segunda-feira, 12 de outubro de 2009

M55- 176 ANOS DEPOIS


Fundação Cisterciense Colégio Nossa Senhora da Conceição
A escritura pública de constituição da Fundação Cisterciense Colégio Nossa Senhora da Conceição foi assinada em 9 de Outubro corrente, dois dias antes das eleições autárquicas.

Um discurso com história
Para memória futura registamos o discurso do José Gonçalves Sapinho, no que poderá ter sido o seu último acto público como Presidente da Câmara de Alcobaça.
«1-Ensino Superior em Portugal
Está comprovado que a actual Universidade de Coimbra foi, durante séculos e até ao início do século XX, a única Universidade existente em Portugal. Que é das mais antigas Universidades Europeias, é outra realidade facilmente demonstrada.
É um dado Histórico que a actual Universidade de Coimbra teve a sua génese na Petição dirigida ao Rei e ao Papa, para a criação do Ensino Superior em Portugal.
Está assente que, tal PETIÇÃO, teve como primeiro Subscritor o Abade do Mosteiro de Alcobaça, secundado, curiosamente, pelo Prior de Santa Cruz de Coimbra, e por outros dignitários de Mosteiros e Ordens Religiosas.
A iniciativa pertenceu, assim, ao Abade deste Mosteiro, homem influente, a nível do Reino, e não menos importante, junto do Papa. Lembremos que, na sequência da Fundação do Mosteiro, elo importante na consolidação da Independência Nacional, nada de importante se decidia no reino, sem que passasse por Alcobaça. É, com este poder, e esta força, que surge a PETIÇÃO, liderada pelo Abade de Alcobaça. É, ainda, o Mosteiro que participa na sustentação da Universidade, com meios humanos e financeiros. O papel do Mosteiro, face à Universidade, não se fica por aqui. A exigência da qualidade e o aumento salarial dos Docentes passam, também, em determinada fase, pelo Mosteiro. A Igreja, através das instituições várias, constituiu-se em motor e dinamizador da Universidade.
2-Alcobaça e Coimbra
A ligação de Alcobaça a Coimbra e à Universidade, é, assim, um elemento indestrutível.
Curiosamente, Alcobaça e Coimbra são, também, cúmplices e palcos da mais bela e autêntica História de Amor, que pelo realismo, pela brutalidade e pela determinação dos amantes, empalidecem Tristão e Isolda, e Romeu e Julieta.
Dois acontecimentos de natureza diferente unem Alcobaça e Coimbra.
O cimento da nossa existência passa pelo que somos, pelo que fomos e como fomos, e também pelo que queremos ser.
Que melhores parceiros para projectar o nosso futuro, do que a Universidade de Coimbra e a Universidade Católica Portuguesa? Que melhor para Alcobaça do que juntar, no mesmo projecto, estas instituições, herdeiras de um passado muito rico e único.
3-Colégio Nossa Senhora da Conceição
Mas vamos ao Colégio Nossa Senhora da Conceição, que é, hoje, o centro desta cerimónia.
Decretada a sua fundação em 1648 (Oito anos após a restauração da Independência), a sua actividade como Escola de Ensino Superior, que concede diplomas de igual valor aos concedidos pela Universidade, inicia-se em 1651.
O terramoto de 1755 provoca o seu encerramento.
O Colégio é refundado (2ª fundação), recomeçando a sua actividade em 1759, funcionando, ininterruptamente, até 1833, ano da fuga dos Frades, na sequência das lutas liberais, e por opções políticas desacertadas do tempo que passava. Em 1834, o Ministro Joaquim Augusto de Aguiar aprova o Decreto de extinção das Ordens Religiosas. Feitas as contas pode concluir-se que o Colégio Nossa Senhora da Conceição funcionou durante 176 anos.
4-176 anos depois…a 2ª.Refundação
Como curiosidade, vale a pena referir que desde a sua extinção até hoje decorreram, também, 176 anos.
Assim sendo, e forçando a nota, estamos, hoje, perante a 2ª Refundação para durar, no mínimo 176 anos.
Constatada esta curiosidade, e tentando fundamentar o espírito que nos anima, estamos mesmo a dar início a uma nova era, com a convicção de que a vida não vai ser fácil, de que há muitas dificuldades a vencer e que elas serão vencidas, se os homens e as instituições quiserem.
O facto de a Universidade de Coimbra ter compreendido esta ligação histórica, de a ter valorizado, teve como consequência a celebração, há 10 anos, de um Protocolo com a Câmara Municipal, que veio a dar origem ao Centro de Estudos Superiores da Universidade de Coimbra, em Alcobaça.
Sei que há quem desvalorize este facto. Sei que há quem pense que criar, hoje, uma escola de Ensino Superior é tarefa ao alcance de qualquer Município. Isto só é possível no domínio da demagogia. Perderam-se, no passado, oportunidades de ouro para termos Ensino Superior em Alcobaça. Mas não vale a pena encontrar culpados, nem chorar sobre o “leite derramado”. É um dado objectivo que não foi criado e é, também, um dado objectivo que a tarefa em que, hoje, nos envolvemos é, no mínimo, muito complexa, direi, mesmo, ciclópica.
Só com a coragem e a determinação da Universidade de Coimbra, que se empenhou e empenhou o seu prestígio, foi possível a Criação do referido Centro. E é bom lembrar que aqui têm funcionado actividades culturais, colóquios, lançamento de livros, cursos de curta duração, Pós-graduações e Mestrados. E esclarecer que as Pós-graduações e os Mestrados já vêm publicados no Diário da República, com a estrutura dos cursos, os Numerus Clausus e a forma de concorrer, tudo com a assinatura do Centro de Estudos Superiores da Universidade de Coimbra, em Alcobaça.
Foi necessário seguir este caminho, porque o Governo de há 10/11 anos proibiu, de todo, a proliferação do Ensino Superior Público e Privado, e a criação de Pólos.
Não sendo possível, nem desejável afrontar a Lei, a Universidade de Coimbra ao criar o Centro de Estudos prestou um inestimável serviço a Alcobaça, com olhos postos na História.
5-Alcobaça é Alcobaça
Como dizia, então, um Presidente do Conselho Científico de uma Faculdade, se perguntarem porquê Alcobaça, a resposta é simples, é que Alcobaça é Alcobaça…. A riqueza desta asserção é inalcançável.
Aqui chegados, com o aval da Universidade de Coimbra, repito, é, também, a mesma Universidade que sugere a instituição de uma FUNDAÇÃO para dar corpo Institucional à relação entre Alcobaça e a Universidade de Coimbra.
Por isto, estamos muito gratos ao Magnífico Reitor e à Reitoria da Universidade de Coimbra, pelo impulso que dá a esta acção da Instituição da “FUNDAÇÃO CISTERCIENSE COLÉGIO NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO”.
E não é difícil prever que no espírito deste impulso, está subjacente a vontade de ir mais além, se e quando as circunstâncias o aconselharem.
Não é por acaso que a Universidade está, aqui, hoje, connosco, representada pelo seu máximo responsável, o seu Magnífico Reitor. Quero agradecer-lhe, a forma afectuosa e rigorosa com que se tem empenhado no nosso projecto e a elegância com que, sempre, me tratou. O Presidente da Câmara Municipal de Alcobaça está muito grato, em nome do Município, pelo percurso até hoje percorrido.
Há razões para ter esperança de que alguma coisa pode mudar.
Desde hoje, através de uma nova Filosofia de Reutilização do Mosteiro.
Há, hoje, propostas objectivas e estudos realizados, com o aval e conhecimento do, ainda, Ministro da Cultura. Não cometo perjúrio, nem me deixo guiar por miragens, se disser que não está longe o tempo em que vai ser possível o Ensino Superior entrar, não no Colégio Nossa Senhora da Conceição que foi demolido, mas no Mosteiro.
E a esperança também passa pela variedade de ofertas que as escolas de Ensino Superior associadas a este projecto, possam vir a implementar.
6-Adesões
Seja a Universidade de Coimbra, por tudo quanto já foi dito, seja a Universidade Católica Portuguesa, que com o seu prestígio Nacional e Internacional, pode trazer inovação, versatilidade e dinamismo m áreas para que tem especial apetência. Dentro do contexto político e educativo em que vivemos, que melhor poderia acontecer a Alcobaça do que vermos a Universidade Católica Portuguesa aderir, e empenhar-se neste Projecto e ver o Magnífico Reitor entusiasmado com a iniciativa? Saúdo a Senhora Vice-Reitora da Universidade Católica Portuguesa, Sr.ª Prof.ª Doutora Maria Luísa Geraldes Barba.
Todos podemos sonhar mais e melhor, mas este acontecimento é uma bênção se soubermos acarinhá-lo e não quisermos ser apressados em soluções que necessitam de tempo e de condições. Não é amanhã que tudo vai acontecer, mas será noutro amanhã que tudo acontecerá.
Não é por acaso que a Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva está connosco. Instituição altamente prestigiada, em áreas de Formação e Ensino, vem trazer ao Projecto uma MAIS VALIA especializada. O seu Presidente, Dr. Luís Calado, aderiu, desde logo, a esta iniciativa, facto com que nos congratulamos, sobretudo porque acredita que as expectativas se vão tornar realidade.
A todos quantos aderiram a este Projecto, a nossa gratidão.
Razões várias determinam as adesões.
A Santa Casa da Misericórdia de Alcobaça, pelo carácter mutualista do seu projecto e por ser, por ventura, a mais antiga Instituição de Alcobaça. Grato à Mesa Administrativa, e, em especial, ao Sr. João Carreira.
A Cooperativa Agrícola, pelo espírito do Cooperativismo e pela vontade inabalável de vencer, após um período de profundas dificuldades. É um símbolo do sucesso. Ao Dr. Manuel Castelhano e à sua Direcção, com destaque para o Sr. Leonel Branco, o nosso reconhecimento.
O Turismo, representado pelo Pólo Turístico do Oeste, e que só é possível pela clarividência do seu Presidente, Dr. António Carneiro, pelo PINHAL ATLÂNTICO GOLFE, aqui representado pelos Senhores José Manuel Carrilho e Albino Costa, projecto privado que constitui uma das importantes apostas do Município e pelo Ecoparque dos Monges, que pretende recriar, num projecto ambicioso, a vida e o tempo dos Monges de Cister. Grato à clarividência do Sr. Alexandre Alves.
A Academia de Música, projecto inovador, de sucesso, na área das Artes vai participar nas nossas ambições, pela mão do Sr. Dr. Rui Morais.
Investidores no Concelho, como são o caso da Mota-Engil Serviços e da Nova Alcobaça, protagonista de um projecto de grande fôlego urbanístico, representada pelo Sr. Eng.º Jorge Rodrigues.
Também não podia deixar de referir a SECIL, que apoiará financeiramente este projecto, não como Instituidor, mas como financiador anual, durante algum tempo, através de Protocolo, específico, a celebrar com a Câmara Municipal, no âmbito de protocolo mais vasto já existente.
O mesmo acontece com a Rodoviária do Tejo, aqui representada, que deseja aderir e só não o faz, hoje, por ausência, durante algum tempo de administradores.
7-Estão lançados os dados.
Após este acto Público da Celebração da escritura, seguir-se-á o reconhecimento pelo Governo e uma vez reconhecido, seguir-se-á o processo de preenchimento dos Órgãos Sociais.
É grande o nosso optimismo?
Direi que é, no mínimo, do tamanho do Mosteiro.
Mas sabemos, como já foi referido, que caminhamos por um carreiro estreito.
Vamos entregar a carta a Garcia.
É isso que exigem, hoje, de nós, a história, o presente e o futuro.

José Gonçalves Sapinho».


O dia 9 de Outubro de 2009 foi um dia histórico para Alcobaça.


A esperança a 2ª.Refundação do Colégio Nossa Senhora da Conceição é, no mínimo, do tamanho
do Mosteiro!
JERO

sábado, 10 de outubro de 2009

M54-QUE HAJA PAZ


Barack Obama é o Nobel da Paz 2009
O Presidente dos Estados Unidos Barack Obama é o galardoado com o Nobel da Paz de 2009, segundo foi anunciado pelo comité do Prémio Nobel esta sexta-feira.
A decisão da organização visa distinguir o «extraordinário esforço» de Obama no «fortalecimento da diplomacia» e para a cooperação internacional, refere a nota divulgada em Estocolmo.
O actual presidente norte-americano não constava da lista de possíveis laureados.
Barack Obama, 48 anos, sucede a Woodrow Wilson (1919) e Theodore Roosevelt (1906), sendo agora o terceiro Presidente dos EUA distinguido com o Nobel da Paz. Jimmy Carter, que também foi Presidente dos EUA (1977-1981), foi distinguido em 2002.
sexta-feira, 9 de Outubro de 2009 10:02
in diário digital

M53-VISITE ALCOBAÇA


FUNDAÇÃO DA ABADIA DE SANTA MARIA DE ALCOBAÇA(1)
A carta da Fundação da Abadia permiter-nos datar este monumento com rigor:
8 de Abril de 1153.
D.Afonso Henriques doou esta nova Abadia a São Bernardo, Abade de Claraval.
Se os Monges abandonassem a Abadia sem prévia autorização régia, esta e todo o seu território reverteriam a favor da Coroa Portuguesa.
Esta cláusula, séculos mais tarde, veio a salvar o Mosteiro.
De facto, quando em 1833 os Monges se puseram em fuga na sequência das lutas políticas e religiosas, o Estado Português entrou legalmente na sua posse.
in ROTEIRO CULTURAL DA REGIÃO DE ALCOBAÇÃ
A Oeste da Serra dos Candeeiros
Coordenação Carlos Mendonça da Silva
Direcção e Organização ADEPA
Edição da Câmara Municipal de Alcobaça
(1)Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, por Cecília Gil e Isabel Costeira
1.2-Fundação da Abadia de Santa Maria de Alcobaça,pp. 21 e 22.





sexta-feira, 9 de outubro de 2009

VISITE O MOSTEIRO DE ALCOBAÇA onde a beleza é eterna!




M52-SE A LUZ FICAR ACESA MAIS DE 4 HORAS...


Creio que todos já viram nos consultórios dos médicos, propaganda a medicamentos.
Contudo estou seguro que esta é a melhor que já vi...

*
UM (IM)PACIENTE ESCREVEU POR BAIXO:
"SE A LUZ FICAR ACESA MAIS DE 4 HORAS
CHAME O SEU ELECTRICISTA
"

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

M51-DEZ ANOS DEPOIS


CONHECER AMÁLIA RODRIGUES
Infância
Filha de um músico sapateiro que, para sustentar os quatro filhos e a mulher, tentou a sua sorte em Lisboa. Amália nasceu a 1 de Julho de 1920, porém apenas foi registada dias depois, tendo no seu assento de nascimento como nascida às cinco horas de 23 de Julho de 1920, na rua Martim Vaz, na freguesia lisboeta da Pena. Amália pretendia, no entanto, que o aniversário fosse celebrado a 1 de Julho ("no tempo das cerejas"), e dizia : Talvez por ser essa a altura do mês em que havia dinheiro para me comprarem os presentes. Catorze meses depois, o pai, não tendo arranjado trabalho, volta com a família para o Fundão. Amália fica com os avós na capital.
A sua faceta de cantora cedo se revela. Amália era muito tímida, mas começa a cantar para o avô e os vizinhos, que lhe pediam. Na infância e juventude, cantarolava tangos de Carlos Gardel e canções populares que ouvia e lhe pediam para cantar.
Aos 9 anos, a avó, analfabeta, manda Amália para a escola, que tanto gostava de frequentar. Contudo, aos 12 anos tem que interromper a sua escolaridade como era frequente em casas pobres. Escolhe então o ofício de bordadeira, mas depressa muda para ir embrulhar bolos.
Aos 14 anos decide ir viver com os pais, que entretanto regressam a Lisboa. Mas a vida não é tão boa como em casa do avós. Amália tinha que ajudar a mãe e aguentar o irmão mais velho, autoritário.
Aos 15 anos vai vender fruta para a zona do Cais da Rocha, e torna-se notada devido ao especialíssimo timbre de voz. Integra a Marcha Popular de Alcântara (nas festividades de Santo António de Lisboa) de 1936. O ensaiador da Marcha insiste para que Amália se inscreva numa prova de descoberta de talentos, chamada Concurso da Primavera, em que se disputava o título de Rainha do Fado. Amália acabaria por não participar, pois todas as outras concorrentes se recusavam a competir com ela.
Conhece nessa altura o seu futuro marido, Francisco da Cruz, um guitarrista amador, com o qual casará em 1940. Um assistente recomenda-a para a casa de fados mais famosa de então, o Retiro da Severa, mas Amália acaba por recusar esse convite, e depois adiar a resposta, e só em 1939 irá cantar nessa casa.
Carreira
Estreia-se no teatro de revista em 1940, como atracção da peça Ora Vai Tu, no Teatro Maria Vitória. No meio teatral encontra Frederico Valério, compositor de muitos dos seus fados.
Em 1943 divorcia-se a seu pedido. Torna-se então independente. Neste mesmo ano actua pela primeira vez fora de Portugal. A convite do embaixador Pedro Teotónio Pereira, canta em Madrid.
Em 1944 consegue um papel proeminente, ao lado de Hermínia Silva, na opereta Rosa Cantadeira, onde interpreta o Fado do Ciúme, de Frederico Valério. Em Setembro, chega ao Rio de Janeiro acompanhada pelo maestro Fernando de Freitas para actuar no Casino Copacabana. Aos 24 anos, Amália tem já um espectáculo concebido em exclusivo para ela. A recepção é de tal forma entusiástica que o seu contrato inicial de 4 semanas se prolongará por 4 meses. É convidada a repetir a tournée, acompanhada por bailarinos e músicos.
É no Rio de Janeiro que Frederico Valério compõe um dos mais famosos fados de todos os tempos: Ai Mouraria, estreado no Teatro República. Grava discos, vendidos em vários países, motivando grande interesse das companhias de Hollywood.
Em 1947 estreia-se no cinema com o filme Capas Negras, o filme mais visto em Portugal até então, ficando 22 semanas em exibição. Um segundo filme, do mesmo ano, é Fado, História de uma Cantadeira.
Amália é apoiada por artistas inovadores como Almada Negreiros e António Ferro. Esse que a convida pela primeira vez a cantar em Paris, no Chez Carrère, e a Londres, no Ritz, em festas do departamento de Turismo que o próprio organiza.
A internacionalização de Amália aumenta com a participação, em 1950, nos espectáculos do Plano Marshall, o plano de "apoio" dos EUA à Europa do pós-guerra, em que participam os mais importantes artistas de cada país. O êxito repete-se por Trieste, Berna,Paris e Dublin (onde canta a canção Coimbra, que, atentamente escutada pela cantora francesa Yvette Giraud, é popularizada por ela em todo o mundo como Avril au Portugal).
Em Roma, Amália actua no Teatro Argentina, sendo a única artista ligeira num espectáculo em que figuram os mais famosos cantores de música clássica.
Em Setembro de 1952 a sua estreia em Nova Iorque fez-se no palco do La Vie en Rose, onde ficou 14 semanas em cartaz.
Ainda nos Estados Unidos, em 1953 canta pela primeira vez na televisão (na NBC), no programa do Eddie Fisher patrocinado pela Coca-Cola, que teve que beber e de que não gostara nada. Grava discos de fado e de flamenco. Convidam-na para ficar, mas não fica por que não quer.
Nos EUA editou o seu primeiro LP (as gravações anteriores eram em discos de 78 rotações). Amalia Rodrigues Sings Fado From Portugal and Flamenco From Spain, lançado em 1954 pela Angel Records, assinala a sua estreia no formato do long-play, a 33 rotações, criado apenas seis anos antes e, na época, ainda longe de conhecer a expressão de mercado que depois viria a conquistar. O álbum, que seria editado em 1957 em Inglaterra e, um ano depois, em França, nunca teve prensagem portuguesa.
Amália dá ao fado um fulgor novo. Canta o repertório tradicional de uma forma diferente, sincretizando o que é rural e urbano.
Canta os grandes poetas da língua portuguesa (Camões, Bocage), além dos poetas que escrevem para ela (Pedro Homem de Mello, David Mourão Ferreira, Ary dos Santos, Manuel Alegre, O’Neill). Conhece também Alain Oulman, que lhe compõe várias canções.
O seu fado de Peniche é proibido por ser considerado um hino aos que se encontram presos em Peniche, Amália escolhe também um poema de Pedro Homem de Mello Povo que lavas no rio, que ganha uma dimensão política.
Em 1961, casa-se com o seu segundo marido, o engenheiro brasileiro César Seabra, com quem fica até à morte deste, em 1997.
Em 1966, volta aos Estados Unidos, actuando no Lincoln Center, em Nova Iorque, com o maestro Andre Kostelanetz frente a uma orquestra, num programa essencialmente feito de canções do folclore português numa das noites e num outro, feito de fados (também com orquestra), na seguinte.
O mesmo espectáculo foi encenado, dias depois, no Hollywood Bowl.
Voltaria ao Lincoln Center em 1968.
Ainda em 1966, o seu amigo Alain Oulman é preso pela PIDE. Amália dá todo o seu apoio ao amigo e tudo faz para que seja libertado e posto na fronteira.
Em 1969, Amália é condecorada pelo novo presidente do conselho, Marcelo Caetano, na Exposição Mundial de Bruxelas antes de iniciar uma grande digressão à União Soviética.
Em 1971, encontra finalmente Manuel Alegre, exilado em Paris.
Em 1974 grava o álbum Encontro - Amália e Don Byas com o saxofonista Dob Byas.
Amália após o 25 de Abril
Na chegada da democracia são-lhe prestadas grandes homenagens. É condecorada com o grau de oficial da Ordem do Infante D. Henrique pelo então presidente da República, Mário Soares. Ao mesmo tempo, atravessa dissabores financeiros que a obrigam a desfazer-se de algum do seu património.
Em 1990, em França, depois da Ordem das Artes e das Letras, recebe, desta vez das mãos do presidente Mitterrand, a Légion d'Honneur.
Ao longo dos anos que passam, vê desaparecer o seu compositor Alain Oulman, o seu poeta David Mourão-Ferreira e o seu marido, César Seabra, com quem era casada há 36 anos.
Em 1997 é editado pela Valentim de Carvalho o seu último álbum com gravações inéditas realizadas entre 1965 e 1975 (Segredo). Amália publica um livro de poemas (Versos). É-lhe feita uma homenagem nacional na Exposição Mundial de Lisboa (Expo 98).
Em Abril de 1999, Amália desloca-se pela última vez a París, sendo condecorada na Cinemateca Francesa, por os muitos espectáculos que deu naquela cidade e, dever-se a ela o facto da França começar a apreciar o Fado. Já ligeiramente debilitada, agradeceu aos franceses o facto de se ter começado a projectar no mundo, pois era a partir de França que os seus discos começaram a espalhar-se.
A 6 de Outubro de 1999, Amália Rodrigues morre, em sua casa, repentinamente, ao início da manhã, com 79 anos, poucas horas depois de regressar da sua casa de férias no litoral alentejano. Imediatamente, o então primeiro-ministro, António Guterres, decreta Luto Nacional por três dias. No seu funeral centenas de milhares de lisboetas descem à rua para lhe prestar uma última homenagem. Foi sepultada no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Dois anos depois, em Julho de 2001, o seu corpo foi trasladado para o Panteão Nacional, em Lisboa. (após pressão dos seus admiradores e uma modificação da lei que exigia um mínimo de quatro anos antes da trasladação), onde repousam as personalidades consideradas expoentes máximos da nacionalidade.
Sabe-se então que Amália, vista por muitos como um dos Fs da ditadura ("Fado, Fátima e Futebol"), colaborara economicamente com o Partido Comunista Português quando este era clandestino. Amália Rodrigues representou Portugal em todo o mundo, de Lisboa ao Rio de Janeiro, de Nova Iorque a Roma, de Tóquio à União Soviética, do México a Londres, de Madrid a Paris (onde actuou tantas vezes no prestigiosíssimo Olympia).Propagou a cultura portuguesa, a língua portuguesa e o fado.

M50-«GUERRA SEM FIM» Ex-combatentes Homens com dores de alma

Mina antipessoal

Tinha amanhecido há pouco.
A patrulha estava marcada para as 6H00.
Os militares do 3º.Pelotão «aprontavam-se» para mais uma saída.
Iam «pró mato» sem o seu Alferes(Belmiro Tavares) que estava em Bissau.
O Furriel Figueiredo(de Monção) apareceu na «caserna» para «apressar» a malta.
O Soldado Nascimento(da região de Sarzedas) estava um pouco atrasado. Arrumou as cartas que tinha recebido no dia anterior e juntou-se à sua Secção .
Alguém dizia: «Porque é que esta porra desta patrulha há-de ser tão cedo. Ainda por cima está cá uma merda de um tempo!».
6h00 da manhã. Toca a subir para as viaturas.
O Alferes Mendonça deu ordem de partida e a coluna pôs--se em marcha.
Quem ficava no aquartelamento acenava aos que partiam e desejava «boa sorte».
Binta ficava para trás e havia que «pôr a bala na câmara».
Toda a gente o fazia automaticamente.
Ia-se «bater» a região de Banhima-Santacoto-Jongo com um grupo de combate(30 homens).
O dia estava muito nublado e de vez em quando chovia torrencialmente.
A coluna de viaturas avançava com dificuldade por causa da lama.
Alguém com piada dizia que já era de tempo de alcatroar aqueles caminhos...
Como fazer boas médias com as viaturas a atascarem-se a todo o momento...
Atingimos Genicó Mandinga e os homens do 3º. Grupo de combate apearam-se.
A coluna ficou-se por ali com os condutores e mais alguns homens para fazer a segurança.
Os militares apeados seguiram em fila indiana (bicha de pirilau) e, tocados pela chuva, atingiram com rapidez Banhima.
Fez-se uma pequena paragem para retemperar forças.
Bebeu-se uns goles do cantil, quem tinha trazido farnel comeu alguma coisa, ajustaram-se as cartucheiras e ala para a frente que se faz tarde.
Manteve-se o dispositivo – «bicha de pirilau» – e avançou-se em direcção ao objectivo.
Próximo de Santacoto os homens da frente – os da Secção do Furriel Rodrigues igueiredo – seguiram um trilho(que parecia recente) na beira esquerda do caminho.
A chuva fustigava sem piedade os militares.
Caminhava-se com esforço e em silêncio.
Um estoiro inesperado surpreendeu toda a gente.
Houve reacção de alguns dos nossos que se deitaram para o chão e dispararam para a frente e para os lados.
Quando se restabeleceu alguma calma deu para perceber que o militar que caminhava na frente estava caído. Junto a ele, no chão, parecia sair fumo de um buraco.
Rapidamente se percebeu que o soldado estava ferido e que tinha pisado uma mina anti pessoal.
O seu pé direito tinha desaparecido! O coto da sua perna mutilada era horrível de se ver.
Tinha calhado «a má sorte» ao soldado João Nunes do Nascimento.
O cabo-enfermeiro Pereira fez os primeiros socorros ao Nascimento e entrou-se em contacto via rádio com a coluna para se deslocar ao local o Furriel Enfermeiro Oliveira.
Fez-se um dispositivo de segurança à volta do ferido, cujo estado preocupava toda a gente.
O Furriel Enfermeiro chegou e conseguiu estancar a hemorragia com a aplicação de um garrote.
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O soldado Nascimento estava em estado de choque. Não falava e estava muito agitado. As cores da sua cara eram difíceis de descrever. Estava lívido, cinzento e naquele local(e
naquelas condições) dificilmente se conseguia fazer alguma coisa que aliviasse o seu sofrimento.
Pela primeira vez enfrentávamos as terríveis consequências de uma mina anti pessoal.
Havia que evacuar o Nascimento com a maior urgência.
Contactou-se Binta para pedir um helicóptero.
A resposta que nos chegou passado algum tempo não foi nada animadora. Com o tempo nublado e chuvoso que se fazia sentir não poderíamos contar com o «heli» para a evacuação.
Embora o estado do ferido o desaconselhasse foi resolvido transportá-lo de viatura até Binta. Teríamos que fazer alguma coisa.
O caminho de regresso ao aquartelamento foi demorado e penoso. Cada solavanco da viatura que transportava o Nascimento era terrível para o ferido.
Fiz a viagem junto dele. Agarrava-lhe as mãos, limpava-lhe a cara e falava sem parar para o animar. O Nascimento piorava e a sua lividez era impressionante.
De vez em quando era preciso aliviar o garrote, o que parecia dar-lhe algum alívio, mas o seu tormento recomeçava quando este lhe era novamente colocado.
O tempo passava e nunca mais chegávamos a Binta.
Como é que iríamos conseguir a sua evacuação para Bissau?
Finalmente... o aquartelamento e... a boa nova que vinha a caminho uma avioneta para proceder à evacuação do Nascimento.
Ficámos logo na zona da nossa pista à espera do avião.
O Médico Dr. Barata tomou conta do Nascimento e todos que tinham lutado para o trazer até ali respirámos de alívio na esperança de que finalmente se conseguisse inverter a marcha dos acontecimentos.
Mas... tudo estava muito complicado.
Tinham passado mais de 3 horas e as bolandas em que tinha andado o Nascimento no transporte de Santacoto até Binta tinham deixado marcas.
As artérias estavam colapsadas e não se conseguia aplicar soro, já que plasma nem pensar. Não o tínhamos no Posto de Socorros da Companhia.
Tentou-se um desbridamento junto ao pé esquerdo mas
também não resultou. Em desespero de causa tentou-se a aplicação de soro por via intramuscular.
Chegou a «DO» a Binta.
Mais uma vez era o Sargento- piloto Honório. O que esse homem não conseguisse ninguém conseguia. Praticamente sem «tecto» tinha voado de Bissau até Binta em voo rasante, orientando-se pelo curso do Rio Cacheu.
Tinham passado 3 horas e meia desde que o Nascimento tinha ficado sem um pé ao pisar a mina A/P no trilho próximo de Santacoto.
Tinha-se utilizado no pedido de evacuação o código «Y»,que corresponde a um ferido grave. Devia ter vindo com o piloto um enfermeiro. Veio um Cabo-Mecânico! Porquê?
Ninguém na altura o conseguiu explicar.
Transmissão errada de código ou, por o voo ter sido decidido pelo voluntarismo do piloto em cima da hora, tinha-se improvisado !? Não estaria por perto nenhum enfermeiro?
Junto ao avião o que se pretendia acima de tudo era evacuar com a maior urgência o Nascimento.
Foi-lhe aplicado um garrote dos «Fuzileiros», que o Furriel Enfermeiro tinha em seu poder. Era mais seguro e menos doloroso dos que os do Exército.
Sempre com o motor a trabalhar o piloto preparou-se para levantar e foi explicado ao cabo-mecânico, que o acompanhava, que deveria aliviar o garrote de 20 em 20 minutos ao ferido.
O Nascimento estava mal, muito mal, mas se chegasse vivo ao Hospital havia de escapar. No HM-241 faziam-se milagres!
Caramba depois de tanto esforço o Nascimento havia de safar-se.
Ficaria aleijado mas com uma prótese... tinha toda uma vida à sua frente.
Foi com estes pensamento que recolhemos «a quartéis».
Que sacana de dia 30...
Fui ter com Médico de manhãzinha.
Fomos para o Posto de rádio para saber notícias do Hospital de Bissau.
Como estava o Nascimento!? A resposta foi brutal:
«O Nascimento morreu. Morreu com o Hospital à vista!
Lembro-me de me ter agarrado ao Dr. Barata.Chorámos juntos, amargamente, a morte do Nascimento.
Daqui a uns dias seria a vez da família receber a notícia. E chorar!
Nunca mais esquecerei a morada do Nascimento que escrevi nos meus «apontamentos de guerra»: Casal Águas de Verão – Sarzedas – Castelo Branco.
Casal Águas de Verão. Um nome poético, bucólico, correspondente a um lugar, que nada tinha a ver com a guerra.
Mais uma vez nos tinha calhado «em sorte» ver um camarada de armas ceifado pela morte.
E... numa guerra todos os mortos são sempre demais!

JERO

A páginas 135 da RESENHA HISTÓRICO-MILITAR DAS CAMPANHAS DE ÁFRICA (1961-1974), 8º Volume –Mortos em Campanha, Tomo II Guiné -Livro I, 1ª. Edição, LISBOA 2001 está referido, em “linguagem oficial”, o seguinte:

João Nunes Nascimento
Soldado-Atirador número 2169/63
Companhia de Caçadores Nº. 675
Unidade Mob.: Regimento de Infantaria nº. 16 – Évora
Solteiro
Filho de João Nascimento e Augusto Nunes.
Natural de Casal Água do Verão, freguesia de Sarzedas, concelho de Castelo de Branco.
Local de operações: Na mata entre Banhima e Santacoto.
Data do Falecimento: 30 de Julho de 1965, no HM 241-Bissau.
Causas da morte: Ferimentos em combate.
Local da sepultura: Cemitério de Sarzedas