terça-feira, 6 de outubro de 2009

M49-BLOGANDO E ANDANDO (1)




Leões na Guiné em 1966 !

O título pode parecer especulativo...mas tem algum fundo de verdade.
Passamos a explicar.
Em Maio de 1966 uma equipa de futebol do Sporting Clube de Portugal visitou a “portuguesíssima Província da Guiné para homenagear a sua Filial nº. 89 – Sporting Clube de Bissau”.
Os “leões de Alvalade” efectuaram alguns jogos de futebol em Bissau com equipas locais. E também “futebol de 5” contra equipas militares.
E como soubemos desta distante história de “Leões” na Guiné?
Na nossa rotina diária depois de em casa “blogar” vamos andar para a pista de um campo de futebol, que temos a sorte de ter ao pé da porta.
Um destes dias numa conversa com um parceiro “de pista”, que sabíamos ter jogado futebol no Sporting ( Lisboa), vieram à baila algumas “conhecimentos” sobre a Guiné que nos surpreenderam .
Como é que ele sabia coisas de Bissau, de Bolama e Bafatá?
Tendo em conta a nossa diferença de idades como é que o José Carlos de Jesus tinha estado na Guiné com 18 anos de idade sem ser na qualidade de militar!?
A resposta não deixou dúvidas: - Como jogador de futebol do Sporting Clube de Portugal.
Ah, tá bem!
A conversa continuou no dia seguinte e o Zé Carlos trouxe-nos uma carta do S.C.P. datada de 7 de Junho de 1966.
A carta refª. 4521/66, Minº.ML, Dactº. AC. atribui um “Voto de Louvor” a todos os jogadores que fizeram parte do grupo de futebol…pela forma valorosa como desportivamente se aplicaram no decorrer dos três jogos realizados. Acompanhou a comitiva leonina o Vice-Presidente para as Relações Externas Dr. António Alexandre Pereira da Silva. Assinava a carta o Secretário-Geral da Comissão Directiva Romeu Adrião da Silva Branco.
Colhemos entretanto a informação adicional que era Presidente do Clube
Guilherme Braga Brás Medeiros (1965-1973).

Alem da carta trouxe-nos também uma fotografia de uma equipa do tempo (1964-65) do Sporting Clube de Portugal.
E o que recorda o Zé Carlos da sua passagem de Guiné 40 e tal anos depois?
Recorda várias coisas.
A longa viagem do SuperConstelation de Lisboa a Bissau – cerca de 9 horas – e o “choque” com o calor e humidade quando saíram do avião a caminho da cidade.
De fato inteiro, camisa e gravata bufavam que nem …leões.
Quando chegaram ao Palácio do Governador para cumprimentarem o “General” Shultz ficaram de boca ainda mais aberta por o Governador os receber de calções e camisa.
Depois recorda as Avenidas de Bissau, o mercado e militares por todo o lado. Gente, cor, bulício e…ausência de sinais de guerra.
Em relação aos jogos no Estádio de Bissau recorda muita gente, muito entusiasmo e no final algumas cenas de pancadaria entre militares da marinha e do exército.
Na equipa do Sporting não jogaram então alguns dos grandes jogadores da época por estarem já seleccionados para e equipa de Portugal que iria, dentro de poucos meses, disputar o Campeonato do Mundo de 1966, (onde viríamos a obter o melhor resultado de sempre - um 3º.lugar).
Os jogadores em causa ainda hoje são históricos e recordados pelas gentes do futebol: Carvalho, Hilário, Morais, Zé Carlos, Alexandre Baptista e Lourenço.

O Zé Carlos recorda que em Bissau, sob a orientação do treinador Juca jogaram: Damas, Caló, Carlitos, Lino, Pedro Gomes, Dani, Colorado, Figueiredo,João Barnabé, Barão e outros atletas cujo nome já não recorda.

Fora do que se passou nos rectângulos de jogo o José Carlos de Jesus (também conhecido nos “futebois” por Zé Carlos II) lembra com particular saudade as viagens a Mansoa e a Bafatá.
Para Mansoa viajaram em viaturas descapotáveis (Renault Caravell) sem escolta militar.
Para Bafatá viajaram de avião (Dakota).
Lembra-se de aterrar num pequeno campo de aviação e de viajar para a cidade num carro de “caixa aberta”.
Seguiu-se um almoço memorável à base de ostras grelhadas, como nunca mais comeu até hoje.
Deixamos para o fim a invulgar e, no que nos diz respeito, nunca ouvida história do crocodilo amestrado de Mansoa.
A comitiva do Sporting foi avisada de que ia ver uma “cena” única: um crocodilo amestrado que ,à voz de um domador da “casa” (leia-se de Mansoa) iria sair do seu charco privativo para vir até terra firme “confraternizar” com a malta. Daria até para se tirar uma fotografia com um pé em cima das costas do crocodilo sorrindo para a objectiva.
Foi com esta expectativa elevada que os “leões” de Lisboa se aproximaram do charco das terras de Mansoa.
O “domador”, empunhado um comprido pau com um pedaço de carne na ponta, pediu silêncio e aproximou-se do “poiso da fera”.
O charco, de água esverdeada e viscosa, permanecia calmo …
O “domador” arriscou mais uns passos e, de repente, o crocodilo apareceu e saltou (ou pareceu saltar).
Foi um cagaço monumental.
Domador e seus convidados fugiram a sete pés (ou mesmo mais…).
A malta da bola não deixou os seus créditos por pés alheios e sprintou rapidamente para bem longe do charco.
O crocodilo ouviu das boas e a sua mãe não escapou de algumas graves ofensas verbais à sua honra !
As viagens de regresso a Bissau e mais tarde a Lisboa decorreram dentro da normalidade.

À distância no tempo o Zé Carlos II recorda com saudade os seus 18 anos e a viagem à Guiné.


Mas o crocodilo “amestrado” de Mansoa e o cagaço colectivo da comitiva dos “leões de Alvalade” ocupam, nas suas memórias africanas , os “flashes” mais nítidos das recordações de há quarenta e tal anos atrás.
Devemos ao Zé Carlos II a evocação dos “Leões na Guiné” em 1966.

Alguém da grande família de ex-combatentes se lembra destes futebois longínquos?
E do crocodilo de Mansoa?
JERO

1964-65


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

M48-RENDER DA GUARDA em templo e tempo de memória!




M47-À DISTÃNCIA NO TEMPO...


DIÁRIO-– 28 DE DEZEMBRO 1964
GUINÉ-BINTA

-O DIA MAIS TRÁGICO DA COMPANHIA-

Passavam alguns minutos do meio dia.
Regressávamos de mais uma patrulha. Binta estava a poucos quilómetros e todos tinham deixado já de pensar nas peripécias movimentadas da perseguição a um grupo inimigo na região de Buborim, para pensar nas delícias de um banho que atenuasse a fadiga de algumas horas de marcha na selva.
Tínhamos saído às 6.30 horas, seguindo de viaturas até Sansancutoto. A partir daí seguiram apeados os 1.º e 2.º grupos de combate, debaixo do comando do nosso Capitão.
A missão seria um «golpe de mão» à tabanca de Udasse.
Quinhentos metros à frente de Banhima foi visto à distância um grupo inimigo que desapareceu rapidamente, internando-se no mato.
Percorridos mais uns quilómetros e quando se atravessava o rio Buburim em direcção ao objectivo, foram vistes numerosos grupos de mulheres e alguns homens armados que iam colher arroz numa bolanha.
Evitou-se o mais possível denunciar a nossa presença, continuando-se a progressão lentamente e aproveitando os arbustos da orla da bolanha, que começámos a contornar, para «desenfiados» continuarmos em direcção a Ubasse.
Apesar de todos os cuidados fomos pressentidos. Os grupos referidos começaram a fugir em direcção a Udasse, sendo perseguidos pelas nossas tropas que abriram fogo e abateram 7 indivíduos, fazendo ainda 3 prisioneiros.
Perdida a surpresa e denunciada a nossa presença na região, não se continuou sobre o objectivo iniciando-se regresso em direcção à coluna-auto.
Meio-dia e trinta.
Um estoiro medonho, um rebentamento de violência extraordinária, faz parar a coluna. A segunda viatura, um Unimog, estava envolta numa fumarada expessa e começava a arder.
Simultaneamente de um dos lados da estrada, emboscado no mato o inimigo começava a disparar.
Embora paralisados momentaneamente pela surpresa os nossos homens têm uma reacção fortíssima que faz calar em poucos momentos o inimigo.
Há uma pausa; os oficiais disciplinaram o fogo e todos procuram saber o que se passa lá à frente.
A viatura sinistrada incendiara-se e há feridos que gemem e que correm perigo junto das chamas que podem provocar uma explosão no depósito do Unimog e incendiar o capim das bermas do caminho.
A mata fechada, a fumarada da viatura incendiada, a estrada multo estreita, mais complicam a situação e há dificuldades nos primeiros momentos em avaliar a extensão e gravidade do acontecimento.

Não restam dúvidas sobre a causa do rebentamento.
Tinha sido uma mina.
Sob o pneu direito da retaguarda da viatura que seguia em segundo lugar, tinha rebentado um engenho explosivo de grande potência.
Todos os homens que seguiam na viatura tinham sido projectados com violência.
O médico e os enfermeiros acorrem à frente.
«Há um morto!» — diz uma voz.
A notícia corre ao longo da coluna e faz estremecer aqueles que a ouvem, abalando-os mais que o violente estampido de há momentos.
«O furriel Mesquita está morto
Será possível o pobre do furriel Mesquita já não pertencer ao mundo dos vivos? Cada qual interroga-se com desespero, sem poder largar a sua arma, sem poder sair do lugar onde está, sem poder até limpar uma lágrima.
O inimigo pode voltar à carga e a vigilância não pode descurar-se um momento.
O médico e os dois enfermeiros, auxiliados por alguns soldados, multiplicam-se em esforços para socorrer os feridos.
Os lamentos misturam-se com as expressões de conforto daqueles que socorrem os que sofrem atrozmente.
O perigo das chamas passou devido à coragem de alguns soldados que retiraram os seus camaradas feridos de imito da viatura sinistrada, cujos depósitos felizmente não chegaram a explodir por a gasolina se ter derramado pelo chão.
Há 8 feridos e o estado de alguns inspira sérios cuidados.
O Unimog atingido pela mina arde completamente, transformado num autêntico braseiro donde sai um fumo espesso que atinge umas dezenas de metros de altura. Alguns metros à sua volta há um calor horrível, mas é mesmo ali que têm de ser tratados os feridos.
É pedido um helicóptero.
Aqueles momentos infernais parecem prolongar-se indefinidamente.
A certa altura, na estrada, a algumas centenas de metros da retaguarda da coluna, surge um grupo inimigo que parece dançar festejando o rebentamento da mina. Faz algumas rajadas de pistola metralhadora na nossa direcção. Responde-se ao fogo com algumas morteiradas, uma das quais cai próximo do local onde se encontra o inimigo, que se pôs em fuga.
A viatura destruída, que com o rebentamento, ficou atravessada no meio da estrada, é encostada à berma direita, seguindo a coluna para a frente, para uma região mais despida de vegetação, onde se aguarda o helicóptero pedido.
Finalmente, quase duas horas depois do rebentamento da mina, é possível evacuar os primeiros feridos. O helicóptero faz várias viagens transportando os feridos mais graves para Farim, donde são evacuados em avionetas para Bissau.
Entretanto no aquartelamento viviam-se horas de expectativa desesperante, pois não se sabia nada de concreto sobre a coluna, embora o pedido do helicóptero e de dois DO não augurasse nada de bom.
Pelas 15 horas houve ordem para o 3.° grupo de combate ir ao encontro da coluna, montar a segurança junto ao cruzamento da estrada Bigene-Guidage.
A coluna surgiu pouco depois.
Desfigurados, física e moralmente abatidos, eles passaram pelos seus camaradas que ficariam emboscados algumas horas.
Aqueles que ficaram no mato e que só então souberam a extensão da tragédia que já adivinhavam há algumas horas, viveram momentos de uma dolorosa angústia dese­jando com uma raiva surda o aparecimento do inimigo traiçoeiro.
Lado a lado, sem poderem falar, com a alma dilacerada por saberem um seu camarada morto e outros gravemente feridos, eles tinham que se manter imóveis aguardando o inimigo que talvez viesse explorar a sua vitória cobarde, arriscando uma sortida ao aquartelamento.
Entretanto a coluna chegou a Binta.
Apesar de todos os dias em contacto com a morte não nos poderíamos habituar à ideia que um camarada, um amigo, tinha sido levado brutalmente para sempre, do mundo dos vivos.
O espectro da morte, com requintes dantescos, tinha descido das suas paragens de Sombra Eterna, para levar no seu manto mais uma vida.
Ao anoitecer regressou o 3.° grupo de combate que não teve contacto com o inimigo.
As palavras não poderão dar uma ideia pálida dos momentos que se viveram no dia 28 de Dezembro.
Ele ficará assinalado na existência de todos os homens da «675» como um dia trágico que não se esquecerá jamais.

JERO















domingo, 4 de outubro de 2009

M46- PÔR DO SOL NA TORRE DE BELEM


Torre de Belém
Tirei esta fotografia num final de tarde de Outubro de 2008.
Melhor dizendo tirei uma dúzia de fotografias aproveitando os últimos minutos do sol que, no horizonte, caminhava para outras paragens. Seleccionei esta por ter mais a ver com o meu estado de alma. Minutos antes tinha visitado o Monumento aos mortos do Ultramar, que fica a pouca distância: ente a Torre de Belém e o Forte do Bom Sucesso.
Parei longamente junto do nome do meu melhor amigo dos tempos da Guiné: Álvaro Vilhena Mesquita.Morto em combate em 28 de Dezembro do longínquo ano de 1964.
Três dias depois do Natal e três dias antes de viajar para a Metrópole. Tinha bilhete para as férias do fim do ano na sua terra natal: Vila Nova de Famalicão.
Viajou dias mais tarde no porão do navio “UIGE”. Num caixão.
Quando tirei esta fotografia pensava nele.
JERO

Um pouco de história:
A Torre de Belém foi construída em homenagem ao santo patrono de Lisboa, S. Vicente, no local onde se encontrava ancorada a Grande Nau, que cruzava fogo com a fortaleza de S. Sebastião.Localizada na margem direita do rio Tejo, onde existiu outrora a praia de Belém e inicialmente cercada pelas águas em todo o seu perímetro, progressivamente foi envolvida pela praia, até se incorporar hoje à terra firme, a Torre de Belém é um dos maiores ex-libris de Portugal.Classificada como Monumento Nacional por Decreto de 10 de Janeiro de 1907, é considerada pela UNESCO como Património Cultural de toda a Humanidade desde 1983.O arquitecto da obra foi Francisco de Arruda, que iniciou a construção em 1514 e a finalizou em 1520, ao que tudo indica sob a orientação de Boitaca. Como símbolo de prestígio real, a decoração ostenta a iconologia própria do Manuelino, conjugada com elementos naturalistas. O monumento reflecte ainda influências islâmicas e orientais, que caracterizam o estilo manuelino e marca o fim da tradição medieval das torres de menagem, tendo o primeiro baluarte para artilharia no país. Parte da sua beleza reside na decoração exterior, adornada com cordas e nós esculpidas em pedra, galerias abertas, torres de vigia no estilo mourisco e ameias em forma de escudos decoradas com esferas armilares, a cruz da Ordem de Cristo e elementos naturalistas, como um rinoceronte, alusivos às navegações. O interior gótico, por baixo do terraço, que serviu como armaria e prisão, é muito austero. A sua estrutura compõe-se de dois elementos principais: a torre e o baluarte. Nos ângulos do terraço da torre e do baluarte, sobressaem guaritas cilíndricas coroadas por cúpulas de gomos, ricamente decoradas em cantaria de pedra. A torre quadrangular, de tradição medieval, eleva-se em cinco pavimentos acima do baluarte.
In “Guia da Cidade de Lisboa”

sábado, 3 de outubro de 2009

M45- CAVACO SILVA

«Dito & Feito»
.
Por José António Lima

CAVACO SILVA podia ter feito há um mês a intervenção que esta semana dirigiu aos portugueses. Sem praticamente ter que alterar uma linha (a não ser as referentes a e-mails e à despropositada preocupação com a vulnerabilidade dos seus e-mails, um problema a que nem o Presidente dos EUA ou o Pentágono conseguem escapar, como se sabe, mas apenas limitar).Podia e devia, acrescente-se, ter feito esta declaração há um mês, após a abstrusa notícia do Público sobre suspeitas de espionagem a Belém. Teria evitado que o país mediático se enchesse, semanas a fio, com uma pseudo-conspiração, inverosímil nos factos descritos e ridícula nas conjecturas que suscitou, mas convenientemente alimentada pela bem montada máquina comunicacional do PS. O Presidente foi tardio na reacção, não esvaziando logo de início um balão especulativo que se foi enchendo de fantasiosas historietas e armadilhadas suspeições, as quais acabaram por beliscar a sua imagem e turvar o ambiente político.Mas se Cavaco Silva reagiu tardiamente, a comunicação que fez ao país na terça-feira recolocou o problema nos seus devidos termos e na sua adequada dimensão. Cavaco relembrou – e bem – que foram alguns dirigentes do PS (e não assessores de Belém) quem desencadeou este conflito político e institucional, com ataques directos (e infundados) à Presidência da República, insinuando a sua participação na elaboração do programa do PSD. A partir daí, uma confidência disparatada de um elemento da Casa Civil levou o Público a cometer a leviandade jornalística de dar manchete a tal confidência – e, para lhe conferir algum fundamento, a ir desenterrar uma história sem pés nem cabeça que não publicara 17 meses antes por falta de credibilidade. Com a máquina de agitação e propaganda do PS a colocar lenha na fogueira antipresidencial, um e-mail interno dos jornalistas do Público acabou por ir parar às mãos de um jornal hoje sem escrúpulos, que tratou de fazer do caso uma espécie de anedótico Watergate doméstico. O resto é conhecido.Cavaco Silva cortou agora o mal pela raiz, afastando de vez qualquer ficção sobre escutas e especulações adjacentes. Colocou-se acima da intriga política e da campanha de intoxicação fomentada por meios socialistas. Cumpriu – e bem – o que dele se espera. Mesmo que tardiamente.
«SOL» de 2 de Outubro de 2009

Subscrevo virgulas e pontos finais .
JERO

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

M44- DURO DE MORRER!


Levem-no com cuidadinho…

O casal vivia da agricultura e habitava numa freguesia do concelho de Alcobaça numa zona por onde já tinha bordejado a Lagoa da Pederneira uns bons séculos antes desta nossa estória que aconteceu há uns bons setenta anos!
O local onde tudo se passou era um bocado longe de tudo mas o mau feitio do velho agricultor , cujo nome não interessa para a nossa estória, era conhecido dos vizinhos mais próximos e tinha chegado mesmo à sede da freguesia.
Com o passar do tempo a sua resmunguice natural refinou e contava-se entre os mais próximos do casal que uma mulher capaz de aturar tal criatura só podia ser mesmo uma santa. Não tugia nem mugia e lá ia aguentando a sorte que Deus lhe dera quando uniu os seus destinos com o jovem que, já no tempo do namoro , não era muito dado a carinhos e bons modos. Trabalhador sim –de sol a sol -mas sorrisos ninguém se lembrava de lhos ter visto .
Meses seguidos deixou de ser visto na freguesia e constou que estava doente.
Numa rara visita de um dos seus familiares o velhote estava tão mal que o seu parente foi procurar ajuda.
Quando esta chegou… era tarde.
O velhote da nossa estória parecia ter dado o último suspiro.
Chamado o cangalheiro lá apareceu no dia seguinte com o caixão às costas do seu burro Como referimos no princípio da nossa estória o local era ermo e caminhos só chegariam muitos anos mais tarde.
A viagem do finado às costas do burro do cangalheiro foi acidentada e por diversas vezes o caixão veio ao chão .
Os poucos acompanhantes diziam mal da sua vida mas a cada queda … lá voltavam a equilibrar o caixão nas costas do jumento .Estamos convencidos que este …só não desistiu porque os burros (naquele tempo) não tinham opinião…
Chegado o funéreo cortejo à igreja preparou-se o velório e..deu-se o milagre!!!
O velho agricultou começou a mexer-se dentro do caixão e passado o pasmo inicial alguém reparou …e gritou (para espantar o susto) que o “morto” estava vivo.
E era efectivamente verdade.
Muito debilitado o velho agricultor foi, horas mais tarde, levado ao seu longínquo casal onde a “ex-viuva” o recebeu de olhos arregalados …
Boa mulher não se esqueceu de agradecer aos vizinhos todos os trabalhos que tinham tido.
O acontecimento deu brado na freguesia pois não era todos os dias que um “morto” ressuscitava.
Alguns até diziam por piada que o “velhote” tinha arribado a caminho da igreja devido aos solavancos do transporte.
Porque “fazer de morto” no burro do cangalheiro não era propriamente “pêra doce”…nem o melhor meio para se fazer “a última viagem”.
Não tinha chegado a sua hora, diziam outros.
Alguns haviam , que não morriam de amores pelo “velhote”e que diziam à boca pequena que ele era tão mau que nem a morte o tinha querido levar.
Más línguas sempre houve, dizemos nós.
O velhote sobreviveu àquele dia aziago mas nunca mais foi o mesmo.
Passava os dias cismado… sentado à porta da quintarola ou no muro da eira vendo a sua velhota fazer a lida a casa e a dar de comer às galinhas. Cismava …cismava …e já nem com a mulher implicava.
Caiu à cama e não mais se levantou.
Um dia de manhã a mulher deslocou-se com dificuldade até ao vizinho que morava mais perto para pedir ajuda.
Chegado a casa o vizinho viu o idoso na cama e confirmou o que a velhota já suspeitava. Estava morto.
Horas depois o ritual de há dois anos atrás repetiu-se.
Chegou o cangalheiro com o caixão em cima do burro e, depois de vestido e barbeado, o velhote foi colocado no caixão.
O segundo da sua vida.
Com dificuldade o caixão foi posto em cima do burro e atado à sua albarda o melhor possível.
Antes de o cortejo se pôr em marcha a velhota recomendou com uma voz sumida:
Desta vez …levem-no com cuidadinho!
E…levaram!
Uma recomendação na hora certa …pode evitar muitas complicações!
JERO