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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

M133-A VINGANÇA SERVE-SE FRIA


A vingança serve-se fria…

Na região de Sever do Vouga o Inverno não se vai embora às primeiras…
Ainda havia neve na “Cabreira” e o “Teixeira” roncava…
Carolina (nome fictício) aquecia-me junto à lareira da cozinha da casa dos pais e escrevia mais uma carta ao seu namorado, que cumpria serviço militar no Quartel de Viseu.
Estávamos em 1955.
Namoram há 3 anos e meio…Logo que ele saísse da tropa casariam...Pensava a Carolina!
O pai trabalhava de sol a sol nas suas terras de Rocas do Vouga e não se metia no assunto. Tinha mais em que pensar..
Um dia apareceu-lhe o António. Era filho de uma família com muitas terras na região. Já passara dos 30 e era um homem feito mas não “bem-feito”.Por outras palavras era ,aos olhos das raparigas da aldeia, feio como os trovões.
Pediu respeitosamente ao pai da Carolina para falar de um assunto. Assunto sério: queria casar com a filha. O pai da Carolina ficou de lhe dar uma resposta.

Conheci a Carolina há poucos dias. Mais propriamente no último mês deste ano. Dezembro de 2009.Ia acompanhado de um seu primo , que me tinha acabado de mostrar as belezas da região de Arões. Couto Esteves. Cerqueira e a sua anta de corredor, Catives, Mouta, Covões e pequenas igrejas, bem cuidadas e limpas. Nos intervalos de algumas chuvadas e aguaceiros descíamos e subíamos vales, com os roncos do Rio Teixeira por perto. A Serra da Cabreira adivinhava-se ao fundo mas mal se via devido à neblina.
Num curva de uma estrada estreita entre pinheiros e eucaliptos avistámos uma casa de primeiro andar, junto de alpendoradas com os vinhedos próprios da região. O meu amigo da vida militar, que fazia de cicerone, lembrou-se que naquela isolada região vivia uma prima e fomos visitá-la.
Curiosamente a Carolina, sozinha em casa e sem estar prevenida da visita, recebeu-nos sem problemas e sem qualquer receio aparente, embora não tenha reconhecido à primeira o seu parente Mendonça (nome fictício), que já não via há tanto tempo.
Percebi facilmente que a velha senhora gostava de conversar e dei-lhe “guita”.
Quantos anos me dá?
Com alguma delicadeza disse-lhe que devia estar na casa dos sessenta.
«Não senhor. Tenho mais uns tantos.»
Já tinha feito 74. Vivera dez anos em França, tinha 4 filhos e já enviuvara há alguns anos atrás.
E contou-me a história do seu casamento que afloro no princípio da narrativa. Em poucas palavras contou-me tudo. Ou quase.
O seu casamento fora feito pelo Pai .
Namorava há 3 anos e meio (o pormenor do meio ano foi bem acentuado) com um rapaz de Irijó que andava na tropa em Viseu. Apareceu um pretendente que falou com o seu Pai.
Era 14 anos mais velho mas tinha terras, muitas terras.
O militar era bom rapaz mas era, aos padrões do tempo e da região, um pobretanas.
Quando o Pai lhe deu conhecimento do interesse do António não foi por meias palavras: «Acabas e acabas mesmo.»
«Mas senhor meu Pai eu gosto dele…»
Chorou amargamente mas teve que ser.
Quem mandava era o senhor seu Pai…
Escreveu uma carta para o Quartel e acabou com o namoro.
«Por favor não me escrevas mais nem me procures que o meu Pai quer que eu case com outro…».
Casou com o pretendente do Pai depois de 8 meses de namoro.
O António tinha muitas terras mas tinha um casa muito pequena e sem confortos nenhuns, que só conheceu na noite do dia do casamento. Passou muitas noites –e dias – a chorar.
Não é preciso perguntar se teve uma vida feliz porque a Belmira diz muito -em alguns silêncios - da sua conversa . Sou um desconhecido mas estou com um seu primo.
Portanto posso fazer perguntas e a Carolina responde sem embaraço.

«E sabe o que é aconteceu ao seu namorado da juventude?»
-Casou com outra e vive na região de Lisboa.
Os olhos ainda lhe brilham quando fala dele…
O homem, o António, dono de muitas terras…há muito que está enterrado.
Recusámos um cálice vinho do Porto e fomos a nossa vida.
A Carolina lá ficou sozinha à distância de mais de meio quilómetro da casa mais próxima .

Algumas horas mais tarde em casa do Mendonça puxei a conversa, referindo a impressão que me tinha causado o isolamento em que vivia a Carolina.
Estava presente uma criada da casa, que entrou na conversa sem qualquer rebuço.
Mais nova mas também viúva mas que vive no lugar de Irijó, naturalmente mais povoado
A criada do Mendonça 10 anos mais nova diz que a Carolina de vez quando tem visitas. Vão e vêm-se. De táxi. Estão por lá umas horas …
«Oh senhor não tenha pena dela.»
Custou-me um bocado a ouvir o final da história mas …é a vida.
O namorado dos verdes anos da Carolina está afinal tão longe!
E casado com outra..
E se a “mão de obra” local resolve a solidão …
Quem é que disse que não há vida depois dos 70!
«Acabas e acabas mesmo.»
Isso era dantes…Senhor Pai.
A vingança serve-se fria…com os roncos do “Teixeira” lá ao fundo.
Digo eu…que não sou de intrigas.
JERO

terça-feira, 6 de outubro de 2009

M49-BLOGANDO E ANDANDO (1)




Leões na Guiné em 1966 !

O título pode parecer especulativo...mas tem algum fundo de verdade.
Passamos a explicar.
Em Maio de 1966 uma equipa de futebol do Sporting Clube de Portugal visitou a “portuguesíssima Província da Guiné para homenagear a sua Filial nº. 89 – Sporting Clube de Bissau”.
Os “leões de Alvalade” efectuaram alguns jogos de futebol em Bissau com equipas locais. E também “futebol de 5” contra equipas militares.
E como soubemos desta distante história de “Leões” na Guiné?
Na nossa rotina diária depois de em casa “blogar” vamos andar para a pista de um campo de futebol, que temos a sorte de ter ao pé da porta.
Um destes dias numa conversa com um parceiro “de pista”, que sabíamos ter jogado futebol no Sporting ( Lisboa), vieram à baila algumas “conhecimentos” sobre a Guiné que nos surpreenderam .
Como é que ele sabia coisas de Bissau, de Bolama e Bafatá?
Tendo em conta a nossa diferença de idades como é que o José Carlos de Jesus tinha estado na Guiné com 18 anos de idade sem ser na qualidade de militar!?
A resposta não deixou dúvidas: - Como jogador de futebol do Sporting Clube de Portugal.
Ah, tá bem!
A conversa continuou no dia seguinte e o Zé Carlos trouxe-nos uma carta do S.C.P. datada de 7 de Junho de 1966.
A carta refª. 4521/66, Minº.ML, Dactº. AC. atribui um “Voto de Louvor” a todos os jogadores que fizeram parte do grupo de futebol…pela forma valorosa como desportivamente se aplicaram no decorrer dos três jogos realizados. Acompanhou a comitiva leonina o Vice-Presidente para as Relações Externas Dr. António Alexandre Pereira da Silva. Assinava a carta o Secretário-Geral da Comissão Directiva Romeu Adrião da Silva Branco.
Colhemos entretanto a informação adicional que era Presidente do Clube
Guilherme Braga Brás Medeiros (1965-1973).

Alem da carta trouxe-nos também uma fotografia de uma equipa do tempo (1964-65) do Sporting Clube de Portugal.
E o que recorda o Zé Carlos da sua passagem de Guiné 40 e tal anos depois?
Recorda várias coisas.
A longa viagem do SuperConstelation de Lisboa a Bissau – cerca de 9 horas – e o “choque” com o calor e humidade quando saíram do avião a caminho da cidade.
De fato inteiro, camisa e gravata bufavam que nem …leões.
Quando chegaram ao Palácio do Governador para cumprimentarem o “General” Shultz ficaram de boca ainda mais aberta por o Governador os receber de calções e camisa.
Depois recorda as Avenidas de Bissau, o mercado e militares por todo o lado. Gente, cor, bulício e…ausência de sinais de guerra.
Em relação aos jogos no Estádio de Bissau recorda muita gente, muito entusiasmo e no final algumas cenas de pancadaria entre militares da marinha e do exército.
Na equipa do Sporting não jogaram então alguns dos grandes jogadores da época por estarem já seleccionados para e equipa de Portugal que iria, dentro de poucos meses, disputar o Campeonato do Mundo de 1966, (onde viríamos a obter o melhor resultado de sempre - um 3º.lugar).
Os jogadores em causa ainda hoje são históricos e recordados pelas gentes do futebol: Carvalho, Hilário, Morais, Zé Carlos, Alexandre Baptista e Lourenço.

O Zé Carlos recorda que em Bissau, sob a orientação do treinador Juca jogaram: Damas, Caló, Carlitos, Lino, Pedro Gomes, Dani, Colorado, Figueiredo,João Barnabé, Barão e outros atletas cujo nome já não recorda.

Fora do que se passou nos rectângulos de jogo o José Carlos de Jesus (também conhecido nos “futebois” por Zé Carlos II) lembra com particular saudade as viagens a Mansoa e a Bafatá.
Para Mansoa viajaram em viaturas descapotáveis (Renault Caravell) sem escolta militar.
Para Bafatá viajaram de avião (Dakota).
Lembra-se de aterrar num pequeno campo de aviação e de viajar para a cidade num carro de “caixa aberta”.
Seguiu-se um almoço memorável à base de ostras grelhadas, como nunca mais comeu até hoje.
Deixamos para o fim a invulgar e, no que nos diz respeito, nunca ouvida história do crocodilo amestrado de Mansoa.
A comitiva do Sporting foi avisada de que ia ver uma “cena” única: um crocodilo amestrado que ,à voz de um domador da “casa” (leia-se de Mansoa) iria sair do seu charco privativo para vir até terra firme “confraternizar” com a malta. Daria até para se tirar uma fotografia com um pé em cima das costas do crocodilo sorrindo para a objectiva.
Foi com esta expectativa elevada que os “leões” de Lisboa se aproximaram do charco das terras de Mansoa.
O “domador”, empunhado um comprido pau com um pedaço de carne na ponta, pediu silêncio e aproximou-se do “poiso da fera”.
O charco, de água esverdeada e viscosa, permanecia calmo …
O “domador” arriscou mais uns passos e, de repente, o crocodilo apareceu e saltou (ou pareceu saltar).
Foi um cagaço monumental.
Domador e seus convidados fugiram a sete pés (ou mesmo mais…).
A malta da bola não deixou os seus créditos por pés alheios e sprintou rapidamente para bem longe do charco.
O crocodilo ouviu das boas e a sua mãe não escapou de algumas graves ofensas verbais à sua honra !
As viagens de regresso a Bissau e mais tarde a Lisboa decorreram dentro da normalidade.

À distância no tempo o Zé Carlos II recorda com saudade os seus 18 anos e a viagem à Guiné.


Mas o crocodilo “amestrado” de Mansoa e o cagaço colectivo da comitiva dos “leões de Alvalade” ocupam, nas suas memórias africanas , os “flashes” mais nítidos das recordações de há quarenta e tal anos atrás.
Devemos ao Zé Carlos II a evocação dos “Leões na Guiné” em 1966.

Alguém da grande família de ex-combatentes se lembra destes futebois longínquos?
E do crocodilo de Mansoa?
JERO

1964-65


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

M32- UM TELEGRAFISTA ...DE TROPAS ESPECIAIS!


Um Telegrafista assustado...é assustador!

O Sr. Barros(Manuel Pereira de Barros de seu nome completo) é daquelas pessoas com quem se faz facilmente amizade.
É um indivíduo cordial, bem disposto e …excelente comerciante.
É bem conhecido em Alcobaça, onde está estabelecido há mais de 23 anos no Centro Comercial ,frente ao Cine-Teatro .Quem é que não conhece a «Loja da Dª.Ema»!?.
Tem o perfil típico de boa pessoa.
Pacífico …daqueles que empresta (ou dá) a camisa ao próximo ser for preciso e que… se estima à primeira vista. Não será exagero dizer que terá em cada cliente um amigo !Ou vice-versa…
Um dia ,há pouco tempo atrás, fui o último cliente do dia.
Houve tempo para conversar e…um pouco à sorte …fomos parar à vida militar. Foi uma surpresa saber que o Sr.Barros tinha andado na guerra do Ultramar pois tem aspecto de … jovem cinquentão[1] .
Para minha maior surpresa vim a saber que tinha feito tropa nos fuzileiros e que tinha andado na guerra em Moçambique. O Sr. Barros tinha pertencido às tropas especiais! Fiquei sem fala e quando recuperei da surpresa fiz questão de tirar o boné que tinha na cabeça. Tropa especiais.?!Cuidado com o homem…
O sr. Barros transfigurou-se e, em poucos minutos, debitou, meia dúzia de estórias. Pela sua pedalada percebemos que o tema daria para horas de conversa…Entremeou algumas estórias dramáticas com outras bem divertidas que nos surpreenderam pelo inesperado. Para quem julga que já ouviu todas as estórias da tropa …
Seguem-se duas das que seleccionámos.
Esteve em Moçambique nas zonas de Lago Niassa, Cabo Delgado e Tete nos anos de 1971 e 1972.

1-Num ataque nocturno ao seu quartel o fogo inimigo parecia uma trovoada…
Meio assarapantado pegou na arma que estava mais à mão e, com algum atraso, juntou-se aos camaradas que já ripostavam vigorosamente ao ataque que, passados alguns minutos, esmoreceu. Quando os ritmos cardíacos voltaram ao normal o telegrafista Barros foi «trucidado» pelo gozo dos camaradas. A arma que tinha na mão era um «pressão de ar», que era habitualmente usada para caçar uns pombos para «melhorar o rancho». As gargalhadas ferveram e «a ocorrência» deu para uns bons dias de gozo…

2-Quando em operações o Barros-telegrafista transportava um rádio «Racal TR-28-32» ,com14 quilos.
Numa missão a um objectivo de alto risco integrou um secção de 5 homens, que foi transportada de helicóptero até perto do objectivo.
Como já era habitual o «heli» ficou a pairar a um metro, metro e meio do solo, e os «fuzos »foram saltando.
O Barros ficou para último e quando ia saltar hesitou pois a distância até ao solo pareceu-lhe ter aumentado repentinamente. E com 14 kgs. às costas ia partir uma perna ou…sabe-se lá o quê. Mais depressa do que leva a contar o tempo de salto passou e o helicóptero saíu rapidamente da zona ganhando altura e distância … O Barros-telegrafista engoliu em seco em seco várias vezes e ganhou coragem para tocar no ombro do piloto que se julgava a voar sozinho. Quando o fez disse: Oh sr. Piloto desculpe mas…
Nesse momento o piloto virou-se e…julgou estar na presença de um fantasma.
Gritou de susto, largou os comandos e o «heli» quase se despenhou.
Lutando pela vida conseguiu equilibrar o aparelho e…quando acalmou …ouviu as razões do Barros-telegrafista para…não ter saltado.
Entrou em contacto via rádio com os companheiros do Barros-telegrafista –havia mais tropa na zona - que já evoluía no solo a alguns kms. de distância.
Deu uma volta larga , regressou e pousou o helicóptero para o Barros sair pelo seu pé, junto dos companheiros.
Estes…chamaram-lhe tudo menos …bom rapaz.
«A menina-telegrafista» juntou-se ao grupo e aguentou-se no balanço.
Este salto em falso deu para largos meses de galhofa na sua unidade

Estas duas pequenas estórias, que o sr.Barros conta entre exclamações divertidas e gargalhadas, não são seguramente as que se esperam de um militar que andou pelas «tropas especiais», que são tidos pela opinião pública em geral como «máquinas de guerra»!
Mas duma coisa estamos certos : o sr. Barros é um ser humano… especial e, em outras estórias que nos contou, de forma grave e séria ,deu para perceber que com a sua bondade natural e bom senso evitou alguns graves disparates dos seus companheiros no tratamento a prisioneiros!
Para ser melhor…a vida …precisa de pessoas especiais como o sr. Barros.
«Então e o que é que vai ser hoje?
Temos aí uns pastéis de nata que…nem os de Belém se lhes comparam!
E quem comprar meia dúzia…leva sete.»
Porque acaso nesse dia não fez negócio porque não sou guloso…
Levei só o sétimo!


JERO

[1] Nasceu em 16 de Outubro de 1951 tendo-se alistado com 16 anos na Marinha de Guerra, onde esteve até aos 21 anos (quatro anos e meio).
Reside actualmente no Casal da Coita, lugar da mesma freguesia de Santa Catarina.