quarta-feira, 9 de setembro de 2009
M27 - ÚLTIMO DIA DE AGOSTO DE 2009
FIM DE FÉRIAS
A fotografia que reproduzimos foi tirada numa das bonitas praias do concelho de Alcobaça.
Foi em São Martinho do Porto (como podia ter sido em Água de Madeiros, Pedra do Ouro, Légua, Paredes da Vitória ou Polvoeira) e encerra o simbolismo de final do dia, de pôr do sol, por acaso, o último do mês de Agosto.
No arriar da bandeira verde, na presença do nadador salvador e, principalmente, no olhar do jovem, fascinado pelo gesto do adulto e pela importância do momento, de que é testemunha privilegiada :o fim das férias da praia.
Porque com o final de Agosto e com o início do mês de Setembro vai começar para ele, para os seus pais e para a grande parte dos portugueses o regresso às aulas, ao trabalho, aos horários, à rotina do dia a dia. Infelizmente não será para todos pois muitos não tem trabalho.
Apesar do tempo da crise surpreendeu-nos a boa frequência das praias, das esplanadas, dos restaurantes e do trânsito automóvel. Que dificuldades em estacionar em qualquer lado onde cheirasse a mar ou …a festa!
Depois das férias ,principalmente os adultos, vão recomeçar a sua vida cheios de boas intenções de mudança, nomeadamente, no que respeita à gestão do tempo.
« A vida não é só trabalhar e tenho que ter mais tempo para a família e para mim!»
Pois…o Setembro está no início.
É preciso gerir o tempo com saber e com esperança.
Vamos, portanto, à vida.
As férias acabaram.
JERO
Fotografia de Cristina Ferreira de Almeida
Publicado em “O ALCOA” em 10 de Setembro de 2009
A fotografia que reproduzimos foi tirada numa das bonitas praias do concelho de Alcobaça.
Foi em São Martinho do Porto (como podia ter sido em Água de Madeiros, Pedra do Ouro, Légua, Paredes da Vitória ou Polvoeira) e encerra o simbolismo de final do dia, de pôr do sol, por acaso, o último do mês de Agosto.
No arriar da bandeira verde, na presença do nadador salvador e, principalmente, no olhar do jovem, fascinado pelo gesto do adulto e pela importância do momento, de que é testemunha privilegiada :o fim das férias da praia.
Porque com o final de Agosto e com o início do mês de Setembro vai começar para ele, para os seus pais e para a grande parte dos portugueses o regresso às aulas, ao trabalho, aos horários, à rotina do dia a dia. Infelizmente não será para todos pois muitos não tem trabalho.
Apesar do tempo da crise surpreendeu-nos a boa frequência das praias, das esplanadas, dos restaurantes e do trânsito automóvel. Que dificuldades em estacionar em qualquer lado onde cheirasse a mar ou …a festa!
Depois das férias ,principalmente os adultos, vão recomeçar a sua vida cheios de boas intenções de mudança, nomeadamente, no que respeita à gestão do tempo.
« A vida não é só trabalhar e tenho que ter mais tempo para a família e para mim!»
Pois…o Setembro está no início.
É preciso gerir o tempo com saber e com esperança.
Vamos, portanto, à vida.
As férias acabaram.
JERO
Fotografia de Cristina Ferreira de Almeida
Publicado em “O ALCOA” em 10 de Setembro de 2009
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depois das férias vamos à vida
sábado, 5 de setembro de 2009
M26 - PESQUISAS NO TEMPO - 1
Pesquisas no tempo (1)
O que se passava no Mundo, em Portugal e em Alcobaça no final do Sec.XIX e nos primeiros tempos do Sec. XX ?!
Enquanto a “BELLE ÉPOQUE” festeja com euforia a entrada no Século XX – Exposição Universal de Paris – e as luzes e o ferro são símbolos numa Europa Industrial ... Portugal conserva-se modesto, pequeno e pobre, escondido e ignorado no canto da Península Ibérica.
O que se passava no Mundo, em Portugal e em Alcobaça no final do Sec.XIX e nos primeiros tempos do Sec. XX ?!Enquanto a “BELLE ÉPOQUE” festeja com euforia a entrada no Século XX – Exposição Universal de Paris – e as luzes e o ferro são símbolos numa Europa Industrial ... Portugal conserva-se modesto, pequeno e pobre, escondido e ignorado no canto da Península Ibérica.
Numa população total de cinco milhões de habitantes , 3 homens em cada 4 e 6 mulheres em cada 7 não sabem ler nem escrever. Setenta por cento da população vive em freguesias rurais e dessas quase 90 % dependem apenas da actividade agrícola.
A electricidade conquistou o mundo industrial mas... Portugal ainda hesita. Na capital do Império – já então sem o Brasil mas ainda com as colónias do continente africano e a presença longínqua na Índia e no Extremo Oriente – a Baixa lisboeta já tem luz eléctrica mas as redes de gás ainda são maioritariamente utilizadas na iluminação pública e particular.
As condições de vida são duras e por isso muitos emigram. É o tempo do Brasil para os jovens do interior do País e dos Estados Unidos, principalmente para os açorianos.. A “demanda” do Brasil já vem da segunda metade do século XIX e as remessas dos emigrantes constituem uma componente essencial do orçamento do Estado e garantem a sobrevivência a milhares de famílias portuguesas.
Longe da Europa Portugal permanece também longe de si próprio. Por comboio Lisboa dista um dia de Madrid, um dia e meio de Paris, dois dias de Londres e... um dia de Bragança e meio dia do Porto. Mesmo assim é um avanço em relação à diligência, que demorava o dobro do tempo a ligar as duas maiores cidades portuguesas. As estradas ainda não estão preparadas para receber os primeiros veículos a motor e os primeiros automóveis demoram dois dias entre Lisboa e Porto.
O povo vive mal , a aristocracia é dona de propriedades desvalorizadas e aparece uma classe empresarial que tem fortuna. E quem tem fortuna tem influência (onde é que eu já ouvi isto !!!): - Banqueiros, industriais, importadores, grandes comerciantes , especuladores e... seus amigos (e amigas) ocupam agora os primeiros lugares nos cerimoniais outrora reservados à nobreza.Com os novos ricos chegam novos costumes .
Nos grandes centros – Lisboa e Porto - é o dinheiro que compra a diversão... “Os teatros mataram os salões. Quanto aos bailes são apenas espasmos de um sistema moribundo” (1).
Eça de Queiroz imortaliza essa época com os seus magistrais romances que lhe sobreviverão no tempo. Aliás morre em 1900 mas, para quem o lê, continua vivo nas extraordinárias personagens de realismo caricatural que criou.
“Portugal é uma monarquia sem monárquicos”.
Governam o Pais, alternadamente, dois grandes partidos: - Regenerador (chefiado por Hintze Ribeiro) e o Progressista (José Luciano de Castro). O termo rotativismo então na moda não é palavra vã.
É raro que um Governo se sustente ao longo das três sessões de uma Legislatura. 1Só entre Novembro de 1899 e Outubro de 1901 realizaram-se quatro eleições para deputados! Votam apenas cidadãos do sexo masculino, que saibam ler e escrever, que sejam chefes de família e que paguem impostos. No dia das eleições galopina-se!
As pessoas influentes de cada círculo (fidalgos, administradores de Concelho, regedores, grandes proprietários, padres, médicos, farmacêuticos) vão de porta em porta cortejar os eleitores.
É o que se chamava “galopinar”.
Cerca de cem anos depois este sistema foi aperfeiçoado na zona Norte de Portugal, mais propriamente nas regiões de Gondomar (Majorogalopinar) e Marco de Canavezes (Avelinogalopinar).
E na transição dos séculos XIX para o XX como se vivia em Alcobaça!
Que monumentos, que ruas e praças existiam, que administração, que figuras notáveis, que indústrias, que comércio, que vida social, que cultura, que distracções , que qualidade de vida, que hábitos?! (2).
Que monumentos: - O Mosteiro de Santa Maria ,sombrio e austero, mostra ainda feridas das pilhagens do levantamento popular de 1833, pouco depois do abandono dos frades em Outubro desse ano trágico em que acabou, sem honra nem glória, o poderio de Cister...
Estão também abertas ao público as Igrejas Nova(demolida em 1915), da Misericórdia , da Senhora da Conceição e as Capelas de Santo António, Senhora da Paz e Santa Ana.
O Castelo de Alcobaça é uma ruína . Desde 1838 que funciona como “pedreira”. Nos registos da época estão referidos em sessões da Câmara de Alcobaça 600 carradas entregues a José de Sousa Leão, 200 carradas em 1839 para Francisco José Pereira, da Cela. Em 1851 foi concedida pedra gratuitamente para reparos no Hospital. Em 1852 foi concedida pedra para obras na Igreja da Misericórdia. Em 1855foi proposto que não se concedesse a permissão de tirar mais pedra do Castelo!!!
Que habitantes, que casario, que ruas e praças existiam:
A vila tem cerca de 450 fogos e pouco mais de 1.700 habitantes, que se movimentam em ruas em tão mau estado de conservação que... mais parecem caminhos rurais...
As casas, mal caiadas, apresentam um aspecto decadente.
A praça principal –ontem e hoje sempre o “Rossio” – chamava-se então “Praça Conselheiro João Franco “ e não tem calcetamento. O solo é desigual, cortado de gibas entremeadas de covas.
A circulação urbana fazia-se então através das Ruas Frei Fortunato, Castelo, Estrada, Santo António e Levada com os habitantes, de uma maneira geral de trato grosseiro e sem instrução, a conduzirem os seus animais para o mercado no centro da vila.
Duas novas ruas em redor do Mosteiro – Frei Estêvão Martins e Avenida João de Deus – melhoram a circulação e tornam o local mais aprazível, funcionando então um Passeio Público junto ao Rossio.O Bairro da Roda cresce com novas Ruas a quem são dado o nome de Navegadores. A Praça de Touros fica na Rua Afonso de Albuquerque .É também o tempo da abertura da Rua Grande, hoje Rua Costa Veiga.
Que população e que administração: - Em 1890 a vila tinha cerca de 1700 habitantes enquanto o concelho de Alcobaça tinha 33.039 habitantes. No mesmo censo são “contados” para o distrito de Leiria 250.154 habitantes (4).
São Presidentes de Câmara nos primeiros anos do novo Século Vitorino Avelar Fróis (2-01-1900 a 31-08-1900) e José de Almeida e Silva (01-09-1900 a 1-01-1902).
O edifício da Câmara funcionava num prédio de gaveto no Rossio com a Travessa da Cadeia.
Que militares: - Nos antigos Claustros do Rachadouro estão instalados os Regimentos de Cavalaria 9, Artilharia 1 e, mais tarde, Cavalaria 4.
“Cavalaria 9” foi o primeiro regimento a instalar-se na vila –em 1884 – tendo permanecido em Alcobaça cerca de 15 anos.
Que indústrias: - No início do século XX com as fábricas a laborar em pleno e a agricultura florescente regista-se um surto de desenvolvimento.
A Fábrica de Fiação e Tecidos, de Joaquim Ferreira Guimarães, onde chegam a laborar 1.000 operários por dia(em turnos- com 500 teares e 14.000 fusos), a Fábrica de Papel na Casa do Engenho(de Manuel dos Santos Silvério e Joaquim Silvério Raposo), a Fábrica de Louças de José Reis(1875), a Fábrica de Compotas e Conservas de frutas de Manuel Natividade e Araújo Guimarães (Natividade & Cª.) –1887 - e ainda...moagens, serralharias, oficinas de carruagens, cordoarias, etc.
Que comércio: - No espaço em redor do Mosteiro abrem vários estabelecimentos comerciais:- sapataria de Manuel Ribeiro Maranhoso, farmácia de Manuel Vieira Natividade, casa comercial de Narciso Monteiro, estabelecimento de João Ferreira da Silva, loja de ferragens e drogaria de José Maria Furtado Santos, mercearia de António Lúcio Taveira Pinto, farmácia de Marques da Silveira, sapataria de João Elias d´Óliveira, etc.
Também na Praça D.Afonso Henriques se estabelecem vários comerciantes.
O Hotel Alcobacense funciona na Rua Frei Fortunato .
Que vida social, que distracções: - Saraus literários, sessões políticas, bailes de máscaras pelo Carnaval e Mi-Carène.
Touradas na Praça da Rua Afonso de Albuquerque, de Vitorino Avelar Frois. A construção da Praça teve lugar em 1899.
Que cultura: - No antigo Refeitório do Mosteiro funciona o Teatro Alcobacense (inaugurado em 1840) onde são levadas à cena comédias, dramas, operetas, ópera, revistas pelas melhores companhias do País. Desde 1887 que havia um Coreto Municipal.
O Clube Alcobacense , detentor de uma excelente biblioteca, funciona desde 1889.Aliás o Gabinete de Leitura, que tinha sido fundado em 1875, chegou a ter 5.000 volumes para uso dos seus sócios.
No que respeita a Imprensa Local o primeiro jornal a ser publicado é o “Correio de Alcobaça”, que é fundado em 1889. No ano seguinte – em 1890 – saiu o primeiro número da “Semana Alcobacense” que se veio a publicar durante 33 anos.. Há ainda registo de uma revista chamada “Perfis”, que também foi editada no mesmo ano, e de que só teriam sido publicados 5 números.
Em 26 de Maio de 1891 surge o jornal “De Alcobaça”, que tem uma actividade regular durante cerca de 5 anos.
O “Noticias de Alcobaça”, de que é Director Guido Coelho da Silva, imprime os seus primeiros números em 1899(tem vida longa e meritória, com tiragens até 1932).
E quem é que lê os jornais desse tempo? Com toda a certeza poucos leitores pois o analfabetismo no País rondava os 78,6% numa população de 4.231.336 habitantes! (5).
Parece-nos oportuno referir que a Escola Adães Bermudes , na Roda, só vem a ser instalada em 1907.
Que figuras notáveis: - É o tempo de (entre outros) Manuel Vieira Natividade(que nasceu em 1860 no Casal do Rei), do Dr. Brilhante, do Dr. Décio Sanches Ferreira, de António de Sousa Neves. Joaquim Ferreira de Araújo, que em 1878 é o fundador da Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça, é também figura de destaque na sociedade alcobacense.
Que qualidade de vida: - O estado moral e intelectual da maioria moradores era baixo.
Em geral não eram letrados e o pouco tempo livre, depois das suas duras ocupações diárias, era passado em tabernas.
Quem tinha posses ,ou necessidade de viajar, apanhava os carros da Mala Posta, na Rua D.Pedro V .Uma viagem à Batalha, com partida de diligência, frente ao Hotel Alcobacense, demorava duas horas e custava 3.000 reis (3$000).
O Asilo da Infância Desvalida de Álvaro Possolo prestava serviços humanitários e dava assistência às crianças. Desde 1888 funcionava a Associação dos Bombeiros Voluntários de Alcobaça, de que foi 1º. Comandante Manuel Vieira Natividade.
O Hospital da Misericórdia de Alcobaça, inaugurado em 15 de Agosto de 1890, passa por grandes dificuldades económicas em 1900.
Em redor do coreto do “Rossio”já havia 22 candeeiros com luz eléctrica.
Em 30 de Abril de 1899 as gentes de Alcobaça viram passar pela primeira vez um automóvel!
Que hábitos: - Só nas famílias abastadas havia alguma convivência entre senhoras e meninas, através de reuniões em casa de uns e de outros.
Nas classes mais elevadas os homens, depois do trabalho, iam para as boticas e não é difícil adivinhar quem frequentaria os saraus literários, o teatro e os bailes de máscaras.
Nas classes baixas os homens trabalhavam de sol a sol, faziam umas “libações” no “pós –laboral” e seguiam para casa normalmente “entornados” onde os esperavam as mulheres e os filhos, eventualmente candidatos a uns sopapos para “animar” o serão!
As mulheres tinham filhos , criavam-nos como podiam e, sempre que tinham algum tempo disponível, “faziam meia “ e juntavam-se para conversar. Para “teatro” bastavam-lhes as “comédias” e os “dramas “ diários, embora um grupo teatral alcobacense – Grupo Dramático Villa Nova – tivesse conseguido grande aceitação junto de uma população menos favorecida mas, nem por isso, menos ávida de conhecimento.
Pesquisa para o livro de genealogia da Família COELHO, de Alcobaça (1ª.Geração - 1862-1882).
Pesquisa para o livro de genealogia da Família COELHO, de Alcobaça (1ª.Geração - 1862-1882).
Legenda:
1 - “Breve História de Alcobaça. Edição de 1995, de Bernardo Villa Nova e Silvino Villa Nova.
2 - Reis e Rainhas de Portugal, de Manuel de Sousa.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
M25 - Morte na noite de Natal de 1963 ou a história triste do Soldado Manuel
UM EPISÓDIO DE GUERRA NA GUINÉ PORTUGUESA
Na parede de adobe, mal caiada, e onde esverdeadas manchas de humidade alastravam, o calendário marcava uma data: 24 de Dezembro.
Com a janela aberta, por onde apenas entrava, na abafada, sufocante noite tropical, uma suspeita de frescura, o jovem oficial miliciano, à luz de uma vela, escrevia:
«… Minha Querida Mãe, são 21 horas e 40… ».
À luz de uma vela, porque a chama do petromax é alvo demasiado visível para qualquer atirador especial terrorista, alcandorado, ao longe, no cimo de alguma árvore. Mas ouve-se um estampido. Podia bem ser a rolha de uma garrafa de champanhe a saltar…
Ao estampido segue-se, porém o assobio quase imperceptível de uma bala que vai cravar-se na húmida parede de adobe, coisa de um metro acima da cabeça do oficial. Este apaga logo a vela. Depois, às apalpadelas, no escuro, procura o capacete e a pistola.
Quando finalmente sai já o duelo – a tiros de espingarda e rajadas de metralhadora - está a travar-se entre os terroristas (ocultos na floresta) e os seus soldados abrigados por detrás da muralha – só aparentemente frágil – de velhos bidões de gasolina cheios de areia. Entre uns e outros a cerca de arame farpado.
Está isolada a pequena força do destacamento de Caçadores.
O posto mais próximo é a muitos quilómetros de distância. Antes que amanheça, nenhum auxílio podem esperar estes homens. Mas será que os terroristas se aprestam para um ataque frontal? Horas iguais de uma noite abafada e húmida.
Aos soldados e ao oficial também, o que sobretudo os irrita é que aquele inoportuno tiroteio aconteça em noite de Natal, já com a mesa posta para a consoada.
E havia broas, uma galinha assada, algumas garrafas de bom vinho.
A noite, entretanto, povoa-se de clarões – as armas de fogo que disparam incessantemente, assinalando cada segundo com um tiro. E as horas passam.
Mas o jovem oficial nem tempo tem para ver as horas no pequeno mostrador luminoso do seu relógio de pulso. E nem sequer pensa no perigo – ali entrincheirado e tendo pela frente um inimigo bem armado, que a palmos conhece o terreno e vê de noite, como o jaguar.
Agora só pensa naquela carta que teve de interromper:
«… são 21 horas e 40… ».
Mas quando é que isso foi?
Era noite de Natal. Ele escreveu à luz discreta de uma vela de estearina, algures no mundo, nesse mundo onde não há clarões de armas de fogo, nem assobios de balas, ardiam círios nos altares, centenas de círios, milhares de círios, que não era preciso apagar à pressa no princípio de uma carta…
E agora? Sim. A meia noite deve estar próxima. Talvez o padre, algures, já esteja a encaminhar-se para o altar. Mas o jovem oficial não o sabe de certeza – e não pode ter um olhar para o mostrador luminoso do seu relógio de pulso.
A pistola-metralhadora palpita-lhe nas mãos como se fosse dotada de vida própria e chispas de fogo, desdobradas em leque, correm, segundo a segundo, em direcção à negra cortina de arvoredo.
No mundo em que não há guerra já decerto agora o sacerdote acabou de celebrar a Missa do Galo.
Aqui, o fogo começa, enfim, a esmorecer.
Naturalmente, os terroristas principiam a retirar, para que os aviões ao amanhecer, se viessem bombardear a floresta, já não os encontrem…
Uma a uma, calam-se as armas automáticas do inimigo. Uma a uma, a intervalos certos, como se houvesse, algures no mato, a batuta de um maestro.
Mas será de facto a retirada? Não será antes o silêncio de mau agoiro que sempre antecede a gritaria de um assalto frontal?
Não. É efectivamente a retirada. E devagar, como se lhe custasse a acordar de um pesadelo, o jovem oficial recolhe ao seu quarto, risca um fósforo, acende a vela, atira par um canto o capacete, que está a queimar-lhe a testa, e suado, exausto, com os nervos num feixe, senta-se ,de novo, à mesa para escrever:
«… pois agora, minha querida mãe, são 3 horas e 20.Eu e os meus soldados tivemos uma noite de Natal muito divertida. Nem imagina… As broas que nos mandou souberam a pouco. E das garrafas mandadas pelo pai diga-lhe que não ficou nem uma gota».
21 horas e 40. 3 horas e 20.
Menos de seis horas na vida de um homem. Mas deitado numa padiola, com uma bala na cabeça, o Manuel, o seu impedido, é um corpo que rapidamente arrefece, como no verso de Fernando Pessoa.
_________
Agora, no hotel, em Bissau, sentado ao meu lado, almoça. Está no porto o barco que o vai levar de regresso a Lisboa. Trouxe este barco 800 homens. Vai partir com outros tantos, aproximadamente. Os que chegam passam, em camiões, a cantar. Também cantam os que partem. Entretanto, o jovem oficial diz-me, com simplicidade:
- À minha mãe é que nunca hei-de contar o que foi aquela noite…
Mas logo acrescentando:
- «Agora uns meses à boa vida e depois a África outra vez, como empregado em qualquer empresa de Angola ou de Moçambique: este veneno de África entrou-me para sempre no sangue».
__________
Artigo não assinado.
Publicado em «O ALCOA» em 8 de Fevereiro de 1964 (Ano XVII-Nº.876)
Desde há cerca de 2 anos que tento descobrir dois mistérios que resultam deste conto:
1) Quem é o Alferes Miliciano.
Só pode ser da região de Alcobaça. Regressou à Metrópole num navio que deixou Bissau em Janeiro de 1964.Já localizei as Companhias e Pelotão de Morteiros e AAA que regressaram nessa altura. Esses militares estiveram cerca de dois anos na Guiné onde a guerrilha começa a ter importância no terreno a partir dos primeiros meses de 1963.
Para se ser Alferes Miliciano nesse tempo era preciso ter habilitações literárias no mínimo equivalentes ao 3º. Ciclo dos Liceus (antigo 7º. Ano).
Pesquisei no arquivo da C.M.de Alcobaça os registos de mancebos respeitantes aos anos de 1958, 1959, 1960 e 1961. Encontrei vários nomes, consegui alguns contactos pessoais mas... nada. Tenho em aberto uma pessoa conhecida do Professor Arduino,de Alpedriz, que pode ser o autor de UM EPISÓDIO DE GUERRA NA GUINÉ PORTUGUESA.
Mas passaram mais de 40 anos e posso andar à procura de uma pessoa que já não esteja neste mundo.
2) Quem é o militar que morreu na véspera de Natal de 1963.
Nos registos oficiais do E.M.E. só um militar das milícias locais que morreu por acidente.
Com nome de Manuel há registo em 28 de Dezembro de 1963:
MANUEL RAMALHO CAPELAS
1º.CABO-ATIRADOR
CCAV 567
BINAR
DATA DE FALECIMENTO – 28 DE DEZEMBRO DE 1963
FERIDO EM COMBATE
Mortos em Campanha – Guiné – livro 1, pgs. 42
Não é impossível um engano nos registos mas não é nada vulgar…
Há outras “incoerências” que não encaixam na história: Binar não é um posto fronteiriço e um primeiro-cabo não era habitual ser “impedido” de um Alferes.Por outro lado a CCav 567 só acabou a sua comissão em meados de 1965!
Resumindo e concluindo: se alguém souber alguma coisa desta misteriosa história contacte-me ,por favor:
José Eduardo Reis de Alcobaça, telem. 96 3147683.
Fico desde muito grato.
JERO
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
M24 - O BURRO, A CARROÇA E... A FALTA DO HOMEM!
ESTÓRIAS DO QUOTIDIANO... que não acontecem todos os dias!
O burro, a carroça e... a falta do homem!
Não é bem a história do velho, do rapaz e do burro mas tem algumas das suas personagens...
O burro, a carroça e... a falta do homem!
Não é bem a história do velho, do rapaz e do burro mas tem algumas das suas personagens...
Há cerca de dez anos um médico meu amigo regressava a Alcobaça no final da tarde. Podia-se dizer até que já era mais noite que dia.
Viajava de Leiria no seu jeep e já perto de Aljubarrota, quando se inicia a descida a caminho de Alcobaça, ultrapassou uma carroça puxada por um burro, que seguia no mesmo sentido. Momentos depois da ultrapassagem alguma coisa lhe pareceu mal e... subitamente “soou um alarme” na sua cabeça:- em cima da carroça não seguia ninguém.
Mais uns minutos estava em casa e... antes de se sentar à mesa para jantar resolveu telefonar para a Policia.
Não lhe saía da cabeça a ideia de que o condutor da carroça podia ter caído e estar ferido e sem sentidos à beira da estrada.
Por outro lado o facto de o burro continuar a circular, a caminho de Alcobaça, sozinho e... sem luzes... poderia a qualquer momento provocar um acidente.
Telefonou para a P.S.P. deu conta das suas preocupações e foi-lhe sugerido que desse conta da ocorrência à GNR pois o burro com a carroça (sem condutor) circularia ainda a alguma distância de Alcobaça (2 ou 3 kms).
E portantos – é bem de ver - não se encontrava ainda na área da responsabilidade da Polícia. Teria que ser com a GNR.
O meu amigo insistiu com o Agente para ser ele a dar conhecimento à GNR, que era logo na porta ao lado, mas nada feito. Tinha que ser o próprio a tratar do assunto.
Já um pouco aborrecido mas sem ser capaz de começar a jantar sem cumprir o seu dever de cidadania resolveu telefonar para o Posto da GNR.
Assim fez , contou o que se tinha passado e... depois de uma curta pausa foi questionado: -
Há quanto tempo tinha passado pelo burro?
Tinha sido já na descida da Lameira?
Dadas as respostas ouviu do outro lado a seguinte sugestão: - Tendo em atenção o tempo entretanto decorrido o burro e a carroça já deviam estar perto da vila de Alcobaça e portanto teria que dar conta da ocorrência à PSP, que era a autoridade competente para tratar do assunto.
O meu amigo médico foi aos arames barafustou mas... nada feito.
Não fez mais telefonema nenhum e...foi finalmente jantar, chateado que nem um peru, e só não tomou um “xanax o,5 mg” para dormir nessa noite porque os médicos normalmente só prescrevem...
Um dia “caiu na asneira” de me contar esta estória.
Obviamente que o questionei: - Então e nunca veio a saber o que aconteceu ao burro?
Não sabia.
Fiquei intrigado com a narrativa – que não tinha tido um final condigno - e como tenho alguns conhecimentos comecei a investigar esta estória apesar de já terem passado alguns anos
Os primeiros esforços foram baldados mas finalmente o meu trabalho de investigação foi recompensado.
Recentemente encontrei alguns pistas quentes.
Primeiro foi para os lados do Palácio de São Bento.
Mais recentemente junto de Palácio dos Congressos de Almada.
Mas nada . As pistas quentes eram apenas... mornas!
O burro de Aljubarrota não tinha chegado lá.
Até que há uns dias atrás fez-se luz no meu espírito.
Abri a televisão e vi um burro a “falar” para a “Quinta das Celebridades”.
Ali estava ele.
Mesmo à minha frente no écran juntamente com a azougada Júlia Pinheiro.
A simpática e despachada apresentadora do programa chamava-lhe “Pavarotti”.
E ele respondia e... para meu espanto... dizia coisas bem mais acertadas de que alguns concorrentes da “Quinta”.
Cá para mim era o burro de Aljubarrota!
O meu amigo pode estar finalmente tranquilo.
O burro afinal não tinha feito estragos de maior e... até já era “estrela da TV”.
Há cada estória nestas nossas vidas... feitas de quotidianos!!!
JERO
terça-feira, 1 de setembro de 2009
M23 - PEDRO E INÊS e o amor eterno!
AMOR ETERNO…
Não é difícil adivinhar que o título tem a ver com o amor eterno de Pedro e Inês.
A conversa aconteceu momentos antes de uma Conferência de Imprensa convocada para o lançamento do jantar-teatro do mesmo nome, que veio acontecer no Mosteiro de Alcobaça em 20 de Agosto do ano passado.
Em cima da mesa estava o (bonito) cartaz, que ia ser a bandeira do evento.
O tema lançado para a mesa, antes do início da conferência, pelo mais velho dos presentes foi provocatório:
O que é o amor eterno?
3 anos?
5 anos… não renováveis?
Todos alinharam no jogo de palavras…e o cepticismo dos dois mais jovens –um rapaz e uma rapariga -surpreendeu-nos um pouco.
Para gente na casa dos 20 não esperava tanto desencanto em relação ao tema!
Já deu para entender que o mais velho da mesa redonda éramos nós.
O quarto homem da mesa– mais vivido e a caminhar para os 40 – surpreendeu-nos com a sua opinião. Aparentemente ainda mais radical que as anteriores.
Amor eterno podem ser 5 minutos…
Seguiu-se uma gargalhada geral mas o Carlos Gomes esclareceu o seu ponto de vista:
5 minutos podem corresponder a um momento que nos marca para toda a vida. Amor eterno no sentido de um momento para a eternidade. Até ao fim da vida…
Seguiu-se a conferência de imprensa.
No dia seguinte voltámos a encontrar o Carlos Gomes .Mais uma vez veio à baila o «amor eterno» na versão abreviada de 5 minutos.No que nos diz respeito já não brincámos com a tese dos minutos….
Nos meus sessenta e tal anos de existência quantos «momentos inesquecíveis», dos tais momentos para a eternidade já tínhamos vivido?!
Não vamos, obviamente, relatar acontecimentos da nossa vida familiar.
Mas momentos para eternidade temos muitos e arriscamos a partilha de alguns, porque não são de todo vulgares.
Momentos marcantes ,que podem ter durado apenas minutos, mas que permanecem eternos na nossa memória. São quase todos dramáticos e aconteceram em cenários de guerra ou… lá perto!
Como centenas de milhares de jovens da minha geração fomos mobilizados para a Guerra do Ultramar. Como há pouco referia o insuspeito Secretário do Partido Comunista Português, Jerónimo de Sousa, também ele foi ao Ultramar. «Só os meninos ricos é que escaparam e se ausentaram para o estrangeiro…».
• O «baptismo de fogo» é um dos momentos mais marcantes da vida de um militar. Ninguém sabe como irá reagir. Alguns «heróis» das paradas dos quartéis agarram-se ao chão que nem lapas e outros, até ali mais discretos, conseguem dominar o medo e portam-se como Homens. Há um minuto decisivo. Ou fazemos o que é o nosso dever ou perdemos o respeito dos outros. E passamos a (com)viver mal com nós próprios…
• Fui Furriel Milº. Enfermeiro. Na operação Lenquetó,no norte da Guiné em 4 de Julho de 1964, fomos emboscados e tivemos vários feridos. O mais grave foi o 1º.Cabo Marques que foi atingido no baixo ventre. Aguentou as dores que nem um valente. Nos seus poucos queixumes julgo que só lhe ouvimos dizer… «Meu furriel,não vou voltar a ser um homem normal… »!
Quando o helicóptero chegou para o evacuar estávamos cercados e debaixo de fogo. O Alferes Tavares aproximou-se para levar ao colo o Marques. Antecipei-me. Era eu o Enfermeiro. Era eu que o tinha de levar até ao helicóptero.
O capitão Tomé Pinto e o Alferes Tavares deram-me protecção. Os 40 ou 50 metros que percorri com o Marques ao colo, até ao helicóptero, foram bem compridos. Só me recordo de ouvir as pás do helicóptero e… as batidas do meu coração. Não mais esquecerei aqueles minutos. Foram 5 minutos eternos!
• Mais de 20 anos depois …conheci numa reunião de ex-combatentes… as filhas… do Marques. A maneira como me abraçaram deu para entender que sabiam do papel que tinha tido em relação ao seu nascimento… Foram minutos de intensa emoção. A expressão do seu afecto foi uma «medalha»… para toda a vida.Uma recompensa… eterna!
• Fica para o fim a estória mais difícil… que aconteceu ainda na operação de Lenquetó, no dia do«baptismo de fogo…».
Depois do ataque de surpresa à aldeia (na Guiné chama-se «tabanca») fizemos cerca de 40 prisioneiros. Era um grupo misto de homens ,mulheres e crianças. Amedrontados e com alguns feridos foram colocados no meio do nosso dispositivo: dois grupos de combate – 60 homens – progredindo em quadrado.
Tinha havido tiros de resposta ao nosso ataque e tínhamos a noção de que alguns guerrilheiros tinham escapado e podiam andar por perto. Quando mais demorássemos na marcha de regresso ao quartel, a cerca de 12 Kms. de Lenquetó, maior seria a hipótese de virmos a ser emboscados. O que realmente veio a acontecer.
A nossa marcha era interrompida com frequência devido à dificuldade em fazer caminhar alguns prisioneiros feridos.
Fui chamado pelo Capitão Oliveira: «Vê quais são os feridos mais greves e aqueles que não tiverem hipóteses… ficam…». O Chefe da Tabanca tinha um tiro no peito. O buraco de saída da bala, nas costas, tinha o tamanho de um punho. Cada vez que respirava parecia-me ver-lhe o pulmão!
Estava moribundo. Sentei-o encostado a uma árvore. Dei-lhe uma injecção de morfina. E…ficou para trás. Nunca mais esquecerei o seu olhar. Julgo que não disse uma palavra. Não lhe vi ódio. Vi-lhe resignação e pareceu-me preparado para morrer. Com dignidade. Afinal era um Chefe.
Julgo que percebeu que lhe tentei aliviar as dores. Eu… um puto de 24 anos a escolher quem morria e quem vivia. Ainda hoje lembro a sua face de sofrimento mas… de grande dignidade.
O último olhar que trocámos ficou-me gravado na alma... Para toda a vida!
Voltando ao«Pedro e Inês e ao amor eterno»!
O último olhar que trocámos ficou-me gravado na alma... Para toda a vida!
Voltando ao«Pedro e Inês e ao amor eterno»!
Eterno… porque foi trágico? Porque Inês foi coroada Rainha depois de morta? Porque a história perdurou nos séculos… até aos nosso dias!
Porque ficou uma mensagem na pedra tumular de Inês: até ao fim do mundo!
Porque… aconteceu e foi dramatizada em crónicas, em peças de teatro, em pinturas…
Porque…
E as outras «eternidades»!? As tais de «5 minutos» que… o tempo não atenua nem apaga!?
Obviamente que o «amor eterno» tem mais encanto…
Amor eterno… Até ao fim do mundo...
Memórias de guerra… Até ao fim da vida…
Fica «em aberto» a tese do Carlos Gomes.
Aceitam-se «contraditórios».
Trata…
JERO
domingo, 30 de agosto de 2009
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