantou vôo à primeira tentativa.
E dois aviões porquê?
Por uma questão de segurança. Não nos podemos esquecer que estávamos em 1961 e que as condições meteorológicas eram muito más. Se um dos aviões caísse o outro balizaria a sua posição para que os seus ocupantes fossem socorridos. Chegaram a Luanda ao anoitecer, depois de três horas de vôo. O cabo Leonel não se calou durante todo o tempo e foi mantendo acordado o seu tenente. “Já se vêem as luzes de Luanda”. O hospital estava perto. Chegaram. O tenente Tomé Pinto lembra-se de ter pensado: “ estou safo”. Seguiu para uma sala de tratamentos intensivos. Estava esgotado mas continuava atento. Tinham passados quase dois dias… Só então se deixou adormecer. Tinha conseguido chegar até ali devido a uma enorme vontade de viver. A primeira noite no hospital foi passada com muitas dores.


 Seguiram-se mais quatro ou cinco noites bem compridas…e mal dormidas.
 Pensava na sua jovem mulher em Lisboa. Que nada ainda sabia. Tinham casado em Janeiro de 1961. O jovem tenente tinha embarcado para Angola em Maio. E estava agora no hospital em Novembro. Dez meses de separação e de muitas angústias.
 Quinze dias depois de dar entrada no hospital de Luanda regista acentuadas melhoras e está em condições de ser evacuado para Lisboa. Nessa altura já falava e dava algumas passadas.
Voa de Luanda, deitado numa maca e… chega finalmente a Lisboa e ao Hospital Militar Principal, ficando internado no pavilhão da Avenida Infante Santo.
 O reencontro com a família foi muito emotivo.
A recuperação fazia-se em bom ritmo e… deixaram-no ir passar o Natal desse ano (1961) à sua aldeia natal. Maçores, perto de Torre de Moncorvo, em Trás-os-Montes.
Viajou com a sua mulher de comboio de Lisboa até ao Pocinho. Quando chegou ao seu destino tinha a “aldeia em peso” a recebê-los.
Não mais o esquece.
Houve depois uma missa extraordinariamente participada. Ainda hoje recorda o discurso que o senhor Albano Mendes ,que era então uma figura grada da freguesia, fez em sua honra. Também as palavras proferida por Maria do Céu, uma sua colega da escola primária, o sensibilizaram bastante.
 Depois da missa toda a gente o acompanhou a casa dos seus pais. Regressou passados uns dias a Lisboa e ao hospital.
Melhorou ,e passados que foram cinco meses, está como “novo” e… volta a Angola. Pediu para ir visitar os militares da sua companhia (a CÇac. 129), o que lhe foi concedido. Quando chegou… foi recebido com entusiasmo pelos seus. Esteve dois ou três dias com os seus homens. Ainda se ofereceu para ir a uma “operação” no mato, mas não o deixaram ir. Recorda dessa breve passagem pela CCaç. 129 a presença da mulher do Alferes Miliciano Domingos. Quando este saía para o mato a “Mariazinha” sentava-se numa cadeira e aguardava horas e horas sem dizer uma palavra. Era a imagem da angústia e do sofrimento.
Seguiu então para Nova Lisboa, já então como capitão. Fez depois uma “escola de cabos” com tropas nativas. Foi também o “oficial de operações” na zona até ao final da sua comissão.

 Na zona onde esteve até ao final da comissão não havia “guerra”. Ia-se beber um café a Luanda (700Km) ou comer uma lagosta a Lobito (400Km). Vivia-se bem e o ambiente era extraordinário. Acabou a sua comissão em Junho de 1963. Regressou ao continente e foi colocado em Mafra. Onde começou um novo capítulo da sua carreira. Foi nomeado director do curso dos novos aspirantes da Academia Militar, a quem tentou passar a sua experiência nos poucos meses em que esteve com eles. Em Janeiro de 1964 já estava em Évora a preparar uma nova companhia. Que veio a ser a CCaç. 675 e que ,em Maio desse ano, rumou para a Guiné. Mas essa é outra história…
Depois da comissão da Guiné volta novamente a Angola como Oficial do Estado Maior (1972-74).
-  “Africa é uma terra de feitiço e o africano é generoso”.
E hoje?
- “Vivo na cidade. Mas não sou um citadino”.
Porque é (será ate morrer) transmontano. E o transmontano sente-se bem em todo o mundo.
 Actualmente, com 76 anos de idade, anda a plantar árvores em Maçores, sua terra natal. Já plantou 2500 oliveiras.
E o cabo Leonel?
- “Mora em Bucelas-Loures. Ainda há quatro anos me safou de outra. Tive uma operação marcada a um joelho em mau estado e ele tratou-me. É massagista no clube de Bucelas. Mas já foi massagista do Sporting Clube de Portugal e da Selecção Nacional de Juniores.”
Faz uma pausa e, lentamente, refere:
-“Devo-lhe a vida”.
E a sorrir repete: “Vocês aí a comer e o meu tenente a morrer... “
 - “Só mais tarde soube desta frase do Leonel - que nada me disse na altura em que a proferiu - por um oficial que estava na messe de Negaje.»
Passaram 51 anos.
JERO

M - 414 NO JARDIM DA GAFA HÁ SETENTA ANOS...

 MEMÓRIA DE 40





Pode parecer estranho aos mais jovens mas esta foto é a reprodução de um postal da década de 40 onde, por feliz acaso, estou eu, a minha mãe e uma jovem desconhecida.
 Ora como nasci em 4 de Abril de 1940 e na foto já me equilibro de pé presumo que o postal será de 1942 , ou perto.
O "espaço" é o do jardim frente à Câmara Municipal de Alcobaça.
Por sinal com "evidências" de estar muito bem cuidado.
Ainda me lembra destes de bancos de jardim e de uma grande queda de bicicleta neste local quando já tinha uns 10 ou 11 anos de idade. Armei-me em "bom" e estendi-me ao comprido...
Aquela velha história: Olha pra mim ...sem mãos, sem pés...sem "dentes"! Velhos tempos...
JERO
RETOMA
Quem muitos ...toca ...algum fica para trás. Ficou o blog em "favor" do facebook! Assumo o "pecado" e vou tentar "entremear".
Está feita a declaração de intenções.
Vamos à vida.
JERO

sexta-feira, 30 de março de 2012

M - 413 O RIO

O RIO

No Natal de 1550, no tempo do Abade Comendatário Cardeal D.Henrique, o Rei D.João III escreveu a Miguel Arruda, Mestre de Obras Muros e Fortalezas do Reino, sobre a necessária mudança do leito do rio para que houvesse obras de ampliação do Mosteiro para nascente.
A carta mostra alguma hesitação entre o desvio do rio ou da sua continuidade passando as águas pelo meio da obra. Obviamente que a decisão do arquiteto foi o de fazer como está hoje, desviando-se o curso das águas que viria a chamar-se Alcoa já no séc. XVIII.
Arruda já não participou desta empreitada, que será feita dezasseis anos depois.
O desvio fez-se entre 1566 e 1567, imediatamente antes da fundação da Congregação Independente de Alcobaça e durante a regência de D. Catarina de Áustria.
A fachada Filipina de Alcobaça ,coroada pela estátua do mecenas fundador do Mosteiro, D.Afonso Henriques, conclui-se em 1632 no tempo de Filipe III ,já com o rio bem domesticado.
Em 1665 é lançada a primeira pedra do edifício norte do Claustro Rachadouro, reinava D.Afonso VI, para albergar oficinas, celas, botica e capela da enfermaria.
Nos anos 70 do sec. XVII as obras deste edifício que ladeiam a Rua D.Pedro V são concluídas, ficando este último e o maior dos cinco Claustros hoje existentes, sem fechamento a nascente e a sul, daí o seu nome, Rachadouro, ou seja, abertura.
Durante o sec.XVII são construídos a Capela-Relicário, o Retábulo da morte de São Bernardo e Capela do Desterro. A Levada é reparada, o rio com o curso domado aumentará os moinhos de Chiqueda, do Mosteiro e da Fervença. Na foz do Alcoa é erguida em pedra a ponte das Barcas.
O Altar-Mor da Igreja recebe um novo sacrário de grandes dimensões. O móvel sagrado é em forma de pirâmide assentava em 6 anjos e no seu topo ostentava um pelicano. Só em 1774 será substituído pelo globo com o seu resplendor que conhecemos por fotografia.


O rio, apesar de haver notícias de grandes cheias, foi fundamental para a rega dos campos. As primeiras granjas ficavam na sua margem esquerda, entre Chiqueda, onde se construiu a primeira ponte, e Alcobaça, para a higiene das latrinas e cozinha. Para abluções e serviço da cozinha ,e enfermaria ,a sua força motriz foi usada desde a fundação e naturalmente que a sua história está ligada à cerca natural e ao trabalho dos monges barristas.
Já no sec. XVIII o Jardim do Obelisco, com o seu lago oval bordejado por quatro esculturas clássicas (hoje no Claustro do Cardeal) e as três pontes barrocas, revestidas a azulejos verdes, fizeram as delícias da Rainha D.Maria I que, com a família e Corte, passou alguns dias no Mosteiro.

Hoje este sistema hídrico está abandonado por pura negligência acumulada há vários anos pelos responsáveis.
Se isto não é uma vergonha que outro epíteto lhe devemos dar?


Rui Rasquilho

quinta-feira, 8 de março de 2012

M-412 UMA NOVA TEORIA SOBRE O CENTRO DO0 MUNDO

Uma nova teoria sobre o centro do Mundo

Como é sabido foram precisos cerca de 1400 anos para a teoria de Ptolomeu –que defendia que a terra era o centro do Universo - ser rebatida por Nicolau Copérnico, provando então que o Sol é que era o centro do dito.
Em passado recente tomei conhecimento de um texto oriundo de terras que Pedro Álvares Cabral descobriu em 1500,em que era adiantada uma nova teoria sobre o centro do Mundo.
E tudo por causa de uma enfermidade que em tempos idos já me atacou. O problema de saúde tem 11 letras e, muitas vezes, só com cirurgia se consegue remediar.
No caso brasileiro, que me serviu de inspiração ,o paciente refere que
 «…foram quase 2 horas de cirurgia e confesso não senti nadica de nada.»
Seguiram-se «… dois dias de hospital.
 Passei bem embora tenham tentado me afogar com tanto soro que me aplicaram, foram litros e litros.
Recebi alta e fui repousar em casa.»
Estamos a chegar à fase mais complicada que me fez recordar os meus tempos da vida militar em Lisboa.
Sofri dores até então desconhecidas na verdura dos meus vinte e poucos anos.
Presentes em 24 horas de cada dia.
Sim porque hemorróidas estão presentes em cada minuto, de cada hora…
durante todo o dia.
Antes de ser medicado a sério sentia que passeava comigo uma brasa, bem metida dentro do meu rabo.
 Quem já passou “por elas” sabe que não há exagero na descrição.
Voltando à descrição do camarada brasileiro, e tendo em atenção o novo acordo ortográfico, rabo passa a ser “cu”.
«…Passados os efeitos anestésicos e analgésicos, vem a primeira vez a dor. Parece que você ta expelindo um croquete de figo da Índia, casca de abacaxi, concha de ostra e arame farpado. É um auto-flagelo.
Obrei de pé, pois sentado achei que o cú ia junto...
Por uns três dias dói tanto que você não imagina uma coisinha tão pequena e com um nome tão reduzido (cú) possa doer tanto. »
E continua a descrição colorida do nosso amigo de além-mar:-
«Passam-me pela cabeça soluções mágicas:
- Usar um ventilador! Só se for daqueles túneis aerodinâmicos.
- Gelo! Só se eu fosse escorregar pelado por uma encosta do Monte Everest.
Para melhorar as idas à privada, recomendaram-me dieta na base de fibras.E foi o que fiz: comi cinco vassouras piaçaba, um tapete de sisal e sete metros de corda. Agora sei o sentido daquela frase: quem tem medo de cagar não come!»
E o camarada da doença “hemorrodoica” termina afirmando:
«…Tudo valeu, agora já estou bem, obrando com manda o figurino, o cú ficou afinado em ré menor, uma beleza!
O grande problema é que usei Modess por 20 dias após a cirurgia e hoje estou sentindo falta dele!»
Obviamente quem chegou até aqui já percebeu onde é que o nosso amigo brasileiro considerava ser o centro do Mundo… após a operação a que foi submetido.
É uma teoria como outra qualquer que eu só em parte partilho…
Pela “partilha” luso-brasileira
JERO













segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

M - 411 ANIMA EST PLUS QUAM CORPUS

ANIMA EST PLUS QUAM CORPUS

A alma é a vida eterna.
A alma emana do corpo, a parte perecível do homem. Daí que os rituais funerários estejam envolvidos num objectivo transcendente de um outro mundo.
A vida é um fragmento transitório para o patamar da eternidade imaterial. Da vida terrena ficará a memória guardada pelos vivos. O culto dos mortos nas diversas culturas é sempre uma tentativa de perenidade, um repositório de lembrança.
Os nossos cemitérios são justamente um território de memória, uma tentativa última de lembrança dos corpos, com os quais convivemos.
A intervenção artística é um dos caminhos seguidos pelos vivos para atenuar o esquecimento, muitas vezes o seu próprio abandono pela memória dos vivos.
Os mausoléus superam as campas rasas , as arcas tumulares coroam a transcendência da passagem redimensionando a mensagem da morte.
Pedro, no seu tormento pela bárbara sentença que lhe levou Inês, solucionou a dor da vida no ritual assombroso do caminho para a eternidade.
Os túmulos, as arcas funerárias são um sinal tentado da perenidade da memória colocados sob o acolhimento do espaço mais próximo da protecção divina, a Igreja do Mosteiro e o seu Cenóbio Cisterciense.
Teria de ser contado o caminho da vida de Pedro, o caminho da vida de Inês. Teria de ser explicada a razão da construção da memória tumular; Fernão Lopes na sua crónica de D.Pedro assinala o desiderato do Rei “porque semelhante amor (…) é tão verdadeiramente achado como aquele cuja morte não tira da memória o grande espaço do tempo (…).”
No painel da cabeceira do túmulo do Rei sob a sua cabeça está a razão última dos monumentos funerários.
Em 1386 consuma-se a memória da vida conjugal na escultura notável da roda controlada pela sorte, pela fortuna, a caprichosa divindade mitológica que controla a felicidade e d desgraça dos pobres mortais.
A divina donzela segura o “eixo” da roda soltando-o a seu prazer. No túmulo de Pedro a fortuna não tem os olhos vendados, nem segura uma cornucópia como nas representações humanas.
O que a torna aqui mais consciente das suas decisões durante a vida de Pedro com Inês o destino que dá o destino que retira.
Concentra-se no indelével registo da vida amorosa dos defuntos “Príncipes” amantes. Rei destemperado, sentença cruel, bárbara execução da mãe dos filhos de Pedro. O avô intransigente, o rei “viúvo” vingando a afronta agora de lesa-majestade por Inês ser rainha.
A história que se pretende legar à memória dos vivos está nesta roda controlada pela “mulher destino” ,que emana de um ser estranho para controlar a vida de um rei bárbaro e da sua sedutora rainha morta.
Esta história real ultrapassa a de Abelardo e Heloisa e outras de raiz medieval por ser mais claramente trágica, por ser arrebatadora quando olhada no seu conjunto, quando compreendida no seu contexto.



Sugiro aos nossos leitores uma visita à igreja gótica de Alcobaça e a dois demorados olhares, um à roda da cabeceira de Pedro, outro ao jacente de Inês.
No primeiro olhar a vida tal qual Pedro a quis contar, no segundo olhar Inês no esplendor de mulher amada tal qual Pedro desejou que a víssemos.
O que na vida se faz pela impotência perante o seu fim é verdadeiramente extraordinário.
Aclame-se então a morte com a comemoração da vida, ficamos muito mais contentes e julgamos ludibriar a Fortuna.
É esta a lição dos túmulos de Pedro e Inês. Perante a morte erga-se o coração dos vivos.


Rui Rasquilho.