quinta-feira, 29 de abril de 2010

M- 241 - DOIS DE MAIO

Dia da Mãe

por Ana Maria Monsanto em 28 abril 2010 ás 11:40

Nas vésperas do Dia da Mãe, queremos saber a história da sua: que recordações guarda e em que medida ela o influenciou.
Terá sido tanto quanto ao poeta Carlos Drummond de Andrade?

SEMPRE
Porque Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura,
ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve
e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Porque Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe, não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto do seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Por Carlos Drummond de Andrade
- poeta brasileiro

quarta-feira, 28 de abril de 2010

M 240 - NUNCA É TARDE

Fazê-lo parado fortalece a coluna,*

*de barriga para baixo estimula a circulação do sangue,*
*de barriga para cima é mais agradável,*
*fazê-lo sozinho é enriquecedor, mas egoísta,*
*em grupo pode ser divertido,*
*no w.c. é muito digestivo,*
*no automóvel pode ser perigoso...*
*Fazê-lo com frequência*
*desenvolve a imaginação,*
*a dois, enriquece o conhecimento,*
*de joelhos, torna-se doloroso...*
*Enfim, sobre a mesa ou sobre ao secretária,*
*antes de comer ou à sobremesa,*
*sobre a  cama ou numa rede,*
*despidos  ou vestidos,*
*na relva ou sobre o tapete,*
*com música ou em silêncio,*
*entre lençóis ou no roupeiro:*
*Fazê-lo é sempre um acto de amor e de enriquecimento*
*Não importa a idade, nem a raça, nem o credo, nem o sexo, nem a posição
económica...*
 
 
 *Ler é um prazer!!!!*
a propósito do Dia Mundial do Livro
que já foi em 23 de Abril de 2010
mas...
nunca é tarde...
para um acto de amor e enriquecimento
 digo eu que muito gosto
de escrever e...ler.
JERO
 
 

terça-feira, 27 de abril de 2010

M 239 - IMAGENS DE ALCOBAÇA EM NOVO LIVRO

ALCOBAÇA um século de imagens

Esta é a recensão do novo livro de Jorge Pereira de Sampaio e Luís Afonso Peres Pereira, cujo lançamento aconteceu no Auditório da Biblioteca Municipal de Alcobaça no passado dia 24 de Abril

Tem um excelente aspecto gráfico este novo livro de uma dupla de autores já com provas dadas.

Ouso até dizer que este novo livro toca especialmente os nascidos nas décadas de 40 e 50, pois ele representa um velho álbum de fotografias que muitos de nós … temos em casa mas não sabemos onde está ou já não desfolhamos há muito tempo…

É um álbum de retratos carregados pela poeira do tempo, que foi o nosso, e que o olhar e a sensibilidade dos autores transformaram numa obra de arte.

É de facto (como dizem os autores na sua apresentação) uma evocação de memórias, de afectos e de sonhos que permite uma contemplação do passado de uma terra que cresceu e se desenvolveu à volta do seu (nosso) Mosteiro.

Concordamos com a selecção do imenso espólio ,que os autores referem ser oriundo de diversas colecções, com uma arrumação que permite deslizar no tempo… ao longo de diversas gerações… que estiveram presentes na indústria, nas manifestações culturais, nas visitas de Estado e no quotidiano dos seus habitantes, com os testemunhos da vivência em praias, em festas religiosas, em Carnavais, etc..

É um livro ,que tem valor acrescentado, por se terem perpetuado em imagens lugares, monumentos, evidências que vão sustentar no tempo “marcos” de Alcobaça.

No que respeito a textos e legendas confessamos que, em alguns casos, nos soube a pouco o que encontrámos em algumas páginas, mas entendemos o critério dos autores, que é uniforme. Contudo por vezes as legendas são tão curtas que precisamos de consultar amigos e vizinhos para decifrar quem está na fotografia !

Assim, por exemplo a pgs. 98, quando se fala no “frango na púcara” e no Restaurante “Corações Unidos” só é referido o nome da fundadora(e proprietária) Celeste do Rosário Soares.

Na fotografia em questão (que reproduzimos no final do texto), com umas pequenas ajudas, identificámos (da esqª. para a direita): José Maria, Alzira, Alice Vicente, Luísa Maciel,Celeste do Rosário Soares, N.N., Eduarda(mulher do Isidro), Sofia e José Peres.Em segundo plano Eugénio (irmão do José Peres), Isidro e dois clientes.

A pgs. 102 são referidos os bailes do Clube Alcobacense e na fotografia que também está no final deste texto aparecem –sem nomes -5 jovens senhoras e 5 cavalheiros. Identificámos, de pé, da esquerda para a direita, Fernandinha Almeida, Lecas Magalhães, Noémia Guerra, Ginja Magalhães e Helena Magalhães.De joelho em “terra”, melhor dizendo no sobrado, Manuel Magalhães, Zé Guerra, Fernando Magalhães e António Nascimento e Sousa. Ainda mais à direita, em pose dançante, Manuel da Bernarda.

São estes pequenos pormenores que, em nossa opinião, faltaram para tornar mais aliciante a leitura deste magnífico álbum de “memórias” de Alcobaça.

Algumas fotografias são absolutamente deliciosas e pouco conhecidas.

Destacamos a de pg.3, dos fotógrafos Alice e Antero Monteiro da Silva, a de pg.10,ocupação do Mosteiro por militares ,a de pg. 22, da “Loja da Bola Encarnada”, as de pgs. 32 e 33, das igrejas da Benedita e Alfeizerão, as de pgs. 46 e 47, referentes ao interior do Mosteiro antes das obras da década de 1930,as de pgs. 60 e 61, da Companhia Fiação e Tecidos de Alcobaça e das Termas da Piedade, as de pgs. 66 e 67 das lojas de Vasco Neves e lanifícios Braz, as de pgs. 80 e 81 alusivas ao desenvolvimento do norte do concelho e à passagem da linha de caminho de ferro pela Martingança e, finalmente, as pgs 90 e seguintes respeitantes à religiosidade das populações do concelho, comprovada em cortejos de oferendas, círios e procissões.

Terminamos como começámos:

É um álbum de retratos carregados pela poeira do tempo, que foi o nosso, e que o olhar e a sensibilidade dos autores transformaram numa obra de arte.

O livro tem 124 páginas, com legendas em português e inglês, sendo o design gráfico da autoria de Ana Alves.

Teve os patrocínios do Município de Alcobaça, do Externato Cooperativo da Benedita, da CEPAE,do Your Hotel & SPA Alcobaça(Termas da Piedade), da ICEL,do Made in Alcobaça e do Restaurante A Casa.

JERO

Pg. 98 -Restaurante "Corações Unidos"

Pg. 102 - Clube Alcobacense

segunda-feira, 26 de abril de 2010

M 238 - OS LAGARES DE VINHO DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

Património Cisterciense.

Os lagares de vinho do Mosteiro de Alcobaça

Frei Manuel de Figueiredo, em documento do século XVIII, dá-nos a carta de localização dos lagares e adegas de vinho da Ordem. Ficamos então a saber que o Mosteiro explorava 23 lagares: “Alfeizerão – 2; Alvorninha – 1; Cela – 1, Santa Catarina – 3; Quinta do Castelo – 1; Évora – 1; Famalicão – 1; Quinta da Gafa – 2; Julgado – 1; Maiorga – 1; Monte de Bois – 1; Quinta do Refortuleiro – 1; Quinta de Turquel, e Villa – 2; Salir de Matto – 1; Vallado – 1; Quinta do Vimeiro – 1” e que os povos demandavam a ampliação do lagar de Monte de Bois e a edificação de novos imóveis no Bárrio, Bemposta e Macalhona.

Os lagares do Mosteiro eram todos de pedra e a espremedura fazia-se sob o sistema de prensa de vara. As adegas eram edificadas sem qualquer escolha prévia. Esta despreocupação quanto à natureza do local de assento e à busca de rumos adequados que protegessem os seus vinhos da ardente canícula, ou do agreste soão, contribuía para agravar os problemas de conservação. O Mosteiro possuía 18 adegas disseminadas no território dos Coutos: “Alfeizerão – 1; Aljubarrota – 1; Alvorninha – 1; Quinta do Castelo – 1; Santa Catarina – 2;Cela – 1; Évora – 1; Famalicão – 1; Quinta da Gafa – 1; Julgado – 1; Maiorga – 1; Salir de Matto – 1; Quinta de Turquel, e Villa – 2; Vallado, e Quinta – 2; Quinta do Vimeiro – 1”.

Conhecemos a capacidade de armazenamento da Quinta da Gafa, a maior propriedade de vinha do Mosteiro. Entre os 12 tonéis da sua adega e lagar compreendia 36 pipas (18.000 litros). Os tonéis de maior dimensão atingiam a notável capacidade de 5 pipas. O auto de arrematação do vinho efectuado após a saída da Ordem contabilizou 700 almudes (14.000 litros). A documentação faculta-nos o acesso ao jogo de tonéis e cubas, vasilhame de carreto e apoio e demais alfaias presentes na própria adega do Mosteiro. No lado cimeiro da adega alinhavam-se 5 tonéis, contra 6 cubas (ou balseiros) na parte baixa. Do restante espólio da adega faziam parte 20 dornas, destinadas ao carreto da vindima e fabrico das tintas, 5 selhas e 33 vasilhas de tamanhos diversos. Na adega encontrava-se ainda um recipiente de cobre utilizado, provavelmente, para confeccionar o arrobe (mosto fervido que se adicionava nos tonéis durante o período da fermentação para fazer elevar o grau) e uma caldeira para destilar as borras. Para medir o vinho, enquanto se almudava, dispunham de um conjunto de medidas de barro que iam do quarto ao quartão. O fabrico e a conservação dos vinhos do Mosteiro eram feitos integralmente em vasilhame de madeira de choupo (destinado a vinhos de fraca qualidade e pronto consumo) e castanho. Nos inventários das suas adegas e lagares não encontrámos nenhuma referência a talhas e potes de receber vinhos. Tanto as talhas como os potes cerâmicos para guarda de vinhos e azeites filiam-se na matriz cultural e histórica do mediterrâneo das civilizações clássicas, enquanto a vasilha de aduelas constitui uma herança do norte europeu.

António Valério Maduro

quarta-feira, 21 de abril de 2010

M 237 - ACONTECE UMA VEZ NA VIDA

Visita de Paulo VI a Fátima em 1967

Depois das aparições da Virgem, o Santuário de Fátima tornou-se meta de peregrinações de fiéis provenientes de várias partes do mundo.

Paulo VI presidiu a celebração eucarística no Santuário de Fátima, no cinquentenário das aparições, em 13 de Maio de 1967 e tornou-se o primeiro Papa a pisar solo português.

Aqui as minhas memórias são, naturalmente mais nítidas, e lembra-me do entusiasmo dos meus Pais na preparação da visita a Fátima, aproveitando uma boleia no carro do Professor Adelino Costa, da Maiorga, em que viajaria também a sua mulher Lourdes Costa.

No que me diz respeito tinha regressado da Guerra do Ultramar em Maio de 1966 e estava resolvido que veria o Papa pela televisão, até porque na altura trabalhava fora de Alcobaça.

O Papa Paulo VI atraiu a Fátima multidões de fiéis. Mais uma vez terá sido ultrapassado o milhão de fiéis, que foi até à Cova de Iria.

Os pormenores da visita dos meus Pais e do casal Adelino Costa só foram obviamente conhecidos à posteriori.

Os dois casais de peregrinos no carro conduzido pelo Professor Adelino Costa “encalharam” no complicado tráfego de viaturas e fiéis a pé a uns 2 ou 3 Kms de Fátima.

O tempo passava e o carro não andava e pela rádio ia sabendo que o Papa Paulo VI estava a poucos minutos de chegar a Fátima.

Perante a hipótese única de ver (ou não ver…) a chegada de Paulo VI o Professor Adelino Costa encostou o carro à berma e…as senhoras ficaram. Os dois homens avançaram a “corta mato” para atalhar caminho e ver o Papa, com a promessa de mais tarde voltarem atrás para trazer as senhoras até à Basílica de Fátima.

E tão boa hora o fizeram que minutos depois voltaram à estrada e deram de caras com o carro de Sua Santidade que, a um metro de distância ,lhes sorriu e os abençoou. O Professor Adelino Costa ter-se-á persignado. O meu Pai ficou tão atrapalhado que se pôs em sentido e fez continência ao Papa.

O momento passou mas… ficou para a história das duas famílias.

Bênção papal e continência militar do José de Oliveira.

Estão 43 anos passados.

Dos intervenientes da “história papal” está viva a Dª. Lourdes Costa com uma bonita idade que aqui não vamos dizer…

JERO

Nota- Dª.Lourdes Costa em 2010.

terça-feira, 20 de abril de 2010

M 236 - MEMÓRIAS DE FÁTIMA- ALTAR DO MUNDO



Memórias … de Fátima…em dois tempos…

A próxima visita do Papa Bento XVI a Portugal, com passagem por Fátima no próximo dia 13 de Maio, fizeram-me despertar longínquas recordações que ficaram arrumadas num cantinho da minha cabeça e que, de repente, voltaram.

1-A mais longínqua tem a ver com o Encerramento do Ano Santo em 13 de Outubro de 1951.

Tinha eu então 11 anos e vivia com os meus Pais no 1º. Andar de uma casa da Rua Afonso de Albuquerque, nº. 19 B, em Alcobaça.

Lembro-me de grande agitação e de grandes limpezas a cargo da minha Mãe porque o primo Fernandinho tinha pedido para alojar na nossa casa um senhor muito importante. O Primo Fernandinho, pessoa algo exótica e autêntica "grafonola falante", chamava-se Fernando Madeira, e trabalhava então da Embaixada dos Países Baixos, em Lisboa. Falava muitas línguas estrangeiras(era tradutor) e quando estava de férias em Alcobaça falava… por tudo que era sítio. Nunca mais encontrei na vida uma pessoa como ele.

Mas voltando à história desta longínqua memória – já vão quase 60 anos …- recorda-me de ouvir dizer em casa que havia cerimónias muito importantes em Fátima, que todos os hotéis da região estavam ocupados até ao telhado e o que o Primo Fernandinho tinha pedido para ficar uma noite em nossa casa o Embaixador da Holanda ou…dos Países Baixos.

Lembro-me do enorme nervoso miudinho da minha mãe quando chegou …”o dia do Embaixador”.Vi a cena da chegada escondido atrás das cortinas de uma janela do 1º.andar . Parou uma carro imponente à nossa porta e saíram dois senhores muito bem vestidos.

Um dos senhores, obviamente o Embaixador, perguntou à entrada de casa ,num português arrastado e gutural, se a sua presença não molesta…

A minha mãe garantiu desde logo que em casa ninguém tinha nenhuma moléstia…

Nem um nem outra se devem ter percebido mas …tudo bem. Cá dormiram na noite de 12 de Outubro nas melhores camas e com os melhores lençóis(e cobertores, porque o tempo era de frio) e na manhã do dia seguinte, depois de muitos agradecimentos, seguiram para o seu destino a 40 kms.- Fátima.

Está claro que esta confusão do molesta (incomoda) do Embaixador e da moléstia (doença contagiosa) da minha mãe deu para anos de galhofa em nossa casa .

A esta distância no tempo recorda-me de,dias depois, ter chegado uma carta com o timbre da Embaixada dos Países Baixos dirigida aos meus Pais com um simpático agradecimento pela estadia de uma noite em Alcobaça …

O nome do Embaixador – Van Kleffens -que anos mais tarde(em 1954) veio a ser Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas ficou-me gravado na memória.Vá-se lá saber porquê!

Num recorte de um dos jornais da época (“Gazeta dos Caminhos de Ferro”, nº. 1532, de 6.Outubro.1951, revista quinzenal com preço de capa de 5$00) referia-se que a multidão que se reuniu então na Cova de Iria teria ultrapassado um milhão de pessoas, o que explica o porquê da “cunha” do Primo Fernandinho para o Embaixador Van Kleffens ficar na “mansão” da família Oliveira, pois os hotéis na região de Fátima/Leiria estavam sem quartos vagos.

Socorrendo-nos da obra de Joaquim Vieira, “Portugal Século XX”, no seu volume correspondente à década de 1959-1960,recordamos que «…é nos anos 50 que Fátima se projecta como “altar do mundo” em que os seus promotores a pretendem transformar. Logo em 1951 Pio XII transfere para o santuário o encerramento do Ano Santo, enviando às cerimónias o Cardeal Federico Tedeschini ».

Memórias dos anos cinquenta …sessenta anos depois.

Numa próxima postagem recordaremos uma segunda"memória" vivida na visita de Paulo VI em 13 de Maio de 1967.

JERO










Cardeal Tedeschini






Embaixador Van Kleffens


Recorte do jornal "Gazeta dos Caminhos de Ferro"

domingo, 18 de abril de 2010

M 234 - POESIA NUMA NOITE DE SÁBADO? QUE SECA OU TALVEZ NÃO...

Confissão de uma jovem de 16 anos

Realizou-se dia 17 de Abril deste ano, no Armazém das Artes de Alcobaça, uma Tertúlia de Poesia.

Grandes poetas foram aqueles que estiveram presentes… grandes e profundos foram também os poemas lidos e declamados. Alguns, de Clássicos da literatura Portuguesa, como Fernando Pessoa ou Camões, outros da autoria dos presentes, autodidactas vindos de vários pontos do concelho, cada qual com o seu estilo, mas todos, todos com uma grande paixão pela poesia.

Pena é que tenha sido pouco divulgada, pena é também que poucos sejam aqueles que se interessam por este tipo de actividades culturais.

Muitos considerariam uma Tertúlia de Poesia como algo exaustivo, maçador…

Essa era também, devo confessar, a minha opinião inicial.

Contudo depois de assistir a este agradável “serão”, sou pois, “obrigada” a admitir que estava errada…

A poesia apresentada, mais séria ou mais engraçada, mais ou menos conhecida, transportava o espectador mais desatento por um turbilhão de emoções, fazendo-nos viver as palavras ditas com emoção e o entusiasmo de quem realmente sente o poema.

Não foi de todo aborrecido e muito menos cansativo.

Para aqueles que gostam verdadeiramente de poesia, aconselho vivamente assistir a uma tertúlia, pois é um momento de troca de ideias e formas de pensar, assim como de agradável descontracção. Para aqueles que como eu, são os primeiros a afirmar que “odeiam poesia”… façam um esforço.

Sim, talvez custe trocar uma noitada de Sábado pela “chatice” de ouvir uns quaisquer desconhecidos, a ler versos também para nós desconhecidos, mas pode ser também que, no final da noite, essa esforço tenha valido a pena e que, tenha aberto a vocês, como abriu a mim, a vontade de continuar a frequentar estas maravilhosas Tertúlias.

Pois nunca é tarde para mudar, e muito menos para de poesia aprender a gostar.

Luísa Sales

M 233 - TERTÚLIA DE POESIA EM ALCOBAÇA

Um Grupo de Amigos da Poesia levou a efeito um evento cultural intitulado “Tertúlia de Poesia”, que teve lugar numa das salas do Armazém das Artes, em Alcobaça.

Vários convidados aceitaram o convite de Áurea da Mata e Pedro Luís, que foram as “almas danadas” deste serão de Poesia.

A “estreia mundial” aconteceu na noite no passado 17 de Abril com Leonor Lourenço, Pedro Guerra, Lúcia Serralheiro, Sofia da Mata, Palma Rodrigues, Augusto Luís, Alice Pires, António Sales, e …outros.

Numa tarde/noite –com tempo de Inverno - três eventos culturais chocaram-se inevitavelmente.

A tertúlia de poesia , com fundo musical ao vivo de José António, ultrapassou ,apesar de tudo, a meia centena de “tertulianos”.

Veio quem gosta de poesia e não deve ter dado o tempo por mal entregue.

Muitas palmas premiaram grandes nomes da poesia portuguesa. Também alguns autores presentes (não tão grandes como Luís de Camões, Fernando Pessoa e Mário Cesariny) leram os seus trabalhos.E foram aplaudidos.

As últimas palmas foram, merecidamente, para Áurea da Mata e Pedro Luís.

A Tertúlia da Poesia voltará à cena no próximo mês de Maio em data a anunciar.

Repetir-se-á em Turquel no dia 15 ou 22 de Maio ,às 21h30m, em princípio na Casa da Música .

E mais tarde na Benedita na sede da Associação “Terra Mágica das Lendas”.

Os jornais locais darão com certeza o devido relevo às próximas tertúlias.

JERO


No Armazém das Artes acompanhamento musical de José António.Sentado à sua direita o poeta Pedro Guerra.


Na primeira fotografia,à esquerda, os apresentadores Pedro Luís e Áurea da Mata

Fotos JERO

M 232 - OFICINA DANADA


OFICINA DANADA

MEMÓRIAS!...

Quatro irmãos (o Joaquim, o Zé “Preto”, o Júlio e o António “Russo” ), hábeis serralheiros, com oficina na Rua Frei Estevão Martins, frente à actual Pensão Mosteiro, viveram intensamente os tempos conturbados do assalto ao Quartel de Janeiro de 1919.

A página 137, do livro de Bernardo e Silvino Villa Nova, “Breve História de Alcobaça” é referido que em 11 de Janeiro de 1919, civis armados, auxiliados por oficiais revoltosos de Regimento de Artilharia 1, aquartelado em Alcobaça, tomaram posse do quartel, prenderam o Comandante e alguns oficiais e seguiram para Santarém, principal núcleo do movimento revoltoso.

No dia 13 seguinte, encontrando-se Alcobaça desguarnecida, entrou nela tropa de Infantaria 7, fiel ao governo, tendo-se seguido a prisão de largas dezenas de pessoas... e até 24 do mesmo mês viveu-se um regime de terror, com violação de domicílios e atropelos vários.

Pois também os quatro irmãos da nossa história e a sua oficina estivaram na mira das forças da ordem de então por terem sido denunciados por inimigos políticos.

Eram acusados do fabrico de bombas para a revolução.

Foi um elemento da GNR, que no final da busca, certamente cansado, enfarruscado e desiludido por nada ter encontrado que proferiu a frase que veio a tornar conhecida a oficina dos 4 irmãos:

- Que oficina danada!...

Quanto às bombas elas estavam lá perto, dentro de um cesto que, preso por um arame, estava mergulhado nas águas escuras do Rio Baça que passava nas traseiras da oficina.

Se têm aberto a janela enferrujada das traseiras e puxado o arame estes nossos parentes teriam ido mesmo presos.

Parafraseando a histórica expressão do soldado da GNR tiveram uma sorte danada!...

J.Eduardo Oliveira

(7.Junho.2001)

Testemunho de José Pedro Coelho recolhido por JERO

Saltando no tempo… o espaço da “Oficina Danada” está hoje, graças à tenacidade e iniciativa do Escultor José Aurélio, ocupado pelo “Armazém das Artes”, “oficina danada” para a promoção da cultura.

JERO

Legendas explicativas:




Fotografia 2 - Rio Baça (foto de Alvão-1939).
A traseira da "Oficina Danada"dava para o Rio Baça.

Fotografia 1 - Frontaria em ruínas do edifício onde funcionou a "Oficina Danada" (2001).
Foto JERO

Fotografia 3 - Armazém das Artes(2010)
Foto JERO.

domingo, 11 de abril de 2010

M 231- À DISTÂNCIA NO TEMPO




Página de um Diário de Guerra

(Memória)





À distância…no tempo…recordo sons!

numa selva de imagens

recordo militares agitados…

Lembro a floresta, o caminho estreito

.

À distância do tempo…os ruídos esbateram-se!

Ficaram imagens…

Deitado na viatura da «Breda» está ferido o capitão

Pálido, de camuflado rasgado…. mas comandando


Ordens e gritos…Militares disparando…Correndo,

Lutando à voz …do seu capitão exangue …

Saindo da floresta …

que para trás ficava de novo silenciosa!


À distância do tempo…volto a ouvir

Algures vindo do céu… antes da vista…o ter visto

O barulho inconfundível …das pás, das hélices do helicóptero


O sangue deixou de correr

A palidez das faces atenua-se

e aparecem os primeiros sorrisos.


Estão nítidos na minha memória

…Os companheiros

Que ficaram para a vida…para toda a vida


À distância…no tempo…Do inimigo de então

que tantas vezes ouvimos… e não vimos

Sem ódio…nem ressentimento….quase nada recordo


À distância…no tempo…recordo homens, irmãos!

JERO

M 230- OS LAGARES DE AZEITE DO MOSTEIRO DE ALFOBAÇA

Património Cisterciense.

Os Lagares de Azeite do Mosteiro de Alcobaça

Para desfazer a azeitona das propriedades monásticas, do direito do quinto e da dízima, assim como todos os frutos das comunidades camponesa, os cistercienses mandaram assentar uma cadeia de lagares, mais ou menos reforçada consoante a densidade do povoamento desta fruteira. Ao contrário do que sucedia com os sistemas de moagem, os lagares de azeite eram explorados directamente pelo instituto monástico. O mundo camponês era o principal atingido pela manutenção do regime de monopólio. José de Abreu Chichorro na sua “Memória Económica e Política da Província da Estremadura” imputava os males do azeite a este exclusivo dos donatários.

A lagaragem tinha início no mês de Dezembro. Nos anos de produção mesquinha a lavra do azeite durava entre mês e meio a dois meses, contra três a quatro meses e meio em épocas de abastança.

Estrategicamente, as “fábricas de azeite” instalavam-se à beira dos cursos de água, acoplando-se aos engenhos de farinação, pisões e outras indústrias. Por regra, os moleiros viam ser reduzido o quantitativo da renda, dado os moinhos de azeite sonegarem água às pedras de fazer pão. Mas a inconstância dos cursos de água que atravessavam o território dos coutos obrigava a que a maior parte das unidades de motor hidráulico estivesse, igualmente, apetrechada de moinhos tocados a sangue (caso do lagar das Antas, da Laje, da Granja de Chiqueda). Parte dos lagares que estavam adstritos ao olival do pé da Serra dos Candeeiros apenas podiam contar com o gado de canga para derreter a azeitona (tal era o caso do lagar da Cerca, da Quinta da Granja, de Val Ventos, da Lagoa Ereira). As maiores instalações estavam apetrechadas com 8 prensas de vara e 2 moinhos, estão entre elas o lagar da Cerca (Ataíja de Cima), o lagar da Lagoa Ereira (Casal da Lagoa, Turquel), e o lagar da Fervença (complexo de transformação que englobava, para além do lagar, dois moinhos de rodízio e uma azenha).

O espírito de modernidade tecnológica que movia os cistercienses verifica-se nas instalações de lagar e casa do monge lagareiro da Ataíja de Cima (que laborava as safras do olival do Santíssimo Sacramento das Ataíjas). Neste imóvel estabelecia-se a separação entre a área dedicada aos moinhos e às prensas. Este lagar possuía ainda palheiros e estábulos para os animais que serviam nos engenhos e carreavam a azeitona. Mas estas condições ideais para a época eram, de facto, uma excepção. A regra que prevaleceu ao longo do século XIX, na região e no país, juntava no mesmo espaço prensas e moinhos, com os inconvenientes da promiscuidade do gado junto às tulhas da azeitona e às pias e talhas de arrecadar o azeite.

Para a laboração das instalações de maior capacidade contava-se em permanência com cinco a seis lagareiros. Ao mestre cumpria a orientação e coordenação dos afazeres da moenda e prensagem. Ele próprio se encarregava das funções reputadas de maior exigência e responsabilidade, como o assentamento, sangria e estrangulamento das tarefas, de arrancar o azeite e fazer as maquias (a dízima do azeite laborado), de precisar a moedura de partes (azeitona do rabisco e dos pequenos proprietários), de vigiar o enceiramento, caldas e prensagem… Já os moedores, como o seu nome indica, serviam o moinho, montavam o enceiradoiro, assistiam o fogo da caldeira, entre tantas outras actividades.

Com a extinção das ordens religiosas masculinas, estes meios de transformação da colecta dos olivais (à semelhança do que já vimos com os sistemas de moagem) são, estrategicamente, adquiridos por alguns influentes locais. O notável Bernardo Pereira de Sousa concentra nas suas mãos o lagar da Quinta de Chiqueda, o lagar da Fervença (Maiorga) e o lagar das Antas (Évora de Alcobaça). As três unidades dispunham de motor hidráulico e contavam, no seu total, com 22 prensas de vara, cerca de 30% da capacidade extractiva dos lagares do Mosteiro.

António Valério Maduro

Legenda da fotografia: Janela da Casa do Monge Lagareiro (Ataíja de Cima)


M 229 - QUANTO NOS CUSTA O RENDIMENTO MÍNIMO?


QUALIDADE DE VIDA DO "RENDIMENTO MÍNIMO"

Qualidade de vida é receber 800 € mensais (ou mais) para não fazer nada.

Qualidade de vida é levantar á hora que se quer porque os outros trabalham para ele.

Qualidade de vida, é ter como única preocupação escolher a pastelaria onde vai tomar o pequeno-almoço e fumar as suas cigarradas, pagos com os impostos dos outros.

Qualidade de vida é ter uma casa paga pelos impostos dos outros, cuja manutenção é paga pelos impostos dos outros, é não ter preocupações com o condomínio, com o IMI, com SPREAD´S, com taxas de juro, com declaração de IRS.

Qualidade de vida é ter tempo para levar os filhos á escola, é ter tempo para ir buscar os filhos á escola, é poder (não significa querer) ter todo o tempo do mundo para acarinhar, apoiar, educar e estar na companhia dos seus filhos.

Qualidade de vida é não correr o risco de chegar a casa irritado, porque o dia de trabalho não correu muito bem e por isso não ter a paciência necessária para apoiar os filhos nos trabalhos da escola.

Qualidade de vida é não ter que pagar 250€ de mensalidade de infantário, porque mais uma vez é pago pelos impostos dos outros.

Qualidade de vida, é ainda receber gratuitamente e pago com os impostos dos que trabalham o computador Magalhães que de seguida vai vender na feira de Custóias, é receber gratuitamente todo o material didáctico necessário para o ano escolar dos seus filhos, e ainda achar que é pouco.

Qualidade de vida é ter as ditas instituições de solidariedade social, que se preocupam em angariar alimentos doados pelos que pagam impostos, para lhos levar a casa, porque, qualidade de vida é também nem se quer se dar ao trabalho de os ir buscar.

Qualidade de vida é não ter preocupação nenhuma excepto, saber o dia em que chega o carteiro com o cheque do rendimento mínimo.

Qualidade de vida é poder sentar no sofá sempre que lhe apetece e dizer “ TRABALHAI OTÁRIOS QUE EU PRECISO DE SER SUSTENTADO”.

Qualidade de vida é não ter despesas quase nenhumas, e por isso ter mais dinheiro disponível durante o mês, do que os tais OTÀRIOS que trabalham para ele.

Qualidade de vida é ainda ter tempo disponível para GAMAR uns auto-rádios, GAMAR uns carritos e ALIVIAR umas residências desses OTÀRIOS que estão ocupados a trabalhar OU ASSALTAR uma ourivesaria.

Qualidade de vida é ter tudo isto, e ainda ter uma CAMBADA DE HIPÓCRITAS a defende-lo todos os dias nos tribunais, na televisão, nos jornais.

Isto sim, isto é qualidade de vida.

Ass: UM OTÁRIO(retirado da NET)

PS- Subscrevemos .Com parágrafos, virgulas e pontos finais.E questionamos: até quando?

Outro Otário.

JERO

sexta-feira, 9 de abril de 2010

M 228- PATRIMÓNIO CISTERCIENSE


Património cisterciense.

Os Moinhos do Mosteiro de Alcobaça



A difusão do engenho de água teve nos cistercienses parte interessada. Os “monges agrónomos” souberam, de facto, aproveitar o motor hidráulico e explorar os seus usos, aplicando-o nas suas granjas na moagem dos cereais, mas também para derreter a azeitona, na moenda de casca para curtumes, para fabricar a mostarda, em pisões e fulões, na serração de madeiras, nas ferrarias.

As unidades de moagem hidráulica afectas aos domínios senhoriais destacam-se pela localização, tipo de estrutura e pelo número de “engenhos correntes e moentes”. De preferência, tomam assentamento nos rios de caudal permanente, escolhendo, estrategicamente, as quedas de água para ampliar a força motriz. São servidas por um açude de pedra que não só aprovisiona a água como constitui uma guarda contra cheias. Os imóveis são de pedra crua, com ou sem reboco, e a cobertura de telha. Raramente dispõem de menos de três pedras.

Para moer diariamente o grão contava-se com a energia das águas e dos ventos. No território dos coutos, os engenhos tocados a água, (falamos dos moinhos de rodízio e azenhas), tomavam a parte de leão na nobre tarefa de reduzir o cereal a farinha. Os moinhos de vento assumiam uma posição secundária, cabendo-lhes, sobretudo, o papel de substitutos das pedras que o estio, ao fragilizar as correntes, inibia para a moenda.

Era no rio Alcoa, nomeadamente entre a nascente e as quedas de água da Fervença, que estavam instaladas as principais casas de moinhos do Mosteiro. A saber, o conjunto da granja de Chiqueda com seu lagar de azeite e moinho (mais tarde conhecido por moinho Constitucional), depois da ponte de pedra, a jusante dos olhos de água em Chiqueda de Cima; o moinho das Freiras de Cós, junto à ponte das Freiras em Chiqueda de Baixo; o moinho do Mosteiro ou da Cerca de Dentro; o moinho da Praça, junto à ponte da Praça; e, finalmente, o complexo da Fervença (Maiorga) com os seus três moinhos e lagar de azeite.

Em média, estes moinhos dispunham de três a quatro casais de mós (quando o número é par, vemos duas alveiras ou trigueiras e outras duas segundeiras para derreter o milho, o centeio e, por vezes, também a cevada), com a excepção notável do moinho da Praça que revolucionava oito pedras.

Com a extinção da Ordem e a venda dos bens em hasta pública verifica-se a transferência destas unidades de produção para as mãos de alguns notáveis locais. De entre os novos proprietários sobressai Bernardo Pereira de Sousa que adquire os conjuntos de Chiqueda e da Fervença, o que lhe concede uma posição dominante na moagem de cereais e produção de azeite.

Assiste-se a uma tendência para reformar as unidades de maior capacidade. Os investimentos canalizam-se quer para obras nos açudes e reforço dos engenhos de rodízio (de uma a duas pedras), quer para a substituição integral do aparelho motor, transformando o moinho de água numa azenha. A par deste fenómeno dá-se a democratização da moagem, multiplicando os engenhos no viso dos montes e no leito das ribeiras e concedendo por fim ao moleiro o estatuto de proprietário.

António Valério Maduro

quarta-feira, 7 de abril de 2010

M 227- A LIBERDADE















O MEU HINO À LIBERDADE


Deixa-me escrever-te um poema,
Que tenha por tema
A liberdade.
Porque sabes,
Eu sou livre e sou alegre,
Sou teimoso, obstinado,
Corajoso, apaixonado,
Defeituoso e sem jeito,
Mas trago dentro do peito
Esta minha liberdade.
Que é cantar, como os cantores,
Sem jamais saber cantar,
Escrever como os escritores,
Sem nunca saber escrever,
Ensinar como os Doutores,
Sem nunca ter de aprender,
Fugir e ser soldado,
Apenas porque se quer,
Olhar e ser olhado,
Sempre que a gente quiser,
Ser homem e ser mulher,
Sem nunca estar acabado,
Partir pelo mundo fora,
Sem nunca daqui ter saído,
Ter saudades de partir,
Sem nunca aqui ter chegado,
Passar uma vida a rir,
Sem ter razões para ter rido,
Olhar para o mundo
E dizer:
Esta é a minha vontade,
O meu voto mais profundo,
O meu hino
À liberdade...

Monte Real, 7 de Abril de 2010
Joaquim Mexia Alves

61 anos depois de 7 de Abril 1949

_________


terça-feira, 6 de abril de 2010

M226- PEDRO TAVARES DIXIT

As Tragédias Naturais e a Alcobaça Cisterciense de Hoje
    Cap. 2 – As Cheias em Alcobaça

    Mosteiro de Alcobaça

    Merece relevo focar a problemática da Água e do Meio Ambiente e como moldaram e condicionaram a “Aventura Cisterciense” em Alcobaça. Aventura ou Epopeia esta que se desenrolou em cima de um tabuleiro denominado “Planície Aluvionar”.

    "Planícies Aluvionares são zonas planas adjacentes aos cursos dos rios e sujeitas a inundação. Constituem uma das formações mais conspícuas e espalhadas no globo terrestre. Resultam de processos complexos de erosão e de depósito. Modificam-se ao longo dos tempos e evoluem, não para um qualquer modelo final, mas para a forma que têm no presente ou que tiveram em qualquer momento do passado" (Brown, A.G.).

    Rios e Planícies Aluvionares sempre foram fontes de riqueza para todas as gerações. Com actividades piscícolas e moinhos de água (azenhas) na Idade Média, depois como centros de comércio e também como fontes de energia mecânica para as primeiras indústrias. Tal movimento, à escala Europeia, resultou numa expansão apreciável de aglomerados populacionais nas Planícies Aluvionares, num aumento das pressões para reduzir os inconvenientes das cheias e na mudança de leitos dos rios.

    Extracto de arenito (grés) bem visível à entrada
    de Alcobaça, na estrada das Caldas

    A mestria do domínio da Água e da sua utilização útil teve o seu momento de glória na Europa no auge das Instituições Monásticas, onde a sofisticação alcançada nos deixa um património de surpreendente tecnologia e saber (Tavares, J.P.).

    As Cheias são fenómenos estatísticos, que se repetem a lapsos incertos de tempo, mas com probabilidades de frequência e de volume estimáveis. A sua ocorrência tem lugar sempre que a capacidade de escoamento e de infiltração das águas da chuva é excedida pela precipitação, que pode tomar a forma de autêntica tromba de água, de impacto marcante e concentrado em curto espaço de tempo (digamos, quinze minutos, talvez mais, o que é característico nos Climas Mediterrâneos).

    É interessante notar a semelhança entre as cheias do Rio Arno em Florença, Itália e a Alcobaça Cisterciense. Lá, como aqui, as cheias sempre foram um problema premente e persistente. Mas em Florença, cidade mais aberta, foram objecto de registo ao longo dos últimos 800 anos. Há mapas de cheias de 1333, 1740, 1844 e 1966. Embora estas cheias tenham sido causa de elevados danos patrimoniais e de muita perdas de vida, tais factos não foram impeditivos de Florença se ter tornado numa das cidades mais ricas da Europa.

    Mosteiro de Alcobaça, alçados Norte e Poente

    No fundo, há algo de comparável, nos trajectos da sua história patrimonial e de vida quase que milenária em meio hidro-geoaluvionar, entre a nossa Alcobaça e os seus Rios e a Florença e o Rio Arno. Ambas cidades históricas, ambas de riqueza patrimonial, ambas na sua planície aluvionar, ambas dela (planície aluvionar) beneficiando dos recursos de excepção e ambas dela padecendo o ónus da sua localização, sofrendo cheias, destruições e mortes, mas tudo contribuindo para a sua glória projectada no espaço e no tempo, para a sua teimosia em resistir à adversidade e para a sua determinação em renascer em riqueza acrescida sempre que fustigadas pelas catástrofes.

    Uma em cenário de florescimento renascentista, em meio de criação pluri-cultural, a outra em cenário de desenvolvimento Monástico-Cisterciense.

    Em Alcobaça, porém, nota-se o triplo efeito das cheias; inundação, depósitos estranhos e assentamento dos terrenos.

    A Água que sobe anormalmente, inundando e molhando, depressa volta a descer e a regressar a leito contido. A bacia hidrográfica que se estrangula em Alcobaça não é como a dos grandes rios internacionais como o Tejo e o Douro ou como a do Mondego. Nestes, as bacias de captação são extensíssimas em área e zonas de precipitação, que acumulam e, quando a água sobe, assim pode permanecer durante dias. Em Alcobaça, porem, a subida de cheia catastrófica pode ser rapidíssima, já que os tempos de escoamento são curtos. A sua probabilidade de ocorrência é bem menor do que nas lezírias do Tejo, já que depende de uma precipitação anormal e concentrada. O efeito surpresa é, porém, bem maior, apesar de a descida também ser

    Empedrado em estado novo, sem uso e enterrado.
    Rua D. Pedro V, frente à Junta de Freguesia de Alcobaça

    Mas, acompanhando a inundação, vem a enxurrada, que tudo arranca, arrasta e transporta. Criando rolhões e diques eventuais, que ao quebrarem o ímpeto das águas, as fazem depositar a sua carga. Carga de quatro tipos: de arrastamento, em suspensão, coloidal e também química. Volumes inimagináveis de terras, lamas, calhaus, detritos e lixo são então deixados nas zonas a montante. Como os rios têm forte desvio direccional em Alcobaça e é logo a juzante que se situa o estrangulamento da garganta da Fervença, será em Alcobaça que tenderão a fazer tais depósitos. Como terá sido bem sentido na referida cheia de 1772. Como se sente pelos depósitos surpreendentes, de várias dezenas de milhar de metros cúbicos, alguns retirados do Rossio quase duzentos anos depois, antecedendo a visita da Rainha Isabel II do Reino Unido, na década de cinquenta. Rossio onde sondagens recentes, mandadas executar pela Câmara Municipal para o Programa da “Requalificação Urbana” (Geocontrole, Gabinete de Geotecnia e Topografia, Ldª, 2002), revelaram profundidades de terras depositadas e tocadas pelo homem, que chegam a atingir doze metros! (Tal profundidade, também surpreendente, passa-se contudo em zona onde terá passado o Rio Baça na época do início construtivo da Abadia, em pleno Rossio actual de Alcobaça).

    Fenómeno idêntico terá posto cobro à utilização monástica do Convento de Stª Clara, frente a Coimbra, em pleno leito de cheia excepcional do Rio Mondego. É impressionante observar a “meia dúzia” de metros de altura de depósitos aluvionares dentro das naves conventuais e o enterramento claustral, recentemente postos a seco através da construção de uma ensecadeira e de complexo sistema de bombagem.

    Por diversas vezes, no século XIX e no século XX, ida a sabedoria e a memória cisterciense, assistiu-se a amplos recondicionamentos e remoções de terras no Rossio e nas zonas circundantes do Mosteiro (em 1839, 1872, 1909, 1951 e 1956, conforme fontes diversas, em particular Villa Nova, Bernardo). É o “sobe-e-desce” de Alcobaça! O início do séc.XXI trouxe a última mexida, com a “Requalificação Urbana de Alcobaça.

    Rossio de Alcobaça despojado, anos 30 (Foto D. Alvão)

    De referir ainda o belo Açude na garganta da Fervença, obra iniciada no séc. XVI e aforada ao irmão de Damião de Góis para fabrico de papel e para rega dos Campos da Maiorga, séculos mais tarde adaptado para produção de energia eléctrica por transformação de energia hidráulica, fruto do engenho e ao serviço da malograda Fábrica Fiação e Tecidos de Alcobaça. Este histórico Açude, apesar de se constituir numa importante obra de regularização e de aproveitamento hidráulico, está hoje ao abandono. Por a comporta de “descarga de fundo” não mais ter funcionado (supomos que desde algures na década de noventa), o notável açude apresenta-se hoje quase que completamente cheio dos referidos resíduos e depósitos aluvionares, que ficam ali grandemente retidos. Situação que também começará a ser perigosa, já que, lenta mas inexoravelmente, vai enchendo o leito para montante e subindo as cotas do rio.

    A terceira consequência calamitosa das cheias, os “Assentamentos Diferenciais”, representa o abatimento de parte do edificado em relação a outra parte do mesmo edificado, geralmente causado por mau funcionamento das fundações ou por desigual comportamento dos terrenos de fundação.

    O “empapamento” prolongado das solos não devidamente compactados, pode ocasionar assentamentos substanciais das camadas de fundação e o consequente abatimento das construções que nelas fundam.

    Mosteiro de Alcobaça em perspectiva esquemática,
    com linhas de assentamento do edificado

    A compactação devida dos solos baseia-se em quatro factores principais: natureza dos materiais a compactar, sua granulometria, condições de humidade e meios e processos utilizados na execução. A eficiente conjugação destes factores é ciência recente do domínio da Mecânica dos Solos. É natural que, apesar de todo o empenho e sabedoria construtiva Cisterciense, a grandeza e a extensão das movimentações de terras se tenham revelado altamente penalizantes, quando anormalmente solicitadas. A partir do séc.XVI e do tempo dos Cardeais Príncipes e Comendatários de Alcobaça e de todo o fervor construtivo dos séculos seguintes, como refere D. Maur de Cocheril, a necessidade construtiva levou à deslocação e re-implantação do Rio Alcoa, de modo a permitir o lançamento de, pelo menos, mais dois Claustros: o Claustro do Cardeal e o mais jovem Claustro do Rachadouro (da Biblioteca).

    Deste modo, a grande cheia referida de 1772 apanhou esse processo e, ensopando completa e demoradamente de água todos esses terrenos mexidos numa amplitude ainda nunca alcançada, causou estragos de magnitude catastrófica em muitas das instalações monásticas, com especial incidência nos Claustros referidos, em extensões e expressões significativas, provocando quebras, torturas e desfasamentos de edifícios, além de ocasionar certamente depósitos aluvionares impressionantes, que houve que remover.

    Constata-se, após atenta observação dos paramentos, alçados, pavimentos, frisos, cimalhas e diversos outros pormenores Arquitectónicos, que houve lugar a Assentamentos brutais de grande parte das estruturas construídas, ou ainda em construção, nos Claustros referidos. Assentamentos esses ocasionados pela cedência dos terrenos de fundação, sobretudo em bandas orientadas pela direcção preferencial das Linhas Hidráulicas originais, elas próprias paralelas às bancadas rochosas erodidas presentes no subsolo. Esses assentamentos, bem detectados e orientados, provocaram tensões elevadas no conjunto edificado dos dois Claustros que, devido à sua grande inércia de conjunto, quebraram e assentaram segundo padrões que se podem interpretar, o que já foi alvo de trabalho editado (Tavares,J.P.).

    Certamente que esta catástrofe tripla, inundação, depósito de terras e ruína Arquitectónica em seguimento de assentamentos diferenciais, há-de ter tido consequências gravosas enormes e ocasionado obras e acções de recuperação de monta.

    Não é assim de estranhar que, nas zonas construtivas Medievais que hoje nos chegam, se notem mais os efeitos dos Terramotos e que nas zonas posteriores da Idade Moderna sejam mais marcantes os efeitos das Cheias a das calamidades correlacionadas.

    (Continua: total 3 Capítulos)
    Bibliografia apresentada com o 3º Capítulo
    J. Pedro Tavares